O yin e o yang da biotecnologia

Dezembro de 2002 | Pequim, Hong Kong e Xangai
da edição impressa do The Economist
Tradução resumida

A indústria da biotecnologia na China cresce rapidamente, mas enfrenta diversos desafios

Em uma grande sala, num dos novos parques industriais de Pequim, legiões de operários trabalham com as máquinas de uma eficiente linha de montagem. Sobre uma parede vê-se a faixa com os dizeres: "O primeiro passo de uma grande e longa marcha". A Grande Marcha original, nos anos 30, é famosa no comunismo chinês. Desta vez, porém, é uma revolução comercial que está ocorrendo.

A fábrica não está produzindo televisores ou roupas baratas, mas sim informações: 50 milhões de unidades de seqüências genéticas por dia. Ela faz parte do Instituto de Estudos do Genoma de Pequim. A operação em escala industrial do instituto teve um papel chave no Projeto Genoma Humano internacional, o que tornou a China um dos poucos países em desenvolvimento a participar do produto.

Hoje, a economia chinesa pode dever seu sucesso à manufatura, mas o governo deseja que o crescimento futuro venha da alta tecnologia e das indústrias do conhecimento. Por isso, entre 1996 e 2000, o governo central investiu mais de 1,5 bilhões de iuanes (US$ 180 milhões) em biotecnologia, como parte de seu programa para alavancar o setor. Entre 2000 e 2005, ele planeja investir mais 5 bilhões de iuanes.

Como resultado, de acordo com o Boston Consulting Group, a biotecnologia floresce em 300 laboratórios da iniciativa pública e cerca de 50 novas empresas, a maior parte nas áreas de Pequim, Xangai e Xinzhan. O Ministério da Ciência alega que cerca de 20.000 pesquisadores trabalham nas ciências biológicas na China.

Isto é pouco, comparado aos US$ 15,7 bilhões investidos em pesquisa e desenvolvimento somente no ano passado pela indústria da biotecnologia dos EUA, que emprega 191.000 pessoas. Mas a velocidade com que a indústria chinesa está crescendo provoca, ao mesmo tempo, assombro e ansiedade no resto do mundo. Alguns temem que a falta de um debate público, além das diferentes tradições filosóficas, levarão a China a direções que são moralmente inaceitáveis no Ocidente. Francis Fukuyama, um cientista político americano, predisse em "O Mundo em 2003" (uma publicação do grupo The Economist) que, no próximo ano, "os chineses anunciarão a clonagem bem sucedida de embriões humanos, causando um caos moral nos Estados Unidos e Europa".

Aqueles que estão na vanguarda da biotecnologia chinesa ouvem tais afirmações com uma combinação de cinismo e frustração. O avanço da biotecnologia chinesa baseia-se no equilíbrio entre várias forças opositoras, incluindo a falta de uma infra-estrutura básica da real indústria moderna do conhecimento, controles oficiais inconstantes, especialmente para produtos agrícolas geneticamente modificados (GM), e os primeiros sinais de protesto por grupos de ativistas. Este equilíbrio de opostos, o Yin e o Yang, é uma característica tão comum ao desenvolvimento tecnológico do país quanto se faz presente na antiga filosofia chinesa. Somente após vencer tais desafios a indústria biotecnológica chinesa poderá competir com seus concorrentes mais preparados na Europa e EUA, mesmo assim provavelmente só após uma década.

Revolução agrícola

Du Suocheng é um pequeno agricultor e criador de patos que planta milho e algodão numa aldeia próxima de Pequim. Sentado à frente de sua nova casa, após apontar para seu recém adquirido caminhão usado, o Sr. Du afirma que está satisfeito com a renda extra gerada por seu pequeno plantio, com 0,3 hectare, de algodão Bt. O produto GM produz uma proteína normalmente encontrada na bactéria Bacillus thuringiensis, que é letal para uma das maiores pragas da China, a lagarta do algodão. Embora tenha um custo cinco vezes maior que o da semente de algodão não modificada, o Sr. Du descobriu que a despesa foi mais que compensada pelos menores gastos com inseticidas, e pela maior produtividade. Ele planeja expandir sua área de algodão Bt no ano que vem, e sua esposa gostaria que ele já o tivesse feito.

A experiência do Sr. Du se repete em toda a China. De acordo com Huang Jikun e Wang Qin Fang, especialistas em política agrícola da Academia Chinesa de Ciências e da Academia Chinesa de Ciências Agrícolas de Pequim, cerca de 5 milhões de agricultores chineses plantaram algodão Bt em 2 milhões de hectares no ano passado (vide gráfico 1).

Uma pesquisa feita pelo Dr. Huang e colegas, em conjunto com Carl Pray da Univ. Rutgers e Scott Rozelle da Univ. da Califórnia em Davis, EUA, indicou que aqueles agricultores que plantaram algodão Bt faturaram cerca de US$ 500 dólares a mais por hectare, e usaram 80% menos inseticidas, do que seus pares que plantaram variedades convencionais. O Dr. Rozelle diz que isto refuta o argumento de que os produtos GM têm pouco a oferecer a agricultores de países em desenvolvimento. O algodão Bt é um entre quatro produtos GM, juntamente com tomates de amadurecimento retardado, pimentões resistentes a vírus e petúnias de coloração alterada, já aprovados para o cultivo comercial na China. Há diversos animais GM e 60 plantas GM em vários estágios de desenvolvimento, incluindo o trigo resistente a vírus, choupo resistente a traças, e tomates de alta tecnologia para a produção de vacina contra hepatite B.

O governo chinês gastou 322 milhões de iuanes em pesquisa de biotecnologia agrícola em 2000, um dos maiores programas de apoio governamental a ciências agrícolas do mundo. Um dos principais centros de biotecnologia agrícola da China é a Universidade Agrícola Huazhong, onde Zhang Qifa e sua equipe se especializam em arroz, o principal alimento da nação. No mês passado, o governo central anunciou que entregaria 15 milhões de iuanes à universidade, além de 65 milhões de outras fontes públicas e de uma empresa privada, para criar um centro de pesquisa e desenvolver novos alimentos GM.

Mas o governo tem enviado sinais contraditórios. O arroz Bt do Dr. Zhang foi testado em ensaios de campo e por agricultores, com resultados positivos. O comitê nacional para biossegurança de transgênicos prontamente aprovou o teste do arroz fora de laboratório. Mas nos últimos dois anos a venda comercial não foi aprovada. O Dr. Zhang não é o único que espera o sinal verde. Embora diversas novas variedades de algodão Bt tenham sido aprovadas pelo comitê desde 1999, nenhum novo produto GM chegou ao mercado (vide gráfico 2). Até mesmo o Dr. Zhang admite que há confusão. Por que o governo investiria pesadamente em pesquisa, fomentando maior desenvolvimento com testes ambientais, mas não permitindo a venda dos produtos?

A razão oficial está nas novas regulamentações, anunciadas no ano passado, definindo rotulagem de alimentos, testes ambientais, autorização de comercialização, importação e exportação de produtos GM. As novas regras de importação incluem exigências para testes de campo e uma avaliação de segurança alimentar. Alguns cientistas alegam que esta posição cautelosa é justificada, considerando que a próxima geração de alimentos GM incluirá produtos básicos como o arroz, que pode ser adotado por bilhões de pessoas no mundo, e cuja segurança agora é um encargo da China.

Outros são mais críticos. Empresas americanas, como a Monsanto e a Cargill, ficaram furiosas no início deste ano, quando souberam que tinham apenas três meses para cumprir as novas formalidades. Como resultado, os Estados Unidos suspenderam quase todas as suas exportações de soja à China, as quais representam quase a metade do consumo anual desse país, de 25 milhões de toneladas. Produtores locais regozijaram-se com o aumento nos preços da soja, pelo menos até os estoques caírem a níveis perigosos, em junho. A falta de soja, juntamente com as conversações entre George Bush e Jiang Zemin, levaram à aprovação de embarques até setembro de 2003, enquanto o governo processa os novos pedidos de aprovação dos exportadores.

Na verdade, foi o comércio, tanto quanto a questão da segurança, que parece ter ditado a nova posição chinesa com relação aos transgênicos. A abertura da China, através de sua entrada na Organização Mundial do Comércio, provavelmente causará problemas para seus produtores locais que não tenham condições de competir. Portanto, não será de surpreender se a China ameaçar utilizar suas regras para a biotecnologia como forma de combater a concorrência americana.

Mas o verdadeiro problema pode estar nas exportações, e não nas importações. Chen Zhangliang, presidente da Universidade Agrícola Chinesa, afirma que isso se deve exclusivamente ao temor que os europeus sentem em relação aos transgênicos. A China já sentiu o gostinho da discriminação genética: No início dos anos 90 foi o primeiro país a comercializar um produto transgênico, o tabaco resistente a vírus, mas o abandonou rapidamente quando fabricantes americanos de cigarros o recusaram. Mais recentemente, exportadores chineses enfrentaram problemas quando os europeus se recusaram a aceitar molho de soja produzido com feijão-soja americano, e passaram a questionar a pureza genética de tudo, do mel aos cogumelos.

Plantando as sementes da dúvida

Embora a recente tempestade com a soja tenha recebido uma considerável atenção da mídia, as notícias sobre alimentos transgênicos na China ainda são mais discretas que na Inglaterra ou EUA. Como o Dr. Huang ressalta, o debate público sobre a biotecnologia na China ainda representa apenas uma interação entre cientistas e oficiais do governo, e não na sociedade como um todo. Durante o último ano, por exemplo, o grupo ambientalista Greenpeace, que se opõe aos alimentos GM, enviou um boletim mensal a 600 oficiais do governo e pesquisadores da China continental. O documento costuma conter artigos sobre a biotecnologia agrícola, por ex., como: "Africanos na penúria rejeitam comida GM".

O Greenpeace aumentou sua presença na China: além da sede em Hong Kong, agora tem um escritório em Pequim. Que a organização esteja em expansão na China já é um fato surpreendente, mas o incrível é que ela parece ter o apoio implícito de uma parte do governo chinês. Seu boletim, por exemplo, é co-patrocinado pelo Instituto Nanjing de Ciências Ambientais, uma entidade que opera sob a direção da Administração Estatal de Proteção Ambiental. Nesse ínterim, outros ministérios continuam a despejar fundos em pesquisas com transgênicos. Mesmo numa sociedade aberta como a da Inglaterra, seria difícil imaginar que o governo tolerasse que um de seus próprios institutos de pesquisa, em aliança com o Greenpeace, desafiasse publicamente a política oficial.

Alguns podem aplaudir este fato como sinal da nova política chinesa de livre expressão, mas outros ressaltam que há forças mais tradicionais em ação: A luta política interna. A agência ambiental quer exercer maior controle sobre produtos transgênicos, o que hoje se encontra nas mãos do Ministério da Agricultura. Alguns acreditam que seria uma atitude sensata delegar as aprovações de transgênicos a um órgão que não tenha a incumbência de promover a produtividade agrícola, um conflito de interesses em que as considerações ecológicas podem sair perdendo.

Enquanto prosseguem os embates políticos, o Greenpeace tenta ampliar o debate público. Um esforço de educação social está planejado para Guangzhou (Cantão) e Xangai, no início do próximo ano. O público não está bem informado: Resultados preliminares de uma nova pesquisa em residências, dirigida pelo Dr. Huang, para conhecer as atitudes de 1.000 consumidores em 20 cidades, revela que mais de um terço jamais ouviu falar de alimentos GM. Certamente, alguns taoístas e budistas devotos têm fortes objeções religiosas aos transgênicos, especialmente quando têm genes introduzidos de espécies não vegetais. Porém, no geral a pesquisa do Dr. Huang mostra que mais da metade dos pesquisados aprova os produtos GM, e dois quintos dizem sim até mesmo para animais geneticamente modificados.

Isto ainda deixa cerca de um terço com fortes opiniões nos dois lados. E isto pode ser um terreno fértil para as sementes da dúvida do Greenpeace. Porém, Sze Pang Cheung, voluntário do Greenpeace, observa que, à medida que o público toma conhecimento dos potenciais riscos de alimentos transgênicos, a organização deverá usar táticas diferentes daquelas aplicadas na Europa. A publicidade negativa pode não dar certo num país que não está acostumado a acirrados debates sobre questões científicas.

Assim, o "X" em vermelho, usado pelo Greenpeace como símbolo de protesto contra os transgênicos em Hong Kong, é inadequado. E os ataques de campo para destruir lavouras transgênicas, tão populares na Europa, não serão uma opção na China. Os agricultores representam cerca de 70% da população, e são pobres. O Sr. Sze diz que o Greenpeace deverá respeitar os interesses deles, também, além da possível redução da pobreza com a produção de alimentos transgênicos.

Os oponentes da biotecnologia têm uma longa batalha pela frente. Ao contrário da Europa, a China certamente não dará as costas aos transgênicos, nem rejeitará a pesquisa em seres humanos, como os EUA podem fazer. Mas, no futuro, muitas outras perguntas e maior cautela poderão retardar o grande avanço biotecnológico da China.


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