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TENDÊNCIAS/DEBATES
A
biotecnologia e a agricultura brasileira
RICK
GREUBEL
A
biotecnologia é um tema que está acima dos interesses
de uma só empresa ou entidade, ao contrário do que
dá a entender o artigo de João Pedro Stedile e Jean
Marc von der Weid, publicado pela Folha anteontem neste espaço.
Trata-se de um debate que envolve diversas companhias e
instituições de pesquisas, além do governo e de
vários setores da economia, incluindo agricultores,
multiplicadores de sementes, exportadores, indústria de
alimentos, cientistas e consumidores. Acreditamos que todos esses
segmentos devam ser ouvidos e as decisões, tomadas com base em
fatos, evidências científicas comprovadas, e não
lastreadas em hipóteses, interpretações
tendenciosas, princípios ou precauções ideológicos.
Nesse aspecto,
centenas de cientistas e acadêmicos de todo o mundo, incluindo
aqueles ligados a entidades respeitadas, como a Comissão
Científica do Parlamento da União Européia, a
Organização Mundial da Saúde (OMS), a
Organização das Nações Unidas para a
Agricultura e Alimentação (FAO), e um relatório
emitido por sete academias de ciências, entre as quais a Royal
Society britânica, a Academia Nacional de Ciências da
China, a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos e a
Academia Brasileira de Ciências, têm atestado a
segurança alimentar dos produtos transgênicos hoje
comercializados em diversos países.
A
biotecnologia é uma ciência que tem sido desenvolvida e
pesquisada por diversas universidades e empresas públicas e
privadas ao longo dos últimos 20 anos nos Estados Unidos, no
Japão, na Europa, na Índia, na China, no Brasil e em
muitos outros países, beneficiando centenas de milhares de
pequenos e grandes agricultores, multiplicadores de sementes,
exportadores e toda a cadeia agrícola produtiva, que necessita
de melhoramentos contínuos para acompanhar o crescimento
populacional do mundo e a consequente necessidade de alimentos
seguros sem uma devastação ainda maior do meio ambiente.
O
emérito jurista, professor e doutor Miguel Reale, quando
aborda o tema do paradigma fundamental, em seu parecer emitido em
abril de 2001, publicado na "Revista dos Tribunais" (nº
789, julho de 2001), informa: "Quando tal fato se dá,
há ainda reação ditada por múltiplos
fatores, inclusive teológicos e emocionais, como aconteceu com
Copérnico, ao alterar em 180 a idéia de
circunvolução da Terra, com Galileu, ao enunciar a lei
de inércia, com Newton, ao estabelecer o princípio da
gravitação universal, alterando o sentido da
física, ou com Darwin, ao estabelecer a regra de
evolução dos organismos vivos...
O que
está em questão hoje é o aproveitamento dos
avanços da ciência para o desenvolvimento da agricultura
brasileira
É
natural que, em tal conjuntura, haja assombro e protestos,
exigindo-se maiores medidas de segurança a pretexto de nociva
degradação do ambiente, mas não se pode exigir
que a segurança seja absoluta, porquanto é
próprio da ciência procurar paulatinamente
soluções cada vez mais eficazes, sem deixar, no
entanto, de, desde logo, tirar proveito das descobertas realizadas,
com a possível precaução".
Dessa forma,
fica claro que não devemos abrir mão dos avanços
tecnológicos pelo simples medo do novo, mas, adotadas as
medidas de segurança apropriadas, como têm feito todas
as nações onde a biotecnologia já é uma
realidade, inclusive o Brasil, devemos usufruir dos benefícios
que ela nos proporciona, sob o risco de, em não o fazendo,
ficarmos atrelados a uma estagnação no ciclo evolutivo,
privando a população brasileira dos benefícios
de produtos desenvolvidos pela biotecnologia, como o arroz dourado,
que contém mais betacaroteno e ajuda a combater a cegueira
noturna, ou as plantas com vacinas, que podem ajudar a combater
certas enfermidades e que já se estão tornando
realidade e ajudando a humanidade a viver mais e melhor.
A
adoção da biotecnologia tem oferecido aos pequenos
agricultores de países como a Índia novas alternativas
e soluções para o aumento de sua produtividade e
rentabilidade, além da simplificação do manejo
da lavoura, oferecendo-lhes uma melhor qualidade de vida.
Produtos com
melhoramentos genéticos, como é o caso da soja Roundup
Ready, da Monsanto, e outros desenvolvidos por diversas empresas,
já vêm sendo consumidos por mais de 3 bilhões de
pessoas em todo o mundo desde 1996. Nunca houve nenhum efeito nocivo
à saúde ou ao meio ambiente relatado até hoje
com o uso desses produtos.
Ao
contrário do que a percepção nos leva a pensar,
a Europa importa atualmente grandes volumes (comenta-se que seria
mais da metade de seu consumo) de soja transgênica da Argentina
e dos Estados Unidos, onde quase a totalidade da soja plantada
é transgênica. Esse volume tem crescido nos
últimos anos em decorrência da substituição
da proteína animal pela de fonte vegetal por sua maior
segurança para alimentar o gado após o evento chamado
mal da vaca louca. Aliás, a "moratória",
agora contestada pela Comissão do Parlamento Europeu, aos
produtos geneticamente modificados se aplica apenas aos novos
produtos -aqueles aprovados até 1998 estão liberados e
são normalmente comercializados na União Européia.
O que
está em questão hoje é a aplicação
de uma ferramenta tecnológica adicional, o aproveitamento dos
avanços da ciência para o desenvolvimento da agricultura
brasileira e o direito de escolha do agricultor. Acreditamos no
futuro e na força da agricultura nacional e continuaremos a
dar nossa contribuição, como temos feito há mais
de 50 anos, para que o Brasil ocupe sempre um lugar de destaque no
cenário econômico mundial.
Rick
Greubel, presidente da Monsanto do Brasil, é
microbiologista pela Universidade de Missouri, Columbia (EUA).
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