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Ser ou
não ser transgênico. Eis a questão
O Brasil
perde bilhões de reais por tratar produtos geneticamente
modificados como risco, e não como oportunidade
Por Marcos Coronato
Até
abril, o Rio Grande do Sul terminará uma colheita que
valerá mais de 13 bilhões de reais -- e, em pleno
trabalho, produtores e o governo não estão certos de
como lidar com essa riqueza. Afinal, ela é ilegal. Tudo o que
os agricultores esperam colher é soja, o inofensivo grão
mais plantado no Brasil e no mundo, ingrediente de
ração animal, sorvete, biscoito e mais um
sem-número de produtos. O grande problema é que a soja
gaúcha é transgênica, proibida no Brasil desde
1998. O mercado ouve falar dela -- a "soja maradona", uma
semente pequena, contrabandeada da Argentina desde 1997, que teria
seduzido, inclusive, produtores ligados ao MST, notório
inimigo dos transgênicos. Estava por aqui, embora as
autoridades não soubessem exatamente onde. Agora, o problema
emergiu. As apostas sobre quanto da produção local
é transgênica variam de 60% a 90%. "Teremos de dar
uma solução excepcional para essa soja", diz
Roberto Rodrigues, ministro da Agricultura. "Provavelmente,
vamos rotular e exportar tudo."
É quase
certo que a soja transgênica será colhida, separada e
exportada sem maiores problemas. O agronegócio brasileiro
mantém suas ótimas perspectivas para 2003, de
crescimento de 30% na exportação de soja e aumento do
ganho dos produtores. Eventuais problemas deverão ficar
geograficamente restritos. Apesar disso, a Associação
dos Produtores de Soja (Aprosoja) fez soar um alarme. "Já
há plantações transgênicas em Santa
Catarina, no Paraná, no Mato Grosso e na Bahia", diz Ywao
Miyamoto, presidente da Aprosoja e da Sementes Mauá, de
Londrina, no Paraná. "A situação do Rio
Grande do Sul hoje pode ser a do Brasil amanhã." Por mais
exagerado que pareça, o alerta merece atenção,
porque o problema atual e a ameaça futura têm uma
única causa: há cinco anos, essa tecnologia é
tratada no Brasil como uma ameaça, e não como uma oportunidade.
O
Ministério do Meio Ambiente, por exemplo, defende a
necessidade de Estudos de Impacto Ambiental (EIAs) para liberar os
transgênicos. "Não dá para aceitar estudos
feitos em outros países, como os Estados Unidos e a
Austrália", diz João Paulo Capobianco,
secretário de Biodiversidade do Ministério. "Eles
têm biodiversidade muito menor que a nossa, é tudo mais
simples." Faz sentido. Mas esse raciocínio não
funciona em vários casos, como o do algodão. A cultura
convencional exige cerca de dez fumigações com
pesticidas, e a transgênica, cerca de quatro. Diminuem a
poluição, as chances de intoxicação do
trabalhador e, ainda por cima, os custos. Apesar disso e do apoio
maciço das entidades empresariais e das
instituições de pesquisa, todas as culturas
transgênicas, no Brasil, são tratadas pela lei e pelo
governo como se fossem potencialmente mais perigosas que as
convencionais. "Estamos há três anos esperando para
fazer os testes com o algodão", diz Luiz Abramides do
Val, diretor de tecnologia da Monsanto, uma das companhias mais
avançadas mundialmente na pesquisa de transgênicos.
Várias
empresas, mesmo assim, vêem oportunidades interessantes à
frente. Como disse o ministro da Agricultura, será preciso
diferenciar e separar as colheitas normais dos transgênicos, ou
OGMs (organismos geneticamente modificados). A
preocupação não se restringe ao Rio Grande do
Sul: há uma forte demanda por esse tipo de serviço no
Paraná, que quer dar garantias de que a soja que exporta
é convencional. Ao perceber que precisava de músculos
para atender à demanda por identificação segura,
a Transgênica, de Belo Horizonte, associou-se no ano passado
à Genolife, da França, para criar a Genolife do Brasil.
A companhia trabalha com análises de vários tipos.
"O reconhecimento de transgênicos é a área
que mais cresce", diz Roberto Machado, diretor e sócio da
Genolife. "Já representa 15% da nossa receita e é
um campo muito promissor." Entre os clientes da empresa
está a Sadia, interessada em manter seus produtos livres de transgênicos.
A Genescan, da
Alemanha, seguiu a mesma trilha. Investiu 3 milhões de
dólares para criar uma subsidiária brasileira,
totalmente dedicada à detecção de
transgênicos. O laboratório foi inaugurado em Itu, no
interior de São Paulo, em novembro do ano passado. Quando a
filial foi criada, em 2001, era apenas uma representação
comercial. Teve de mudar. "A demanda cresceu e o mercado exige
rapidez", afirma Pablo Molloy, diretor comercial da Genescan.
"Estaríamos fadados a sair do mercado se ficássemos
só coletando amostras para enviar à Alemanha." O
laboratório de Itu avalia atualmente 500 amostras por
mês, mas pode dar conta do triplo de pedidos. Não
importa, no caso, se o Brasil vai liberar ou combater os
transgênicos. "Posso trabalhar tanto para o Greenpeace
quanto para a Nestlé", diz o diretor Renato Pacheco.
Outros
concorrentes estão a caminho. Empresas como a Genolife e a
Genescan pedem dois dias para dar um resultado altamente preciso.
Já há demanda por serviços menos minuciosos, mas
que forneçam resposta em minutos. A Comissão
Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) tem 20
pedidos de CQB, o Certificado de Qualidade em Biossegurança,
necessário para qualquer empresa ou instituto de pesquisa que
queira trabalhar com OGMs. Isso tranqüiliza quem tinha
dúvidas sobre a capacidade instalada no país para
analisar grandes quantidades de grãos. "Não tenho
dúvida de que, se decidirmos certificar, vai chover
certificadora", diz o ministro Rodrigues. A Embrapa também
está empenhada no trabalho. A estatal iniciou neste ano um
projeto de biossegurança para criar padrões de
análise. "É mais fácil certificar a soja
convencional do que conter a soja transgênica", diz
Clayton Campanhola, presidente da Embrapa.
Seja qual for
a opção brasileira, será preciso recuperar o
tempo perdido. Se o país encarasse a tecnologia como
oportunidade, poderia ter aproveitado os últimos anos de duas
formas. A primeira: firmando sua imagem, no mercado internacional, de
praça livre de transgênicos. Afinal, produtores
brasileiros tomaram o mercado europeu dos americanos, em parte, por
vender soja convencional. O tamanho desse suposto mercado
antitransgênicos é uma incógnita. A tão
falada resistência dos europeus aos OGMs não impede que
eles comprem da Argentina nem valorizou o produto convencional
brasileiro. "Oferecemos mais soja convencional do que o mundo
demanda", diz Getúlio Pernambuco, da
Confederação Nacional da Agricultura (CNA).
"Não há como ter um prêmio por esse produto."
A Cooperl,
cooperativa que é a maior produtora de carne suína da
França, não compra produtos transgênicos no
momento. Mas não mostra nenhum radicalismo nem
posição fechada. "A escolha será feita em
breve pela Comissão Européia. É bem
provável que a quantia de 0,9% de transgênicos nos
produtos seja tolerada. Acima de 0,9%, será obrigatório
rotular", diz René Bonomi, diretor da Cooperl. "Qual
será a posição dos consumidores? Haverá
um mercado para transgênicos e outro pa ra
não-transgênicos? São dúvidas que o tempo
vai sanar." A outra forma de o Brasil usar essa oportunidade
seria abraçar a tecnologia. Não se fez nenhuma das duas
opções. A Embrapa desenvolveu pesquisas de transgenia
com mamão, batata, feijão e algodão -- mas todas
estão paradas. Empresas como Bayer, Syngenta e Pioneer
também têm programas empacados na burocracia. O
Ministério da Agricultura considera valioso, estrategicamente,
o domínio da tecnologia -- mas isso ainda não produziu
conseqüências práticas.
Enquanto o
Brasil nem foi, os Estados Unidos já estão voltando.
Há pesquisas por lá que avaliam em quais
condições não vale a pena usar transgênicos
por causa da queda de produtividade. A Austrália aumentou sua
produção e exportação de algodão
com base na modificação genética. O Japão
inventou o curioso nicho dos transgênicos orgânicos. A
maioria das outras grandes economias emergentes -- Índia,
China, México, Argentina -- permite plantio comercial de
transgênicos. A reconhecida competência brasileira em
tecnologia para agricultura tropical, nesse campo, está
engavetada. Sua próxima chance de sair da gaveta
ocorrerá a partir de 14 abril, quando a 5a Vara da
Justiça Federal poderá decidir se mantém a
proibição do plantio dos OGMs.
Se a
decisão não for tomada, prolongará uma nociva
situação de incerteza. Caso a parcela de soja
gaúcha transgênica seja de 75%, um meio-termo em
relação às maiores e às menores apostas,
a produção ilegal será avaliada em algo como 10
bilhões de reais anuais pela cotação de
março. O prejuízo vai além desse descontrole.
Desde que os produtores gaúchos começaram a usar a soja
contrabandeada, ressuscitaram práticas abandonadas há
décadas pela agricultura empresarial. As sementes
"maradona" não foram criadas para as
condições locais nem tratadas contra doenças da
região. Em vez de comprar sementes no mercado oficial, os
agricultores passaram a plantar repetidamente os grãos
colhidos -- prática tolerável por uma ou duas safras,
mas um verdadeiro atentado à produtividade se feita ao longo
de seis anos. A taxa de sementes certificadas caiu a 30% no Rio
Grande do Sul, ante mais de 90% em outros estados produtores.
Para a
próxima safra, fica outro desafio: será possível
acabar com as plantações modificadas, ainda ilegais, e
substituí-las por convencionais em tão pouco tempo?
Técnicos do Ministério da Agricultura afirmam que
há sementes normais em número suficiente no mercado
para fazer a troca -- mas estão sozinhos nessa
avaliação. A Confederação Nacional da
Agricultura discorda. A Associação Brasileira dos
Produtores de Sementes calcula que cerca de 18% das sementes
oferecidas na safra 2002/2003 tenham sido ilegais. E estima que o
número suba para 30% na colheita a ser plantada neste ano. A
Organização das Cooperativas do Rio Grande do Sul
já defende que o governo oficialize a situação.
Seus representantes afirmam que há infra-estrutura suficiente
para separar os grãos transgênicos dos convencionais em
armazéns, rodovias e portos. "Estabelecer que determinada
região do país produza soja transgênica de forma
administrada é uma boa saída", diz Vicente Bogo,
presidente da entidade. Seja qual for a decisão, ela já
chega atrasada.
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