Precauçao Européia é puniçao para o Brasil

[27 de Setembro de 2002]

'As pesquisas de OGMs do instituto de pesquisa agrícola do governo brasileiro foram paralisadas

John Conroy
Produtor de TV e jornalista

O mesmo temor a riscos que leva a desperdícios com ensaios agrícolas em escala real prejudicou o desenvolvimento da agricultura muito além da Gra-Bretanha. A atual moratória para a produçao de transgenicos no Brasil é um produto do princípio cautelar que foi adotado pela Uniao Européia em relaçao aos transgenicos.

Embrapa, o instituto de pesquisas agrícolas do governo, teve suas pesquisas com OGMs paralisadas por açao legal, obtida em 1998 pelo Greenpeace e Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, impedindo a produçao de soja GM pela Monsanto. O juiz do caso decidiu contra a Monsanto e a comissao de segurança biotecnológica do governo brasileiro, pois a constituiçao brasileira adotou o princípio cautelar.

Isto abriu as comportas para açoes legais baseadas no argumento de que os cientistas do governo e as empresas devem provar sem sombra de dúvida que o Brasil está protegido contra os riscos desconhecidos e hipotéticos dos transgenicos. Nenhum dos casos citados pelo Greenpeace e outros ofereceu quaisquer evidencias científicas contra a soja GM, mas quando se trata de riscos hipotéticos, os fatos se tornam supérfluos.

A pressao para maior cautela no Brasil vem ocorrendo há algum tempo. Desde sua humilhaçao internacional pelo desflorestamento da Amazônia nos anos 80, o governo brasileiro aprendeu a adotar as regras ocidentais para questoes ambientais. A reuniao de cúpula no Rio, em 1992, representou a rendiçao do Brasil rs teorias ocidentais sobre o desenvolvimento do Terceiro Mundo: sustentabilidade e princípio cautelar.

Na década de 90 o Brasil assinou quatro projetos de legislaçao internacional para o meio ambiente, elaborados por governos ocidentais, todos contendo o princípio cautelar: A Declaraçao do Rio (1992), a Convençao Internacional da Mudança Climática e Convençao Internacional da Biodiversidade (1994), e o Protocolo de Biossegurança da ONU (2000).

O Brasil seguiu o exemplo da recusa da UE e do governo britânico em defender as tecnologias de OGMs, em nome da precauçao. Organizaçoes nao governamentais, como o Greenpeace e a Action-Aid da Inglaterra, tem explorado a rejeiçao britânica a alimentos transgenicos, argumentando que os brasileiros também devem rejeitá-los. Cada alegaçao negativa sobre os OGMs na Inglaterra foi citada pela mídia brasileira e pelas ONGs, como prova adicional da rejeiçao 'sensata" pela Inglaterra aos OGMs.

A tática retardante do governo britânico de promover o debate público 'abrangente' tornou-se doutrina no Brasil, como se o público na Inglaterra ou no Brasil fosse o real motivador da rejeiçao aos OGMs. As demandas de ONGs referentes r legislaçao de rotulagem e rastreabilidade sao justificadas pelo exemplo da UE. Isto levará fatalmente r paralisaçao das exportaçoes brasileiras de graos r Europa, já que o Brasil nao pode adaptar instalaçoes de transporte e embarque para atender as novas regras de exportaçao.

A Campanha Brasil Livre de Transgenicos, liderada pelo governo do PT no estado do Rio Grande do Sul, enviou delegados r Europa para reafirmar a qualidade nao transgenica de sua soja, e fechar acordos para produtos nao transgenicos com cadeias de supermercados. A campanha argumenta que o Brasil perderá exportaçoes de graos convencionais se 'adotar os OGMs'. Os mesmos argumentos foram usados pelas ONGs para convencer ministros africanos a se oporem aos alimentos transgenicos doados pelos americanos durante o Encontro Mundial para o Desenvolvimento Sustentável. A posiçao cautelar da UE serviu de base sólida para tais argumentos.

Em 2001/2002 o Brasil ultrapassou os 100 milhoes de toneladas na produçao de graos pela primeira vez, devido ao enorme aumento na produçao de soja no Centro-Oeste. Isto foi uma conseqüencia do trabalho da Embrapa, a qual produziu sementes que brotam no solo agressivo e rico em alumínio do planalto central. Os agricultores querem aplicar a tecnologia dos OGMs para ultrapassar essa tonelagem e competir com os plantadores americanos. Mas isso será impossível se os ensaios em escala real, como na Inglaterra, forem adotados no Brasil.

Espera-se o parecer de tres juízes, após quatro meses de deliberaçoes, para definir se transgenicos podem ser liberados no Brasil. O Partido dos Trabalhadores, que lidera a corrida da eleiçao presidencial, a ocorrer em Outubro, declarou que irá impor uma moratória para alimentos transgenicos e encorajar a produçao de orgânicos no Brasil. Enquanto princípios cautelares determinarem a política do Reino Unido e da Uniao Européia, a produçao de transgenicos em países como o Brasil ficará paralisada.

John Conroy é produtor de TV e jornalista, localizado no Brasil. Ele deu palestras sobre os OGMs no Programa Universitário de Biotecnologia das Naçoes Unidas para a América Latina e Caribe, no Curso de Biossegurança do Instituto FioCruz, e no Congresso Brasileiro de Biotecnologia / Simpósio Latino-americano de Biossegurança.

http://www.spiked-online.com/Articles/00000006DA79.htm

 


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