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"(..)
Governo vai regulamentar uso da tecnologia e empresas do setor
ampliam o lobby, de olho em um mercado de R$ 73 bi e 100
milhões de toneladas de grãos....Ministro da
Agricultura, Roberto Rodrigues, defende os transgênicos e diz
que o Brasil deve lucrar com eles (..) "
"(..)É
preciso ser pragmático e olhar duas questões. A
primeira, como falei, é a segurança ambiental. A outra
refere-se às condições do mercado importador. A
soja alterada é rentável e segura? Vamos
plantá-la. Os compradores estão dispostos a pagar mais
pela soja não-transgênica? Vamos plantá-la
também. (..)"
http://www.terra.com.br/istoedinheiro/
Quarta-feira,
12 de Fevereiro de 2003
MOMENTO DE
DECISÃO NOS TRANGÊNICOS
Fabiane
Stefano e Janaína Leite
Uma briga de
dezenas de bilhões de dólares, que envolve grandes
multinacionais, lobbies governamentais, cientistas e movimentos
ecológicos, chegou ao seu momento decisivo. E o palco dessa
grande disputa é justamente o Brasil, maior potência
agrícola em expansão do mundo. Nas próximas
semanas, o País decidirá se libera ou não o
plantio e a comercialização de transgênicos em
solo nacional.
São os
alimentos geneticamente modificados, que, de um lado, agradam os
produtores porque são resistentes a pragas e mais
rentáveis; de outro, despertam pânico nos
ambientalistas, que apontam riscos à saúde e à
natureza. Hoje, o Brasil é o único país com
capacidade agrícola que não permite o cultivo de
transgênicos. Com uma safra anual de 100 milhões de
toneladas de grãos e um PIB agrícola de R$ 73,3
bilhões em 2002, o Brasil é visto como o grande celeiro
global. Por isso, desperta tanta cobiça das empresas de
biotecnologia. Ao que tudo indica, a escolha do governo Lula
será pragmática, num modelo que não será
excludente. A soja alterada é rentável e segura?
Vamos plantá-la. Os compradores estão dispostos a pagar
mais pela soja não-transgênica? Vamos plantá-la
também, disse à DINHEIRO o ministro Roberto Rodrigues.
A verdade
é que existem argumentos favoráveis ao cultivo dos
transgênicos, mas também existem razões para se
defender a proteção de algumas áreas, em que os
grãos seriam totalmente puros. O principal aspecto a ser
considerado em favor dos alimentos geneticamente modificados é
o potencial de expansão da safra agrícola. Um
relatório reservado do USDA, o poderoso departamento do
governo americano que cuida da agricultura, divulgado recentemente,
é enfático. De acordo com o texto, caso adote a
produção de transgênicos, o Brasil será
imbatível na agricultura e há várias
explicações. Os grãos modificados têm
maior resistência a pragas e necessitam de menos herbicidas, o
que barateia a produção em até 30% dependendo da
cultura. Nas contas da Confederação Nacional dos
Agricultores (CNA), os gastos com agroquímicos chegam a 14% do
custeio nas lavouras de milho, 15% nas de algodão e quase 20%
nas terras onde há soja. Não dá para
esperarmos indefinidamente pelo governo, pois estamos perdendo
dinheiro e competitividade, afirma o presidente da
Comissão de Grãos da CNA, Marcel Caixeta.
Existem
também aspectos econômicos em favor da
produção de alimentos convencionais. Hoje, alguns dos
principais mercados importadores, especialmente Europa, Japão
e China, favorecem as compras de produtos com
certificação não-transgênica.
Os produtores brasileiros, que vendem US$ 1 bilhão por ano ao
mercado chinês, sentiram na pele o risco decorrente da
indefinição atual. No começo de janeiro, o
diplomata Renato Amorim, responsável pela área
comercial da embaixada em Pequim, recebeu uma ligação
dos agricultores nacionais, que estavam desesperados com a
ameaça de corte nas importações. O problema
só foi resolvido há duas semanas. Os chineses exigiam
certificação quanto à origem da soja e o governo
argumentou que a produção brasileira é natural,
embora possa ser contaminada pela fronteira. A China aceitou, mas
só até setembro, quando o Brasil deverá emitir
um novo certificado. Por muito pouco, não se perdeu um
negócio bilionário. Na Europa, o Carrefour, maior rede
de supermercados da região, só vende produtos da sua
marca não modificados.
Nova guerra ideológica
Setor privado
aponta ganho econômico, enquanto ONGs dizem que há
riscos de saúde
O tema é
tão polêmico que, em Brasília, acabou rachando o
governo. De um lado, o ministro Roberto Rodrigues é
francamente favorável à adoção dos
transgênicos. De outro, a ministra do Meio Ambiente, Marina
Silva, manobrou para que sua pasta tivesse poder de veto sobre
qualquer decisão nessa área. O choque reverberou no
Palácio do Planalto. O ministro-chefe da Casa Civil,
José Dirceu, já deu sinais de que quer acertar uma
só posição para o governo e deverá fazer
uma reunião com os cinco órgãos governamentais
envolvidos na discussão. Dirceu quer evitar que conflitos
dentro do Executivo dificultem ainda mais as negociações
para regulamentar os transgênicos como aconteceu na
gestão de Fernando Henrique Cardoso. Rodrigues quer uma
decisão rápida, mas a área ambiental resiste.
Não existe prevalência de um ou outro
órgão, mas a lei é bastante clara ao atribuir ao
Ministério do Meio Ambiente a condução do
processo de licenciamento para o cultivo, observa o
secretário de Biotecnologia e Florestas da pasta, José
Capobianco.
No meio desse
fogo cruzado, os produtores nacionais estão perdendo duas
vezes. Não podem plantar alimentos modificados e também
não recebem bônus tão altos quanto os pagos pelos
importadores a países que garantem que a semente não
sofreu mutações genéticas propositais. Por isso,
o Brasil precisa se definir o quanto antes. Se o Brasil
adotasse o transgênico, o País alcançaria uma
safra de 200 milhões de toneladas de grãos em um prazo
de 5 a 10 anos, diz Henrique Ubrig, prespresidente da DuPont. A
empresa americana, dona da Pioneer Sementes, aposta na
legalização da tecnologia no País e está
se preparando para isso. Hoje, a DuPont tem centros de pesquisa de
campo de milho e soja transgênicos no Brasil. Depois de
aprovada a lei, levaríamos de 12 a 24 meses para colocar os
produtos no mercado, avalia Ubrig. Para a Monsanto, alvo
preferencial dos ecologistas, a questão não é se
o tema irá ser aprovado no Brasil, mas quando. Desde 1998, a
empresa enfrenta uma batalha judicial pela legalização
da soja Roundup Ready, a variedade pioneira dos grãos
transgênicos. O argumento da Monsanto é semelhante ao do
ministro Rodrigues. A aprovação não
significa que o Brasil deverá adotar uma tecnologia em
detrimento de outra, diz Luiz Abramides, diretor da companhia.
Produzir ou não deve ser uma decisão de
mercado.
Fora a
diminuição de custos, os transgênicos poderiam
ajudar o País a ganhar autonomia em culturas nas quais depende
de importação. O algodão e o milho produzidos no
Brasil não suprem toda a demanda local. O problema é
que os principais fornecedores mundiais utilizam os transgênicos
em larga escala. Plantar não pode, mas importar
pode?, pergunta o produtor Adilton Sachet. Além disso,
no Rio Grande do Sul, 80% da soja já é
ilegalmente transgênica, com sementes que vêm da
Argentina. Por isso, a soja é chamada de Maradona.
Além disso, nos alimentos industrializados, dos catchupes
às batatas-fritas, grande parte dos insumos tem componentes
modificados. Ou seja: sem uma lei, o produtor perde, o País
deixa de ganhar divisas e o cidadão, que deveria ser
protegido, acaba consumindo transgênicos mesmo sem saber
'***
"VAMOS
PLANTAR A SOJA ALTERADA"
Ministro
da Agricultura, Roberto Rodrigues, defende os transgênicos e
diz que o Brasil deve lucrar com eles
Janaína
Leite
Roberto
Rodrigues, como bom fazendeiro, acorda quando o galo canta. Todos os
dias, às seis da manhã, o ministro da Agricultura
já tomou café, conferiu os jornais e decidiu as
prioridades a serem tratadas no dia. Na manhã de
terça-feira 4, ele recebeu DINHEIRO para falar dos assuntos
mais importantes de sua pasta e enfatizou a importância dos
produtos transgênicos. O Brasil precisa ser
pragmático, resumiu. Nascido no interior de São
Paulo, em meio aos laranjais, Rodrigues é um dos ministros
mais respeitados pelo setor privado. Pela objetividade, vem ganhando
o mesmo prestígio dentro do governo. Será uma das
principais vozes ouvidas nas brigas comerciais do País.
DINHEIRO
Há um consenso sobre a liberação dos transgênicos?
ROBERTO
RODRIGUES Estamos harmonizando as posições.
A polêmica e os interesses em jogo são muito grandes
para qualquer decisão precipitada. Mas está claro para
todos que os órgãos do Executivo precisam adotar um
discurso único.
Antes de
assumir o Ministério, o sr. disse ser favorável aos
alimentos geneticamente modificados. Isso continua valendo?
Sou uma pessoa
coerente, mas agora o que vale é a posição de
governo.
Que
continua indefinida...
Não
é bem assim. Está clara, por exemplo, a
importância da pesquisa. O Brasil não pode se dar ao
luxo de deixá-la de lado. Temos de nos preocupar em
avançar tecnologicamente para garantir a inserção
no mercado mundial.
As queixas
dos ambientalistas contra os transgênicos são justificadas?
Concordo
quando eles exigem segurança absoluta. É preciso que as
empresas demonstrem cientificamente que oferecem produtos sem risco
ao meio ambiente ou à saúde pública.
O
País pode abrigar os dois tipos de culturas, transgênicas
e não-transgênicas?
É
preciso ser pragmático e olhar duas questões. A
primeira, como falei, é a segurança ambiental. A outra
refere-se às condições do mercado importador. A
soja alterada é rentável e segura? Vamos
plantá-la. Os compradores estão dispostos a pagar mais
pela soja não-transgênica? Vamos plantá-la também.
Alguns
países têm pago prêmio por grãos
com certificado de não-transgênicos. Isso é bom?
Segundo os
produtores, os bônus pagos pela certificação de
que as sementes não são modificadas geneticamente
é baixo para cobrir a diferença de custo entre os
grãos transgênicos e os normais.
Na semana
passada, o economista James Stamps publicou um artigo na Revista
da Comissão de Comércio dos Estados Unidos,
sustentando que 60% da soja plantada no Brasil é
transgênica.
É uma
mentira, uma irresponsabilidade total. Quem escreveu isso é
doido de pedra.
O Brasil
é um grande produtor, mas continua com uma fatia muito pequena
das exportações mundiais. Isso será resolvido?
Acontece que,
por muito tempo, o brasileiro pensou na agricultura como coisa de
pobre, de caipira. Falar de juros e câmbio é muito mais
glamourizado. É uma tremenda estupidez. Os países ricos
dão valor ao mercado financeiro, mas sabem que tudo
começa na produção rural. Por isso eles
não se envergonham em subsidiar o setor.
O sr.
defende subsídios e rolagens de dívidas?
Nada de
protecionismo, subsídio ou renegociações. Um ou
outro setor pode receber ajuda pontual, só que não
deixarei isso se transformar em prática. O Brasil
agrícola é o mesmo Brasil do futebol. É só
escalar os melhores e deixar jogar, que a Copa é garantida.
Como os outros não têm tantos craques, usam outros
recursos para ganhar. Levam as queixas para tribunais internacionais,
onde a torcida e até juízes são deles. É
a conhecida vitória no tapetão.
Com o risco
de guerra, há algum plano especial?
Guerra é
ruim para todo mundo. Estamos nos organizando para intensificar o
comércio bilateral com grandes mercados, como China,
Rússia, México e Índia. Além disso,
pretendemos fazer parcerias com distribuidores na Europa e nos
Estados Unidos. Não adianta produzir sem garantir que a
mercadoria vai estar nas prateleiras dos supermercados internacionais.
O Brasil
produz uma energia alternativa, o álcool. Como aproveitar isso?
Um conflito
pode representar uma oportunidade para o País entrar com
força total no mercado de biocombustíveis. Não
só com o álcool. É comprovado que a
adição de até 5% de óleo vegetal no
óleo diesel não afeta em nada os motores. Esse
porcentual significa uma demanda adicional de 3 milhões de
hectares para a soja, só para abastecer o mercado interno.
Imagine se fôssemos instados a produzir também para os
Estados Unidos, Europa e Japão. Seria um verdadeiro gol de
placa.
Rede
Internacional de Comunicação CTA-JMA
Pelo
Desenvolvimento Limpo de um Novo Mercado Financeiro!
ONG
Consultant, Trader and Adviser - Projeto CTA
Sindicato
dos Economistas, no Estado de São Paulo
Jornal do
Meio Ambiente - Boletins da CTA-JMA
www.jornaldomeioambiente.com.br
www.ruralnet.com.br
"
Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo
começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim."
Chico Xavier
Consulte o
Banco de Dados CTA-JMA no RuralNet
http://www.ruralnet.com.br/meioambiente/todasnoticias.asp
FONTE
D'ÁGUA
http://archives.ces.fau.edu/fontedagua.html
Projeto CTA www.sindecon-esp.org.br
Revista
Eco21 - www.eco21.com.br
