Biotecnologia moderna e transgênicos

artigo de Antônio Márcio Buainain e José Maria da Silveira

JC e-mail 2240, de 18 de Março de 2003.

Focar apenas na liberação ou não da soja é fazer um debate equivocado

Antônio Márcio Buainain (buainain@eco.unicamp.br) e José Maria da Silveira (jmsilv@eco.unicamp.br) são professores da Unicamp

Em artigo publicado em 'O Estado de SP', em 4/2, argumentamos que o debate sobre transgênicos no Brasil, ao focar na liberação ou não da soja, é um debate equivocado, que não considera questões relevantes para o futuro do país - da competitividade do agronegócio à bioindústria -, que devem ser tratadas agora, e não num futuro incerto, quando já teremos perdido mais uma oportunidade. O relevante seria discutir e acordar como preparar o país para se apropriar e se beneficiar da biotecnologia. Que fazer para fortalecer nossa capacidade de pesquisa e inovação em áreas estratégicas e evitar nossa submissão às multinacionais que dominam o setor? Que providências tomar para criar um ambiente institucional favorável ao desenvolvimento tecnológico seguro? Que estratégia adotar para desenvolver mecanismos de controle e vigilância da biosegurança? Como avaliar impactos ambientais, proteger nossa biodiversidade e ao mesmo tempo utilizar a biotecnologia para explorá-la de forma sustentável? A evolução e transformações no vasto campo científico e de aplicações da moderna biotecnologia se processam em velocidade vertiginosa, e não há tempo a perder. A despeito das restrições européias ao comércio de transgênicos, é inegável o sucesso dos produtos de 1.ª geração em biotecnologia. Em 2002, a área plantada com culturas GM continuou crescendo à taxa anual superior a 10% pelo sexto ano consecutivo. Saltou de 1,7 milhões de hectares em 96 para 58,7 milhões de hectares cultivados em 16 países em 2002. O esperado prêmio aos lotes de produtos agrícolas não-transgênicos só se materializará plenamente depois que os países produtores montarem sistemas de rastreamento e logística apropriados para isolar lotes de não-transgênicos. O debate equivocado paralisa definições nessa área, com custos potenciais elevados para o comércio brasileiro. O debate sobre transgênicos tem como referência a expansão da 1.ª geração de produtos, desenvolvidos sob medida para acoplar a indústria de sementes aos líderes mundiais do setor agroquímico. Todavia, a 2.ª geração, com produtos resistentes a fungos e bactérias; maior conteúdo de fibras, vitaminas e gorduras; mais adequados a condições especiais de meio ambiente, como altas temperaturas, baixa pluviosidade e solos de elevado teor de salinidade já estão sendo desenvolvidos. Os impactos positivos desses produtos podem ser enormes: melhoria da qualidade nutricional de produtos de alimentação básica para a população pobre; redução da contaminação ambiental pelo uso intensivo de defensivos agrícolas; redução de perda de solo fértil devido à maior difusão de práticas adequadas aos solos tropicais, como o cultivo mínimo e o plantio direto; elevação da produtividade;reincorporação ao cultivo de terras abandonadas por problemas ambientais (em geral em regiões de elevada pobreza rural); proteção da biodiversidade, etc. A 3.ª geração, a própria bioindústria de produção de biohormônios e dos bioremédios, desenhada para o futuro, já tem exemplos de sucesso: o plástico biodegradável com base em matéria-prima renovável (açúcar-de-cana) já está sendo produzido no interior paulista, podendo, em médio prazo, ser uma solução ambiental para certos produtos intensivos em plásticos. Ao mesmo tempo em que enfrentamos problemas concretos relacionados às safras transgênicas, temos uma pauta aberta de possibilidades que nosso conhecimento e competência são capazes de forjar na direção de bem-estar econômico e social. O sucesso dos projetos Genoma e seus desdobramentos - sobre a descrença inicial de nossos competidores internacionais - abre caminho para formas novas de desenvolvimento biotecnológico, que, ora se articulam com a rota de transgênicos, ora se distanciam, em um processo de diálogo e interação. O Brasil tem competência para entrar nessa corrida. A Embrapa tem - em estágio avançado de pesquisa e teste - produtos que podem ser relevantes inclusive para o combate à fome no país e que, por razões de mercado, não são de interesse das grandes corporações. Alguns exemplos: feijão tolerante ao vírus do mosaico dourado, reduzindo o número de pulverizações de agroquímicos; mamão resistente ao vírus da mancha anelar, permitindo as exportações e reduzindo custos de produção; milho de elevada qualidade nutricional, que contribuiria para competitividade da indústria de carnes no Brasil e o status nutricional da população pobre; variedades de batata resistente a certos vírus; e muitos outros. Um ponto desdenhado pelos adeptos do 'filtro precoce e genérico à biotecnologia' é que doenças de plantas emergem de forma inesperada e têm efeitos negativos sobre toda a economia. Instituições públicas e privadas de pesquisa biotecnológica estão cumprindo um papel de destaque para o rápido combate à morte súbita, uma forma nova e devastadora de tristeza dos centros. O país conta com quase 5 mil cientistas que podem atuar nessas áreas, e com política e instituições apropriadas pode vir a ser um dos grandes beneficiários dessa revolução tecnológica. O pesquisador da Embrapa, Maurício Lopez, resume bem a situação: 'A briga que interessa é a que vai ajudar a criar a grande revolução biotecnológica brasileira, tropical, que resolva o problema da vassoura de bruxa no cacau e da morte súbita dos citros; enfrente as doenças e pragas que atacam nossas frutas, grãos, fibras e animais, os problemas de nutrição e de saúde da população, os danos ao meio ambiente do Brasil e no mundo tropical.' Eis aí uma boa briga a ser brigada: colocar a agricultura em um novo patamar tecnológico, voltada para a solução de nossos problemas e regulada para eliminar alternativas que sejam comprovadamente danosas ao ambiente e à economia. A outra - criar um país livre de transgênicos - pode, para muitos, ser bela e romântica. Pena que não produza desenvolvimento! (O Estado de SP, 18/3)


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