Liberação da Soja Transgênica no Brasil, vantagem ou não?

Lúcia de Souza, Ph.D.

Qualidade e Segurança de Alimentos Transgênicos:
Percepção Pública e Científica

Muitos consumidores acreditam que produtos cultivados organicamente (livre de agrotóxicos) são mais saudáveis, mais seguros e tem melhor sabor que os alimentos convencionais, enquanto que Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) são vistos como uma ameaça para a saúde e para o ambiente. A questão primordial é que essa percepção não é confirmada por dados de pesquisas científicas. Do ponto de vista científico, alimentos orgânicos não são nem mais saudáveis, nem mais seguros, que os convencionais ou os geneticamente modificados. Alguns estudos mostram que alimentos orgânicos têm mais toxinas que alimentos produzidos por métodos tradicionais. Toxinas são substâncias venenosas produzidas por diferentes fungos ou microorganismos, que podem causar vários danos para a saúde humana e animal mesmo em pequenas concentrações, como cancer, lesões no fígado, rim, sistema imunológico, etc. Estima-se que cerca de 25% da produção mundial de cereais estão contaminadas por fungos e consequentemente suas micotoxinas. As toxinas que ocorrem naturalmente nas plantas podem oferecer maior risco à saúde do consumidor do que resíduos de pesticidas químicos. Comparado com as variedades convencionais, os transgênicos podem ter quantidades bem menores de micotoxinas, que é um benefício para a saúde humana e animal.

Em relação a carne, leite e ovos de animais alimentados com OGMs, numerosos estudos confirmam que estes são tão seguros para o consumo humano quanto são os alimentos derivados de animais que consumiram rações convencionais. Não há diferença na composição ou valor nutricional entre animais, alimentados com ração convencional ou geneticamente modificada, assim como o seu leite e ovos.

O cultivo de variedades geneticamente modificadas cresceu rapidamente desde a sua introdução comercial em 1996 e a área mundial alcançou em 2001 52.6 milhões de hectares, cerca de 5.5 milhões de fazendeiros adotaram a nova tecnologia, refletindo a sua satisfação. Vários estudos foram realizados, as preocupações dos possíveis riscos foram e continuam sendo monitoradas para garantir que não haja prejuízo algum para o homem e a natureza. Até o presente nenhum dos riscos imaginados foi comprovado por dados científicos.

Aspectos Sócio-econômicos da Soja no Brasil

O Brasil é o segundo maior produtor de soja do mundo, entre 2000 e 2001 produziu em torno de 36 milhões de toneladas de soja, exportou cerca de 13 milhões de toneladas. O Brasil, também o segundo maior exportador de soja do mundo, tem a Europa como seu principal mercado (adquire cerca de 75% das exportações). Acredita-se amplamente que consumidores europeus não querem produtos geneticamente modificados, e pesquisas revelam que 53% dos consumidores questionados digam que pagariam um maior preço por produtos livres de OGMs. Porém não existe uma cotação mais alta para a soja não transgênica. Se os países que importam soja, e principalmente a Comunidade Européia não aceitar pagar um preço mais alto para a soja livre de transgênicos, o Brasil estará perdendo lucros e competitividade em relação aos seus principais competidores: os Estados Unidos e Argentina que plantam soja transgênica reduzindo significantemente os seus custos.

É interessante observar os dados da Comissão Européia, que mostram que embora tenha ocorrido uma redução das importações de Soja oriunda dos Estados Unidos nos últimos anos, quem ganhou essa fatia do mercado não foi o Brasil com soja não transgênica e sim a Argentina, que segundo a própria Comunidade Européia possui 75% de sua produção de soja transgênica (tabela abaixo). As exportações de soja da Argentina para a Europa, embora contenham maior concentração de transgênicos que a Americana, tem aumentado, porque é mais barata que a dos EUA. Isto nos leva a concluir que atualmente para a Europa, é mais importante comprar soja por menores preços que livre de transgênicos. E que os países europeus estão consumindo grandes quantidades de soja transgênica.

Tabela Principais Produtores de Soja Transgênica no Mundo, em milhões de hectares


(Fonte: Comissão Européia)

No Brasil o cultivo comercial da soja transgênica ainda está proibido, porém em vista do atrativo lucro com o plantio de soja transgênica, alguns produtores brasileiros estão importando ilegalmente sementes transgênicas da Argentina. Estimativa-se que pelo menos 10% da área total de soja plantada no Brasil é transgênica.
O plantio dessa soja ilegal no Brasil causa várias desvantagens para o país, entre elas:

  • Não há um monitoramento a longo prazo da introdução dessa soja;

  • Não há arrecadação de impostos referentes às sementes ilegais;
  • Não é uma variedade desenvolvida para as condições ambientais brasileiras, o que resulta em menor produtividade; etc.
  • Provável perda de credibilidade pelos importadores: carência de controle da situação interna do país.

Benefícios e Possíveis Riscos Ambientais do Cultivo de Soja Transgênica

Estudos de campo realizados com transgênicos, até hoje, não confirmaram os riscos previstos pela crítica para o meio ambiente. Por exemplo, variedades do milho Bt, não resultaram em uma redução temporária do número de organismos benéficos do campo, como pode ser observado com alguns pesticidas sintéticos. Após a introdução de culturas transgênicas, grandes quantidades de pesticidas foram economizadas, apenas nos Estados Unidos entre 1996 e 1998 foram economizados 3230000 litros de inseticidas. Com o cultivo de soja resistente a herbicida nos Estados Unidos, houve uma redução geral de 10% a 20% aplicações de herbicidas, e em alguns casos a economia chegou até 50%. Esta redução de uso de herbicidas por si protege o ambiente. No caso da soja resistente ao herbicida glifosato (Roundup Ready), o mais amplamente comercializado, é considerado “amistoso” para o ambiente. Uma vez que, ao contrário de outros herbicidas, o glifosato tem toxicidade baixa e degrada rapidamente no solo.

No caso da soja, é pouco provável que haja a transferência de genes entre espécies geneticamente modificadas e espécies relacionadas selvagens: é uma cultura de origem asiática, sem parentes silvestres no Brasil, de fertilização homóloga e dependente da intervenção do homem para a sua sobrevivência.
Um dos objetivos mais importantes da agricultura é aumentar o rendimento das plantações. O uso de variedades híbridas, fertilizantes, etc. nas últimas décadas resultou num enorme aumento da produção agrícola e redução de preços de alimentos. A Revolução Verde conseguiu reduzir a porcentagem da população mundial que sofre de fome de 50% nos anos 60, para 20% hoje. Em plantações livres de agrotóxicos as perdas estão entre 10% e 40%. Se usássemos apenas a forma de cultivo orgânico, que proíbe o uso de fertilizantes sintéticos, extensas áreas de plantação seriam necessárias, e no máximo 4 bilhões dos 6 bilhões de habitantes do planeta, poderiam ser alimentados. O uso de culturas transgênicas pode ajudar a aumentar a produtividade de culturas, evitando sobretudo maiores desmatamentos e o aumento da erosão dos solos.

Conclusões:

  • Desde a sua introdução, produtos geneticamente modificados foram submetidos a rígidas normas de segurança e são os alimentos que foram melhor analisados. Produtos orgânicos ou convencionais geralmente não passam por uma análise de segurança tão rígida como a dos geneticamente modificados, embora estes não sejam necessariamente mais seguros. A segurança de qualquer produto alimentício deve ser sempre verificada com base em dados científicos.
     

  • Banir os métodos de agricultura que utilizam transgênicos, não pode ser justificado do ponto de vista científico, e seria incompreensível não se beneficiar dessas novas oportunidades para resolver os problemas agrícolas e, sobretudo, os ambientais advindos da prática agrícola convencional.
     
  • A não-liberação da plantação de transgênicos no Brasil levará ao agricultor perder lucros, e o país perder competitividade no mercado internacional, a menos que os consumidores resolvam arcar com os maiores custos da não utilização desta tecnologia. Do ponto de vista ambiental, a necessidade de maiores aplicações de agrotóxicos pela agricultura convencional estará prejudicando o meio ambiente. E a pesquisa científica do país perde tempo, prejudicando o próprio desenvolvimento intelectual e bem estar do nosso país.
     
  • Todos os métodos de plantações agrícolas existentes até hoje (orgânico, integrado e convencional, e a biotecnologia) trazem vantagens e desvantagens. Uma comparação entre os riscos e benefícios é possível, mas limitada. Do ponto de vista econômico, saúde e meio ambiente os três métodos: convencional, orgânico e genético podem e devem coexistir. Plantações de culturas utilizando vários métodos distintos sempre foram possíveis lado a lado e continuarão sendo possíveis no futuro. A introdução de transgênicos não eliminará outros processos de produção que tenham um mercado consumidor e que possibilitem o crescimento sócio-econômico do país.

Referências:

http://www.internutrition.ch/in-news/
http://www.mykotoxin.de/
Federation of Animal Science Societies – FASS; http://www.fass.org/
C. James 2002, http://www.isaaa.org/kc/
http://www.dft.moc.go.th/eng/ASEAN/wsoybeanp.htm
http://www.asa-europe.org/
http://www.dft.moc.go.th/eng/ASEAN/pricesoy.htm
http://europa.eu.int/comm/agriculture/publi/gmo/
http://www.unitedsoybean.org/soylines_pdf/sl991030.pdf
Economic Impacts of Genetically Modified Crops on the Agri-Food Sector http://europa.eu.int/comm/agriculture/publi/gmo/
Agriculture in Brazil and Argentina: Developments and Prospects for Major Field Crops/Economic Research service/USDA
American Medical Association/ http://www.ama-assn.org/ama/pub/article/2036-4030.html.


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