Transcrição do artigo publicado no Jornal Valor, de 10-07-03, página 8-A.

A posição dos Estados Unidos quanto aos transgênicos

Toda investigação científica confiável já confirma a segurança dos transgênicos.
Por Daniel Rubinstein

No dia 13 de maio, os Estados Unidos, a Argentina e o Canadá anunciaram a solicitação de uma consulta à Organização Mundial do Comércio (OMC) referente à moratória da União Européia (UE) à aprovação de produtos de biotecnologia agrícola.

A preponderância esmagadora de provas legais e científicas respalda a decisão desses países de questionar a UE sobre sua posição quanto a biotecnologia agrícola.

Nos últimos cinco anos, a UE violou constantemente as regras da OMC, que exigem que as medidas que regulam as importações sejam baseadas em provas científicas consideradas suficientes e procedimentos de aprovação constantes de regulamentações a serem cumpridos sem atraso indevido.

Os países membros da UE têm bloqueado a aprovação da regulamentação de novos produtos de biotecnologia agrícola desde 1998, e o têm feito sem apresentar quaisquer provas científicas que demonstrem perigo à saúde humana como exigido pelo Acordo Sanitário e Fitossanitário (SPS) da OMC. Ao iniciarem esse processo, os EUA e os outros países estão simplesmente procurando garantir que a UE aplique uma análise e um processo de aprovação científicos e embasados em regras para os produtos de biotecnologia agrícola.

Em outras palavras, a moratória da UE não tem base científica. Os alimentos de bioengenharia atualmente no mercado têm mostrado ser tão seguros quanto suas variedades convencionais. A moratória em si não é uma questão de segurança. O sistema regulatório dos EUA garante que os transgênicos aprovados para comercialização no país sejam seguros. Temos um sistema regulatório transparente, previsível e com base na ciência. Muitos outros países em todo o mundo possuem sistemas similares: baseados na ciência que avalia o risco - risco para o meio ambiente, riscos potenciais para a agricultura, bem como o risco de segurança alimentar e o risco para os animais da cadeia alimentar.

Não são somente os EUA que estão dizendo que não existem riscos de segurança com essas safras quando reguladas de forma apropriada. Toda investigação científica confiável já realizada confirma a segurança dos transgênicos. A OMS já avaliou essa questão. As academias de Ciência da América do Norte e da Europa, a Academia de Ciência do Terceiro Mundo, a Casa dos Lordes do Reino Unido, a OCDE, o Vaticano, e mesmo a UE e a Academia de Medicina da França já declararam que os alimentos transgênicos são tão seguros quanto os convencionais. A própria UE realizou mais de 81 projetos de pesquisa relacionados a safras transgênicas e a avaliação dos projetos pela Comissão Européia demonstrou que esses alimentos não apresentaram qualquer risco extra em comparação aos alimentos convencionais. Como observado pela Academia Francesa de Ciências, mais de 300 milhões de norte-americanos comem há anos milho e soja modificados pela biotecnologia. Nenhuma conseqüência adversa foi relatada nesse período. A própria UE reconhece que os produtos biotecnológicos existentes no mercado não representam nenhuma ameaça à saúde humana.

Infelizmente, a decisão da UE de conceder uma moratória às aprovações de biotecnologia agrícola tem repercussões que vão muito além da Europa. A recusa da UE de cumprir suas obrigações na OMC está atrasando a adoção de uma tecnologia benéfica, e os países em desenvolvimento já estão sofrendo as conseqüências negativas. No último trimestre de 2002, alguns países do Sul da África atingidos pela fome rejeitaram alimentos dos EUA - em sua maioria o milho dos estoques e silos dos EUA são idênticos à comida que os americanos comem no dia a dia - devido a preocupações ambientais e de saúde causadas pela falta de informação, bem como por medo de que suas exportações para a Europa fossem comprometidas pela " contaminação" das plantações locais.

Aqueles que estão na posição de mais se beneficiar da biotecnologia agrícola, ou seja, as populações pobres e subnutridas dos países em desenvolvimento, não podem mais se dar ao luxo de esperar.

Os efeitos colaterais da moratória da UE ameaçam negar os benefícios da biotecnologia, que pode ajudar a estimular a produtividade agrícola e melhorar os padrões de vida nos países desenvolvidos e em desenvolvimento de igual forma. Agricultores do mundo todo reconheceram os benefícios econômicos, agrícolas e ambientais das culturas biotecnológicas. Essas plantas têm uma produção maior e podem se desenvolver em terras pobres. Cerca de até 80% de algumas plantações africanas atualmente não resistem à seca. Culturas biotecnológicas resistentes à seca podem ajudar a produzir alimentos nos países em desenvolvimento que lutam para alimentar as populações.

O aumento do uso da biotecnologia agrícola pode também produzir benefícios ambientais substanciais. Os agricultores que utilizam culturas biotecnológicas criam ambientes mais hospitaleiros para a vida selvagem, incluindo riachos e rios ainda não afetados por pesticidas químicos. Os agricultores que estiverem aptos a aumentar a produção de suas culturas nas terras existentes ficarão menos tentados a ocupar as florestas tropicais e outros habitats naturais frágeis. Em países como o Brasil, onde a agricultura e a conservação da biodiversidade estão igualmente entre as prioridades da sociedade, o aumento da produção biotecnológica pode fazer a diferença entre a preservação ou a destruição do patrimônio natural atualmente ameaçado.

Por fim, aqueles que afirmam que os EUA estão tentando forçar os consumidores a adquirir alimentos de biotecnologia na verdade inverteram a argumentação. São as ações unilaterais, ilegais e injustificadas da UE, tomadas sem qualquer base científica, sanitária ou ambiental, que restringem as opções e as oportunidades em todo o mundo. Os Estados Unidos e outros países buscam as regulamentações que maximizam as opções do consumidor e ao mesmo tempo protegem sua saúde e segurança.

Daniel Rubinstein é conselheiro para Assuntos Científicos, Tecnológicos e Ambientais da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília.

 


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