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Vários
ângulos de uma questão muito discutida
Por
Letícia Sorg, especial para o Ig
Membros da
comunidade científica, empresas, produtores rurais,
integrantes do governo, instituições de defesa do
consumidor e de preservação do meio ambiente têm
sido as principais forças envolvidas no debate sobre os ganhos
e prejuízos da adoção dos organismos
geneticamente modificados (OGMs) no Brasil. A soja transgênica
foi o único cultivo do gênero aprovado por aqui e,
segundo dados de Clive James, do International Service for
Agri-biotech Applications (ISAAA), esta variedade já
representa 51% de toda a soja cultivada no mundo.
Adilson
Paschoal, professor aposentado da Escola Superior de Agricultura Luiz
de Queiroz (Esalq - USP), lembra que quando os agrotóxicos
foram adotados em larga escala na agricultura, logo após a
Segunda Guerra Mundial, instalou-se uma controvérsia semelhante.
Hoje, DDT,
Dieldrin, Aldrin, Metil-paration - nomes que faziam parte do
cotidiano das lavouras - compõem uma lista da
Organização das Nações Unidas (ONU) com
as substâncias que devem ser banidas por serem muito nocivas
à saúde humana e ao meio ambiente e demoram longos
períodos para serem degradadas.
"O
governo deve procurar o apoio dos cientistas, dos técnicos, de
quem tem mais conhecimentos porque a questão não pode
se resumir em 'eu quero' ou 'não quero'. É preciso
saber quais os verdadeiros efeitos humanos e sociais. Na medida em
que se intensificar a transmissão de informações
e a discussão, nós estaremos mais próximos de
decisões mais uniformes e mais seguras", comenta o
jurista Dalmo Dallari.
Por
enquanto nada é tão uniforme: o cultivo e a
comercialização da soja transgênica foram
aprovados, mas, o agrotóxico que deve ser usado nela, ainda
não. O herbicida glifosato - comercialmente conhecido como
Roundup -, apesar de ser utilizado há anos no Brasil,
não tem registro na Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa) para ser aplicado nas folhas e caule da
planta, conforme é sugerido pela Monsanto. Normalmente, esse
herbicida não poderia ser usado quando a soja tradicional
já tivesse brotado porque esta morreria junto com as ervas
daninhas. Já a soja modificada resiste ao agrotóxico,
que poderia ser usado no lugar da capina, se já houvesse uma
regulamentação adequada para isso.
E nem
tão seguro: mesmo com a rotulagem obrigatória para os
produtos contendo material geneticamente modificado, o consumidor
não sabe o que leva para casa e há
informações desencontradas sobre os inúmeros
possíveis perigos dessa nova tecnologia.
"Mas eu
acho até bobagem eu ser contra ou a favor porque ela [a soja
transgênica] já está aí. O importante
é regulamentar para diminuir os riscos", afirma Deise
Capalbo, presidente da Rede de Biossegurança da Embrapa, a
respeito da diretriz que o Brasil deve seguir neste momento em que o
plantio e a comercialização da soja transgênica
já foram autorizados.
O que
é um transgênico?
Muitos
brasileiros estão sabendo da legislação dos
transgênicos, sobre as disputa ministeriais em torno do
assunto, mas poucos sabem exatamente o que é um organismo
geneticamente modificado.
Quando se fala
de organismos geneticamente modificados (OGMs), fala-se de uma
estrutura cuja descoberta está completando agora seus 50 anos:
o DNA (ácido desoxirribonucléico).
Essa
molécula, que fica no núcleo das células,
é o depósito de todas as informações
sobre o funcionamento e as características dos seres vivos, o
código genético. Os cientistas, sabendo disso, pensaram
que, se pudessem fazer alterações nela, conseguiriam
que alguns seres tivessem as mesmas capacidades que outros.
Com o
avanço dos conhecimentos sobre a estrutura do DNA e de como
ele funciona, os pesquisadores conseguiram misturar o código
genético de espécies diferentes, dando origem a um ser
geneticamente modificado. Esse procedimento ficou conhecido como
técnica do DNA recombinante.
Essa mistura
não acontece de maneira aleatória dentro dos
laboratórios. Escolhe-se um pedaço de DNA, o gene, que
é capaz de determinar uma característica
específica - expressada por uma proteína. Esse segmento
do código genético é, então, inserido no
organismo receptor, que passa a ter a mesma característica que
o organismo doador, por exemplo, a capacidade de emitir luz como a
dos vaga-lumes.
Para fazer
esse pedaço de DNA - acompanhado de outros elementos -
integrar-se ao material genético já existente, os
cientistas possuem duas opções: uma, biológica e
outra, física. Na primeira, é utilizada a
bactéria Agrobacterium tumefaciens, capaz de transferir parte
de seu DNA para o das plantas. Na segunda, micropartículas
metálicas - de ouro ou tungstênio - são
recobertas pelo material genético e atiradas em alta
velocidade contra as células a serem alteradas.
As
conseqüências para quem come
Atualmente,
embora alguns ainda estejam acontecendo, já foram realizados
testes e, na opinião da Royal Society, Academia de
Ciência do Reino Unido, os alimentos transgênicos
não apresentam perigos à saúde do consumidor
quando comparados aos alimentos ingeridos normalmente. Mesmo assim,
recomenda-se que sejam feitos estudos rigorosos principalmente em
relação aos agentes causadores de alergia.
Na verdade,
essa não era a maior preocupação das pessoas. Um
dos primeiros temores era se o DNA transferido para a planta
não poderia passar para o ser humano que a consumisse.
Até
agora, as pesquisas apontam que isso é uma possibilidade
bastante remota. De fato, essa famosa molécula é
consumida a todo momento pelas pessoas. Dependendo dos alimentos, a
quantidade de DNA pode variar entre 0,1 e 1,0g ao dia. O gene que foi
inserido representa uma quantidade cerca de 20 mil vezes menor do que
essa. Somente por isso, já é bastante reduzida a chance
de haver uma transferência. Porém, outro ponto que
dificulta a transferência, é que a molécula de
DNA, transgênica ou não, é desintegrada durante o
processo digestivo e dificilmente ficaria intacta para ser
aproveitada pelas células do corpo.
Era
também uma preocupação a possibilidade de as
bactérias da flora intestinal humana receberem esses genes. A
atenção estava voltada, então, para os genes que
os cientistas utilizavam para saber se as células haviam de
fato recebido o material genético. Depois de tentar inserir o
gene de interesse, aplicava-se um antibiótico às
células e, as que sobrevivessem, eram as que tinham sido
alteradas - pois, junto com o DNA pré-determinado, os
pesquisadores incluíam um gene de resistência a esse
tipo de medicamento.
Esse gene que
ajuda o pesquisador a ter certeza é chamado de marcador e,
para o cientista João Roberto Nascimento, da Faculdade de
Ciências Farmacêuticas da USP, esse procedimento envolve
algum risco. Para tentar diminuí-lo, Nascimento conta que
outras alternativas de genes marcadores já estão sendo
usadas, mesmo que o perigo não fosse tão grande.
O professor
esclarece que os genes utilizados geravam resistência a
antibióticos de pouco uso medicinal - como a canamicina -, e,
por causa disso, dificilmente criariam uma
"super-bactéria" que pusesse em risco a saúde humana.
A terceira
preocupação, que é também a mais
compartilhada pela comunidade acadêmica, é o risco de se
criar alimentos com alto potencial alergênico, ou seja, que
causem alergia, ou que contenham substâncias tóxicas desconhecidas.
Em
geral, de 1 a 2% da população adulta e de 5 a 8% da
população infantil sofrem naturalmente com alergia a
alimentos e essas chances crescem quando se trata de uma nova
variedade. O kiwi, por exemplo, quando passou a ser comercializado na
Europa, causou reações alérgicas em várias
pessoas que o consumiram.
Esse mecanismo
das reações alérgicas não é muito
conhecido, mas alguns dados já podem ajudar na tentativa de
verificar se um alimento é ou não seguro.
Moléculas grandes, difíceis de serem digeridas e que
têm partes semelhantes a proteínas reconhecidamente
alergênicas, não devem estar presentes nos produtos
alterados porque são potenciais causadores de alergias. Caso
se verifique a presença delas, a pesquisa não deve
continuar ou o produto não deve ser aprovado para consumo.
Além
dessa verificação, os alimentos geneticamente
modificados devem passar por testes que avaliam se as
substâncias que eles contêm são exatamente as
mesmas que existem na versão tradicional. É o
critério da equivalência substancial. Nessa fase é
examinada a possível presença de substâncias
diferentes e tóxicas.
Se todas as
substâncias forem iguais o Food and Drugs Admininistration, dos
Estados Unidos - correspondente à Agência Nacional de
Vigilância Sanitária do Brasil -, aprova o produto para
comercialização, sem necessidade de colocar rótulo.
No Brasil, que
segue o modelo europeu, é o modo como o material foi obtido
que deve ser rotulado (o que importa é a técnica do DNA
recombinante), e não o produto. Por isso, mesmo que o alimento
tenha as mesmas características que o convencional ou nem
carrega consigo traços do DNA modificado, ele deverá
ser rotulado para informar ao comprador a sua procedência.
Os efeitos
da inovação tecnológica no meio ambiente
Quando a
Comissão Técnica Nacional em Biossegurança
(CTNBio) aprovou pela primeira vez o plantio da soja
transgênica, em 1998, era prevista a realização
de um monitoramento de cinco anos das plantações de
soja. Os custos seriam pagos pela empresa produtora e os
pesquisadores seriam alheios à CTNBio e à empresa.
Entretanto, a
medida foi suspensa pelo Poder Judiciário logo depois. Sem o
mesmo cuidado foi aprovada a medida provisória vigente - agora
sancionada em lei pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva -
que libera o plantio e a comercialização, mas não
prevê o estudo.
A principal
preocupação dos pesquisadores na época era,
entre outros pontos, analisar os efeitos para a
população de microorganismos do solo brasileiro, que
não é igual a de nenhum outro lugar. Se o plantio de
transgênicos prejudicar as bactérias do gênero
Rhizobium, por exemplo - importantíssimas para o crescimento
das plantas leguminosas porque oferecem nitratos em troca de
carboidratos - haverá um empobrecimento significativo do solo.
Para Rubens
Nodari, integrante do Ministério do Meio Ambiente, estudos
devem ser feitos para que a ausência de evidência de
riscos não seja tomada como evidência de ausência.
Em seus estudos no Rio Grande do Sul, por exemplo, o professor da
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) apontou que, na
presença de secas e altas temperaturas, a variedade
transgênica sofria mais prejuízos que a convencional.
Segundo Nodari, isso aconteceria devido a uma maior quantidade de
lignina na soja geneticamente modificada.
Recente estudo
publicado pela Royal Society - antecipado por reportagem do jornal
britânico Guardian e citado pelo Jornal Nacional - confirma
alterações no comportamento de alguns animais
invertebrados em campos cultivados com variedades geneticamente
modificadas de beterraba, canola e milho. Nos dois primeiros, houve
uma diminuição no número, entre outros animais,
de besouros e borboletas. No último, o milho, registrou-se um
aumento no número de animais presentes na plantação.
Antes de
interpretar o estudo contra ou a favor dos OGMs, deve-se saber que
ele comparou as variedades com as plantações
tradicionais e suas práticas. Em metade do campo, foi
utilizada a técnica tradicional, na outra metade, foram
seguidas as instruções do fabricante para o
transgênico, com aplicações do herbicida a que a
planta é resistente.
No caso da
canola e da beterraba, o controle de ervas daninhas no
transgênico foi mais eficiente. Com isso, caiu a
freqüência dos animais que se alimentavam delas, já
que a oferta de alimentos era menor.
Já no
milho transgênico, o controle de ervas daninhas foi menos
eficiente, deixando mais alimento para os animais. Isso significa que
os estudos sobre os efeitos no meio ambiente devem levar muitos
aspectos em consideração - pois os organismos
estão interligados -, inclusive as conseqüências
das práticas tradicionais de agricultura, com seus
agrotóxicos e áreas devastadas.
"Ou
você acha que desmatar não traz prejuízo?",
pergunta o pesquisador João Roberto Nascimento, alertando para
os efeitos do aumento desenfreado da área de
produção agrícola. "No caso da soja, existe
uma argumentação científica que diz que ela
não vai causar prejuízos, não prejuízos
maiores que a soja convencional", complementa o pesquisador.
Além de
variações na presença de animais, outro ponto
importante é a preservação da biodiversidade.
"Nós temos que tomar cuidado no Brasil de fazer um
levantamento de quais são as plantas que são nativas.
Maracujá, por exemplo, o centro de diversidade é daqui
do Brasil, então você tem mais de 40 espécies
silvestres. Se você tiver um maracujá transgênico,
você pode ter um escape desse gene e afetar negativamente a
diversidade", alerta o professor Antônio Figueira, da
Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da USP. O mesmo ocorre
com o amendoim e o cacau na região amazônica. O perigo,
por exemplo, é que o gene inserido escape para as variedades
selvagens e modifique a sua capacidade de disseminação,
o que poderia levar à extinção.
No caso da
soja, o único transgênico aprovado no País, o
cultivo representa pouco perigo para a biodiversidade brasileira
porque é uma espécie proveniente da China e não
tem parentes silvestres no país.
Mas, quando o
alvo são os terrenos cultivados, há motivos para
preocupações. Assim como o gene pode escapar para
outras variedades, também pode contaminar as
plantações vizinhas que não são
transgênicas. Esse é um problema que deve preocupar os
agricultores brasileiros e que, no caso da soja, é menos
grave. Isso porque a chance de troca de genes entre as variedades
seria de cerca de uma em 100. Para ter maior garantia, os produtores
devem ser orientados a aumentar as distâncias entre os
cultivos, a fim de criar mais uma barreira, medida que, para outras
espécies, talvez não seja suficiente.
Uma
tecnologia com tempo contado?
Por enquanto,
nenhuma erva daninha tornou-se resistente aoRoundup, mas, se os
agricultores passarem a usá-lo como a única arma contra
o mato, podem gerar variedades que, como a soja transgênica,
sejam resistentes a ele.
Esse é
um processo natural de seleção das espécies e,
para tentar adiá-lo, utiliza-se o chamado Manejo Integrado de
Pragas (MIP), que prega a alternância de vários produtos
e técnicas. Deise Capalbo, presidente da Rede de
Biossegurança da Embrapa, afirma que as empresas, prevendo o
problema, têm oferecido pacotes com alternativas de
práticas com o objetivo de preservarem o seu próprio produto.
Prevendo a
possibilidade de esgotamento dessa técnica, a Embrapa
está desenvolvendo uma variedade de soja resistente a outros
tipos de herbicidas. Para o agricultor, isso quer dizer que ele
não estará para sempre tranqüilo com a sua atual
semente geneticamente modificada.
Soja
transgênica: galinha dos ovos de ouro?
Para Dalmo
Dallari, membro da Comissão de Justiça e Paz da ONU, a
questão econômica passa pelo problema do monopólio
da técnica de produção dos transgênicos.
"Quando uma empresa, um grupo, é dono da metodologia, ela
poderá impor as suas condições e poderá
também direcionar a utilização desse
conhecimento. E certamente, nesse caso, muitas
populações, especialmente populações mais
pobres, poderão ficar marginalizadas."
Deise Capalbo,
da Embrapa Meio Ambiente, alerta, contudo, que a agricultura do
País, mesmo sem os OGMs, já está na mão
das empresas de insumos, que são estrangeiras. De fato, as
principais produtoras de agroquímicos têm sedes fora do
país e são responsáveis pela maior parte do
mercado brasileiro do setor.
Ainda assim,
algumas empresas brasileiras têm um papel fundamental na
área. É o caso da Embrapa, que detém um banco
das variedades de plantas - banco de germoplasma - que muito
interessa às multinacionais. Tanto é que a Monsanto
firmou com ela um acordo para modificar geneticamente as variedades
de soja que são adaptadas ao Brasil. "Na realidade, o
royalty não vai ser pago só para a Monsanto. Vai ser
pago também em cima do valor da cultivar para a Embrapa. E se
ela acha que é interessante economicamente, tudo bem",
afirma a pesquisadora Leila Oda.
"A
pergunta que se faz hoje é a seguinte: quanto vale a
biotecnologia se não tiver a biodiversidade? Não vale
nada, não existe. Nós temos que ser mais hábeis
negociadores para usar o nosso germoplasma. Essa crítica eu
sempre faço", declara Rubens Nodari, do Ministério
do Meio Ambiente. Para ele, a Embrapa saiu perdendo no acordo e deve
valorizar mais o conhecimento que detém.
Bem ou mal
negociado, o fato é que agora a soja transgênica
já está sendo cultivada no Brasil, e em dez estados.
Para Alda Lerayer, do Instituto Técnico de Alimentos, o
agricultor só vai fazer algo se realmente estiver tendo algum
lucro. Por isso, se a soja transgênica deixar de ser atrativa,
naturalmente ele irá procurar outra linhagem mais adequada
às suas necessidades, seja ela geneticamente modificada ou não.
Foi
com o argumento de maiores lucros com o produto tradicional que, no
Paraná, o governador Roberto Requião proibiu o plantio
e transporte da soja modificada - medida estadual que já foi
revogada. Segundo ele, os produtores da região têm
bônus de 15% pela soja convencional.
Entretanto,
ainda não é perceptível, no comércio
internacional, uma alteração das cotações
de ambos os produtos. Clive James, do ISAAA, afirma que, até
agora, a Europa teve o privilégio de comprar soja convencional
sem nenhum preço extra. E se, de fato, acontecer um aumento
nos custos, o continente terá que decidir se está
preparado para arcar com o novo valor. "Nós veremos qual
será a reação da Europa em meses, quando, de
fato, eles serão forçados a olhar para a
situação econômica e decidir. Não existe
modo, atualmente, de adivinhar por qual caminho eles irão."
E o
rótulo, você já viu algum?
O
símbolo (um triângulo com contorno preto e fundo amarelo
com um T no centro) já foi aprovado pelo Poder
Judiciário para estampar as embalagens dos produtos que
contém mais do que 1% de material geneticamente modificado em
sua constituição. Mas, até agora, falta pôr
em prática o que foi estabelecido pela regulamentação.
O limite de
tolerância de 1%, estabelecido em abril de 2003, revogou a
medida anterior, que previa um limite de 4%, e o decreto exige
também a rotulagem de produtos derivados de animais
alimentados com rações contendo OGMs.
Mas, o que
é simples à primeira vista, pode ser bastante
complicado porque muitos produtos que os consumidores nem imaginam
possuem derivados de soja e de milho - cuja variedade
transgênica também pode em breve estar no país -
e também entrariam nessa contabilidade. Um chiclete com amido
de milho, por exemplo, deverá ser rotulado, mesmo que a
quantidade de material transgênico seja ínfima?
Para o diretor
da Gerência Geral de Alimentos da Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (Anvisa), Cléber Ferreira
dos Santos, o novo limite de 1% estabelecido segue o um padrão
internacional, enquanto o anterior não tinha respaldo nesse
sentido - na Europa, o padrão é 1%, e no Japão, 5%.
Mas, se a
rotulagem faz parte do direito dos consumidores de se informarem
sobre os produtos que compram, Clive James, do ISAAA, alerta que o
Brasil deve considerar também os custos para a
implantação dessa medida.
Um estudo
publicado por vários autores, entre eles Marília Regini
Nutti, chefe geral da Embrapa Agroindústria de Alimentos,
prevê gastos de 350 milhões de dólares para
cumprir a meta de 1% de limite. A previsão foi feita com base
em dados produzidos pela consultora KPMG para os governos da
Austrália e da Nova Zelândia e considerou que a
produção agrícola brasileira é cinco
vezes maior do que a australiana.
Caso a
tolerância à presença de organismos geneticamente
modificados fosse próxima ao zero, esses custos iriam para 483
milhões de dólares. Gastos que, provavelmente,
serão divididos por todos os consumidores.
Para
empreender a fiscalização do cumprimento desse decreto,
mais custos: é necessária toda uma estrutura
laboratorial para realizar a análise dos grãos e dos
produtos com eles preparados.
Como é
possível detectar o transgênico, se ele é, em
aparência, idêntico ao tradicional?
Existem dois
modos de detectar se um produto tem origem transgênica ou
não. O método chamado de PCR (reação em
cadeia de polimerase) detecta o próprio DNA
"importado". Ele o único habilitado para a
análise de todas as espécies de transgênicos
produzidas no mundo. É também o mais caro e o capaz de
apontar a presença - análise qualitativa - e a
quantidade - análise quantitativa - desse material até
mesmo em produtos bastante processados, como biscoitos, massas. Um
estudo recente realizado nos Estados Unidos afirma que 60 a 70% dos
produtos nas prateleiras norte-americanas contêm derivados de transgênicos.
O outro
é capaz de rastrear a presença da proteína
produzida pelo gene adicionado. Nesse caso, há dois tipos de
exames. Um é o da fitinha - cada uma custa de US$ 3 a US$ 4 -
e serve somente para grãos. O segundo é o Elisa, capaz
de analisar também o farelo, e custa mais caro: 100 euros por
análise, além de precisar de estrutura laboratorial e
de técnicos especializados.
William
Latorre, diretor do Grupo Técnico de Alimentos do Centro de
Vigilância Sanitária (CVS), alerta que o Estado de
São Paulo não tem um laboratório para fazer
análises quantitativas como as que são
necessárias para avaliar se o produto está ou não
de acordo com as regras de rotulagem. Segundo ele, as amostras
colhidas pelos fiscais da vigilância sanitária paulista
devem ser encaminhadas para o Instituto Nacional de Controle de
Qualidade em Saúde (INCQS), que fica no Rio de Janeiro, onde
são realizadas análises qualitativas, capazes de dizer
com precisão apenas se existe ou não transgênico
no produto. Como os outros estados também devem fazer o mesmo,
o laboratório teve que limitar as amostras, o que restringe o
número de produtos a serem fiscalizados. Afora algumas
universidades, não há laboratório capaz de fazer
essa análise quantitativa - que, além de afirmar a
presença, também é capaz de especificar qual a
quantidade do material - na estrutura estatal.
A pesquisadora
Alda Lerayer, do Ital, atenta para o fato de que, mesmo após a
instituição da rotulagem, não foram feitos
investimentos suficientes para adequar os institutos à nova exigência.
Dentre as
universidades, a Federal de Viçosa possui laboratório
com estrutura e pessoal habilitado para a tarefa. A Perdigão,
por exemplo, preocupada em certificar-se da procedência de sua
matéria-prima, já estabeleceu uma parceria para a
realização de testes no laboratório da
Universidade. Contratou também uma empresa para fazer a
certificação de seus produtos, um processo que envolve
a verificação do transporte e dos silos de armazenagem
dos grãos - a estrutura não deve ser utilizada
simultaneamente para os dois: convencional e transgênico.
De olho no
mercado brasileiro em crescimento, algumas empresas estrangeiras que
oferecem os testes e a certificação de identidade
instalaram-se recentemente no país. Companhias que exportam
para os países da União Européia e para o
Japão são seus maiores clientes, embora não haja
uma clara tendência de aumento do preço da soja não-transgênica.
As empresas
estão, neste momento, procurando adequar-se às novas
exigências e, até agora, nenhuma delas foi multada por
vender produtos sem a rotulagem adequada. William Latorre, do CVS,
explica que se, na prateleira, houver um produto com transgênico
e sem rótulo, fabricante, comerciante e fornecedor
deverão compartilhar a responsabilidade pela falta.
"Nunca
fomos efetivos em termos de ações porque estava tudo
nebuloso", diz Latorre. A ação da vigilância
foi alertar, administrativamente, as empresas infratoras a partir dos
laudos de positivo apresentados pelo Idec e pelo Greenpeace a
respeito de produtos recolhidos das prateleiras do supermercado.
E a
irregularidade é ainda maior se se considerar que, antes de
qualquer rótulo, a empresa deve entrar com pedido para
registro do produto com ingrediente transgênico, pois este
é considerado um elemento novo na fórmula.
Por
enquanto, nenhum Centro de Vigilância Sanitária recebeu
pedido para fazer esse registro, que passa das regionais para a
Agência Nacional de Vigilância Sanitária,
órgão que decide sobre a pertinência ou não
da aprovação.
Consumidores
à mercê da falta de informação
Para Leila
Oda, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz e
ex-presidente da Comissão Técnica Nacional de
Biossegurança (CTNBio), se depender do debate na sociedade,
será difícil entender o aumento das possibilidades para
o consumo. "Essa discussão da rotulagem foi absolutamente
mal conduzida, ela foi conduzida como uma expectativa de que tinha
risco. E não é isso. A premissa é: se vai para
consumo, ele não tem risco. A rotulagem é para saber se
o indivíduo quer ou não comprar. O alimento
orgânico, o tradicional ou o transgênico tem que,
obrigatoriamente, ter o mesmo nível de segurança."
Alda Lerayer
considera que o símbolo escolhido (um triângulo com
fundo amarelo e com a letra T no meio) para marcar os produtos
geneticamente modificados também não transmite uma
sensação de segurança.
O limite de 1%
contribui ainda mais para a sensação de medo. Para o
consumidor, a impressão que fica é a de, quanto maior a
porcentagem de material geneticamente modificados, maiores são
os riscos a que estão expostos os consumidores. Entretanto, a
segurança do alimento tem que ser a mesma que a do
tradicional, com 1%, 2% ou 10% de material geneticamente modificado,
comenta Leila Oda.
Franco Lajolo,
da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, por
exemplo, concorda com a rotulagem, pois, assim como em outros
produtos, os indivíduos devem saber o que há em sua
composição. Para vários pesquisadores,
porém, o grande problema é ficar para o consumidor a
idéia de que o produto comercializado não passou por
nenhum teste para verificar sua segurança.
A nova promessa
Nem tudo
são riscos. Os pesquisadores prometem para breve uma
geração de produtos enriquecidos que podem interessar
muito aos consumidores.
Uma dessas
promessas é o "arroz dourado". Trata-se de uma
variedade de arroz que contém mais vitamina A - beta caroteno
- e que, por isso, poderia ajudar os países pobres, com altos
índices de desnutrição, a diminuir os casos de
cegueira provocados pela falta desse nutriente.
Rubens Nodari,
do Ministério do Meio Ambiente, alerta, entretanto, que, assim
que colocado na panela, o teor nutritivo desse "super-arroz"
tende a cair e o seu poder de ajuda, também. Para Nodari, o
brasileiro tem de se lembrar de alternativas nativas e naturais para
solucionar esse tipo de problema - cenoura, espinafre, são
dois dos alimentos que contém esse nutriente.
O problema da
desnutrição passa por uma melhor educação
do brasileiro na hora de se alimentar e também por uma melhor
distribuição de renda. William Latorre lembra que a
produção atual de alimentos é 30% superior ao
necessário para suprir as necessidades calóricas de
todos os habitantes do planeta.
Cléber
dos Santos, da Anvisa, também comenta que, na Agência,
vários pontos devem ser discutidos para examinar a validade do
produto defendido pela empresa. Será que funcionaria no
Brasil? Será que as pessoas teriam como absorver essa
quantidade de vitamina A? Não seria mais fácil e
eficiente fazer uma complementação alimentar em algum
outro produto? Somente depois de sobreviver aos questionamentos
é que o produto poderá ser registrado no país.
A outra
promessa é produzir, de forma bem mais barata, os
princípios ativos de remédios. O processo seria o
mesmo, inserir o gene produtor na planta, que passaria a carregar
essa característica. Mas, ao contrário do que se pode
imaginar, a pessoa não ingeriria o remédio ao comer uma
banana, por exemplo.
A banana
produziria a substância que seria, então, retirada e
transformada em pó, como os remédios já
conhecidos. E, ao contrário, da soja, as
plantações teriam de ser cuidadosamente isoladas para
que não houvesse transferência de genes ou alguém
tivesse acesso ao produto sem saber do seu conteúdo.
O
histórico das modificações no natural
Embora
só atualmente as discussões estejam tomando mais
espaço, não é de agora que o homem interfere nas
informações genéticas dos organismos que
são úteis para ele.
Desde muito
tempo atrás, as técnicas tradicionais de melhoramento
genético - cruzamentos entre variedades diferentes - são
utilizadas para conseguir espécies mais resistentes, mais
adaptadas a alguma adversidade ou mais produtivas. O tomate da salada
de todo os dias, por exemplo, não é o encontrado na
natureza. Ele foi produzido pelo homem por meio do cruzamento de duas
espécies, o Lycopersicun esculentum e o Lycopersicon
peruviano. Assim também ocorreu com a
cana-de-açúcar e com outros cultivos.
Entretanto,
com esses cruzamentos tradicionais entre as espécies, havia um
limite da distância entre parentesco e, além disso, as
características interessantes eram conhecidas mas não
isoladas das demais. Uma vez feito o cruzamento, dificilmente se
sabia quais segmentos de DNA tinham sido transferidos e, portanto,
qual seria o resultado exato do experimento.
Com os
avanços no conhecimento da estrutura e do funcionamento do
DNA, iniciou-se a nova técnica, transferindo genes
pré-determinados de uma espécie para outra,
independentemente da proximidade entre elas.
Em 1983 foi
produzido um microorganismo transgênico capaz de produzir
insulina em escala suficiente para substituir a sintetizada por
suínos. Desde então, as pessoas diabéticas
utilizam esse produto, o primeiro resultante dessa técnica a
ser comercializado.
Em 1985, a
quimosina, uma enzima para a produção de queijos,
passou a ser produzida também por um organismo geneticamente
modificado e não foi mais preciso extraí-la do sistema
digestivo de bezerros - que eram sacrificados para a retirada da substância.
Em 1990, foi
lançado um tomate com maior durabilidade nas prateleiras -
chamado de FlavrSavr -, com o intuito de diminuir os prejuízos
com a deterioração rápida do produto.
Nesse
período, várias substâncias passaram a ser
produzidas por esse método: hormônio de crescimento
humano (tratamento do nanismo), interferom gama e interleucina-2
(tratamento do câncer), eritropoeitina (tratamento de anemia).
Desde 1997, por exemplo, o Instituto Butantan faz vacinas para
hepatite B a partir de fungo geneticamente modificado.
É
também na década de 90 que se alastraram outros
cultivos como o algodão, o milho e a soja. Esta última,
cujo plantio foi recentemente autorizado no Brasil, surgiu em meados
da década de 1990 e desde 1997 é cultivada nos Estados Unidos.
Notas
1: Soja
transgênica: atualmente, somente um tipo de soja
geneticamente modificada é plantada em larga escala no
país. Trata-se da soja Roundup Ready, feita pela empresa
Monsanto e que pode resistir às aplicações do
herbicida glifosato - vendido como Roundup também pela
Monsanto. Os agricultores podem, então, aplicar o veneno para
o controle das ervas daninhas sem perderem a plantação.
É importante lembrar que esse é o diferencial dessa
soja, que não é mais produtiva que a convencional.
2:
outros elementos: Mas não é só o gene de
interesse que é inserido. Há a necessidade também
de colocar um gene promotor, que vai determinar quando e como o
material genético transferido irá atuar. Um outro
elemento é o gene marcador, que vai ajudar o cientista a saber
se o processo de modificação foi ou não bem
sucedido. Um dos marcadores mais utilizados consistia em um gene que
conferia resistência a algum antibiótico. No
laboratório, o pesquisador aplicava o medicamento e os
sobreviventes eram aqueles que haviam recebido corretamente o DNA de interesse.
3: DNA
recombinante: Para saber mais sobre isso, leia a
seção O que é um transgênico?
4:
beterraba, canola e milho: A variedade de beterraba utilizada
no estudo era resistente ao glifosato. As de canola e milho,
resistentes ao glifosinato de amônio.
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