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As bactérias lácticas constituem um grupo de microorganismos Gram-positivo e anaeróbio facultativos, são inócuas (consideradas como organismos GRAS - Generally Regarded As Safe), podem ser ingeridas vivas em grande quantidade e algumas espécies possuem a capacidade de sobreviver no trato gastrointestinal, onde podem exercer atividades probióticas e são capazes de converterem açúcares em ácido láctico e por isso são amplamente utilizadas pela indústria nos processos fermentativos de produtos agro-alimentares.

Novas idéias de utilização das bactérias lácticas surgiram no começo da década de 90 como, por exemplo, a possibilidade de produzir proteínas de interesse vacinal que apresentariam antígenos ou peptídeos imunogênicos heterólogos ao sistema imune com objetivo de produzir uma resposta protetora. Estes microorganismos podem ser uma alternativa interessante frente aos problemas acarretados pelas vacinas utilizando bactérias patogênicas atenuadas, tais como virulência residual e risco de reversão ao estado selvagem.

Dentre os integrantes do grupo das bactérias lácticas, o Lactococcus lactis é considerado o organismo modelo em razão de ter sido a espécie mais bem caracterizada geneticamente, bioquimicamente e fisiologicamente. Além disso, foram e continuam sendo desenvolvidos eficientes instrumentos genéticos que a transformaram em uma usina viva para produção de protéinas heterólogas. Proteínas de interesse biotecnológicos e farmacêuticos já foram produzidas em L. lactis como, por exemplo, BLG (b-lactoglobulina), lipases, e os antígenos TTFC (tétano), NSP4 (rotavírus), e E7 (vírus do papiloma humano).

Uma indução de imunidade protetora foi observada quando estas bactérias produtoras de antígenos foram administradas pela vias nasais, orais ou vaginais com as bactérias lácticas. Este é um fato relevante a ser considerado no desenvolvimento de novas vacinas, pois as mucosas constituem a primeira linha de defesa do organismo e a indução de imunidade ao nível da sua superfície impede a entrada de diversos patógenos que utilizam esta via como porta de entrada para causar danos ao hospedeiro. Destas vias, a oral é a mais conveniente e atraente no âmbito sócio-econômico.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) preconiza que as vacinas devem ser administradas pela via oral, ter baixo custo e a possibilidade de serem administradas em forma de coquetéis para o controle de diferentes enfermidades. As bactérias lácticas possuem todos estes requisitos e a sua utilização como vacinas comestíveis são atraentes para a saúde pública e para a indústria alimentícia. No caso da saúde pública, eliminaríamos os cuidados de biossegurança que são necessários quando administramos vacinas pela via parenteral, via esta mais utilizada na vacinologia, e as freqüentes idas aos pediatras. No caso da indústria, agregaríamos mais um valor ao produto. Podemos imaginar um iogurte que crianças, ao comerem este leite fermentado, estariam protegidas contra diferentes enfermidades: seria uma panacéia estupenda, mas precisamos ter certeza da biossegurança destes novos produtos.

No LGCM (Laboratório de Genética Celular e Molecular) coordenado pelo Prof. Vasco Azevedo trabalho em um projeto que tem como objetivo principal desenvolver linhagens recombinantes de L. lactis expressando antígenos da Brucella abortus para a sua utilização como vacinas vivas. Este projeto é desenvolvido em colaboração com o Prof. Sérgio Costa Oliveira (Departamento de Bioquímica e Imunologia. ICB/ UFMG) e os pesquisadores Philippe Langella e Yves Le Loir do Institut Nacional de la Reserche Agronomique (INRA, França).

O Brucella abortus é um patógeno intracelular facultativo e agente causador da brucelose, que infecta homens e animais domésticos. Esta zoonose afeta 10% do rebanho bovino brasileiro. Existe, para o controle da brucelose animal, a vacina comercial B19 (linhagem viva atenuada da B. abortus), que apresenta três desvantagens: 1) pode causar aborto em fêmeas gestantes; 2) é patogênica para humanos; 3) interfere no diagnóstico de populações infectadas. O desenvolvimento de vacinas mais efetivas e seguras é necessário para um melhor controle desta doença.

Vários antígenos já foram descritos deste microrganismo, sendo a proteína ribossômica L7/L12 o mais bem caracterizado imunologicamente. Esta proteína possui a capacidade de induzir uma resposta imune celular e protetora em camundongos. A idéia de desenvolver linhagens recombinantes de L. lactis produtoras de L7/L12 da B. abortus como vacinas vivas orais consiste na tentativa de estimular a mucosa oral, permitindo que o antígeno (vacina) induza a produção de imunoglobulinas IgA secretoras antígeno-específicas, prevenindo uma interação inicial do patógeno com a superfície da mucosa e a colonização e/ou invasão de células hospedeiras e facilitando a destruição destes organismos.

Linhagens recombinantes de L. lactis produtoras da proteína L7/L12 foram construídas e são capazes de endereçar este antígeno para três compartimentos celulares diferentes: citoplasma, meio extracelular e parede celular foram construídas e, em seguida, estão sendo utilizadas em ensaios de imunização oral em camundongos. A avaliação da imunogenicidade está sendo feita através da medição das taxas de anticorpos obtidas nas fezes dos camundongos. A utilização de adjuvantes de mucosa estão também sendo testados nos experimentos de imunização em uma tentativa de potencializar a resposta imune. Os adjuvantes que estão sendo utilizados são: uma linhagem recombinante de L. lactis secretora da interleucina-12 (IL-12), capaz de aumentar a resposta imune antígeno-específica, e o outro é uma linhagem de Lactobacillus delbrueckii, considerada probiótica, que estimula o sistema fagocítico do hospedeiro. Estes ensaios de imunização e testes de proteção contra a brucelose experimental estão sendo realizados em nosso laboratório para a determinação da viabilidade destas linhagens recombinantes como vacinas.

É necessário lembrar que estamos tratando de organismos geneticamente modificados (OGMs) e, desta forma, existem algumas implicações na segurança do uso destes OGMs como vacinas vivas orais que devem ser consideradas, como o risco de transferência horizontal de genes destas bactérias lácticas para outros organismos presentes no trato gastrointestinal do organismo hospedeiro, principalmente genes de resistência a antibióticos, e a possibilidade da proteína codificada pelo gene heterólogo, ou algum produto derivado de sua expressão, ser nocivo (tóxico ou alergênico) para humanos ou animais. Se o interesse atual pela vacinas vivas orais é evidente, não devemos esquecer o clima de incerteza que envolve o desenvolvimento dos OGMs. No caso de produção de proteínas heterólogas, não podemos privilegiar as vias de autoclonagem, que evitam a introdução de DNA estrangeiro, mas devemos ser capazes de distinguir se existe risco ou não de disseminação horizontal e, se existir, este deve ser inferior aos riscos de uma população exposta a este patógeno de sofrer com a doença. Neste último caso, o desenvolvimento de sistemas que impeçam a sobrevivência das bactérias no ambiente devem ser procurados. Estamos otimistas que produtos utilizando bactérias lácticas para fins terapêuticos e biotecnológicas serão uma realidade em alguns anos; entretanto somos favoráveis a realização de todos os testes para que possamos verificar a biossegurança antes da sua futura comercialização.

Agradecimentos: Ao Anderson Miyoshi e ao Prof. Vasco Azevedo pelas sugestões e correções deste artigo e à CAPES pelo financiamento deste trabalho de pesquisa.

Na última edição da nossa coluna, convidamos um aluno de iniciação científica que, além de fazer pesquisa, tem uma veia para o jornalismo científico. Este aluno é uma das pratas da nossa instituição, o Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (ICB-UFMG), local onde exerço as minhas atividades como docente e pesquisador.

Nesta edição, resolvi convidar mais uma prata da casa, agora da minha casa, a aluna de mestrado Daniela Santos Pontes. Daniela é bióloga, faz mestrado no programa em Genética do ICB/UFMG e trabalha na nossa equipe há quase 4 anos. Daniela está fazendo um trabalho inovador na área biotecnológica, que gera questionamentos sobre problemas de biossegurança e que é imperativo discutir com profundidade.
Prof. Vasco Azevedo, Chefe do Laboratório de Genética
Celular e Molecular (LGCM), ICB, UFMG.
Tel/Fax: (31) 34992610 o E-mail: vasco@mono.icb.ufmg.br.



Para dar início ao seu projeto Arte e Ciência para Sociedade, apoiado pelo CNPq, a ANBio realizou o pré-lançamento de DNA - Nossa Comédia no dia 4 de novembro, na Casa da Gávea, no Rio de Janeiro. Escrita por Tiago Santiago e Leila Macedo Oda e dirigida por Bibi Ferreira e Giuliano Nandi, a comédia é estrelada por Ítala Nandi, Cláudio Marzo, Lavínia Vlasak, Cláudia Alencar, Moacyr Veiga, Roger Gobeth, Milton de Castro, Flávio Campos, Reinaldo e Adriana Lima.

Através da trajetória pessoal de Luísa Magaldi, microbióloga, professora e mãe viúva, a história da Ciência é contada de forma bem-humorada e ressalta as dificuldades dos cientistas em divulgarem novas idéias e comportamentos para a sociedade. Visitando personagens como Nostradamus e Oswaldo Cruz, os avanços da ciência são vistos a partir de seu impacto no momento em que foram descobertos e servem de reflexão para os problemas enfrentados pela protagonista, como a dificuldade em esclarecer e ensinar à população como funciona a biotecnologia e conquistar o apoio de figuras importantes para o seu desenvolvimento seguro, como ambientalistas e empresários da mídia.

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