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A
ameaça do Agroterror |
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Norman Borlaug
recebeu o prêmio Nobel da Paz em 1970, pelas descobertas que
resultaram na Revolução Verde e, que salvou
milhões de vidas. Os alimentos podem ser não só
fator de paz, quando em abundância, mas também de
desestabilização quando escassos ou sem segurança
para o consumo.
Após o
ataque terrorista aos EUA em 11/9/2001, o mundo jamais voltará
a ter a tranqüilidade de outrora, por mais que as autoridades
assegurem que as medidas necessárias já tenham sido
tomadas. Alguns conseguem ver riscos iminentes nas mais
improváveis frentes de ataque do terrorismo.
Possíveis
alvos do terrorismo incluem as usinas nucleares, grandes
edificações, mananciais hídricos e o setor
alimentício, o Agroterrorismo. O agroterrorismo pode ser
definido como o uso deliberado e malicioso de agentes
biológicos ou químicos (Quadro 1), como armas contra a
agropecuária e a indústria de alimentos. A
destruição de fontes de alimentos, sua
adulteração ou contaminação com agentes
nocivos pode desestabilizar povos e nações, portanto
é considerada uma arma ou estratégia em conflitos.
A
segurança do sistema de produção, colheita,
processamento e distribuição de alimentos é,
portanto considerado uma questão de segurança nacional
em muitos países. Mesmo assim, percebe-se que o setor
alimentar é vulnerável à sabotagem, nos seus
vários níveis da cadeia produtiva.
Recentes
epidemias naturais nos rebanhos bovinos da Inglaterra, como a
"doença da vaca-louca" e a aftose fornecem dados
empíricos para simulação dos impactos de um
ataque agroterrorista. Quando a Inglaterra combateu esta enfermidade
altamente contagiosa, aproximadamente três milhões e
meio de gado, suínos, carneiros e cabras foram sacrificados,
arruinando muitos fazendeiros. A destruição de
colheitas e ou animais tem impacto econômico não
só para o agricultor e o criador, como para o transportador,
matadouros, distribuidores, etc. Embora estimativas variem, a
epidemia de febre aftosa causou perdas para a indústria de
turismo britânico em pelo menos US$ 5 bilhões.
Acredita-se
que o impacto de uma ação agroterrorista possa ser
muito maior que epidemias naturais, porque estas são
deliberadamente planejadas com a finalidade de promover o caos. Como
a cadeia da produção alimentar é extremamente
complexa e com vários componentes (Figura 1), existem diversos
pontos vulneráveis onde a quebra da cadeia ou sua
contaminação pode ocorrer, dificultando um
diagnóstico a tempo para a remoção dos produtos
contaminados do mercado.
Catástrofes
ocorridas no setor agropecuário exemplificam a complexidade e
fragilidade desta cadeia. Na Bélgica, a
contaminação da ração avícola com
dioxina, uma substância cancerosa, resultou na
condenação para consumo humano dos produtos
avícolas, além de derivados de bovinos e suínos
que se contaminaram na cadeia alimentar. O prejuízo para a
Bélgica foi em torno de US$ 1 bilhão.
Existem
suspeitas de que em 1989 um grupo radical tenha liberado a
"mosca-das-frutas do Mediterrâneo" na
Califórnia para protestar contra o uso de inseticidas,
causando sérios prejuízos financeiros. No Brasil,
há suspeitas de que o inseto bicudo-do-algodoeiro (Anthonomus
grandis) tenha sido introduzido maliciosamente por interesses
comerciais em 1980, visando desestruturar a cotonicultura do país.
Dentre os
vários outros casos atribuídos ao agroterrorismo
pode-se citar: o ocorrido em 1974, quando o grupo radical palestino
"Comando Revolucionário" alegou ter contaminado um
lote de pomelos exportados de Israel para a Itália; em 1978 um
outro grupo palestino, "Conselho Árabe
Revolucionário" atacou pomares de citros em Israel
utilizando mercúrio como agente contaminante. Em 1999 e 2000,
ovos israelenses comercializados no próprio país foram
contaminados com salmonela, causando morte de duas pessoas e
hospitalização de muitas outras.
Durante a
Segunda Guerra Mundial, EUA, URSS, Japão, Inglaterra e
Canadá estudaram vários patógenos e pragas de
animais e plantas com objetivos militares. Dentre estes podemos citar
o antraz, a brucelose, a aftose, a encefalite eqüina, a
ferrugem, o bruzone e vários insetos (Quadro 1). Existem
evidências sugerindo que o Japão usou patógenos
de animais e de plantas contra a URSS durante a Segunda Guerra
Mundial. É possível que o Iraque possua um programa em
atividade. Uma rara doença causou uma epidemia nos campos de
trigo daquele país alguns anos atrás, levantando
suspeita de que ela tenha ocorrido em razão de um acidente e
escape do patógeno dos laboratórios de agroterrorismo.
Em 1972 os
EUA, a União Soviética, a Inglaterra e o Canadá
assinaram a Convenção sobre armas biológicas,
banindo seu uso. Um aspecto crítico do agroterrorismo é
o baixo nível tecnológico e simplicidade dos
equipamentos requeridos para um programa desta natureza. Um
técnico com modesto treinamento em microbiologia em um
laboratório de "fundo de quintal" pode isolar e
multiplicar microorganismos patogênicos. Entretanto, um ataque
eficiente exige maior preparo, e outros passos: a
aquisição, multiplicação e processamento
do agente patogênico, desenvolvimento de um mecanismo de
distribuição e, desenvolvimento de técnicas que
adequem a distribuição às condições
meteorológicas (umidade, temperatura, ventos, etc.) da
região alvo. A maioria dos ataques registrados contra a
agricultura foram pouco sofisticados, envolveram especialmente
materiais químicos e causaram impacto reduzido.
O
professor Aluízio Borém, autor do livro Biotecnologia
Simplificada, atua no Department of Agronomy and Plant Genetics da
University of Minnesota, EUA.
A Dra.
Lúcia de Souza, Ph D, é consultora da ANBio e editora
técnica do Jornal da ANBio. |