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Transgênicos: sociedade precisa de informação para decidir
Entrevista com o presidente da CTNBio, Dr. Esper Cavalheiro

Para o presidente da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), o médico paulista Esper Abrão Cavalheiro, a política nacional de biossegurança deve ser a resultante de amplo debate nacional. Nesta entrevista ao Jornal da ANBio, o Dr. Cavalheiro considera a nossa lei que regula o assunto uma das mais avançadas do mundo. Ele defende um acesso mais fácil da sociedade brasileira às informações científicas sobre biotecnologia e transgênicos para que ela possa entender os diversos aspectos envolvidos e optar de forma consciente. À frente da comissão, o Dr.Esper pretende estimular a participação das organizações ambientalistas em um debate científico e tecnológico de alto nível sobre organismos geneticamente modificados.

O presidente da CTNBio afirma que as organizações ambientalistas têm sido convidadas a participar de todos os eventos realizados pela comissãoJORNAL DA ANBio - O sr. assumiu a presidência da CTNBio há três meses. Quais são os seus planos para uma Política Nacional de Biossegurança?

ESPER CAVALHEIRO - A política nacional de biossegurança deverá ser o resultado de um amplo processo de debate nacional, com todos os segmentos da sociedade brasileira envolvidos nesse processo. A CTNBio vem organizando uma série de eventos com essa finalidade. Os recentes seminários (Código de Ética de Manipulações Genéticas; OGMs: Fatos e Mitos) e inúmeras outras atividades que vem fomentando em colaboração com organizações nacionais e internacionais e entidades representativas da sociedade brasileira, ilustram bem esse esforço. Audiências públicas também estão sendo organizadas com essa finalidade.

JA - Há sete anos (5/1/95) nós temos a nossa lei de biossegurança, a lei nº 8.974. Em dezembro último ela foi alterada por medida provisória. O Brasil já dispõe de instrumentos legais para atuar nesse campo? Ou ainda dependemos de regulamentação?

EC - O processo legislativo é, na prática, sempre dinâmico, pois expressa as mudanças e anseios de uma sociedade em transformação, como a brasileira. Entendemos, no entanto, que a nossa Lei de Biossegurança, uma das mais avançadas do mundo, e os atuais instrumentos legais, inclusive a medida provisória em vigor, asseguram à CTNBio todos os instrumentos legais de que necessita para atuar adequadamente e definem com clareza sua relação com os demais Ministérios e a sociedade. No momento atual, não creio que necessitemos de nova regulamentação.

JA - Nesse contexto legal, como o sr vê a questão da rotulagem de produtos transgênicos? A rotulagem deve ser compulsória ou voluntária? O sr. acredita que os consumidores estão suficientemente informados sobre transgênicos para tomar uma decisão consciente? Como poderiam ser rotulados os produtos trangênicos? Como ficariam os diferentes casos: transgênico é apenas um ingrediente do produto final; transgênico é utilizado para alimentação na pecuária; o transgênico é apenas uma enzima utilizada no processo biológico? O sr. considera uma porcentagem da presença de substâncias geneticamente modificadas no produto final para considerá-lo livre da biotecnologia?

EC - A questão da rotulagem transcende às competências legais da CTNBio, pois envolve questões relacionadas à defesa do consumidor e que dizem respeito portanto ao Código de Defesa do Consumidor. A rotulagem de qualquer produto deve fornecer informações precisas e corretas sobre as características nutricionais e de composição, de modo a assegurar a livre escolha do consumidor. O decreto recente, que dispõe sobre a rotulagem, será um avanço importante, dispondo sobre aspectos relacionados às questões aqui formuladas.

JA - Quanto ao aproveitamento de organismos geneticamente modificados, não estamos defasados, se comparados por exemplo com a Argentina, nossa vizinha?

EC - A CTNBio dá pareceres técnicos sobre experimentos com OGMs. Não compete à comissão opinar sobre decisões de natureza comercial relacionadas à política agrícola, que compete ao Ministério da Agricultura. Tais decisões ministeriais dependem de avaliação de mercado para cada cultivo e exame de cenários futuros, o que escapa à competência da CTNBio

JA - Na sua opinião, por que há tanta resistência aos transgênicos em nosso país? De onde vem esta resistência? Das ações judiciais? De bancadas conservadoras no Congresso? Da mídia? Receio de prejudicar as exportações do país, já que os europeus ainda resistem à nova tecnologia? Ou ainda é a nossa sociedade com medo do novo?

EC - Fatores os mais variados, como os apontados na pergunta formulada, interagem e contribuem para essa resistência. Não creio, no entanto, que a sociedade brasileira tenha medo do novo, pois sempre esteve aberta a se beneficiar das conquistas e dos avanços da ciência e da tecnologia. No meu entender, trata-se de um problema de comunicação: é necessário facilitar o acesso da sociedade brasileira às informações científicas e tecnológicas mais recentes sobre a biotecnologia e sobre transgênicos nas suas mais diversas possíveis aplicações (saúde humana, animal, agricultura e meio ambiente). Esse acesso adequado à informação é condição essencial para que os brasileiros possam entender as diversas questões envolvidas e optar da forma mais consciente possível.

JA - Há uma forte oposição aos transgênicos que parte das organizações de defesa do meio ambiente. Como será a relação da CTNBio com as ONGs ambientalistas? Que instrumentos serão utilizados para promover um bom entendimento com esses grupos?

EC - A CTNBio é uma comissão com 36 representantes de diversos segmentos da sociedade brasileira (comunidade científica, governamentais, empresariais, saúde do consumidor, saúde do trabalhador) que visa, entre outras atribuições, estimular o debate científico e tecnológico de alto nível sobre organismos geneticamente modificados. Com essa perspectiva, tem procurado manter o melhor relacionamento possível com todos os segmentos sociais referidos, incluindo-se aí as organizações de defesa do meio-ambiente, que têm sido convidadas a participar de todos os eventos que organiza. Recebemos na presidência da CTNBio representantes dessas organizações, quando manifestamos nossa intenção de estimular, de todas as formas possíveis, sua participação, por meio de instrumentos diversos, como entre outros, as audiências públicas, o que assegurará o espaço necessário para que essas organizações e especialistas nacionais e internacionais por elas indicados possam se pronunciar. Entendemos que essa abertura contribuirá para elevar o nível do debate científico, que requer necessariamente, para o seu avanço, o exercício do contraditório. Entendemos que esse amplo processo de discussão certamente contribuirá para o trabalho da CTNBio.

JA - Os dossiês técnicos submetidos para registro das indústrias fornecem toda a informação necessária para uma boa decisão? Existe informação científica suficiente para fazer um bom balanço entre os benefícios e riscos que os transgênicos possam trazer?

EC - Esta é uma ótima pergunta, pois permite que deixemos claro o esforço que a CTNBio vem fazendo, com a colaboração dos diversos segmentos empresariais, para que os dossiês técnicos se mantenham no mais alto nível científico. Se porventura ocorrer um processo em que as informações disponíveis não sejam adequadas ou o experimento não atenda ao padrão científico exigido pelos cientistas que integram a CTNBio, de reconhecida competência nacional e internacional, o mesmo sequer chega a ser avaliado pela CTNBio. Estamos também constituindo um corpo de pareceristas 'ad hoc' de diversas instituições de excelência no país e no exterior que vêm colaborando com esse esforço.

JA - Quem carrega a responsabilidade ou o peso da decisão da liberação de transgênicos no país, a Indústria ou o Governo? Os consumidores confiam nas partes envolvidas na decisão?

EC - Como disse anteriormente, essa decisão escapa às competências da CTNBio que dá pareceres técnicos prévios conclusivos na fase do experimento. A decisão da liberação é uma decisão de governo e, no caso específico dos alimentos, uma decisão de política agrícola, na esfera do Ministério da Agricultura. Quanto aos consumidores, como já apontamos, seu posicionamento estará mais fundamentado na medida em que o acesso a informações corretas estiver assegurado, o que certamente contribuirá para aumentar sua confiança nas decisões tomadas por um governo democrático.

JA - Na sua opinião, qual a diferença entre introduzir transgênicos nos alimentos e fazê-los na área de saúde? Há diferença entre introduzir animais ou plantas transgênicas? Deve-se facilitar a regulamentação de farmacêuticos para que, aqueles que estão em grande necessidade possam usufruir da tecnologia o mais rápido possível? Como seriam consideradas as vacinas comestíveis: uma banana que traga imunidade a uma enfermidade estomacal é um produto agrícola ou um produto farmacêutico?

EC - Essa pergunta é importante pois, como médico, julgo que o debate dos transgênicos tende internacionalmente - e o Brasil não foge à regra - a se concentrar na questão dos alimentos, deixando muitas vezes de lado os inúmeros avanços e contribuições que a biotecnologia poderá trazer à saúde humana (e também à saúde animal), como vacinas recombinantes para doenças diversas (doenças infecciosas, como a AIDs) e produtos farmacêuticos, além das chamadas vacinas comestíveis (banana, alface, etc.). Muitos desses produtos ainda estão em diferentes estágios de experimentação, para que possa posteriormente definir, em cada país, sua regulamentação, o que no caso específico das vacinas comestíveis, terá que levar em conta como produto agrícola com propriedades farmacêuticas.


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