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As pesquisas nos laboratórios de Manguinhos
As noções de risco e segurança nos fatos cotidianos

Ao longo de sua existência como instituição destinada a construir um nível de excelência no domínio da microbiologia, a Fundação Oswaldo Cruz acumulou também histórias de heroísmos e de ações voluntárias articuladas no interior dos laboratórios, a partir da iniciativa do próprio cientista diante da investigação de seu objeto, projetando noções daquilo que se constituía risco e não risco, contribuindo para legitimação e reprodução de procedimentos respaldados no amparo teórico dado pelas possibilidades hipotéticas do conhecimento e pelas práticas científicas produzidas no laboratório, consolidando uma mentalidade que ultrapassava os limites da doutrina que sustentava o campo científico, para entrar nos limites da crença na segurança total dos métodos que guiavam as pesquisas dirigidas aos microrganismos.

Inoculação de um cavalo no Instituto Oswaldo Cruz, Manguinhos, em 1909A disposição voluntariosa para o desenvolvimento científico de Manguinhos não reclamava sequer as condições mínimas de segurança para a realização das pesquisas experimentais. Esse desprendimento estava associado ao labor científico. "Nada se podia conceber de mais simples e modesto, mas havia ali o que era absolutamente essencial a qualquer organização científica: um cérebro capaz de dar orientação segura - todo voltado para um nobre ideal - e um grande entusiasmo de todos pelo trabalho e pelas investigações científicas" 1 . Na tentativa de busca da etiologia de doenças, o comportamento dos cientistas tendia a ignorar o fator risco. Nas pesquisas que envolveram a resolução da etiologia da febre amarela, médicos-pesquisadores, adeptos dos métodos microbiológicos, que desejavam negar as noções de contágio direto, dispuseram-se a usar o leito das vítimas, utilizando os lençóis sujos de vômito negro. Adolpho Lutz foi um dos mais notáveis cientistas que se envolveu na resolução etiológica da febre amarela. De sua biografia sobressai-se que esse cientista, "com admirável desprendimento reuniu-se a um pugilo de homens que se submeteram, com risco da própria vida, a experiências sobre a transmissão da febre amarela no Hospital de Isolamento de São Paulo e que tanta repercussão tiveram em todo mundo. Isso ocorreu em janeiro de 1903; grassava a febre amarela em São Simião, interior de São Paulo; Adolpho Lutz, Emílio Ribas, Pereira Barreto, Silva Rodrigues e Adriano de Barros submeteram-se, com outros pacientes, às picadas dos mosquitos procedentes da zona infestada. O mal foi transmitido a três pessoas e pela primeira vez, foram confirmadas as experiências norte americanas de Havana"2 . Em torno do Dr. Adolpho Lutz, existem inúmeros relatos, alguns documentados, outros apenas registrados pela memória transmitida oralmente, de suas experiências onde seu próprio corpo era exposto para garantir a pertinência de suas hipóteses. "Do trabalho ankylostoma duodenale e ankylostomiase, publicado no Brasil Médico de 1887 e 1888 transcrevemos: "Também notou (Grassi) que um ankylostomo, transportado para o espaço lábio gengival, dele mesmo, se agarrou à mucosa e que depois de destacado, apareceu no lugar um ponto vermelho. Repeti essa experiência, com o mesmo resultado, mas não consegui fazê-lo agarrar-se outra vez depois de destacado. Na falta de outros exemplares vivos, não me foi possível avaliar a quantidade de sangue chupado, o que seria muito interessante" 3 . Também em Lutz, relata-se, que em viagem ao Nordeste, encontrando larvas que desejava transportar para o seu laboratório em Manguinhos, e temendo perdê-las por não encontrar o meio apropriado para trazê-las para o Rio de Janeiro, colocou-as em minúsculos frascos e os engoliu, garantindo assim a sobrevivência desses organismos na temperatura ideal de seu próprio corpo4 .

Nesse universo "heróico", Gaspar Vianna tornou-se quase que a de um mártir do trabalho científico. Estudante notável da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, e logo após pesquisador respeitado pela comunidade científica de Manguinhos, onde ingressou a convite de Oswaldo Cruz, Vianna em muito pouco tempo desenvolveu pesquisas relevantes, entre elas a do tratamento da leishmaniose visceral utilizando o tártaro emético. Gaspar Vianna morreu em conseqüência de uma contaminação adquirida durante uma autópsia que realizava em um cadáver de um tuberculoso.

Henrique de Beaurepaire Aragão relatou que: "Aliás, as doenças e os acidentes estão um pouco fora das cogitações dos homens que trabalham nos laboratórios de pesquisas. Nós mesmos, em Manguinhos, não temos sido poupados; infeções bacterianas perigosas, maleitas graves adquiridas nos ínvios sertões, a tripanossomíase insidiosa, espiroquetose tenazes, dizimadoras tuberculoses, todos esses ferozes sequazes da parca cruel, tem por vezes se abatido sobre nós, indistintamente entre nós técnicos e seus dedicados e preciosos auxiliares, levando alguns e reduzindo a capacidade de trabalho de outros (...)" 5 . Em 1919, Marques da Cunha e Otávio de Magalhães, convencidos da imunidade de que o Haemophilus influenzae, o bacilo de Pfeifer não tinha papel importante na etiologia da gripe, se auto-inocularam. Os dois voluntários não apresentaram nenhum sinal de gripe. Tal registro foi acompanhado da seguinte nota: "a cultura inoculada havia sido antes bem estudada de modo a ter garantida sua identificação". Para Octávio de Magalhães, a decisão pela auto-inoculação estava além das possibilidades hipotéticas. Segundo o próprio cientista, ao contestar Pfeiffer, escreveu: "Acentuo bem estes fatos, porque Ezequiel Dias não comunga, infelizmente, no nosso credo, e aplaude com fervor o Pfeiffer como agente etiológico da influenza pandêmica". 6

Essas concepções quase heróicas, atribuídas a natureza do trabalho científico, não moldavam somente as atividades exercidas no laboratório, configuravam uma visão sobre o mundo e sobre a vida, articuladas a partir das especificidades desse trabalho, tendo como referencial e parâmetro os fenômenos criados e observados nos laboratórios.

A professora Marli Albuquerque é doutora em História da Ciência

1 Aragão, Henrique de Beaurepaire. Notícia Histórica sobre a Fundação do Instituto Osweldo Cruz. Separata das "Memórias do Instituto Oswaldo Cruz" - Tomo 48 - 1950. Serviço Gráfico do IBGE, RJ, 9

2 Adolpho Lutz - 1855-1940. In Memórias do Instituto Oswaldo Cruz. Ano 1941, Tomo 36, fasc. 1. Rio de Janeiro, IN, 1941. P. 5

3 citado por Ferreira, Luiz Fernando. Novas Chronicas de Manguinhos, Rio de Janeiro, 1992, p. 31

4 relatado por Luís Fernando Ferreira em entrevista em março de 1996

5 Aragão, Henrique de Beaurepaire. Oswaldo Cruz e a Escola de Manguinhos. Rio de Janeiro, Serviço Gráfico do IBGE, 1950, p. 29

6 Fonseca Filho, Olympio da. A Escola de Manguinhos. Separata do Tomo II de "Oswaldo Cruz Monumenta Histórica". São Paulo, 1974

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