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As
pesquisas nos laboratórios de Manguinhos
As
noções de risco e segurança nos fatos cotidianos |
Ao longo
de sua existência como instituição destinada a
construir um nível de excelência no domínio da
microbiologia, a Fundação Oswaldo Cruz acumulou
também histórias de heroísmos e de
ações voluntárias articuladas no interior dos
laboratórios, a partir da iniciativa do próprio
cientista diante da investigação de seu objeto,
projetando noções daquilo que se constituía
risco e não risco, contribuindo para legitimação
e reprodução de procedimentos respaldados no amparo
teórico dado pelas possibilidades hipotéticas do
conhecimento e pelas práticas científicas produzidas no
laboratório, consolidando uma mentalidade que ultrapassava os
limites da doutrina que sustentava o campo científico, para
entrar nos limites da crença na segurança total dos
métodos que guiavam as pesquisas dirigidas aos microrganismos.
A
disposição voluntariosa para o desenvolvimento
científico de Manguinhos não reclamava sequer as
condições mínimas de segurança para a
realização das pesquisas experimentais. Esse
desprendimento estava associado ao labor científico. "Nada
se podia conceber de mais simples e modesto, mas havia ali o que era
absolutamente essencial a qualquer organização
científica: um cérebro capaz de dar
orientação segura - todo voltado para um nobre ideal -
e um grande entusiasmo de todos pelo trabalho e pelas
investigações científicas" 1 . Na tentativa
de busca da etiologia de doenças, o comportamento dos
cientistas tendia a ignorar o fator risco. Nas pesquisas que
envolveram a resolução da etiologia da febre amarela,
médicos-pesquisadores, adeptos dos métodos
microbiológicos, que desejavam negar as noções
de contágio direto, dispuseram-se a usar o leito das
vítimas, utilizando os lençóis sujos de
vômito negro. Adolpho Lutz foi um dos mais notáveis
cientistas que se envolveu na resolução
etiológica da febre amarela. De sua biografia sobressai-se que
esse cientista, "com admirável desprendimento reuniu-se a
um pugilo de homens que se submeteram, com risco da própria
vida, a experiências sobre a transmissão da febre
amarela no Hospital de Isolamento de São Paulo e que tanta
repercussão tiveram em todo mundo. Isso ocorreu em janeiro de
1903; grassava a febre amarela em São Simião, interior
de São Paulo; Adolpho Lutz, Emílio Ribas, Pereira
Barreto, Silva Rodrigues e Adriano de Barros submeteram-se, com
outros pacientes, às picadas dos mosquitos procedentes da zona
infestada. O mal foi transmitido a três pessoas e pela primeira
vez, foram confirmadas as experiências norte americanas de
Havana"2 . Em torno do Dr. Adolpho Lutz, existem inúmeros
relatos, alguns documentados, outros apenas registrados pela
memória transmitida oralmente, de suas experiências onde
seu próprio corpo era exposto para garantir a pertinência
de suas hipóteses. "Do trabalho ankylostoma duodenale e
ankylostomiase, publicado no Brasil Médico de 1887 e 1888
transcrevemos: "Também notou (Grassi) que um ankylostomo,
transportado para o espaço lábio gengival, dele mesmo,
se agarrou à mucosa e que depois de destacado, apareceu no
lugar um ponto vermelho. Repeti essa experiência, com o mesmo
resultado, mas não consegui fazê-lo agarrar-se outra vez
depois de destacado. Na falta de outros exemplares vivos, não
me foi possível avaliar a quantidade de sangue chupado, o que
seria muito interessante" 3 . Também em Lutz, relata-se,
que em viagem ao Nordeste, encontrando larvas que desejava
transportar para o seu laboratório em Manguinhos, e temendo
perdê-las por não encontrar o meio apropriado para
trazê-las para o Rio de Janeiro, colocou-as em minúsculos
frascos e os engoliu, garantindo assim a sobrevivência desses
organismos na temperatura ideal de seu próprio corpo4 .
Nesse universo
"heróico", Gaspar Vianna tornou-se quase que a de um
mártir do trabalho científico. Estudante notável
da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, e logo após
pesquisador respeitado pela comunidade científica de
Manguinhos, onde ingressou a convite de Oswaldo Cruz, Vianna em muito
pouco tempo desenvolveu pesquisas relevantes, entre elas a do
tratamento da leishmaniose visceral utilizando o tártaro
emético. Gaspar Vianna morreu em conseqüência de
uma contaminação adquirida durante uma autópsia
que realizava em um cadáver de um tuberculoso.
Henrique de
Beaurepaire Aragão relatou que: "Aliás, as
doenças e os acidentes estão um pouco fora das
cogitações dos homens que trabalham nos
laboratórios de pesquisas. Nós mesmos, em Manguinhos,
não temos sido poupados; infeções bacterianas
perigosas, maleitas graves adquiridas nos ínvios
sertões, a tripanossomíase insidiosa, espiroquetose
tenazes, dizimadoras tuberculoses, todos esses ferozes sequazes da
parca cruel, tem por vezes se abatido sobre nós,
indistintamente entre nós técnicos e seus dedicados e
preciosos auxiliares, levando alguns e reduzindo a capacidade de
trabalho de outros (...)" 5 . Em 1919, Marques da Cunha e
Otávio de Magalhães, convencidos da imunidade de que o
Haemophilus influenzae, o bacilo de Pfeifer não tinha papel
importante na etiologia da gripe, se auto-inocularam. Os dois
voluntários não apresentaram nenhum sinal de gripe. Tal
registro foi acompanhado da seguinte nota: "a cultura inoculada
havia sido antes bem estudada de modo a ter garantida sua
identificação". Para Octávio de
Magalhães, a decisão pela auto-inoculação
estava além das possibilidades hipotéticas. Segundo o
próprio cientista, ao contestar Pfeiffer, escreveu:
"Acentuo bem estes fatos, porque Ezequiel Dias não
comunga, infelizmente, no nosso credo, e aplaude com fervor o
Pfeiffer como agente etiológico da influenza
pandêmica". 6
Essas
concepções quase heróicas, atribuídas a
natureza do trabalho científico, não moldavam somente
as atividades exercidas no laboratório, configuravam uma
visão sobre o mundo e sobre a vida, articuladas a partir das
especificidades desse trabalho, tendo como referencial e
parâmetro os fenômenos criados e observados nos laboratórios.
A
professora Marli Albuquerque é doutora em História da Ciência
1
Aragão, Henrique de Beaurepaire. Notícia
Histórica sobre a Fundação do Instituto Osweldo
Cruz. Separata das "Memórias do Instituto Oswaldo
Cruz" - Tomo 48 - 1950. Serviço Gráfico do IBGE,
RJ, 9
2 Adolpho Lutz
- 1855-1940. In Memórias do Instituto Oswaldo Cruz. Ano 1941,
Tomo 36, fasc. 1. Rio de Janeiro, IN, 1941. P. 5
3 citado por
Ferreira, Luiz Fernando. Novas Chronicas de Manguinhos, Rio de
Janeiro, 1992, p. 31
4 relatado por
Luís Fernando Ferreira em entrevista em março de 1996
5
Aragão, Henrique de Beaurepaire. Oswaldo Cruz e a Escola de
Manguinhos. Rio de Janeiro, Serviço Gráfico do IBGE,
1950, p. 29
6 Fonseca
Filho, Olympio da. A Escola de Manguinhos. Separata do Tomo II de
"Oswaldo Cruz Monumenta Histórica". São
Paulo, 1974
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