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A teoria crítica do conhecimento da Biologia processou uma nova contribuição a partir dos anos oitenta, quando dois biólogos chilenos, Humberto Maturana e Francisco Varela, introduzem nos estudos das Ciências Biológicas a noção de autopoiesis. Estes cientistas estavam voltados para revelar proximidades e elos mais nítidos entre os princípios da ciência moderna e a filosofia, retomando uma questão histórica e basilar da ciência e da filosofia, centrada na definição da função e dinâmica da natureza, retomando a questão fundamental do homem, ou seja: o que é vida?

Utilizando-se dos conhecimentos adquiridos através de pesquisas neurofisiológicas, os biólogos formularam que um sistema vivo apresenta no seu circuito interno uma interação fechada de seus elementos constituintes, possibilitando auto-organização e a auto-produção dos mesmos elementos que constituem este sistema. Estas dinâmicas produzem a autonomia do sistema, sem que haja inter-relações diretas com os demais sistemas. Esta particularidade do sistema representa uma diferenciação, alcançando a idéia de identidade/não identidade que estabelece os limites entre sistema e seu ambiente, ou seja, a especificidade daquilo que está fora e a peculiaridade daquilo que está dentro do sistema.

Organismo e meio desencadeiam mutuamente mudanças estruturais sob as quais permanecem reciprocamente congruentes, de modo que cada um flui no encontro do outro seguindo as dimensões em que conservam sua organização e adaptação, caso contrário, o organismo morre. Finalmente, isso ocorre espontaneamente, sem nenhum esforço dos participantes, como resultado do determinismo estrutural na dinâmica sistêmica que se constitui no encontro organismo-meio. Em conseqüência disto, enquanto estou vivo e até que eu morra, vivo em interações recorrentes com o meio, sob condições nas quais o meio e eu mudamos de maneira congruente. (...) Organismo e meio vão mudando juntos de maneira congruente ao longo da vida do organismo1.

O sistema interage com o ambiente, criando, estabelecendo e mantendo um processo de acoplamento, operando decodificação das informações vindas do ambiente, efetuadas mediante a utilização de suas próprias interações internas, circularmente organizadas em resposta as mensagens externas.

Historicamente, cientistas envolvidos nas pesquisas que investigam as propriedades fundamentais e essenciais para produção da vida, inspirados na auto-organização expressaram esta propriedade como sendo a força da vida, ou a pressão da vida, afirmando que a complicação, tanto quanto a organização, abaixo de certo nível mínimo, é degenerativa e acima deste nível pode tornar-se auto-suficiente e mesmo em desenvolvimento2 . Segundo, o biólogo, J.D. Bernal, a própria circulação biótica, o acoplamento dos processos metabólicos e de decomposição estão na origem da vida ou, como diz Kamshilov em sua fórmula paradoxal: A vida vem a ser antes da existência dos organismos vivos3.

Em termos da escolha dos caminhos para se compreender a dinâmica e o processamento da vida, algumas análises críticas dirigidas ao paradigma da fragmentação acentuam que a natureza não é somente um conjunto de corpos, não é somente um conjunto de fenômenos provocados pelas relações previsíveis de causa e efeito. Não é tampouco o espaço natural dotado de potencial econômico que expressa características de um determinado território. A natureza, não está segmentada em fronteiras rígidas onde campos de conhecimentos distintos atuam para construir compreensões apenas de suas funções. A dinâmica da natureza se processa em transformações, oferecendo constantemente novas sínteses, produzindo ressintetizações e recambiações, cuja compreensão, exige à concorrência de estudos interligados de vários campos de conhecimento, não excluindo os saberes produzidos pelas ciências humanas, uma vez que, todas as dimensões das atividades humanas, integram e interferem de maneira importante nos processos transformadores da vida, e é neste contexto interdisciplinar que a Biossegurança elabora seu campo de reflexão para construir análises e ações, em especial, junto às problemáticas que associam risco e ambiente.

1 Maturana, Humberto. Emoções e Linguagem na Educação e na Política. Belo Horizonte, Editora UFMG, 2001. p. 62

2 Von Neumann. Citado por Lucien Sfez, p. 207

3 Bernal e Kamshilov. Citados por Lucien Sfez. P. 207

Marli Albuquerque é doutora em História da Ciência


Modificações genéticas nas plantas cultivadas vem ocorrendo desde o início da agricultura há cerca de 10.000 anos, de tal sorte que freqüentemente é difícil identificar os ancestrais silvestres. A partir de 1900, com a redescoberta das leis básicas da Genética, descobertas 30 anos antes pelo monge Gregório Mendel e os subseqüentes progressos científicos, inúmeras técnicas de manipulação genética foram desenvolvidas, resultando na obtenção de plantas melhoradas com reais benefícios para a sociedade. A descoberta da estrutura do material genético, o DNA em 1953, e a decifração do código genético que é universal, isto é, é idêntico para todos os seres vivos, tornou possível desenvolver a técnica do DNA recombinante para a obtenção de plantas transgênicas, dando início à moderna Biotecnologia.

Plantas transgênicas têm sido obtidas com as mais diversas características, inclusive produtoras de vacinas e de hormônio de crescimento humano. As mais empregadas até o momento são resistentes a pragas, a enfermidades e a herbicidas, o que reduz consideravelmente o emprego de agroquímicos. Em razão das evidentes vantagens, o cultivo de transgênicos no mundo, vem crescendo anualmente atingindo cerca de 60 milhões de hectares, sendo que a soja resistente a herbicida já é superior a 50% da área cultivada. A Argentina com sua significativa participação no cultivo de transgênicos, em especial soja e milho, reduziu o consumo anual de agroquímicos em 500 milhões de dólares. De especial significado é a China, uma referência nessa área. Tratando-se de um país comunista, é expressivo que o cultivo do algodão Bt (gene da bactéria Bacillus thuringiensis) resistente a lagartas, cresce continuamente, existindo cerca de cinco milhões de pequenos agricultores dedicando-se ao seu cultivo, com os seguintes resultados: diminuição de uso de inseticidas, drástica redução de intoxicações, menor consumo de óleo diesel, aumento de produtividade, redução de tempo de trabalho e renda média por hectare de US$ 332,00 enquanto o cultivo de algodão não Bt significou um prejuízo de US$ 138,00 (em ambos os casos foi computado o valor das horas de trabalho). A China conta com um dos mais ativos programas de biotecnologia envolvendo dezenas de espécies resistentes a vírus, a insetos, a enfermidades, a herbicidas, ao frio, a solos ácidos, incluindo, ainda, a obtenção de melhores qualidades nutricionais.

O que está em discussão no momento, é a soja resistente ao herbicida glifosato. A CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biosegurança), ao emitir em 1998 parecer favorável à sua comercialização, estabeleceu, como medida de precaução, um monitoramento por cinco anos para verificar eventuais, embora não previsíveis, danos ao meio ambiente. O projeto aprovado pela CTNBio aguarda apenas a devida legalização para ser implementado. Deve-se lembrar, ainda, que a patente do herbicida glifosato expirou ha vários anos existindo cerca de uma dezena de empresas brasileiras fabricando o insumo. Quanto à semente, a Embrapa conta com dezenas de variedades adaptadas às várias regiões do País, nas quais o gene de resistência ao glifosato foi transferido pelo método convencional do retrocruzamento.

A intensa campanha contra os transgênicos tem procurado convencer a sociedade de possíveis riscos hipotéticos à saúde humana e animal e ao meio ambiente. Com o passar do tempo, entretanto, o uso crescente dessa tecnologia mostrou que os seus produtos são tão ou mais seguros para a saúde do que os correspondentes convencionais, sendo ainda mais protetores do meio ambiente. É assim difícil entender porque instituições dedicadas à proteção do meio ambiente lutam tenazmente pela proibição dos transgênicos, favorecendo, por outro lado, o uso continuado de pesticidas. Na ausência de fatos negativos e de argumentos racionais, a campanha passa a usar o "princípio da precaução" que exige certeza científica de ausência de risco. Como risco igual a zero não existe, e dificilmente se consegue identificar uma atividade humana sem risco, o emprego radical do princípio em questão só pode ser entendido como um pretexto para impedir ou retardar o máximo possível, a adoção dos transgênicos. Mas, será que o princípio da precaução é isento de riscos? A história mostra que não e, mais ainda, os riscos decorrentes do princípio da precaução normalmente causam danos irrecuperáveis e irreversíveis. Os milhares de mortes pela varíola nos sessenta anos de proibição da vacina e a guerra da vacina no Rio de Janeiro no início do século passado são apenas alguns exemplos.

Quando eventualmente a soja transgênica for aprovada, os seguintes danos decorrentes da proibição poderão ser identificados: ausência das informações resultantes do monitoramento, impossibilidade de retirar do meio ambiente as quantidades adicionais de herbicidas usadas no cultivo da soja convencional, bem como os gastos efetuados pelos agricultores, o atraso tecnológico do País, entre outros. Ora, se o princípio da precaução tem a sua própria natureza de elevados níveis de risco, a sua adoção não pode ser radical e unilateral, com total desprezo dos fatos e informações técnico-científicas. A ciência utiliza metodicamente o princípio da precaução, avaliando os possíveis riscos decorrentes das inovações, estabelecendo normas adequadas de segurança, o que tem contribuído para uma crescente melhoria da qualidade de vida.

Finalmente, o atual Governo deveria considerar que o Brasil deu recentemente a mais eloqüente demonstração do fracasso do princípio da precaução, quando a "Esperança venceu o Medo" elegendo o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Além disso, muitos dos milhares de eleitores que, pelo princípio da precaução, deixaram de votar no Presidente, pelo menos por enquanto, votariam em seu nome sem medo.

Ernesto Paterniani é Professor Titular de Genética (ESAQ/USP), Membro da CTNBio (1996 - 2001), Membro da Academia de Ciências do Estado de São Paulo, da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Terceiro Mundo.

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