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O
debate entre o campo de conhecimento da História Natural,
defendido por Pouchet e o campo de conhecimento da Biologia, onde
Pasteur iria buscar seus recursos teóricos e práticos,
tinha como pano de fundo, questões ideológicas que,
grosso modo, implicavam nos entrecruzamentos amplos e complexos da
pergunta que se colocaria, não diretamente para o
domínio da teologia ou para o domínio da filosofia, mas
para o campo da experimentação científica: qual
é o princípio original da vida?
Mais
especificamente, Pasteur iria formular a pergunta derradeira,
tentado a golpear definitivamente o quadro teórico da
geração espontânea, idéia bem estabelecida
desde da antiguidade, segundo a qual os seres vivos nasciam
espontaneamente de minérios ou de organismos em
decomposição. Sua questão limite seria: O que
separa o inerte do vivo?
Ao
realizar experiências contando com o auxílio e os
recursos oferecidos pelo laboratório, Pasteur demonstra que os
seres microscópios são cultiváveis, e de posse
desse argumento, o laboratório impõe a revisão
da teoria da geração espontânea.
Embora
tenha sido acatado formalmente pela academia de ciências como
vencedor, Pasteur não é o detentor da verdade absoluta.
É importante acentuar aquilo que nos diz Claude
Chrétien:
Daquilo
que o futuro dará razão a Pasteur, não vamos
deduzir que ele só se curva ante a evidência dos fatos e
a sanção do real. Não cedamos à
ilusão retrospectiva que Bergson chamou de "movimento
retrógrado do verdadeiro: este erro que vicia nossa
concepção do passado" (Henri Bergson. La
pensée et le mouvant. PUF. P. 1264) rescrevendo o que foi
à luz do que é e fixando para os acontecimentos um
curso "lógico" que bem poderia ter se desenrolado de
um outro modo. Se os fatos deram razão a Pasteur, é
porque eles não estavam sozinhos na balança; elementos
sociológicos já serviam de contrapeso para todas as
provas acumuladas por Pouchet.1
Um
desses elementos sociológicos presentes na teoria de Pouchet
sugeria que a geração de um organismo se dava a partir
de um tronco dissemelhante, formulando para a teoria uma visão
baseada na heterogenia, visão esta que comportava a desordem
no interior da perfeita ordem biológica.
A
orientação mais segura para se avaliar a polêmica
entre Pasteur e Pouchet deve estar no campo da
percepção histórica, visto que, a
controvérsia entre esses dois homens de ciência em torno
da geração espontânea perpassa o espírito
da época, cujo plano de fundo estava situado no impacto
provocado pela teoria de Darwin no que diz respeito aos argumentos
colocados em favor da teoria da evolução, teoria que
contribuía para a validação das teses anticriacionistas.
Pasteur
utiliza suas experiências também para provar que as
fermentações resultam de agentes biológicos, e
não de reações químicas, havendo portanto
uma correspondência entre as fermentações e os
fermentos específicos, sendo as doenças tidas como
acidentes provocados por fermentos não correlativos que
afetavam a ação do fermento normal.
Pasteur
também iria abraçar um significativo debate com
Liebig, mentor da química que dominou o século XIX,
demonstrando que aquilo que Liebig atribuía à
degradação como fenômeno explicativo da morte,
não era mais do que fenômenos correlativos da vida.
A
conclusão de tais debates resultaria na
substituição dos conceitos construídos sobre a
reprodução da vida. Aquilo que a química de
Liebig chamava de fermentação por
degradação da matéria orgânica, Pasteur
chamou de cultura de fermentos em meios adequados, e aquilo que
Pouchet atribuía à geração
espontânea, Pasteur atribuiu à contaminação
acidental de um meio puro2.
Enfim,
o laboratório sairia vitorioso, fortalecido e
institucionalizado. Balões, provetas e cubas foram armas
escolhidas para decidir a controvérsia. O laboratório
retirou do mundo natural, bacilos, germes, parasitas, insetos,
vírus, etc, para introduzi-los no mundo social, político
e econômico, mundos associados ao laboratório como
exigência postulada pela modernidade.
No
plano da construção da doutrina científica,
podemos admitir que um dos grandes saltos de Pasteur foi o ato de
subverter as relações daquilo que estava situado no
interior e no exterior do laboratório, estabelecendo no mundo
exterior a continuação da lógica de
observação criada no laboratório, procurando
evidenciar que esta inversão poderia modificar o olhar sobre a
cadeia de fenômenos verificados na natureza. Era início
da prática da manipulação da vida e de seus
fenômenos através do arsenal disponível no
laboratório. Dos tempos de Pasteur até os nossos
projetos científicos, não há dúvida: a
vida foi ampliada. Mas esta amplitude não estava ainda
reservada à ciência biológica, pois a Biologia
não estabelecia com as ciências humanas um vínculo
claro. A Biologia mantinha-se fiel às ligações
necessárias com o universo físico-químico.
Deste
modo, a Biologia estava cingida ao biologismo, isto é, a uma
concepção de vida fechada sobre o organismo, como a
antropologia se cingia ao antropologismo, isto é, a uma
concepção insular do homem. Cada uma delas parecia
referir-se a uma substância própria, original. A vida
parecia ignorar a matéria físico-química, a
sociedade, os fenômenos superiores. O homem parecia ignorar a
vida. Portanto o mundo parecia constituído por três
estratos sobrepostos, mas não comunicantes: Homem-Cultura/
Vida-Natureza/ Física-Química.3
De
Pasteur aos nossos dias, a busca do conhecimento dos mecanismos de
reprodução da vida permanece. Esta busca não se
restringe apenas às respostas e hipóteses que o
laboratório pode oferecer, ela está interligada com as
questões existenciais do homem. De onde viemos? Somos produto
de combinações químicas ou fomos criados? O
universo existe por existir ou foi uma obra de criação?
Se foi criado, quem o criou?
Abrimos
um parêntese para mostrar que Jacques Monod, utiliza a
expressão omme vivum -ex ovo4 (todo ser vivo veio de um ovo),
para abordar a complexidade contida no código genético.
Não seria impertinente, assinalarmos que a imagem do ovo
está associado a vários simbolismos religiosos para
designar a alma do homem. No universo simbólico contemplado
pelas religiões, a vida é a expressão da alma,
é a energia viva que anima os corpos, que os sensibiliza. Para
a ciência, assim como para as traduções
simbólicas da vida, o ovo é o princípio de tudo.
Ao
se considerar a complexidade dos mecanismos da vida situado na
célula bacteriana, os pensadores da ciência, se
preocuparam em retirar desse sistema vivo a denominação
de primitivo. Hoje, considera-se que as estruturas de pensamento
elaboradas para explicar a vida devem estar calcadas numa perspectiva
ampla, interligada e contextualizada com a natureza como um todo a
fim de esvaziar o conteúdo ideológico que estabelece, a
priori, a partir da noção unicamente humana, daquilo
que é complexo e avançado e aquilo que é
primitivo e simplificado.
A
ciência descobriu que o plano químico das células
bacterianas é o mesmo de todos os outros seres vivos. Esta
célula utiliza, tal como acontece com os seres humanos, de seu
código genético e mecanismos de tradução
para se reproduzir.
Essa
percepção da vida, não ocorreu sem a
participação de novos campos de conhecimento abertos,
tais como, a teoria da informação organizada por
Shannon em 1949, a cibernética proposta por Wiener em 1948,
cuja perspectiva teórica alcançava simultaneamente
às máquinas artificiais, os organismos
biológicos, os fenômenos psicológicos e
sociológicos. Um pouco mais tarde, em 1953, o esforço
marginal da biologia molecular consegue realizar a brecha decisiva
(...), pela descoberta da estrutura química do código
genético (Watson e Crick)5.
Edgar
Morin, explica que essa nova revolução biológica
está envolta numa complexidade, cujos efeitos ainda sentimos
hoje intensamente. Tal complexidade está situada no ato de
abertura da biologia para baixo, ou seja, para a sua
relação indispensável com as estruturas físicos-químicas.
Mas
essa abertura para baixo favoreceu ao mesmo tempo uma abertura para
cima. Ao contrário do que se previa, ou seja, que a biologia
tenderia a se fechar cada vez mais em torno dos fenômenos
químicos/físicos a partir da descoberta do código
genético, essa descoberta construiu brechas significativas
para a formulação de uma noção mais
integrada da vida, visto que, ela substituiu a idéia de
matéria viva, pela idéia de sistemas vivos, criando
vínculos com a linguagem proposta pela teoria ecológica,
que desde de 1873, com Haeckel vinha abordando das
relações entre os organismos e o meio em que vivem,
embora restrita nessa época aos modelos geoclimáticos,
com tendências, ora lamarckiana ao valorizar o aspecto
formativo, ora darwiniano, valorizando o aspecto seletivo.
As
teorias sustentadas pela visão ecológica consideram a
permanência de um notável estado de equilíbrio
químico e termodinâmico capaz de manter uma enorme
variedade de processos, além de regular o meio ambiente a fim
de preservar as condições necessárias para a
evolução da vida, observando que toda matéria
viva da Terra, juntamente com os oceanos, o solo, os mares, a
atmosfera, consolidam um sistema complexo, onde estão
presentes as premissas da auto-organização, regulada
por uma intrincada rede, fazendo com que a Terra seja, em sua
totalidade, um sistema vivo e como tal extremamente flexível.
Um
dos elementos mais fascinante da visão ecológica,
aponta para os processos de organização e de
desorganização constantes, partindo do princípio
de que os organismos vivos são sistemas auto-organizadores que
exibem um altíssimo grau de estabilidade e de
flutuações contínuas, múltiplas e
interdependentes. A flexibilidade dos sistemas depende de quantas das
suas variáveis se mantêm flutuando dentro dos limites de tolerância.
Além
de organização, a vida, identificada na célula,
passa a ser também informação. A nova biologia
também teve de recorrer a princípios de
organização que eram desconhecidos da química,
quer dizer, às noções de
informação, de código, de mensagem, de programa,
de comunicação, de inibição, de
repressão, de expressão, de controle. Todas estas
noções têm um caráter cibernético,
na medida em que identificam a célula com uma máquina
autocomandada e controlada informacionalmente 6.
Em
meio às questões abordadas pela teoria ecológica
e posteriormente pela teoria da vida codificada, surgiu a
complexidade colocada pela visão de sistema, entendido como
conjuntos de interações, de interdependências, de
acasos e incertezas, mas ao mesmo tempo, carregada de
organização e de controle, de códigos
reguladores da continuidade, favorecendo a idéia de que a vida
é ao mesmo tempo caos e cosmos, desorganização e
organização, de redes solidárias e não
solidárias em direção ao estabelecimento de uma
só vontade: viver enquanto indivíduo e permanecer,
enquanto espécie.
A
partir desses elementos teóricos, constatamos a
tendência para uma outra visão cultural que vem sendo,
desde então, abraçada pelas ciências que
investigam a vida. A visão que minimiza a complexidade plena
da vida a partir da pré-noção de que está
no homem a superioridade que expressa o mundo vivo têm sido
substituída por uma visão mais integrada da
percepção que entende o homem e todas as outras
existências como relacionados e dimensionados numa mesma natureza.
Este
enfoque baseado nas teorias que fundamentam novas
noções sobre os fenômenos da vida, tornaram-se
fundamentais para a reavaliação das questões que
implicam na elaboração de uma outra ótica das
relações homem-natureza, ciência-sociedade,
ganhos e perdas, risco-preservação, a partir, sobretudo
da renovação do quadro mental que estabelece tais
debates, onde os parâmetros éticos constituem o ponto de
partida.
A
compreensão dos elementos históricos e culturais que
moldam concepções e valores sobre o que é a vida
tornaram-se indispensáveis como procedimentos de análise
no enfoque das questões relacionadas aos riscos e a
produção de segurança nos processos
científicos que envolvem a manipulação e a
utilização do universo natural.
Para
além dos quadros cognitivos dirigidos à
concepção de uma nova racionalização do
trabalho científico que envolve o risco, manifesto ou
potencial, está a questão base, ou seja, a que
está relacionada com percepções ancoradas no
campo ético, através do qual, a ciência e a
sociedade devem construir e manter um elo constante como
tradução da necessidade de se estabelecer os
parâmetros entre aquilo que a sociedade deseja e aquilo que a
ciência oferece como benefício à humanidade.
1
Chrétien, Claude. A ciência em ação.
Mitos e Limites. Papirus, Campinas, São Paulo.
2
Latour, Bruno. Pasteur, une science, um style, um siècle.
Perrin, Iºnstitut Pasteur, Paris
3
Morin, Edgar. O paradigma perdido; a natureza humana.
Publicações Europa-América. Lisboa
4
MONOD, Jacques. Le Hasard Et La Nécessité. Poinst,
Seuil, Paris, p. 181-182.
5
Morin, Edgar. Op.Cit. p. 20.
6
Morin, Edgar. Op.Cit. p. 21.
Marli
Albuquerque é doutora em História da Ciência |