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O Protocolo de Cartagena -
Considerações para a segurança ambiental

A Biotecnologia moderna, além dos benefícios atuais em áreas diversas, como Saúde Animal e Humana, Processamento de Alimentos, Gerenciamento Ambiental e Tecnologia Agrícola, tem um enorme potencial para melhorar a vida e bem estar das pessoas. As avaliações de risco ambiental são fundamentais no desenvolvimento dos Organismos Geneticamente Modificados (OGMs). É essencial determinar a probabilidade de tais riscos se converterem em fatores que possam ocasionar danos ao ambiente, e tomar as decisões e medidas necessárias para evitá-los. Por isso, avaliação de biossegurança é considerada de forma proeminente em todos os sistemas que regulam esta tecnologia. O Protocolo Internacional de Biossegurança ou Protocolo de Cartagena (www.biodiv.org/biosafety/) busca proteger a diversidade biológica de possíveis riscos que possam ocorrer devido a Organismos Geneticamente Modificados Vivos (OGMVs), levando em consideração riscos à saúde humana. Objetiva obter um nível seguro de proteção para o Movimento transfronteiro, Trânsito, Manipulação e Utilização de OGMs, concordando com o enfoque de precaução contido no princípio 15 da Declaração do Rio, Ambiente e Desenvolvimento (World Summit, Rio de Janeiro, Brasil, 1992) e uns 20 outros tratados, protocolos e declarações internacionais. Estabelece um acordo de procedimento de informação Advance Informed Agreement (AIA) para que países tenham acesso aos dados necessários para tomar decisões sábias antes da liberação desses organismos no seu território. Implanta o Biosafety Clearing-House para facilitar o intercâmbio de experiência e informação científica, técnica, ambiental e legal sobre OGMVs entre os países. Entrará em vigor após a ratificação do 50º país, previsto para 2003 (www.biodiv.org/biosafety/signinglist.asp?sts=rtf&ord=dt). O Comitê Intergovernamental do Protocolo de Cartagena não deixou claro como as partes devem implementar o Protocolo de maneira a alcançar os seus objetivos sem ao mesmo tempo prejudicar desnecessariamente o comércio internacional, e muita discussão ocorre também neste aspecto. Entre os riscos potenciais para a biodiversidade, destaca-se considerar:

  • Fluxo gênico: Se o transgene pode conferir uma característica que beneficie a capacidade de sobrevivência no meio, p. ex., tolerância à seca, à doenças, etc. Se há a possibilidade de escape (via pólen) dos trasgenes e de hibridizar com ervas daninhas sexualmente compatíveis, ou com espécies silvestres do mesmo cultivo que não são desejáveis no agroecossistema de produção, concomitante com a probabilidade de sobrevivência dos híbridos e de sua progênie no meio, e a expectativa das gerações seguintes herdarem os genes adquiridos. Se há possibilidade de mecanismos que favoreçam ou dificultem a introgressão gênica.

  • Toxicidade: a probabilidade de ocorrerem efeitos deletérios indesejáveis em organismos vivos não-alvo (p. ex., aves, insetos, organismos do solo) por ingestão do produto do transgene, ou seja, questões como: que espécies não-alvo serão expostas ao novo produto gênico? Qual a toxicidade da proteína para estas espécies? Que partes do OGM contém a nova proteína? Qual será a exposição de animais à essa proteína? Entre outros.

O risco é aceitável, no caso das evidências científicas disponíveis indicarem que a probabilidade de ocorrência de um evento indesejável seja muito baixa e seguramente aceitável. No caso do risco ser controlável, que esteja ao nosso alcance tomar as medidas apropriadas para evitar que se produzam os efeitos indesejáveis. Por exemplo, no caso do OGM apresentar um nível de risco inaceitável se liberado ao ambiente, mas pode ser utilizado seguramente em confinamento físico ou biológico - p. ex., cultivar tais OGMs onde não hajam espécies sexualmente compatíveis, explorar as diferenças da época de floração para que o pólen GM não possa alcançar plantas vizinhas quando estas estejam receptivas, usar esterilidade masculina, usar a tecnologia terminator ou que produzam sementes estéreis, etc.

Biossegurança na América Latina e Caribe e o Protocolo de Cartagena

A implementação do Protocolo deve considerar as necessidades especiais de países em desenvolvimento, com economias em transição, bem como os centros de origem e diversidade genética. O projeto Regulamentações de Biossegurança na América Latina e Caribe no contexto do Protocolo Internacional de Biossegurança, uma iniciativa parcialmente financiada pela Organização dos Estados Americanos (OEA), iniciou em janeiro de 2002 propondo desenvolver um programa multinacional para a capacitação em biossegurança. A primeira fase enfocou a avaliação de políticas e sistemas regulatórios e a identificação de necessidades de Chile, Peru e Colômbia; contou com a importante colaboração de destacados especialistas de vários países em uma série de seminários-oficina de biossegurança. A segunda fase, iniciada em março de 2003, incluiu alguns países da América Central e Caribe.

O objetivo principal do projeto é avaliar a infra-estrutura legal e institucional e optimilizá-la para cumprir com as disposições do Protocolo Internacional de Biossegurança, atuando portanto junto com as autoridades do governo dos países participantes, ou seja, inclui:

  • Identificar as instituições e organizações relacionadas com a formulação e implementação de regulamentações em biossegurança de OGMs e buscar coerência das normativas e responsabilidades. Detectar as necessidades específicas nos vários setores envolvidos (saúde humana e animal, agrícola, meio ambiente, etc.). Revisar e comparar a legislação de biossegurança local com a de outros países. Gerar a base para que regulamentações latino-americanas conciliem os acordos internacionais.

  • Checar a eficiência do processo de avaliação e gestão de riscos, considerando serviços de assessoramento técnico e científico, sistemas de intercâmbio e gerenciamento de informação.
  • Interpretar o significado da utilização do princípio de precaução;
  • Analisar os impactos sócio-econômicos derivados do cultivo de OGMs, além de revisar as experiências e metodologias aplicadas em outros países.
  • Identificar as necessidades de capacitação de diversos profissionais (encarregados de entidades reguladoras, fiscalizadoras, de administração de informação, etc). Desenvolver programas de capacitação em biossegurança para cada país.
  • Determinar os níveis de percepção pública e a capacidade de comunicação de riscos e benefícios à sociedade.
  • Promover a utilização segura e sustentável em um ambiente de tranqüilidade e confiança do público.

A promoção do intercâmbio e transferência de conhecimentos técnicos e experiências internacionais busca alcançar estes objetivos. Considerando o maior nível de desenvolvimento e experiência em temas de biossegurança e biotecnologia agropecuária comercial, o treinamento estará principalmente a cargo de instituições e peritos de Canadá, Estados Unidos, Argentina, e Brasil, além da valiosa colaboração de especialistas nacionais.

Resultados

Esta iniciativa é o primeiro esforço coordenado e sistemático de capacitação em biossegurança, e complementar aos projetos GEF (Global Environmental Fund) que estão se iniciando em Chile, Colômbia e Peru. A primeira fase permitiu fazer um inventário dos pontos fortes e fracos dos sistemas de regulamentação locais e determinar as necessidades específicas de capacitação em biossegurança. O seminário itinerante, realizado nos três países, contou com a participação de nove especialistas de EUA, México, Argentina e Brasil e integrou a experiência de pesquisadores e acadêmicos locais, que proporcionaram uma visão particular da situação da biotecnologia e da biossegurança de cada país. Os peritos internacionais e os principais representantes de instituições reguladoras, acadêmicas, empresariais e ONGs, assim como os congressistas mais conotados em relação a temas de ciência e tecnologia e proteção da biodiversidade estabeleceram, juntos, vínculos de cooperação para a obtenção de informação científica e técnica atualizada necessária para uma melhor sustentação de políticas e legislação. Contribuiu para reforçar a noção da importância da biossegurança e biotecnologia para o desenvolvimento nacional e a preservação da biodiversidade local. Elaborou-se um CD com as apresentações dos especialistas do seminário, para facilitar a difusão da informação ao público. Cada país, baseando-se na discussão realizada, elaborou recomendações que, dentro do possível, servirão como documentos de apoio para decisões referentes a biossegurança de OGMs. A publicação de um livro com os aportes científicos apresentados nos seminários permitirá atualizar os conhecimentos dos pesquisadores e tomadores de decisões locais.

No Chile, o evento foi organizado pela OEA, CamBioTec e o Servicio Agrícola y Ganadero (SAG). Objetivava principalmente dispor informação aos responsáveis pelas decisões, avaliar os pontos fortes e débeis frente ao Protocolo de Biossegurança e capacitar profissionais da área através do próprio evento e de cursos satélites (Avaliação e gerenciamento de riscos derivados do uso de OGMs, Detecção de OGMs em alimentos e sementes). A opção chilena parece ser: converter-se num país produtor, importador e exportador de OGMs. A normativa desenvolvida abrange apenas o setor agrícola e não regula todos os aspectos de OGMs. Concluiu que é conveniente incorporar o conceito de precaução como enfoque e não como um princípio geral de direito. Foi importantíssima a ampla cobertura do evento pela mídia, os especialistas nacionais e internacionais que participavam foram entrevistados, e essa divulgação da imprensa abriu o debate com a sociedade e elevou o nível de percepção pública sobre os benefícios e riscos dos produtos da biotecnologia moderna e os OGMs.

No Peru, o seminário foi organizado pela OEA, Consejo Nacional de Ciencia y Tecnología (CONCYTEC), Servicio Nacional de Sanidad Agraria (SENASA) e CamBioTec. A intenção primordial era capacitar profissionais, pesquisadores e técnicos nos princípios da avaliação e gerenciamento de riscos de transgênicos e nas regulamentações que os amparam. Participaram principalmente reguladores, ou seja, profissionais de SENASA, INIA e outras instituições pertencentes ao Grupo Nacional de Bioseguridad.

Na Colômbia, a organização foi responsabilidade da OEA, Colciencias, Instituto Colombiano Agropecuário (ICA) e a Fundación Tecnos. Dirigido particularmente a membros das instituições responsáveis pela legislação em biossegurança, comitês técnicos nacionais de biossegurança agrícola e pecuário e ao setor acadêmico. O principal objetivo era informar e abrir espaços de discussão entre os organismos do governo, setor acadêmico e o setor produtor. Colômbia propõe uma política integral e clara, unida a regulamentações nacionais que devem considerar as condições próprias do país e serem congruentes com os diferentes acordos internacionais. Detectou-se uma dispersão das normas que pode produzir efeitos negativos na sua aplicabilidade e conduzir ao não-cumprimento das disposições.

Os três países conseguiram estabelecer a base regulatória de biossegurança. As carências de regulamentação em relação ao Protocolo de Biossegurança foram identificadas, propostas para melhorar sugeridas, como aprimorar as áreas de biologia molecular e engenharia genética, na pesquisa e desenvolvimento em biossegurança. Há a necessidade de trabalhar sobre os núcleos básicos de instituições reguladoras, ministérios, Comissão Nacional de Biossegurança, equipes técnicas, grupos de formadores de opinião, sociedade civil e ONGs. Estão previstos treinamento e vários cursos informativos e de alto nível para aprimorar a capacitação.

Na série de três eventos, assistiram aproximadamente 360 personas (100 em Colômbia, 60 em Peru e 200 em Chile), principalmente representantes do governo, instituições governamentais, empresas e pesquisadores relacionados com a biotecnologia. Cabe destacar que a participação de Congressistas e Representantes do Governo nos Seminários significa um grande apoio institucional a este projeto e demonstra o interesse nacional para iniciar medidas efetivas no tema da biotecnologia.

Lic. Víctor Martínez e Dr. Lionel Gil são representantes da CamBioTec-Chile, ICBM, Facultad de Medicina, Universidad de Chile. Dra. Lúcia de Souza é membro da ANBio - Associação Nacional de Biossegurança (ANBio - Brasil).

Colabore com o Jornal da ANBio, telefone 2220-0288 ou pelo e-mail jornal@anbio.org.br

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