Páginas:

Não deixe de conferir as edições anteriores
1°Edição | 2°Edição | 3°Edição | 4°Edição | 5°Edição | 6°Edição | 7°Edição | 8°Edição | 9°Edição | 10°Edição

O Bacharelado de Genética do Curso de Ciências Biológicas da UFMG é um dos melhores do Brasil. É um celeiro de revelação de novos pesquisadores. Quando estes jovens ingressam no nosso mestrado estão com farto material para ser utilizado nas suas dissertações.

Na minha coluna desta edição do jornal da ANBio, convidei dois destes cérebros para apresentarem os seus trabalhos com vacinas usando Salmonella como vetor. Observando os últimos artigos da minha coluna, tenho notado que a revelação de novos talentos está sendo a sua maior missão.
Prof. Vasco Azevedo, Chefe do Laboratório de Genética Celular e Molecular (LGCM), ICB, UFMG.
Tel/Fax: (31) 34992610 o E-mail: vasco@mono.icb.ufmg.br.

A produção de vacinas utilizando linhagens bacterianas apresenta muitas vantagens como: baixo custo de preparação, fácil transferência de tecnologia, alta meia-vida, estabilidade e fácil administração. Além dessas vantagens, existe a possibilidade, extraordinária de induzir resposta imune em sítios específicos. Várias linhagens de bactérias vivas - comensais ou patogênicas atenuadas - têm sido utilizadas com sucesso. Dentre as comensais, destacam-se: Streptococcus gordoni, Lactobacillus spp. e Staphylococcus spp.; e dentre as atenuadas, as mais empregadas são: Mycobacterium bovis BCG, Listeria monocytogenes, Yersinia enterocolitica e Salmonella spp. Essa última tem sido uma das mais bem caracterizadas para o uso em vacinas que utilizam as mucosas para induzirem imunidade protetora.

Muitos agentes infecciosos têm como principal meio de acesso ao hospedeiro as membranas de mucosa, ou sua passagem por esta via constitui um passo crítico para seu processo de infecção. Portanto, a estimulação de uma resposta imune eficaz, não só a nível sistêmico como também de mucosa após a vacinação, é altamente desejável, representando uma vantagem significativa na prevenção da infecção. Essa meta só pode ser alcançada quando a vacina é administrada por esta via. Dentre as técnicas disponíveis para estimular respostas imunes eficientes, o uso de bactérias como carreadoras de antígenos vacinais provavelmente constitui uma das estratégias de maior sucesso e algumas linhagens do gênero Salmonella têm sido utilizadas para esta finalidade.

As salmonelas são bactérias Gram-negativas e o seu gênero compreende duas espécies: Salmonella bongori e Salmonella enterica. Essa última espécie é extremamente heterogênea, possuindo aproximadamente 2000 sorotipos, isto é, grupo de linhagens que compartilham antígenos de superfície reconhecidos por anticorpos específicos. Historicamente, estes sorotipos eram considerados diferentes espécies, o que foi mais tarde contestado e levado à designação de uma única espécie, S. enterica, a qual engloba todas as variantes.

Dentre os sorotipos isolados de importância para o homem, destacam-se a S. enterica sorotipo Typhi (S.Typhi) e a S. enterica sorotipo Typhimurium (S.Typhimurium). S.Typhi é o agente etiológico da febre tifóide, uma doença que afeta 33 milhões de pessoas anualmente, levando a 500 mil mortes no mundo. Já S.Typhimurium é um dos agentes causadores das gastroenterites humanas cuja incidência tem aumentado de maneira significante em todo o mundo nos últimos anos. A pesquisa de vacinas envolvendo bactérias do gênero Salmonella iniciou-se com a busca por medidas profiláticas eficientes contra estas salmoneloses e mais tarde estendeu-se para diversas outras doenças.

A primeira vacina utilizando Salmonella foi desenvolvida no final do século XIX, com o objetivo de combater a febre tifóide. Esta vacina consistia em bactérias mortas pelo calor, preservadas em fenol e administradas por via parenteral. Devido a sua razoável eficácia e às fortes reações adversas, como febre e convulsão, esta vacina foi considerada inviável para o uso em programas de saúde pública. A partir da década de 70, duas vacinas foram desenvolvidas e estão licenciadas para o uso contra a febre tifóide: uma vacina baseada no antígeno Vi de S.Typhi e uma vacina viva oral atenuada utilizando S. Typhi linhagem Ty21a. Essa última mostrou-se muito segura e bem tolerada. Posteriormente, linhagens atenuadas de Salmonella carreadoras de antígenos de outros patógenos foram usadas no desenvolvimento de vacinas vivas orais contra muitas outras doenças, como mostrado na Tabela 1.

Linhagens atenuadas de Salmonella apresentam peculiaridades interessantes para a produção de vacinas, como a possibilidade de utilização de técnicas de manipulação genética desenvolvidas para E.coli K12, além da administração por via oral e o tropismo pela mucosa intestinal. No intestino, o GALT (tecido linfóide associado ao trato gastrointestinal) protege o nosso organismo de agressão exógena, discriminando entre alimentos essenciais e partículas danosas, microrganimos comensais e patógenos perigosos. Uma importante característica do processo infeccioso das salmonelas consiste na exploração das células do GALT, o que leva a uma resposta imune humoral (mediada por anticorpos) e/ou resposta imune celular, levando à imunidade de mucosa e sistêmica.

A construção de linhagens atenuadas de Salmonella é feita através de mutações em genes importantes para esta bactéria. Os principiais genes alvo destas mutações podem ser divididos em três categorias: os que participam do processo de regulação gênica, os relacionados com a síntese de fatores de virulência e os envolvidos com o metabolismo biossintético. Dentro desse último grupo, as linhagens vacinais mais utilizadas possuem deficiência na biossíntese de compostos aromáticos (tirosina, fenilalanina, triptofano, vitamina K). Após serem ingeridas, linhagens de Salmonella deficientes em genes aro (aromáticos) permanecem nos tecidos do hospedeiro por alguns dias, mas são incapazes de manter uma infecção por serem deficientes na produção de compostos essenciais, o que é uma medida de biossegurança, pois diminui a possibilidade de ocorrer reversões destes mutantes para sua forma selvagem. Além disso, em geral são produzidas linhagens vacinais que possuem duas ou três mutações adicionais. Dentre as Salmonella vacinais aro com estas mutações, destacam-se as linhagens SL3261 de S. Typhimurium e CVD908 de S. Typhi.

A utilização de bactérias carreadoras de antígenos vacinais exige cuidados devido ao fato de estas serem organismos geneticamente modificados (OGMs). Os possíveis problemas que estes organismos podem apresentar incluem a reversão à forma selvagem, a reatogenicidade, a transferência gênica horizontal e a possibilidade de os antígenos recombinantes desencadearem uma resposta imune exacerbada no hospedeiro. De acordo com a literatura, não houve nenhum caso de reversão à virulência quando utilizada a linhagem vacinal S.Typhi Ty21a em testes clínicos. Apesar disso, todos estes fatores devem ser levados em conta ao se desenvolver uma vacina viva para uso humano.

O Laboratório de Genética Celular e Molecular (LGCM) do Instituto de Ciências Biológicas, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), coordenado pelo professor Vasco Azevedo, possui uma linha de pesquisa que utiliza Salmonella Typhimurium SL3261 no desenvolvimento de vacinas vivas. O nosso trabalho de bacharelado em genética baseia-se em utilizar Salmonella recombinante carreadora do gene Sm14, um antígeno de superfície do Schistosoma mansoni, para a produção de vacinas contra a esquistossomose. Este projeto possui colaboração com os professores Alan Lane de Melo, do Laboratório de Taxonomia e Biologia de Invertebrados, e Sérgio Costa Oliveira, do Laboratório de Imunologia das Doenças Infecciosas, localizados na mesma Universidade.

A esquistossomose é uma doença endêmica que afeta 200 milhões de pessoas em mais de 70 países. No Brasil são estimadas 8 milhões de pessoas infectadas, com grande foco na região NE. Apesar da existência de diferentes estratégias de controle, a esquistossomose é uma doença que continua em expansão. Este fator, somado à magnitude da endemia, justifica o interesse em se desenvolver um método eficiente no combate a esta parasitose. Atualmente a quimioterapia vem sendo utilizada como principal medida profilática, porém sua ação se limita a curto prazo, uma vez que podem ocorrer reinfecção e resistência à droga utilizada. Dentro deste contexto, uma das estratégias determinadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) é o desenvolvimento de uma vacina efetiva e segura. A OMS selecionou seis moléculas candidatas para serem testadas no desenvolvimento de vacinas contra a esquistossomose (Sm23, Sm28-GST, Sm97, TPI, cercária irradiada e Sm14).

Para desenvolvermos o nosso projeto escolhemos o antígeno Sm14, em razão de já existirem trabalhos do nosso grupo com ele e por já ter sido demonstrado que ele induz proteção parcial em camundongos após vacinação e desafio com cercárias.

No nosso trabalho utilizamos um vetor eucarioto e um vetor procarioto contendo o gene Sm14 para o desenvolvimento de vacinas de DNA e proteína, respectivamente. Estes vetores foram transformados separadamente na linhagem aroA SL3261 de Salmonella Typhimurium e as bactérias recombinantes foram utilizadas em ensaios de imunização oral de camundongos SWISS. O período de imunização consistiu de 7 doses da vacina no intervalo de 30 dias. Quinze dias após a última imunização, os camundongos foram desafiados com cerca de 50 cercárias da cepa LE de S. mansoni e quarenta e cinco dias depois os parasitas foram recuperados para a avaliação de proteção. A estimulação da resposta imune foi avaliada através de ensaios de ELISA de amostras de sangue e fezes dos camundongos, nos quais foram pesquisadas as presenças dos anticorpos IgG e IgA, respectivamente, em diferentes intervalos durante o experimento. Por último, avaliamos a postura de ovos dos parasitas através da análise histológica dos fígados dos animais usados nos experimentos. Os resultados obtidos até agora mostraram 45,3% de redução da carga parasitária dos camundongos que foram vacinados com Salmonella expressando o antígeno Sm14. Também para este grupo foi observada uma redução do número de parasitas fêmeas. Isso é importante, pois implica na diminuição do número de ovos nos fígados dos animais, e portanto, há uma atenuação do processo inflamatório neste órgão. Um outro resultado relevante foi a constatação da indução de resposta imune sistêmica pela detecção de anticorpos específicos no sangue dos animais vacinados. Estamos atualmente repetindo estes experimentos e vários testes estão em andamento no LGCM, para confirmarmos se a proteção que obtivemos é significativa e, com isso, provarmos que podemos utilizar as nossas linhagens recombinantes de Salmonella como vacinas vivas.

Colabore com o Jornal da ANBio, telefone 2220-0288 ou pelo e-mail jornal@anbio.org.br

<<< [10] Página anterior

Próxima página [12] >>>