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Nos
tempos atuais acompanhamos os incríveis avanços na
tecnologia que envolve, tanto os sofisticados diagnósticos de
doenças complexas, bem como as terapêuticas para estas
doenças, no campo da saúde humana. Paralelo a estes
acontecimentos assistimos ainda hoje, a falta dos cuidados, em muitos
estabelecimentos de saúde, executores destes citados
diagnósticos e terapêuticas, com a saúde dos seus
profissionais e dos pacientes.
É
fato de que os nossos estabelecimentos de saúde estão
longe de serem denominados de locais biosseguros.
Condições de trabalho muitas vezes inadequadas e a
ausência de uma política de Biossegurança nesses
nosocômios geram um grande dilema, pois de um lado os pacientes
tem direito ao atendimento e por outro lado o profissional de
saúde necessita das medidas de proteção
individual, para os seus colegas de trabalho e também para o
meio ambiente.
Sabemos
que para um estabelecimento de saúde implantar uma adequada
política de Biossegurança, o primeiro passo é a
tomada de consciência das condições de trabalho
existentes, por parte de sua direção e dos
profissionais que nele trabalha, seguida pela informação
e capacitação em Biossegurança de todos os seus profissionais.
Um
exemplo claro sobre as condições inadequadas de
Biossegurança é a falta de gerenciamento dos seus
resíduos sólidos.
As
normatizações relativas ao gerenciamento de
resíduos sólidos de serviços de saúde
(GRSSS) encontram-se descentralizadas ao longo dos níveis
governamentais federal, estadual e municipal, algumas vezes,
até mesmo divergentes.
Os
aspectos qualitativo e quantitativo destes resíduos são
variáveis de acordo com o número de leitos, as
especialidades desenvolvidas e com a categoria de complexidade desses estabelecimentos.
O
gerenciamento dos resíduos sólidos de serviços
de saúde proporciona uma maior segurança aos
profissionais, pacientes e também ao meio ambiente.
As
etapas do GRSSS iniciam-se com a segregação dos
resíduos, que é a separação deles no
momento e local de sua geração. A etapa seguinte
é o acondicionamento, que deverá ser ato contínuo
à geração dos resíduos, em recipientes
que não possibilitem rupturas e vazamentos. O acondicionamento
deverá seguir normatizações já
existentes, como as cores dos sacos plásticos que
conterão os resíduos, expressão e símbolo,
referentes a cada grupo de resíduos. Para os resíduos
comuns, denominados de grupo D, aqueles que não tiveram
contato com pacientes e material biológico, deverão ser
acondicionados em sacos plásticos impermeáveis e
transparentes, de cor clara, exceto branca. Os recipientes (as
lixeiras) que servirão como sustentação dos
sacos de lixo, dos resíduos sólidos pertencentes ao
grupo D, deverão ser de cores diferenciadas para cada tipo de
resíduo a ser reciclado, ou seja: azul para papéis,
amarelo para metais, verde para vidros, vermelho para
plásticos, marrom para os resíduos orgânicos e a
cor preta será usada para o refugo, ou seja, resíduo
que não tem mais utilidade, o qual deverá ser
encaminhado para o aterro sanitário. Os resíduos de
natureza biológica e perfurocortantes, do grupo A,
deverão ser acondicionados em saco plástico de cor
branca leitosa, identificado pela expressão e símbolo
Resíduo Biológico. Os resíduos de natureza
química (reagentes, medicamentos etc), os denominados de grupo
"B" deverão ser acondicionados em saco
plástico de cor branca leitosa, identificado pela
expressão e símbolo Resíduo Tóxico. E por
fim, os rejeitos radioativos, denominados de grupo C, deverão
ser acondicionados em saco plástico de cor branca leitosa,
identificado pela expressão e símbolo Rejeito Radioativo.
Uma
importante fonte de acidentes ocupacionais envolvendo material
biológico e muitas vezes com graves conseqüências,
é o descarte inadequado dos resíduos perfurocortantes.
Estes resíduos sejam do grupo A, B e/ou C, deverão ser
descartados imediatamente após o uso em recipiente
rígido, resistente a rupturas e a vazamentos, com sistema de
fechamento que permita vedação, com alça,
identificado com as simbologias e expressões Resíduo
Biológico, Resíduo Tóxico e Rejeito Radioativo,
específicos para os grupos A, B e C, respectivamente.
O
descarte de resíduo tóxico como quimioterápicos,
imunoterápicos, hormônios e demais medicamentos, que
por motivo de expiração de suas validades, alterados,
interditados, parcialmente utilizados, venham a se tornar
impróprios para o consumo, é de responsabilidade de
seus fornecedores (distribuidores ou fabricantes). Esta prática
está em consonância com a Resolução no
283 de 12/07/2001, Conselho Nacional do Meio Ambiente, que respalda
as suas penalidades e sanções na Lei no 6.938 de
31/08/1981 e na Lei no 9.605 de 12/02/1998, e nas demais
legislações específicas em vigor.
A
queima a céu aberto, dos resíduos sólidos de
serviços de saúde, ocasiona um sério problema
para o meio ambiente, sabendo que nestes existe abundância em
plásticos, que em sua decomposição térmica
irá liberar substâncias nocivas ao meio ambiente, como
furano, dioxinas, ácido clorídrico, entre outras.
O
pensamento de profissionais que militam em biossegurança,
é de ser imprescindível a inserção, nas
grades dos cursos regulares, de todos os seguimentos da saúde,
de nível superior e técnico, disciplina de
Biossegurança, para que as distorções que hoje
assistimos venham a ser efetivamente corrigidas.
Hamilton
Coelho é docente da Fiocruz e do Exército.

Os
solventes orgânicos merecem atenção especial em
todo seu ciclo de vida dentro da instituição que os
adquiriu. As características tóxicas, asfixiantes,
inflamáveis e mesmo explosivas são freqüentemente
desprezadas em função de propriedades muito
particulares desses solventes e que a rotina de trabalho induzem a
ignorá-las. Dentre estas propriedades, podemos destacar a alta
volatilidade que resulta numa grande capacidade do solvente em
atravessar as tampas de vedação dos frascos e a
facilidade em despolimerizar os recipientes plásticos,
provocando pequenas rachaduras ou tornando-os facilmente quebradiços.
Ambos
os casos expõem os usuários do ambiente de trabalho ou
mesmo de ambientes próximos, a contaminações
crônicas devido à aspiração diária
do agente volátil, e como sabemos, é o pior tipo de
intoxicação já que seus efeitos maléficos
normalmente aparecem anos depois do contato. Se cuidados especiais
como descrevemos na edição anterior desde jornal
não estiverem sendo dedicados a solventes comuns como os
citados na tabela ao lado, sem dúvida o operador estará
em contato crônico com tais agentes.
Ainda
a título de ilustração, relembremos alguns
itens de periculosidade de alguns desses solventes:
-
Éter
etílico, acetona, metanol e pentano: atravessam
a tampa de vedação e acumulam-se em locais pouco
ventilados, aumentando o risco de explosões;
- Dissulfeto
de carbono, tetracloreto de carbono, clorofórmio e
diclorometano: volatilizam-se mesmo
através de frascos tapados, são cancerígenos e
lesam irreversivelmente o sistema nervoso central. O
clorofórmio, quando armazenado por período superior ao
indicado, forma dioxina no espaço livre sobre o líquido
que volatiliza para o ambiente toda vez que o recipiente é
aberto. Na presença de luz, forma fosgênio. A dioxina e
o fosgênio são classificados como de periculosidade máxima;
- Éter
etílico, éter isopropílico e dioxano: formam
peróxidos que explodem espontaneamente sem a necessidade de faíscas;
- Piridina
e outros solventes nitrogenados: diminuem
a ereção e o desejo sexual masculino;
- Acetato
de etila e clorofórmio em pequenas
concentrações: induz a
sonolência e conseqüentemente aumenta o risco de acidentes
por distração.
Observe-se
que na foto ilustrativa de várias situações de
risco envolvendo resíduos laboratoriais aguardando tratamento,
encontram-se na prateleira inferior e à esquerda, dois frascos
que continham, originalmente, o temível dissulfeto de carbono
e que volatilizou-se totalmente mesmo estando lacrado e, portanto,
atravessando lacres, tampas e batoques!
Além
desta exposição crônica caracterizada pela alta
volatilidade dos solventes citados, temos outro tipo provocada pelo
derramamento ou quebra acidental do recipiente de
contenção. Esse tipo de acidente leva a uma
exposição aguda a quem estiver nas proximidades no
momento do acidente e uma exposição continuada
após o acidente, pois certamente parte do solvente se
infiltrará no piso e lentamente se dispersará pelo
ambiente nos dias seguintes. Por isso, é importante prevenir
esse tipo de ocorrência e estarmos preparados para
amenizá-la caso ocorra, tendo à mão materiais e
procedimentos adequados.
Vários
materiais são indicados para contenção de
derramamentos (vermiculite, terra de diatomáceas, carvão
ativo, turfas, mantas poliméricas, etc.). Porém
são caros e, via de regra, não estão
disponíveis no momento do acidente. Então, a areia seca
ou mesmo terra seca (de preferência, certas terras do subsolo e
sem matéria orgânica), papel-toalha ou tecido de
algodão (sempre muito secos), acabam por solucionar o
problema. Devem estar disponíveis, em locais de rápido
acesso e com os acessórios necessários para pronta
utilização, como: pás, luvas, máscaras e
caixas ou bombonas plásticas com tampas para recebimento do
material absorvido. O extintor de pó químico, espuma ou
gás carbônico também pode ser necessário
na eventualidade de um foco de incêndio. Nos casos de maior
impacto, como os derramamentos de dissulfeto de carbono, tetracloreto
de carbono, benzeno e derivados, acrilatos e, principalmente, quando
o piso ou bancada tiverem imperfeições ou pontos de
infiltração, aconselha-se ventilar a área e
limitar a circulação naquele dia. Logicamente, a
utilização de um indicador específico
(também muito caro!) para vapores do solvente, pode liberar o
local com mais segurança. Finalmente, é bom destacar
que a criatividade individual de cada usuário do
laboratório pode proporcionar excelentes medidas para
prevenção da exposição como também
para providências emergenciais ante acidentes com solventes
perigosos. Essa criatividade normalmente consegue contornar o alto
custo que representam os kits e equipamentos disponíveis no
mercado. Inversamente, indivíduos incautos, imprudentes,
distraídos, irresponsáveis, brincalhões ou
possuidor de qualquer outro tipo de comportamento inadequado devem
ser mantidos bem longe dos materiais perigosos.
O
Prof. Orlando Zancanaro faz parte da Comissão de
Biossegurança da USP |