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Quem tem medo
dos transgénicos ?
                          Drª Leila Macedo Oda 6

Os alimentos a base dos Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) são comida para monstros ou a utilização desta tecnologia pode alcançar conquistas notáveis como a cura da Aids e produzir alimentos mais nutritivos? Que alimentos são seguros hoje em dia? Essa é uma questão que os europeus, por exemplo, não respondem sem dificuldades ou dúvidas. Carnes bovinas, suínas ou de aves podem estar contaminadas, assim como frutas e verduras e até mesmo o pão.
No seu primeiro número, o Jornal da ANBio entrevista a pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz e presidente da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, e da Associação Nacional de Biossegurança, Leila Macedo Oda, que fala dos medos, preconceitos e das vantagens dos transgênicos.

        Por que há tanto medo dos produtos transgênicos?
        Leila Oda - O medo do novo é inerente ao ser humano. Edward Jenner, por exemplo, quando criou a vacina contra a varíola, em meados do século XVIII , provocou a revolta e o temor da socieda-de, que não se sentiu segura em utilizá-la. Foi excomungado pela Igreja e a própria comunidade cie-ntífica da época se mostrou reticente. Somente 60 anos mais tarde a vacina passou a ser usada. Se a sociedade não percebe de imediato a importância e as vantagens de uma aplicação científica, ela prefere ficar com o que já conhece.

        Existe uma postura conservadora no Brasil com relação à pesquisa e utilização dos OGMs?
        Leila Oda - No nosso país, o brasileiro, entre atônito, incrédulo e desinformado, sofre um bom-bardeio constante da mídia que, se por um lado apregoa os avanços das descobertas que poderão advir do genoma humano e suas fabulosas aplicações na medicina, por outro divulga uma imagem ne-gativa dos transgênicos. Há charges na imprensa que apresentam juízes corruptos como sinônimo do homem transgênico, ou que a seleção brasileira foi geneticamente modificada e, assim, não sabe ma-is jogar bola. Na Europa, os produtos transgênicos vêm sendo chamados de Frankenstein food (comi-da de Frankenstein). Por outro lado, a Academia de Ciências do Vaticano se pronunciou em 1999, a-través do bispo Elio Sgreccia, vice-presidente da academia afirmando: "... a pesquisa biotecnológica poderá resolver grandes problemas, tais como, a adaptação de terras áridas à agricultura e o enfren-tamento da fome. Os produtos biotecnológicos deverão contribuir para o bem-estar humano. Para is-so, o que é necessário é a honestidade".

        O que explica a resistência aos OGMs? A população corre riscos consumindo produtos transgênicos?
        Leila Oda - Não existe risco zero, mas os riscos desta tecnologia são equivalentes aos mes-mos de qualquer outra. Hoje, na Europa, se questiona muito quais alimentos são seguros. O rebanho bovino, por exemplo, pode ser afetado pela Encefalopatia Espongiforme Bovina (BSE) ou o mal da va-ca louca; a carne suína como as aves também podem conter "supermicróbios" devido ao uso indiscri-minado de antibióticos misturados à ração desses animais; frutas e verduras na Grã-Bretanha apre-sentaram resíduos de pesticidas superiores ao nível permitido e até o pão com alto teor de fibras pode conter resquícios de pesticidas acumulados nas capas exteriores dos grãos. Se não houvessem ris-cos, não seria preciso existir a Lei de Biossegurança nem a CTNBio. O importante é destacar que só produtos seguros irão para a prateleira dos supermercados. A CTNBio, órgão técnico-científico do Mi-nistério de Ciência e Tecnologia, analisa caso a caso cada Organismo Geneticamente Modificado pa-ra certificar a sua segurança.

        A portaria interministerial que estabelece a rotulagem dos produtos transgênicos e que está para ser publicada não será um obstáculo para a utilização desses produtos?
        Leila Oda - A portaria foi elaborada pelos ministérios da Ciência e Tecnologia, Agricultura e Saúde, sob a coordenação do Ministério da Justiça, e servirá apenas para informar o consumidor. O rótulo conterá as características do produto para facilitar a decisão desse consumidor e nunca deve ser entendido como um aviso de que o produto não é seguro.

        Dada essa polêmica, o Brasil está defasado em relação a outros países? Em que estágio estamos e quais as vantagens das culturas transgênicas?
        Leila Oda - As pesquisas no Brasil se encontram na primeira fase do desenvolvimento de pro-dutos transgênicos, buscando melhorar as características agronômicas, como a resistência a pesti-cidas e pragas. São transgênicos de primeira onda que favorecem o agricultor pela ampliação de sua produção e redução dos custos. Na Europa e nos Estados Unidos já se passou para a segunda onda, com pesquisas e produtos que melhoram a qualidade nutricional, como o arroz com alto teor de vita-mina A. A terceira onda, por fim, trará maiores benefícios com a produção de fármacos e vacinas co-mo a vacina transgênica, que promete a cura da Aids. No entanto, já temos 130 instituições creden-ciadas pela CTNBio para o trabalho com OGMs e estamos desenvolvendo alguns transgênicos de se-gunda e terceira geração, tais como vacinas para hepatite e leishmaniose e plantas com maior teor nutritivo.

        O futuro, então, é promissor?
        Leila Oda - Só o tempo dirá, mas podemos citar o exemplo de outros países. Na China, foram plantados, em 1999, mais de um milhão de hectares só com algodão transgênico e se verificou uma redução de até oito vezes no uso de defensivos agrícolas e um aumento de produção de 1.000 Kg de sementes por hectare. A Argentina incorporou a tecnologia transgênica há cinco anos e praticamente dobrou a sua produção de grãos sem ampliar a área cultivada. O uso dessa tecnologia nas culturas agrícolas faz com que elas passem a usar menos agrotóxicos e necessitem de menos áreas planta-das, reduzindo o desmatamento.

        Quantos experimentos com transgênicos no país foram autorizados pela CTNBio e que mecanismos são necessários para tornar mais efetiva a atuação da comissão?
        Leila Oda - Aprovamos cerca de 800 áreas experimentais em todo o Brasil. Esses experimentos sofrem vistoria da comissão - em conjunto com os setores de fiscalização do Ministério da Agricultura -, em três estágios do seu desenvolvimento: antes do plantio; durante a evolução da cultura e após a sua conclusão. É fundamental que a sociedade sinta-se amparada pelo aval dos ci-entistas da CTNBio que analisam criteriosamente cada OGM. O papel da comissão é técnica, mas os outros agentes no processo como os órgãos de fiscalização dos Ministério da Saúde, Meio Ambiente e Agricultura são os responsáveis pelo monitoramento dessas ações.

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