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Biotecnologia:
Uma Visão Comparativa
Lúcia
de Souza. Ph.D.
Há
muitos anos tem se feito melhoramento genético de animais e
vegetais e vários alimentos que hoje conhecemos eram bem
diferentes, por exemplo o nosso suculento tomate era originalmente do
tamanho de uma bola de gude. A agro-pecuária tradicional
utiliza uma série de produtos químicos como pesticidas,
hormônios de crescimento, antibióticos para aumentar a
produção. Esse desenvolvimento proporcionou alimentos a
uma grande parcela da população. No entanto quase 1
bilhão de pessoas, 16% da população mundial,
está passando fome. E esse número tende a aumentar, em
2050 cerca de 4,2 bilhões estarão famintos, se nada
mudar no manejo de produção de alimentos. Como
alimentar essa crescente população?
A
biotecnologia já oferece avanços em áreas
diversas como Saúde Animal e Humana; Processamento de
Alimentos; Gerenciamento Ambiental e Tecnologia Agrícola.
Enquanto cientistas vislumbram com a possibilidade de aumentar a
produtividade de culturas e ao mesmo tempo diminuir o uso de
substâncias químicas (reduz simultaneamente
desmatamentos e poluição); oferecer aos pobres
alimentos reforçados com vitaminas, como o arroz dourado que
poderia ajudar muitas das 124 milhões de crianças que
sofrem deficiência de vitamina A no mundo; obter alimentos
ricos em anti-cancerígenos; livres de substâncias que
causam alergias; que possam crescer em condições
adversas (seca, frio, excesso de salinidade, etc.). Há receio
no uso da biotecnologia no setor alimentício, embora
paradoxalmente essa mesma tecnologia seja aceita na área de
saúde há vários anos. Esse medo não pode
ser explicado por lógicas análises científicas
de segurança alimentar, ambiental, produtividade, etc. A
decisão sobre a comercialização de Organismos
Geneticamente Modificados (OGMs) no Brasil afeta o desenvolvimento
tecnológico e intelectual, qualidade alimentar,
conservação ambiental e economia do nosso país.
A Associação Nacional de Biossegurança (ANBio)
com apoio da Federação das Indústrias do Estado
do Paraná organizou um workshop sobre a visão
européia, a experiência argentina e a
situação brasileira sobre biotecnologia moderna na
agro-pecuária em 29 de julho em Curitiba.
1)
A atual situação dos Organismos Geneticamente
Modificados (OGMs) no Brasil
A
biossegurança de OGMs no Brasil possui modernas leis
específicas que consideram aspectos éticos e se baseiam
no princípio de precaução para minimizar riscos
de danos à saúde humana, animal e ao meio ambiente. A
Comissão Técnica Nacional de Biossegurança
(CTNBio) tem a responsabilidade de dar o parecer técnico
definitivo sobre a avaliação caso a caso da
segurança da introdução dos OGMs no país.
A CTNBio é formada por especialistas em biotecnologia das
áreas Animal, Vegetal, Ambiental e Saúde Humana; bem
como os Ministérios da Ciência e Tecnologia,
Saúde, Meio Ambiente, Educação,
Relações Exteriores, Agricultura e Abastecimento;
Representantes de Órgão de Defesa do Consumidor;
Representantes do Setor Empresarial de Biotecnologia; e
Representantes de Órgão de Proteção
à Saúde do Trabalhador. A Dra. Cristina A. Possas,
doutora em saúde pública e secretária executiva
da CTNBio, lembrou que a adoção de uma política
pouco restritiva poderia levar as liberações precoces e
assim maiores riscos, porém uma política muito
restritiva causa atraso do desenvolvimento da tecnologia e conhecimento.
Durante
o debate a Dra. Leila Oda, presidente da ANBio, ressaltou que o
plantio ilegal de soja transgênica no sul do Brasil gera
desconfiança aos países importadores sobre a
credibilidade do país, e prejudica as nossas pesquisas. Quando
a CTNBio aprovou a introdução da soja transgênica,
previa um monitoramento pós-introdutório de 5 anos,
porém com a indecisão judicial esses interessantes
estudos ambientais em condições locais foram perdidos.
O Dr. Alexandre Nepomuceno da EMBRAPA confirmou que a impossibilidade
de realizarem pesquisas no Brasil está incentivando a busca
por soluções no exterior.
2)
A visão européia da biotecnologia moderna e
perspectivas à luz da nova diretiva
A
Europa considera a necessidade de encontrar soluções
que sirvam tanto para economias em desenvolvimento quanto
desenvolvidas, para reduzir o problema da migração de
pessoas para a Europa em busca de melhores condições de
vida, comentou o Dr. Phill Thomas conceituado nutricionista europeu.
a.
A aceitação dos OGMs pelos consumidores europeus
Assume-se
que a população esteja preocupada com a
segurança do consumo de OGMs, que haja a necessidade de
rotular tais alimentos, porém alguns fatores devem ser ponderados:
-
A
população presenciou um significante declínio
dos gastos com alimentação nos últimos anos
devido a avanços de tecnologias agro-pecuárias. Hoje o
principal fator de decisão de compra é o preço
(pouco mais de 50%), seguido de conveniência,
apresentação e qualidade (frescor e
preparação higiênica).
- Apesar
dos problemas ocorridos na Europa como a doença da vaca louca
(BSE), febre aftosa, contaminação com dioxinas; poucos
consumidores têm segurança alimentar em mente. De quase
1000 consumidores entrevistados 48% não lêem a
informação dos alimentos, e apenas 11% disseram que
gostam e indagariam por maiores informações. A
porcentagem de consumidores que mencionaram se preocupar com OGMs
(17%) é muito próxima da que se preocupa com celulares (14%).
- Mesmo
as pesquisas do Greenpeace em 2000 cujo questionário induz o
respondente a ser contra OGMs, mostra que o número de pessoas
que são efetivamente contra (19%) é menor do que a
favor ou indiferente.
- A
percepção pública na Europa sobre as culturas
orgânicas é que 36% consideram mais saudáveis;
36% pensam que são mais seguras para consumo; 34% imaginam que
seja melhor para o meio ambiente e 25% acreditam que tenha melhor
sabor. Estudos mostram que na verdade nenhuma dessas impressões
seja verdadeira.
- Muitos
acreditam que o sistema orgânico esteja livre de OGMs,
porém alguns países aceitam a tecnologia GM como parte
do sistema orgânico que evita o uso de produtos químicos.
Outros países não aceitam, pois é considerado
um argumento de venda. A França tolera uma
contaminação de 5-10% de antibióticos e
pesticidas, mas 0% de GM o que é praticamente inviável.
Na Dinamarca detectou-se em quase 50% da agricultura orgânica
pelo menos 1% de OGMs.
- É
fraca a informação técnica e o apoio das
companhias de biotecnologia agrícola, talvez com um simples
esclarecimento os que estão com dúvidas mudariam de opinião.
b.
A Política da comunidade européia em
relação aos OGMs
Os
principais assuntos da política européia são: a
moratória de novas aprovações e a proposta
legislação da rastreabilidade e rotulagem de OGMs em
alimentos e rações. Em 1999, sete estados-membros
iniciaram um bloqueio, e 12 produtos aprovados por
avaliação científica continuam proibidos. Exigem
para a remoção da moratória, que é
tecnicamente ilegal, a lei de rastreabilidade e rotulagem. Cresce a
frustração dos EUA e alguns estados-membros sobre a proibição.
A
proposta de rotulagem e rastreabilidade apresentada no final de
julho de 2001, tem um longo e complicado processo de decisão
que envolve o Parlamento Europeu, Conselho de Ministros e a
Comissão Européia, e permite mudanças ao texto.
Os principais itens da proposta são:
-
Informar
se contém ou consiste de OGMs, e declarar se será
usado para alimento, ração ou processamento. Não
há um método reconhecido de coleta de amostras, nem de
detecção. Altos custos adicionais.
- Rotulagem
independente da detecção de GM (impossível para
óleo de soja e glúten de milho).
- Contaminação
permitida era de 1% e querem reduzir para 0,5%.
As
principais questões da proposta são:
3)
A experiência da Argentina na introdução de OGMs
nos Alimentos
O
Dr. Marcelo Regúnaga, ex-ministro da agricultura da Argentina
explanou os vários motivos que levaram à
adoção de OGMs na produção de alimentos
no país: a redução de custos de commodities com
eventos de primeira geração, manuseio de solos e
conservação de recursos naturais. O processo de
aprovação dos OGMs consiste em avaliação
de biossegurança (CONABIA): no agro-ecossistema e para o
consumo humano e animal (SENASA), além de estudos de impacto
nos mercados (Dir. Nac. Mercados).
ORGANISMOS
GENETICAMENTE MODIFICADOS
aprovados
na União Européia e na Argentina
|
Material |
Características |
Evento
de Transformação |
União
Européia |
Argentina |
|
Soja |
Tolerância
ao glifosato |
"40
- 3.2" |
Decisão96/281/CE
(03/04/96) |
Resolução
SAPyA 167/96(25/03/96) |
|
Milho |
Resistência
a Lepidópteros |
"176" |
Decisão97/98/CE(23/01/97) |
Resolução
SAPyA 535/98(16/02/98) |
|
Milho |
Tolerância
a glufosato de amônio |
"T
25" |
Decisão98/293/CE(22/04/98) |
Resolução
SAGPyA 372/98(22/06/98) |
|
Milho |
Resistência
a Lepdópteros |
"Mon
810" |
Decisão98/294/CE(22/04/98) |
Resolução
SAGPyA 429/98(16/07/98)s |
|
Milho |
Resistência
a Lepdópteros |
"Bt
11" |
Decisão98/292/CE(22/04/98) |
Resolução
SAGPyA 392(27/07/01) |
|
Algodoeiro |
Resistência
a Lepdópteros |
"Mon
531" |
Não
autorizado |
Resolução
SAGPyA 428/98(16/07/98) |
|
Algodoeiro |
Tolerância
ao Glifosato |
"Mon
1445" |
Não
Autorizado |
Resolução
SAGPyA 32(25/04/01) |
Fonte:
Secretaria de Agricultura, Ganaderia, Pesca y Alimentación - Argentina
A
implantação da soja transgênica foi ampla, pois
reduziu custos (margem bruta entre 42 e 44 US$) aumentou rendimentos
para os agricultores. Gerou maior competitividade (aumentaram as
exportações) e economia nos gastos a nível
nacional de 400 milhões de dólares no ano 2000. A
produção de soja Argentina antes da
introdução do GM era 50% inferior a brasileira e hoje
é apenas 30% menor. Não se perderam mercados, existem
riscos que até o então não se concretizaram.
Está beneficiando o ambiente com melhor manuseio de água
e solo.
O
milho Bt já aprovado na Europa também foi introduzido
na Argentina e ocasionou um aumento entre 8 e 18 US$/ha de margem
bruta, e rendimento entre 8 e 15% dependente especialmente do
nível de afecção do local pelo Verrumeiro do
talo (diatraea').
Com
o intuito de manter o crescimento das exportações, a
Argentina pretende aumentar a capacidade de armazenagem, melhorar a
certificação de identidade preservada (nos casos
existentes de um mercado disposto a pagar mais por cultura não
GM, como o milho); melhorar as normativas sobre a
biotecnología; desenvolvimento institucional na área de
biotecnologia na SAGyP; inteligência de mercados e
estratégia de negociações internacionais;
melhorar a informação aos consumidores.
Considerações para as decisões na OCDE; FAO -
CODEES; Convenio de Diversidade Biológica; ONU (Protocolo de
Biossegurança); OMC (Critérios Fundamentados na
Ciência ou no Princípio de Precaução).
Conclusões
1.
indecisão judicial na legalização da soja
transgênica no Brasil, geraram algumas consequências como:
2.
A proposta de rastreabilidade e rotulagem na União
Européia tem vários pontos a serem considerados como:
3.
A experiência da Argentina mostrou que:
As
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