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Entrevista
Transgenicos:
agora nao
Isabel Pedrosa
03.Out.2003
| Nas últimas tres décadas, Jean Marc Von der Weid
direcionou sua vocaçao de militante para a mesa do brasileiro.
Presidente da Uniao Nacional dos Estudantes até o
histórico Congresso de Ibiúna, em 68, exilado na
França, onde se formou em Economia pela Universidade de Paris,
tornou-se um especialista em planejamento agrícola e
Alimentaçao. Foi assessor informal da FAO, membro do
Consultative Group on Inter-Agricultural Reasearch sediado no Banco
Mundial, e integra o Conselho Nacional de Segurança Alimentar
(Consea), que promove um ataque a lentidao do governo Lula na
distribuiçao de verbas para a agricultura familiar e exige um
lugar na mesa de debates sobre transgenicos.
Há
treze anos Jean Marc pilota a Asssessoria e Serviços em
Agricultura Alternativa (ASPTA), uma ONG bem plantada num
prédio art-déco no centro do Rio, de onde saem projetos
de pesquisa e estímulo r agro-ecologia em diferentes regioes
do país, na Paraíba, no Paraná e na zona oeste
do Rio de Janeiro. É um dos coordenadores da rede de ONGs e
movimentos sociais da campanha Por um Brasil Livre de Transgenicos.
Na entrevista a seguir, ele explica por que a batalha deve continuar,
embora desmistifique o rótulo de grande vilao da
História que alguns de seus aliados insistem em vincular aos
organismos geneticamente modificados.
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Como voce
interpreta essa reviravolta na posiçao do governo de manter a
proibiçao dos transgenicos? |
É uma
posiçao coerente com a escolha de um prócer do
agro-business para o ministério da Agricultura, um quadro
afinado com o time ministerial que joga para "manter a casa em
ordem" pagar as dívidas e nao assustar ninguém,
sobretudo o sistema financeiro. O Roberto Rodrigues é
particularmente vinculado r questao dos transgenicos. Pelo menos
quatro de seus homens-chave no segundo escalao sao
proprietários ou ex-proprietários de empresas
sementeiras. Quando o Lula se volta para seu homem de confiança
na agricultura e pergunta o que ele acha dos transgenicos a resposta
está dada. E os que sao requisitados para esclarecer aspectos
técnicos da questao só fizeram reforçar essa
posiçao. Como, por exemplo, o pesquisador da Embrapa
requisitado para uma reuniao noturna de surpresa no Palácio
com uma dezena de ministros, na semana anterior r assinatura da
medida provisória 113, defensor aguerrido dos transgenicos. O
Lula ouviu e concluiu: "pelo que voce está dizendo, isso
é muito bom". Ou seja, ouviu bem só um lado, e
reforçou uma tendencia que ele já tinha.
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Ele nao
ouviu o lado de voces? |
Nao, nao
ouviu. Antes mesmo da posse tentamos uma entrevista com ele e o
Dirceu. Desde dezembro do ano passado queríamos
alertá-los para o problema que iria explodir em março,
da safra do Rio Grande do Sul. Nao nos deram a menor pelota.
Resultado: se o Presidente nao foi manipulado, é porque
aceitou argumentos que queria aceitar.
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Nao foi
portanto uma "decisao científica"? |
De jeito
nenhum. É bem verdade que na questao da safra de março
havia a chamada "herança maldita", uma
responsabilidade do governo anterior. Um número
considerável de agricultores, embora nao tao grande quanto o
que foi por eles divulgado, queria ver o problema resolvido, porque
plantaram transgenico e estavam portanto na ilegalidade: se voce
fosse aplicar a lei a seco ferrava todo mundo, criava um problema
social. Nossa proposta era a seguinte: tudo bem, colhemos a safra,
exportamos a parte contaminada o risco ambiental já era
um fato consumado, mas o de saúde nao - e jogamos duro na
próxima safra. Já em março, pouco antes da
ediçao da MP, levantei essa proposta num encontro do
presidente com o Conselho de Segurança Alimentar, do qual
faço parte. Ele foi meio irônico: "Ah, entao voces
querem exportar a safra inteira?" Argumentei que ele estava mal
informado, que nao havia essa possibilidade. Ele foi ríspido:
"eu sei onde me informar". Virou as costas e foi embora.
Mas deu uma recuada já na porta, e avisou que ia mandar o
Zé me chamar pra conversar. Como o Zé nao chamou, ficou
tudo por isso mesmo.
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Quer dizer
entao que o Presidente nao tinha idéia da quantidade de
transgenicos na safra? |
Foi o que
pareceu, muito embora o próprio Roberto Rodrigues pouco depois
revelasse numa entrevista r imprensa que a contaminaçao era de
8 por cento no país inteiro - uma média de quatro
milhoes de toneladas, aproximadamente a metade da safra do Rio Grande
do Sul. Estava portanto concentrada lá, até por uma
razao técnica: é para o Rio Grande do Sul que vao as
sementes contrabandeadas.
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E como se
processa esse contrabando? |
De caminhao,
pela fronteira. É um festival de irregularidades. A
começar pela postura que a própria Monsanto adotou na
Argentina, bem diferente da que eles fazem vigorar nos Estados
Unidos. Quando um americano compra sementes, ele assina um termo de
responsabilidade assegurando que nao vai aproveitar nada para o
replantio. É obrigado a comprar sistematicamente a cada ano.
Na Argentina essa regra nao foi aplicada. Muita gente reproduziu
semente própria e o contrabando, que passou a ter um peso
maior em 99, foi ser avolumando cada vez mais. No ano passado,
empresas sementeiras no Rio Grande do Sul, a Sao Carlos em
particular, vendiam livremente as chamadas "sementes
Maradona".
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Essas
sementes contrabandeadas chegam a outros pontos do Brasil? |
Dificilmente.
A soja, pouca gente sabe, é uma planta extremamente
sensível ao foto-período - o tempo de luminosidade do
dia. As variedades sao desenvolvidas de acordo com as latitudes - uma
semente que se adapta bem no Rio Grande do Sul nao serve para o
Pará, Mato Grosso ou Bahia. As sementes da Argentina se
adaptam bem no sul porque estao na mesma latitude. Por isso essa
história de contaminaçao nacional é inteiramente
fajuta, qualquer técnico e agricultor que entenda de soja sabe
disso, nao tem sentido essa idéia de que a soja brasileira
esteja contaminada do Oiapoque ao Chuí.
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Onde mais
se cultiva soja transgenica no Brasil? |
O cultivo nos
outros lugares é muito pequeno. Tem alguma coisa em Santa
Catarina, que nao tem muita soja, mas as cooperativas tomaram muito
cuidado pra segregar, porque elas sao fornecedoras, sobretudo, de
empresas de criaçao de frangos e suínos exportadoras
para países europeus e temem restriçoes. O
Paraná, que seria um outro estado passível de cultivo
ilegal, instituiu um controle rigorosíssimo desde os tempos do
Jaime Lerner. No ano passado queimaram mais de seiscentos campos com
soja transgenica. A federaçao da agricultura e as cooperativas
paranaenses perceberam que para eles o risco era alto. O Requiao
manteve o mesmo controle, e agora vai submeter uma lei
radicalíssima regulando o cultivo no estado.
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Mas
voltando a cronologia dos fatos: o que aconteceu entre a
liberaçao da safra da "herança maldita" e a
canetada do "pobre coitado do vice?" |
Quando a MP
113 se transformou em projeto de lei, a ministra Marina foi o grande
pé no freio dessa história. Ela propôs um monte
de restriçoes: certificado, controle numérico, etc. Mas
o ministério da agricultura nao fez nada, sequer regulamentou
o processo de rotulagem e os fabricantes de raçao e de outros
produtos simplesmente nao sabiam qual era o símbolo que eles
teriam que botar indicando presença de transgenico. Nao
conseguiram também verificar qual era o nível de
contaminaçao real que existia na safra. Deixaram a
situaçao apodrecer, enquanto a pressao dos agricultores no Rio
Grande do Sul para liberar esta safra só fazia subir.
Repetimos os erros de março, só que desta vez sem
"herança maldita", a culpa vai ser mesmo deste
governo.
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A quem
interessa realmente a liberaçao da soja transgenica no Brasil? |
Fundamentalmente
a Monsanto, que agora tem um mercado enorme de sementes de soja que
ela pode ocupar no Brasil. Ganha o sojicultor americano, que perdeu o
mercado europeu, que sinalizava para a soja nao transgenica
brasileira. Se todo mundo vira transgenico, eles entram no mercado de
novo, passam a competir de igual para igual.
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Mas reduzir
a questao dos transgenicos a
Monsanto nao é um raciocínio muito simplista? Nao
é de vital importância que a Embrapa aprofunde as
pesquisas sobre transgenica? |
Há
tempos os transgenicos sao pesquisados aqui. Aproximadamente R$ 40
milhoes por ano sao investidos nesse tipo de pesquisa. Mas existem
vários problemas que precisam ser levados em conta. O primeiro
deles é que, embora a Embrapa esteja voltada para interesses
brasileiros - apostando em cultivos e problemas especificamente
nacionais como feijao, mamao, etc. a propriedade intelectual
dessa tecnologia está na mao de cinco empresas estrangeiras -
duas americanas e tres européias. E a Monsanto é a mais
poderosa delas. Por outro lado as multinacionais investem mais em
transgenicos de amplo mercado internacional como soja, milho e trigo.
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Quando se
argumenta que milhoes de pessoas consomem produtos transgenicos nos
Estados Unidos, isso é verdade ou mentira? |
O que os
americanos estao consumindo diretamente e tem alguma coisa a ver com
transgenico é muito pouco do ponto de vista de volume. Uma
percentagem pequena. O primeiro produto transgenico que eles
lançaram nos Estados Unidos, em 94 foi um tomate, o Flower
Savior. Foi um fiasco de consumo, e retirado do mercado. Depois foi a
batata. Mas a pressao dos consumidores foi grande, e muitas empresas
americanas recuaram no seu comércio, a Mc Donald's inclusive.
Hoje, a base transgenica do mercado é a soja e o milho,
principalmente dirigidos ao consumo animal e nao ao consumo direto.
Se voce for olhar a porcentagem de proteína de soja que
é usada no consumo humano, em geral misturada com carnes
processadas, isso deve representar algo em torno de um a dois por
cento. Ela realmente está dirigida ao consumo animal. A
Monsanto quis lançar em 2001 sementes de trigo transgenico,
mas houve uma resistencia muito grande. Consumidores,
indústrias de moagem, panificaçao, todos disseram
"trigo,nao". O lançamento foi adiado para 2005,
quando eles esperam ter passado a onda de rejeiçao.
Mas a verdade
é que nao existe nenhuma comprovaçao científica
de que os transgenicos causem danos a saúde pública.
Nem que nao
causem. A verdade é que quando voce tem uma tecnologia de
alimentos inteiramente nova que vai afetar a rotina de milhoes de
pessoas, há uma margem de risco de toxidade que precisa ser
analisada.
Mas o kiwi,
por exemplo, é uma fruta nova e estranha, com duzentos mil
genes, e ninguém contestou o risco de toxidade que ela
contém.
Mas é
um produto natural, nunca passou por uma mudança dessa
natureza. Quando voce faz a transgenica voce manipula uma série
de genes que carregam em si mesmo riscos, como por exemplo
marcadores de resistencia a antibióticos. Os cientistas
levantam a hipótese da resistencia a antibióticos ser
transferida aos humanos através da alimentaçao. Isto
nao está descartado. Desvendou-se o genoma, mas nao as
interelaçoes entre os diferentes genes e as seqüencias do
DNA. Entao, quando voce introduz um gene estranho num organismo
qualquer, voce nao sabe como este pode se arranjar internamente.
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E por que
as pesquisas sobre os riscos dos transgenicos avançam tao
lentamente? |
Porque
pesquisas sobre risco colocam em risco a possibilidade do uso
econômico em curto prazo. Os transgenicos consomem bilhoes de
dólares em pesquisa. Lançar uma variedade de
transgenicos no mercado tem um custo médio de 300 milhoes de
dólares. Processos de investigaçao de risco sobre a
saúde deveriam consumir pelo menos cinco anos antes da
liberaçao do produto e encarece-lo em mais dez por cento. As
pesquisas atribuídas ao governo americano nao passam de um
mito - sao pesquisas conduzidas pela Monsanto, desprovidas de
informaçoes que eles simplesmente nao fornecem, sob a
proteçao do rótulo de segredo industrial. Criaram uma
figura científica que na verdade é anticientífica
- a chamada equivalencia substancial, onde explicam o seguinte: se
uma planta tem a mesma composiçao química de
proteínas e tres ou quatro outros indicadores que outra, ela
é substancialmente equivalente r outra, e portanto oferece os
mesmos riscos. Só que isso é uma ficçao sobre o
que é um produto transgenico, porque embora a diferença
seja muito pequena ela pode ser extremamente radical do ponto de
vista de seus efeitos. O grande salto da transgenica é
justamente permitir uma coisa que na natureza nao ocorre - cruzar
espécies diferentes. Um potencial extremamente interessante,
tem que ter muito mais pesquisa.
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O que torna
a rotulagem dos produtos transgenicos um assunto tao polemico? |
Quando voce
nao tem rotulagem de produto, voce nao pode dizer se um determinado
problema está vinculado aos transgenicos. Nao pode
correlacionar a doença com o produto transgenico. Nos Estados
Unidos há uma enorme pressao para o estabelecimento de regras
de rotulagem, as pesquisas indicam que 70 por cento de americanos a
defendem, mas as empresas vem conseguindo barrar sua aprovaçao
pelo congresso americano.
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E na
Europa? |
A rotulagem na
Europa é bastante rigorosa, e isso praticamente eliminou a
parcela de consumo direto de soja transgenica. Voce nao tem nem
óleo de soja transgenica. Mas tem consumo em raçao,
sobretudo da Argentina. A parcela de farelo de soja transgenica usado
no consumo animal europeu é da ordem de 33 por cento. O que
nao é negligenciável, mas está caindo: a partir
de janeiro, entra em vigor uma regulamentaçao rígida da
Uniao Européia sobre rotulagem para raçao animal.
Muitas indústrias de transformaçao e beneficiamento
já estao anunciando que nao vao mais usar essas raçoes.
Isso vai interferir no mercado de soja dirigido a farelo, que poderia
favorecer muito o Brasil.
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Voce
partilha da idéia de que, entrando de sola nos transgenicos, o
Brasil estaria cometendo um suicídio comercial? |
A gente corre
o risco de ter que competir com os americanos de igual para igual.
Nos sobram duas possibilidades: se os europeus mantiverem a
resistencia, vender para a Europa significa fazer segregaçao
também, isolamento, como os americanos fazem atualmente, e
isso encarece muito o produto. Se os europeus cedem aos transgenicos,
a soja americana, em condiçoes normais, chega mais barata na
Europa. Nesse sentido, o tiro nao é no pé, é na
cabeça mesmo.
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E quanto a
outros mercados no mundo |
O mercado
japones é um mercado oscilante, já teve regras mais
rígidas, menos rígidas, mas há indicadores muito
fortes de um freio no consumo de transgenicos. O mercado que sobra
é o chines. Tem regras rígidas de controle, nao
produzem soja transgenica, mas importam dezesseis milhoes de
toneladas anuais, das quais boa parte é transgenica, embora
essa seja uma tendencia em declínio. Nesse momento, o
governador Roberto Requiao está negociando um acordo para
fornecer oito milhoes de toneladas de soja nao transgenica do
Paraná pra China pelos próximos dez anos, quando os
chineses acreditam que serao auto-suficientes na produçao. Se
ele conseguir, vai matar a exportaçao do Rio Grande do Sul.
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E como voce
ve a legislaçao sobre a questao de biossegurança que
está em vias de ser aprovada? |
Existe um
conflito entre o decreto que criou a Comissao Técnica Nacional
de Biossegurança, criada pelo governo Fernando Henrique
Cardoso, e a legislaçao constitucional brasileira. Ele
dá r Comissao Técnica Nacional de iossegurança a
prerrogativa de decidir sobre o cultivo da soja transgenica no
Brasil. Mas a Justiça determina que a CTNBio nao pode liberar
o produto sem a avaliaçao de impacto ambiental e de
saúde, e isso faz com que toda a questao resida neste rolo de
regulamentaçao - em definir quem é que diz que pode
liberar e em que condiçoes. O governo Lula pende para
reforçar a posiçao do decreto de Fernando Henrique, ou
seja, a comissao técnica de biossegurança vai dizer
definitivamente se pode ou se nao pode. Isso a meu ver prolonga o
choque legal contra a Constituiçao, que determina a
necessidade de realizaçao do Estudo de Impacto Ambiental.
Outro problema é o de voto dentro da própria Comissao,
que me parece um desvairo. Oito cientistas, todos
pró-transgenicos, um industrial, um representante dos
empregados da indústria de biotecnologia, representantes do
ministério da agricultura, da saúde, do meio
ambiente... Como é possível um consenso, quando é
preciso votar sobreposiçoes que cada um extrai da experiencia
em sua própria área de atuaçao?
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O que voce proporia? |
No Brasil nao
tem pesquisas sobre impacto ambiental, ninguém fez, e a
Embrapa está começando a trabalhar nesse tipo de
pesquisa. Seus técnicos acabam de receber um financiamento da
FINEP, para começar a estabelecer quais sao os protocolos de
pesquisa que permitem esse tipo de avaliaçao. Por que isso
é importante, particularmente no caso brasileiro? Vou te dar
um exemplo. No caso da soja, a Embrapa desenvolveu variedades que tem
a capacidade de absorver nitrogenio do ar, através das
chamadas bactérias fixadoras de nitrogenio. Isso, do ponto de
vista econômico, é um estouro. Voce economiza anualmente
algo como dois bilhoes de dólares em fertilizantes
nitrogenados, como uréia e amônia. É um grande
avanço da pesquisa brasileira, uma das coisas mais importantes
do ponto de vista de impacto econômico. Sobretudo porque ficou
comprovado nos Estados Unidos que um dos efeitos nao previstos da
soja transgenica é o da inibiçao da açao das
bactérias fixadoras de nitrogenio - o que levanta a
hipótese de que esta seja a razao porque ela é em
média de 5 a 12 por cento menos produtiva que as sojas
convencionais. Só que, ao contrário do Brasil, os
americanos nunca pesquisaram o desenvolvimento da soja para ampliar a
capacidade de fixaçao biológica de nitrogenio,
preferiram a relaçao com a agro-química. Veja só
o risco: se nos Estados Unidos, sem que voce tenha desenvolvido muito
essa questao da bactéria fixadora de nitrogenio, já
há um efeito de perda de 5 a 12 por cento de produtividade,
aqui, com esta liberaçao irresponsável, o risco pode
ser muito maior. Em suma: é preciso parar para avançar
na pesquisa. Tenho a impressao de que se conseguíssemos ter
dois anos de trava, a gente ia finalmente poder dizer no mercado quem
está com a razao.
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