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Entrevista
É
chegada a hora de vencer os preconceitos contra os OGMs
O
engenheiro agrônomo André Pessôa,
sócio-diretor da Agroconsult, empresa especializada em
Análise de Mercados Agrícolas, em entrevista concedida
ao CIB afirma que o mercado de soja, tanto interno quanto de
exportação, será cada vez menor para os produtos
não-transgênicos e o consumidor não estará
disposto a pagar mais caro para ter em casa esse produto.
Pessôa, que é conselheiro do CIB, afirma que é
chegada a hora de vencer medos e preconceitos sobre o tema.
É necessário que o governo tome algumas
importantes medidas no campo do agronegócio para que em menos
de 10 anos, o Brasil seja o maior produtor mundial de soja,
afirma. De acordo com o consultor a biotecnologia agrícola
poderá, inclusive, contribuir muito com o programa Fome Zero,
ao baratear o custo dos alimentos e melhorar a qualidade da
produção. Leia abaixo a entrevista na íntegra.
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CIB - Muito
se discute no país sobre a possibilidade de ficarmos livres
dos transgênicos como algo benéfico em termos
comerciais. Quem defende essa tese acredita que, dessa forma, o
Brasil se tornará um nicho único para quem procura
produtos livres dos OGMs. Qual a sua avaliação sobre
isso? Podemos ganhar de alguma forma com essa postura? |
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PESSÔA
- Acho que não. A questão central é saber
qual o tamanho do mercado para produtos não-transgênicos
e quanto os consumidores estariam dispostos a pagar a mais por esses
produtos. Temos várias evidências atualmente de que esse
mercado é bastante reduzido e decrescente. Além disso,
os prêmios pagos são pequenos. Tome-se, por exemplo, a
União Européia, apontada por alguns como um grande
mercado que não quer transgênicos e que cairia no colo
do Brasil se nós ficássemos livres de
transgênicos. A importação de soja americana e
argentina cresceu no último ano nada mais nada menos que 50%.
Como 78% da soja plantada nos EUA na última safra, segundo o
USDA, foi de soja transgênica e, na Argentina, esse percentual
excede 95%, pode-se concluir que a União Européia
está em franco processo de elevação da
importação e consumo de transgênicos. Vale
lembrar que a União Européia importa mais de 20
milhões de toneladas de soja em grão por ano,
além de mais 21 milhões de toneladas de farelo de soja
anualmente. Se considerarmos o fato de que nos EUA são
produzidos apenas 15 milhões de toneladas de soja não-transgênica
e que, na Argentina, esse total não passa de 1,5 milhão
de toneladas, e, além disso, considerarmos também que
toda essa soja é segregada adequadamente e certificada como
não-transgênica (na verdade menos de 10% da soja
não-transgênica é certificada nesses
países), ainda haveria a necessidade de
importação de 3,5 milhões de toneladas de
grãos de soja não-transgênica por parte da
União Européia (sem contar a importação
de farelo), que nesse caso teria apenas o Brasil como fornecedor
potencial. Dessa forma, deveríamos ter enfrentado no
último ano uma gigantesca pressão sobre a
cotação da soja brasileira com prêmios nas
alturas, mas não foi isso que vimos. O que vimos foi a
União Européia comprando mais e mais soja
transgênica americana e argentina. Portanto, o bom senso exige
uma reflexão desapaixonada de qual é de fato o tamanho
do mercado de não-transgênicos hoje e no futuro, pois
estou convencido de que esse será muito pequeno, apenas um
nicho de mercado, e, portanto, não é uma
opção viável para um país como o Brasil
que, em menos de 10 anos, será o maior produtor mundial de
soja. Estamos apenas perdendo tempo e, em agribusiness, tempo
também é dinheiro. Estamos penalizando
desnecessariamente nossos agricultores a enfrentar, além do
protecionismo dos países ricos, internamente o medo e o
preconceito de uma minoria desinformada e/ou mal intencionada. Como
tem dito o presidente Lula, é chegada a hora de vencer o medo
e os preconceitos. |
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CIB -
Atualmente existe um mercado diferenciado pagando prêmio por
commodities não-transgênicas? |
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PESSÔA
- Sim, já existe esse mercado. Mas, como dissemos, o
problema é o tamanho desse mercado, que é muito
pequeno. Os prêmios nos EUA, onde já existia a
prática de segregação de tipos diferentes de
produto antes mesmo da existência dos transgênicos, o
prêmio pago por produto não-transgênico, segregado
desde o plantio, passando pela armazenagem e contando com
certificação até a chegada ao porto de
exportação ou à porta da fábrica, gira
entre 1,0 e 3,0% no caso da soja, e chega a 6% no caso do milho,
sobre o valor do produto não segregado e não
certificado. Ressalte-se que esse prêmio, na maioria dos casos,
cobre apenas os custos relativos ao plantio de soja
não-transgênica, sua segregação e sua
certificação. |
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CIB - A
demora do Brasil em definir regras para cultivos GM tem impedido a
China de comprar soja brasileira. Como você avalia as
conseqüências dessa falta de definição
especificamente no que diz respeito ao comércio internacional
dessa commodity no Brasil no curto e médio prazos? |
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PESSÔA
- Na verdade, o Brasil não está impedido de
exportar soja para a China. O que houve é que os chineses
baixaram uma nova regulação sobre as
importações de produtos transgênicos que exige
que o país de origem do produto certifique que o mesmo
não traz riscos à saúde humana, à
saúde animal e ao meio ambiente. Os chineses não querem
impedir a entrada de transgênicos, até porque não
faria sentido porque eles próprios são grandes
produtores de transgênicos. O que eles querem é saber
exatamente o que estão comprando. Como o Brasil teoricamente
não permite a produção de transgênicos,
não haveria porque certificar seus embarques. Mas, na
prática, sabemos que existe uma parcela não
desprezível da soja cultivada no Brasil que é
transgênica (especula-se que seja entre 15% e 20%). Sendo
assim, ao testar a soja oriunda do Brasil, os chineses poderiam
encontrar um produto diferente daquele atestado pelo governo
brasileiro. Como a decisão na Justiça brasileira
já se arrasta por quatro anos e não há
previsão de chegar rapidamente a uma solução
, o governo brasileiro entrou em acordo com o governo
chinês para emitir um certificado transitório. Este
atestará que a soja brasileira é preponderantemente
não-transgênica, mas que pode haver
contaminação em algumas cargas de soja transgênica
e que, se isso ocorrer, será com a soja do tipo Round-up
Ready, que já recebeu da CTNBio um atestado de que não
traz riscos para a saúde humana, animal ou ao meio ambiente
e que é do mesmo tipo que os chineses estão
importando regularmente dos EUA e da Argentina. Ou seja, graças
à habilidade de negociação de nossas
autoridades e ao grande interesse dos chineses em não
interromper o fluxo de comércio de soja entre os dois
países é que conseguimos, pelo menos temporariamente,
impedir prejuízos de cerca de US$ 600 milhões por ano
aos nossos agricultores e à balança comercial
brasileira. A soja é nosso principal produto de
exportação e, a China, nosso principal cliente. Sendo
assim, essa questão precisa ser resolvida em definitivo
até 20 de setembro deste ano, prazo máximo que os
chineses nos deram. Não se deve contar com nova
prorrogação desse prazo, pois a pressão que os
chineses vem sofrendo do governo americano sobre essa questão
é muito grande. Os EUA seriam os grandes beneficiados com
eventuais dificuldades de exportação de soja brasileira
para a China. Essa questão deveria ser uma prioridade do
governo desde já e não ser deixada para ser resolvida
no dia 19 de setembro. Os Ministérios da Agricultura, Meio
Ambiente e Justiça têm que se envolver direta e
imediatamente na solução dessa polêmica
questão. |
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CIB -
Há correntes, tanto do governo quanto do setor empresarial,
para o estabelecimento de legislações estaduais para
OGMs, facultando aos Estados da federação tornarem-se
ou não zonas livres de transgênicos. Juristas consideram
esse procedimento inconstitucional, mas como você avalia essa
possibilidade para o setor agrícola dos principais Estados
produtores do Brasil? |
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PESSÔA -
Acho que, na prática, não há como fazer valer
essa legislação. Se a legislação federal
que entendo superior às eventuais
legislações estaduais não foi capaz de
impedir que o plantio clandestino de soja transgênica
avançasse, nos últimos anos, e chegasse à cerca
de 20% da área total no país, não vejo como leis
estaduais conseguiriam brecar esse crescimento. Só vejo mais
custos e mais dificuldades para que os agricultores brasileiros sejam
mais competitivos que seus concorrentes nessa idéia
estapafúrdia. Curiosamente, é exatamente nos estados
que pretendem ter ou já tem legislação proibindo
o plantio de transgênicos que o plantio desses produtos
está mais disseminado, como o Rio Grande do Sul, Paraná
e Mato Grosso do Sul. |
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CIB - Na
sua opinião, quais ações deveriam ser tomadas de
imediato no Brasil, que podem impactar diretamente no
agronegócio? |
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PESSÔA
- Acho que a primeira e grande medida do Presidente Lula em
relação à agricultura já foi tomada, com
a nomeação de uma competente equipe para o
Ministério da Agricultura chefiada pelo competente líder
Roberto Rodrigues. Essa equipe está apta para debater com a
sociedade, com o Congresso e com o próprio governo os
avanços necessários para consolidar de vez a
posição do Brasil como líder mundial de
competitividade agropecuária. As medidas são
várias, entre as quais destacaria: revisão da elevada
carga fiscal sobre o setor no âmbito da reforma fiscal;
revisão da legislação trabalhista no meio rural;
revisão dos critérios de avaliação do uso
da terra; desenvolvimento de um novo sistema de financiamento
agrícola, que dê ênfase ao uso de instrumentos de
mercado lastreados na própria produção
agrícola; implantação de amplo programa de
seguro rural; criação de um programa de
agregação de valor nas exportações
agrícolas; implementação de um rigoroso programa
de controle de qualidade dos alimentos produzidos e comercializados
no Brasil. Além disso, é importante melhorar a
fiscalização na defesa sanitária vegetal e
animal, implementar um amplo programa de melhoria das
estatísticas oficiais sobre o setor agrícola, promover
a liberação do uso dos transgênicos e harmonizar
a legislação ambiental com os interesses da
agricultura, buscando mais a ótica do desenvolvimento
sustentável do que da simples preservação, e
enfrentar mais profissionalmente os desafios para a
superação do protecionismo internacional nas suas mais
diversas formas. Fazendo isso tudo ou pelo menos parte disso
, estaremos caminhando na direção de consolidar
nossa posição como novo celeiro do mundo, trazendo
divisas, empregos e desenvolvimento sustentável ao país
e, ao mesmo tempo, garantindo a renda dos nossos agricultores. |
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CIB -
Você acha que a biotecnologia agrícola pode ser uma
importante ferramenta no programa Fome Zero do governo? |
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PESSÔA
- Claro. Tudo o que possa contribuir para reduzir o custo e
melhorar a qualidade dos alimentos no Brasil ajudará em muito
o Programa Fome Zero. Como sabemos, o problema da fome no Brasil
não é a falta de oferta de alimentos, mas sim, uma
questão de falta de renda para as pessoas consumirem. Quanto
mais baratos ficarem os alimentos, mais gente terá acesso
permanente a eles. A biotecnologia permite reduzir custos sem que,
necessariamente, se reduza a renda dos agricultores. Isso me parece
um bom caminho a ser seguido. Mas uma outra questão me vem
à cabeça quando penso nos transgênicos e na fome.
A fome está associada não apenas à quantidade de
alimentos que consumimos, mas também à qualidade. E
fome, principalmente, quando nos alimentamos pouco e mal, está
associada à maior parte das enfermidades que afetam nossos
irmãos mais carentes, sobretudo as crianças. Daí,
lembro que os transgênicos já são e
serão ainda mais no futuro , um ótimo
veículo para melhorar a qualidade dos alimentos, pois é
possível produzir frutas, legumes e cereais transgênicos
enriquecidos com ingredientes específicos para uma dieta
equilibrada e saudável. Fico imaginando o consumo de sopas e
papinhas por nossas crianças de frutas e legumes que já
supram todas as suas carências nutricionais. A minha
esperança é que, a informação cada vez
mais difundida do que são transgênicos e que
benefícios eles podem trazer para a sociedade, principalmente
num país injusto como o nosso, possa superar o medo e o
preconceito que uma minoria mal intencionada insiste em disseminar.
Parafraseando Duda Mendonça: Oxalá, a esperança
e a informação vençam o medo e o preconceito. |
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