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Questões da história recente da Engenharia Genética

O legado do Dr. Watson

Não resta a menor dúvida que os herdeiros de Watson e Crick, cientistas pioneiros da biologia molecular, cujo primeiro trabalho sobre a estrutura do DNA, foi publicado na Revista Nature em 1953, enfrentam hoje questões complexas associadas às pesquisas desenvolvidas nos laboratórios, antes tidos como fronteiras exclusivas do poder do cientista. O que poderíamos chamar de epicentro das controvérsias está situado nas pesquisas do DNA recombinante.

Grosso modo, estas pesquisas envolvem uma tecnologia que permite ao cientista retirar o DNA de um organismo e transportá-lo para o DNA de um outro, criando novas moléculas, novos genes, enfim criando um ser vivo inteiramente novo. Estamos em pleno desenvolvimento do “mundo dos admiráveis Germes Novos”, onde é possível manipular mutações de espécies, na maioria das vezes aleatoriamente, processando a fabricação de “coisas”, sem identidade reconhecida pela natureza.

As possibilidades testadas e já adquiridas como resultados concretos dos laboratórios contabilizam alguns “ganhos” para a engenharia genética experimental. A fertilização de embriões humanos em proveta e a conseqüente implantação no ventre materno já é fato banalizado e aceito pela sociedade como uma simples técnica de concepção.

Contudo, outros investimentos científicos nesta área não apresentam a mesma facilidade de aceitação por parte da sociedade. Como exemplo de pesquisa que causa enorme controvérsia está a que implica na manipulação de alguns vírus cujas técnicas consistem em “desnudar” um determinado microorganismo para encapá-lo com as características de um outro, proporcionando a criação de um novo ser vivo, na verdade um vírus capaz de causar tumores no homem, realizando aquilo que os dois microorganismos utilizados como base não seriam capazes de provocar.

As técnicas para sintetizar artificialmente um gene com o objetivo de fazê-lo agir no interior de uma bactéria, o estabelecimento de um processo químico numa célula viva para modificar artificialmente seu código genético, a fabricação de células híbridas que dão origem a alguma “coisa”, são alguns exemplos de ensaios de manipulação genética já em pleno curso nos laboratórios das instituições de pesquisas, das universidades e de algumas indústrias. No Japão, um projeto de pesquisa configurou seu objetivo na possibilidade experimental de efetuar o cruzamento de uma mulher com um primata.

Essas perspectivas formuladas pelos projetos científicos despertam na sociedade o medo do avanço de um determinado totalitarismo, o tecnológico e científico. As questões mais imediatas que se colocam referem-se ao raio de poder da ciência e dos cientistas, que, ao tomarem para si a tarefa de manipular os processos naturais, envolvem-se numa teia de problemas, cuja complexidade pode resultar na perda das fronteiras entre aquilo que visa estimular o caminhar da ciência e aquilo que pode refletir apenas a ambição profissional e pessoal do cientista.

Um dos argumentos levantados para se colocar em pauta a questão das tecnologias utilizadas para manipulação do universo vivo, realça o propósito de abrir um debate sério que aborde os critérios de ordem técnica juntamente com as considerações éticas, morais e humanas que envolvem o tema.

Atualmente, já nos é possível obter informações sobre o andamento deste debate nos jornais diários nacionais e estrangeiros. A matéria intitulada “Os limites da manipulação”, publicada na “Folha de São Paulo” de 1 de dezembro de 1996, divulgou o conteúdo dos debates estabelecidos pelos Bioeticistas sobre as relações da ética e da lei com os avanços da ciência.

Mais especificamente, o conteúdo da matéria nos transmite as reflexões que estão sendo elaboradas pelo pesquisador italiano Giovanni Berlinguer e o pesquisador brasileiro Volnei Garrafa, que têm se dedicado ao estudo mais profundo das implicações entre o avanço científico e tecnológico, o mercado e o corpo humano, observando também os limites reservados à lei no que diz respeito a manipulação da vida

“O desenvolvimento da ciência pode percorrer caminhos diversos, utilizar diferentes métodos. O conhecimento é por si só um valor, mas a decisão sobre quais conhecimentos a sociedade ou o cientista devem concentrar seus esforços implica a consideração de outros valores. Da mesma forma não se pode deixar de considerar o papel do cientista ou da atividade que ele exerce. Sua responsabilidade ética deve ser avaliada não só pelo exercício das suas pesquisas em si, mas pelas conseqüências sociais decorrentes das mesmas”.

A reflexão de Berlinguer e Garrafa não se dirige para a proposta de colocar a ciência numa “camisa de força”, assim enfatizam que:

“Enquanto a ciência, não sendo ideológica por sua estrutura, pode estar à serviço ou dos fins mais nobres ou dos mais prejudiciais para o gênero humano, o cientista não pode permanecer indiferente às conseqüências sociais do seu trabalho.

Se a ciência como tal não pode ser ética ou moralmente qualificada, pode sê-la, no entanto, o uso que dela se faça, os interesses a que serve e as conseqüências sociais da sua aplicação.”

A opinião pública sobre o domínio da ciência começa a estabelecer um novo ajuste entre o laboratório e a sociedade. Os cientistas hoje não podem mais alimentar o sonho da “torre de marfim”, alegando estar a ciência numa posição de neutralidade absoluta. Afinal, os recursos destinados as pesquisas e a declaração de seus objetivos são itens sobre os quais a sociedade tem indagado e formulado opiniões muitas vezes capazes de interferir nos projetos elaborados pelas instituições científicas.

Sem dúvida, o avanço da Biologia Molecular que abriu para ciência novas fronteiras, inclusive a de possibilitar a criação de novas formas de vida, provocou na sociedade preocupações mais precisas, levando-a contestar os direitos da ciência sobre a natureza enquanto universo.

Inúmeros questionamentos que associam os valores sociais, culturais e éticos às novas fronteiras de expansão da
ciência têm sido pontos fundamentais dos grandes debates em torno das noções de risco e benefício oferecidos pela ciência.

Como exemplo de uma questão freqüente no cotidiano social, poderíamos apontar a que pretende discutir o aumento do tempo de vida das pessoas associada a superpopulação e a distribuição eqüitativa de um nível de vida satisfatória, não apenas economicamente. Hoje este questionamento começa a colocar em pauta a preservação do planeta e da sua biodiversidade natural e cultural, o que estabelece para ciência a necessidade da busca de tecnologias alternativas.

A controvérsia entre o campo de investigação da ciência e os limites solicitados pela sociedade não se constitui nenhuma novidade. Hoje, a sociedade deseja menos impor fronteiras à ciência, mas por outro lado, ela clama por uma certa “prestação de contas” pública, como parte do compromisso que deve ser estabelecido entre o que é elaborado enquanto projeto científico nas instituições e sua difusão social.

Certamente, alguns adeptos do discurso da preservação da exclusividade dos projetos científicos aos cientistas, alegam que a ciência sempre foi compreendida pela sociedade como um domínio capaz de corromper os valores tradicionais, especialmente aqueles sustentados pela religião, relembrando episódios como a condenação de Galileu.

Não se trata aqui da defesa da “desconstrução” da ciência e da tecnologia, nem tampouco de reeditar antigas visões enraizadas na tradição religiosa da sociedade ocidental que resultaram no profundo espanto e temor da sociedade frente as teorias de Charles Darwin quando da edição do livro “Origem das Espécies”. Não se trata tampouco de reforçar o desencanto verificado nos anos 80, quando se tentou imprimir a idéia do “fim da ciência”.

A atualização do debate ciência e sociedade está situada hoje sobre questões mais concretas, ou seja, ela está centrada sobre os efeitos das tecnologias já disponíveis no mercado produzidas pela ciência que geraram benefícios, mas que podem também representar riscos incalculáveis. Durante muitos anos o uso incessante de materiais químicos foram aplicados em projetos agrícolas que renderam grandes safras e “recuperam” solos impróprios para produção. Hoje várias regiões do planeta estão mortas, os lençóis de água contaminados, não restaram sequer os microorganismos para recomeçar a vida. Além disso, faz parte do nosso quotidiano as notícias sobre contaminação de populações e de suas próximas gerações por conta do uso imediato de recursos tecnológicos não suficientemente avaliados ou testados.

Portanto, podemos compreender, analisar e acatar com respeito e seriedade científica os questionamentos da sociedade que trazem à tona preocupações com o superdesenvolvimento nuclear, biogênico e químico, que traduzem um “tecnocentrismo” que alcança desde a parcela mais comum de nossa sobrevivência, como o consumo de alimentos geneticamente modificados à possibilidades futuras bem próximas da manipulação genética sobre humanos, já ensaiada em seres superiores, como aconteceu com os clones de macacos, experiência ocorrida nos Estados Unidos e com as ovelhas Dolly e Polly na Escócia.

O afastamento histórico entre o laboratório e a sociedade sempre foi justificado através do argumento da necessidade do sigilo das pesquisas em decorrência da competitividade dos projetos científicos entendidos como progresso material dos países detentores da supremacia tecnológica.


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