OS RISCOS DE NÃO ADOTAR OS OGMs
por Drew L. Kershen
Professor de Direito, Earl Sneed Centennial
Universidade de Oklahoma, Faculdade de Direito
© 2000 Drew L. Kershen, todos os direitos reservados apresentado em
DA FAZENDA À MESA: UMA CONFERÊNCIA SOBRE BIOTECNOLOGIA ALIMENTAR
organizada pela ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE SOJA
6 de Dezembro de 2000 Chicago, Illinois, EUA

INTRODUÇÃO

Em resposta à controvérsia do StarLink®, em que o milho StarLink® foi aprovado para ração animal, mas não para o consumo humano, muitas empresas de alimentos podem chegar a evitar produtos transgênicos na totalidade, em qualquer alimento ou ração. Desta forma, as empresas de alimentos tentam proteger suas valiosas reputações, construídas ao longo dos anos, e a reputação de qualidade de seus alimentos em termos de segurança. Naturalmente, é muito importante manter a proteção de uma reputação de segurança alimentar. Nenhuma empresa pode ser recriminada por ter essa preocupação ou por agir em sua conseqüência quando devido.

Mas a estratégia de não adotar os OGMs também representa riscos que não devem ser ignorados, em reações apressadas à controvérsia com o StarLink®. Estes riscos devem ser cuidadosamente analisados, para que as empresas de alimentos tomem decisões com amplo conhecimento das considerações relevantes.

Em certos pontos deste trabalho, o autor usará os nomes de empresas de alimentos. Isto é feito apenas para comprovar os exemplos e refletir o mundo real, em vez de usar situações hipotéticas ou especulativas. O autor não usa os nomes com qualquer intenção de ofender, atacar, levantar dúvidas sobre a conduta das empresas, nem avaliar negativamente as decisões que as empresas tenham tomado. O autor não usa nomes com qualquer intenção de ofender, atacar ou criar imagem negativa sobre a conduta das empresas, nem criticar as decisões que as empresas tenham tomado. O autor usa os nomes de empresas apenas para fins de clareza: São os exemplos mais claros dos riscos de optar por não-transgênicos.

O risco de ter um produto agrícola aprovado para um uso (tal como ração animal ou como insumo industrial), mas não ser aprovado para o consumo humano também é um risco para produtos não transgênicos. Brassicae é o melhor exemplo de uma família de plantas que, em sua forma de semente de colza é aprovada como óleo industrial mas, com pequenas diferenças de variedade, é amplamente usada como óleo comestível de canola. Através de técnicas de preservação de identidade, mantém-se o produto industrial segregado do produto agrícola. No entanto, a polinização cruzada entre áreas próximas das variedades de colza e canola costuma ocorrer, e a variedade industrial será encontrada na espécie alimentar. 1 Artigos de jornal sobre o trabalho do Dr. Brown podem ser encontrados em "As novas sementes de mostarda oferecem o melhor de dois mundos" (Lewiston Morning Tribune, 15/Set/97, p. 9A); "Pesquisa Agrícola: Produtos alternativos se encaixam no ciclo de rotação. Cientistas da Universidade de Idaho estão trabalhando com novas variedades de canola e mostarda que podem ser mais adequadas à região e ajudar agricultores a obter maiores lucros" (Lewiston Morning Tribune, 25 de Agosto de 1996, p. 3). Mas se os óleos dos dois produtos forem mesclados, por acidente ou intencionalmente, a saúde humana pode ser prejudicada. Em um incidente na Espanha, no início da década de 1980, artigos de jornais relataram que mais de 1.000 pessoas morreram e outras 25.000 sofreram graves problemas de saúde ao ingerirem alimentos cozidos com óleo industrial de colza.2 Na leitura destes artigos não fica claro se o próprio óleo industrial de colza foi a causa das mortes e das enfermidades, ou se estas foram causadas por algum aditivo do óleo. Como uma técnica de preservação de identidade, um colorante é adicionado ao óleo industrial de colza para criar uma distinção visual do óleo de canola destinado ao consumo humano. Apesar do risco de misturar variedades alimentares e não alimentares de Brassicae e outros óleos, canola tornou-se o produto agrícola de maior importância no Canadá, ultrapassando o trigo. 3

O exemplo de colza/canola ilustra que a ausência de transgênicos não evitará riscos similares à controvérsia do StarLinkÒ. Na verdade, empresas de alimentos devem entender que, à medida que os produtos agrícolas comercializados, que ofereçam uma variedade de benefícios nutricionais, medicinais, industriais e pró meio ambiente, a mistura de produtos aprovados para algumas finalidades, mas não outras, se tornará mais comum.

Porém, o restante deste artigo enfoca três riscos diretamente relacionados à decisão de não utilizar transgênicos em alimentos e rações. Dois riscos referem-se à responsabilidade legal; o terceiro refere-se à sociedade, com implicações de responsabilidade civil. Os três riscos são: O Risco de Responsabilidade por Produtos, o Risco da Desobediência Ambiental, e o Risco da Ignorância Científica.

O Risco de Responsabilidade por Produtos

O Exemplo Gerber

Em Setembro de 1999, a Gerber anunciou que seus alimentos para bebês não conteriam mais quaisquer ingredientes transgênicos. Na verdade, a Gerber foi ainda mais longe, indicando que tentaria direcionar seus produtos para ingredientes orgânicos, cultivados sem pesticidas ou fertilizantes químicos. A Gerber agiu para proteger a reputação de seus produtos, após ameaças instigadas pelo Greenpeace de boicotes contra alimentos geneticamente aprimorados, adotando assim a percepção generalizada de que produtos orgânicos são mais seguros aos consumidores. A Gerber é uma subsidiária da Novartis. 4

A Novartis atualmente passa por mudanças organizacionais corporativas. A Novartis e a AstraZeneca estão efetuando a fusão de suas divisões agroquímicas para formar a Syngenta. Ao mesmo tempo, a Bayer AG está adquirindo a divisão de proteção agrícola da Novartis.

A Novartis é um grande fabricante de pesticidas agrícolas e desenvolvedor de produtos geneticamente modificados. A Novartis tem a capacidade científica para avaliar com cuidado e detalhadamente a segurança de alimentos produzidos por suas empresas subsidiárias. A empresa tem a habilidade científica em biotecnologia agrícola para criar alimentos saudáveis e seguros com o uso dessa biotecnologia.

Mas o que acontece se a Gerber reage a ameaças do Greenpeace e adota uma estratégia de compra de matérias primas que, na verdade, aumenta o risco de saúde a seus pequenos consumidores? Isso é possível?

Vários estudos indicam que a Gerber, sem querer, pode ter aumentando o risco à saúde para seus consumidores bebês:

"De acordo com a Organização de Alimentos e Agricultura (FAO) das Nações Unidas, 25% das safras de cereais no mundo são 'infectadas' com micotoxinas todos os anos. Houve uma descoberta similar, de Mannon e Johnson, em 1985 (ASA Leader Letter, 5 de Junho de 1997): As micotoxinas são um grupo de toxinas (metabólitos produzidas naturalmente por certos fungos que podem infectar alguns produtos agrícolas (por exemplo, o milho). Uma das principais micotoxinas é a Aflatoxina B1, o mais poderoso agente cancerígeno conhecido (Ohio State University Bulletin, 1986, Moldy Grains, Mycotoxins and Feeding Problems). A Aflatoxina aparece rapidamente no leite após ser ingerido pela vaca, e portanto os seres humanos podem consumir aflatoxina tanto pelo leite como através de grãos. De acordo com um relatório do Banco Mundial de 1993, intitulado INVESTINDO EM SAÚDE, aproximadamente 40% dos anos de vida perdidos por enfermidades (morte prematura), nos países em desenvolvimento, ocorrem devido a doenças ligadas ao consumo de micotoxinas (por exemplo, câncer no fígado). Os fungos Aspergillus flavus e A. parasiticus, que produzem a aflatoxina em produtos agrícolas, são os alvos dos próprios insetos (ex.: Ostrinia nubialis) que são controlados por meio de produtos transgênicos Bt. Assim, os produtos Bt têm o potencial de "reduzir ou mesmo eliminar as micotoxinas na cadeia alimentar." [P. F. Dowd, A Comparison of Insect and Ear Mold Incidence & Damage in Commercial Bt and Non-Bt Corn Lines (USDA Res. Paper, 1997); P. J. Cotty, Update on Methods to Prevent Aflatoxin Formation (USDA Res. Paper, 1997)]. De acordo com a chefia do Programa de Segurança Alimentar da Organização Mundial de Saúde (Codex), "o milho Bt, que reduz danos por insetos e ao mesmo tempo o volume de micotoxinas e matérias primas alimentares, pode ter impacto direto na redução de câncer de fígado. (Environmental Feed Technology, Abril 2000, página 14)."5

	Gary Comstock, em seu livro "Vexing Nature", apresenta o conceito similar de que certos milhos doces geneticamente aprimorados são menos suscetíveis ao acúmulo de micotoxinas (fumonisinas), que algumas variedades não transgênicas. Fumonisinas são uma causa de câncer em ratos, edema pulmonar em suínos, leucoencefalomacia em eqüinos, e são suspeitas de causar câncer de esôfago em seres humanos. 6

O Sr. Comstock é diretor do instituto de Bioética da Universidade Estadual de Iowa, em Ames, Iowa.

À vista destas informações, levantamos a hipótese de que uma certa mãe descobre que seu bebê, alimentado com produtos Gerber, foi diagnosticado com câncer de fígado ou esôfago. Embora o risco de algo assim seja seguramente muito baixo, e enquanto a Gerber inspeciona seus produtos para evitar a contaminação por micotoxinas, se isto ocorrer será importante notar o tipo de processo em nome do bebê contra a Gerber.

  • Em nome da criança, o advogado do reclamante no processo de responsabilidade por produto pleiteará a condenação da empresa por responsabilidade direta na contaminação dos alimentos para bebês por micotoxinas, como agentes cancerígenos.

  • Além disso, e este é um ponto novo e importante, o advogado do reclamante também alegará que há um defeito de design no alimento para bebês, pois a Gerber (e sua empresa-mãe Novartis) conheciam um produto para bebês criado (feito) com ingredientes menos arriscados, e propositadamente escolheram o design mais arriscado. Ou seja, a Gerber optou pelo uso de ingredientes não transgênicos, mesmo sabendo que estes oferecem maior risco de contaminação por micotoxinas. Devido aos conhecimentos e habilidades disponíveis à Gerber através de sua empresa-mãe Novartis, a Gerber possuía um design alternativo sensato (com ingredientes geneticamente aprimorados mais seguros), que a Gerber ignorou. A Gerber enfrenta assim o risco de processos pela responsabilidade de defeitos de design em seus produtos.

À medida que avançam o conhecimento e ciência da modificação genética de alimentos, fabricantes de alimentos cada vez mais enfrentarão o mesmo dilema da Gerber. Deve a Gerber reagir a ameaças do Greenpeace de boicotes no consumo optando por produtos não transgênicos para proteger sua reputação contra o pânico e temores dos consumidores em relação a produtos transgênicos? Ou deve a Gerber usar as informações científicas à sua disposição para criar produtos alimentares utilizando ingredientes de OGMs, que são reconhecidamente mais seguros em termos de riscos à saúde? À medida que os chamados alimentos funcionais, com ingredientes transgênicos e, assim, com maiores benefícios à saúde e à nutrição, são comercializados, este dilema surgirá diariamente perante as empresas de alimentos. No futuro, as empresas não apenas terão que comprar matérias primas para alimentos que sejam seguras; as empresas do futuro terão que usar a ciência da biotecnologia agrícola para escolher o design de seus produtos, em termos de saúde e nutrição. A escolha de um design que causa riscos, quando a empresa poderia ter escolhido um design menos arriscado, oferece as condições ideais para a abertura de processos de responsabilidade civil por defeito de design em produtos.

As empresas de alimentos enfrentam um enorme dilema quando ameaçadas por boicotes de consumidores, contra alimentos geneticamente aprimorados. Se a empresa ignora ou não reage corretamente à ameaça, a reputação de seus produtos, no que se refere à segurança e nutrição, pode ser destruída. Mas se a empresa cede às ameaças, ela pode manter a confiança do consumidor a curto prazo, e perder essa confiança no longo prazo, o que pode ocorrer de duas formas: Primeiro, a empresa volta ficar exposta ao risco da insegurança alimentar, como descrito acima, o que certamente destruirá sua reputação de segurança alimentar. Segundo, a empresa só reforçou os receios dos consumidores, que impedem a empresa de criar alimentos funcionais e geneticamente aprimorados, através do desenvolvimento de produtos que serão a fonte de novos alimentos nutritivos nos anos futuros. Sem tais alimentos aprimorados, a empresa pode estar se colocando atrás de sua concorrência.

Os exemplos J. R. Simplot, McDonald's, Burger King e Wendy's

As batatas são um produto em alta demanda, graças principalmente ao consumo de batatas fritas em cadeias Fast-Food como McDonald's, Burger King e Wendy's. Porém, a cultura de batatas não é fácil, pois tratam-se de produtos atraentes a muitas pestes, como o besouro, além de sofrerem ataques de vírus e similares. No combate às infestações e insetos, agricultores usam fungicidas e inseticidas, além de agentes fumigantes para controlar pragas no solo. Como um exemplo específico, plantadores usavam Metamidophos, um organofosfato tóxico, de efeito venenoso ao sistema nervoso, para controlar afídeos (pulgões). Embora o Metamidophos seja um pesticida aprovado pelo EPA, esse órgão atualmente está reavaliando o uso de organofosfatos e, ao final dessa reavaliação, pode proibir ou criar grandes restrições ao uso de pesticidas à base de organofosfatos. 8 Uma boa análise sobre o processo de revisão de pesticidas pelo EPA, de acordo com a Lei de Qualidade de Alimentos de 1996, pode ser encontrada em "Special Focus: FQPA (Food Quality Protection Act), CHOICES, pp. 17-32 (AAEA, 3rd Q. 2000).

A Monsanto desenvolveu uma batata contendo o gene Bt para controlar o besouro da batata do Colorado, combinado a outro gene transplantado, para controlar vírus propagado pelos afídeos. Na verdade, a Monsanto criou uma batata inoculada por uma vacina, chamada NewLeafÒ, que protegia o produto contra estes dois agentes daninhos. 9 Os plantadores de batatas que cultivaram a NewLeafÒ reduziram o uso de controles químicos, aumentaram a produtividade e ficaram convencidos, entre 1994 e 1999, que as batatas transgênicas eram a melhor forma (sob os prismas ambiental e econômico) de cultivar batatas.

Cinco anos de excelentes experiências com as batatas NewLeaf® chegaram ao fim. Sob a pressão de grupos contrários à biotecnologia, McDonald's, Burger King, Wendy's e outras cadeias informaram a seus fornecedores de batatas que não iriam mais aceitar o produto transgênico como matéria prima de suas batatas fritas. Processadores de batatas, como a J. R. Simplot, informaram aos agricultores que não aceitariam mais comprar batatas transgênicas, inserindo uma cláusula em seus contratos de compra e venda, exigindo a batata não transgênica. A batata NewLeafÒ, com seus benefícios ambientais e econômicos, praticamente desapareceu, como uma variedade aceitável que os agricultores poderiam plantar10.

Vamos presumir que um agricultor, forçado a plantar batatas não transgênicas por uma exigência contratual, pulverize sua plantação com Metamidophos (o organofosfato venenoso). Infelizmente, o pesticida infiltra-se na terra e atinge um córrego próximo, além de trabalhadores em outras fazendas. Milhares de peixes morrem no córrego, enquanto os trabalhadores12 vão parar num pronto-socorro, por graves lesões a nervos. A agência de proteção ambiental abre um processo administrativo por danos contra o agricultor, pelo custo para reposição de peixes. Um advogado especializado abre um processo de danos pessoais em nome dos trabalhadores, para obter uma indenização pelos gastos médicos incorridos com o envenenamento por pesticida.

Se o agricultor que sofre os processos:

  • já havia plantado durante vários anos batatas geneticamente modificadas, e

  • foi forçado a voltar à tecnologia da Idade da Pedra pelo processador de batatas e seus clientes varejistas Fast-Food (os quais sabiam que batatas não transgênicas exigem pesticidas à base de organofosfato para a produção)

então, o advogado que defende o agricultor deve citar a J. R. Simplot (o processador contratante) e McDonald's, Burger King e Wendy's (os compradores finais das batatas destinadas à venda ao público como batatas fritas), como co-acusados, pleiteando indenização contra quaisquer danos legais impostos a seu cliente agricultor. O advogado de defesa argumentaria que essas empresas devem ser responsabilizadas pelos danos, pois forçaram o fazendeiro a retomar as práticas de produção de maior risco do que aquelas que o agricultor teria adotado por opção. As empresas decidiram exigir do agricultor a variedade não transgênica, sabendo que o mesmo seria forçado a usar pesticidas à base de organofosfato para a produção das batatas. O advogado de defesa ainda argumentaria que essas empresas devem, em conjunto, serem consideradas responsáveis por quaisquer danos resultantes de sua imposição contratual por batatas não transgênicas, e suas práticas de produção correspondentes14.

O Risco de Desobediência Ambiental

O Exemplo Tyson Foods, Inc.

Processadores de aves tornaram-se o centro de um grande debate legislativo em vários estados, especialmente em função do manuseio de detritos de aves. 15 Legislaturas estaduais demonstraram preocupação pelos detritos de aves aplicados no solo, que causam poluição das águas por resíduos de nutrientes nos detritos, especialmente nitrogênio e fósforo. Como uma conseqüência destas preocupações, os processadores de aves foram instruídos a desenvolver um Plano de Gerenciamento de Resíduos Animais (Animal Waste Management Plan, ou AWMP), pelo qual os processadores de aves deverão medir os níveis de nitrogênio e fósforo nos resíduos de aves, e aplicar tais resíduos à terra numa taxa em que a terra possa utilizar os nutrientes sem poluir as águas do Estados Unidos.16

Ao mesmo tempo em que os estados da federação se preocupavam com a poluição de abatedores de frangos, a Agência de Proteção Ambiental (EPA) dos Estados Unidos revisou suas regulamentações ambientais referentes a operações de alimentação animal17. Em Agosto de 1999, a EPA emitiu o "Guidance Manual and Example NPDES Permit for Concentrated Animal Feeding Operations, Review Draft" (Manual de Orientação e Exemplo de Licença NDPES para Operações de Alimentação Concentrada de Animais). A agência propôs que processadores de aves (como a Tyson Foods, Inc.) sejam autorizados, juntamente com seus fornecedores sob contrato, a encontrar formas de assegurar maior proteção ambiental contra excesso de nutrientes encontrados em resíduos de aves, e determinar com clareza a responsabilidade pelos mesmos.18

Seguindo a orientação do EPA, os estados de Maryland e Kentucky recentemente iniciaram ações para exigir a responsabilidade conjunta entre avicultores e processadores de aves em seus estados. Em uma recente apresentação, o Sr. John D. Copeland, V.P. Executivo para Ética e Obediência Ambiental, Tyson Foods, Inc., discutiu o conceito EPA de responsabilidade conjunta. 19 Embora o conceito apresente muitas importantes questões legais relacionadas à sua interpretação comercial e constitucional, o Sr. Copeland argumenta que a real questão legal é se os processadores de aves terão suficiente controle operacional sobre os avicultores, no que se refere a resíduos de aves.20

Em sua apresentação, o Sr. Copeland argumenta com clareza e firmeza que processadores de aves não exercem controle substancial das operações de avicultores, porque:

  • a licença do processador (relacionada à sua fábrica de processamento) não tem ligação causal ou racional com a fonte da poluição (i.e., detritos de aves);
     

  • processador não está envolvido nas decisões operacionais diárias do avicultor, que estão relacionadas às fontes de poluição, como coleta, aplicação ou venda de detritos, pois os detritos são um recurso economicamente valioso, que pertence ao avicultor, e
     
  • as ações de avicultores estão além do controle do processador de aves, e a exigência de responsabilidade conjunta representaria a imposição de termos contratuais indesejáveis pelas partes, e que portanto infringem tais contratos.

Em 20 de Outubro de 2000 a Tyson Foods, Inc., anunciou que não mais alimentaria seus frangos com milho StarLinkÒ.21 O milho StarLinkÒ foi especificamente aprovado para rações animais. A Tyson Foods, Inc., cancelou o uso de uma ração animal aprovada, devido a suas preocupações em relação à percepção pública. 22

A McDonald's Corp. também anunciou que vai parar de servir produtos na Europa feitos com frangos que sejam alimentados com cereais da engenharia genética (Bloomberg News Wire 14 Nov. 2000). Em contraste, a Federação de Sociedades de Ciências Animais (FASS) revisou todos os dados pertinentes publicados até hoje e determinou que as pesquisas indicam de forma conclusiva que "não há efeitos na alimentação de animais e aves com transgênicos, no que se refere ao valor nutritivo ou segurança da carne, leite e ovos." 23 A decisão da Tyson Foods, Inc. de proibir o milho StarLinkÒ como ração para suas aves tem profundas implicações em relação ao argumento do Sr. Copeland sobre a responsabilidade conjunta.

Vamos presumir que a decisão da Tyson Foods, Inc. sobre o StarLinkÒ se torne política da empresa, i.e., a Tyson decide que não permitirá a avicultores o uso de razões transgênicas. Com isso, a Tyson logo estará exigindo que os avicultores não usem rações que reduzam o nível de fósforo nos detritos de aves. Biotecnólogos estão avançados no desenvolvimento de milho e soja aprimorados, os quais:

"Contêm concentrações reduzidas de ácido fítico e concentrações maiores de fósforo livre. Esta combinação oferece valor nutritivo na razão animal e valor ambiental, pois reduz o nível de fósforo ligado, liberado por detritos das aves." 24

Porém, a Tyson Foods, Inc. pode ignorar o milho e a soja geneticamente aprimorados por redução de fósforo nos detritos, inserindo cláusula que obrigue o uso de ração não transgênica em seus contratos com avicultores. Ou então, a Tyson fornece diretamente a ração que não seja OMG a seus avicultores contratados. Em qualquer opção, a Tyson levou os avicultores a usarem rações com maior nível de fósforo em detritos das aves, do que ocorreria se as rações fossem do tipo geneticamente aprimorado, com redução de fósforo.

Se a Tyson Foods, Inc. força avicultores a usar rações não transgênicas, quais são as implicações
de tal ação, no conceito de responsabilidade conjunta? As implicações parecem ser bem profundas, no sentido de suficiente controle operacional. Reavaliemos os pontos feitos pelo Sr. Copeland, em sua apresentação sobre a responsabilidade conjunta. Primeiro, se a Tyson impede que seus fornecedores reduzam o nível de fósforo nos detritos de aves, ao proibir o uso de rações transgênicas com redução de fósforo, a Tyson está causando diretamente uma fonte de poluição (i.e., excesso de fósforo em detritos). Segundo, a Tyson interfere diretamente nas decisões operacionais diárias do avicultor, referentes ao controle de poluição, ao proibir que seus fornecedores usem rações que reduzam a poluição. Terceiro, a Tyson não pode mais alegar que as ações do avicultor estejam fora de seu controle, pois a Tyson exerce controle sobre os atos que causam a poluição (a escolha da ração). Finalmente, a Tyson não pode defender-se de uma lei que exija a responsabilidade conjunta, alegando que o estado está tentando rescrever o contrato relacionado à poluição, já que a própria Tyson voluntariamente fez essa exigência a seus fornecedores, por contrato ou ao fornecer-lhes a ração, assim resultando em detritos de aves com excesso de fósforo. Em outras palavras, a decisão da Tyson Foods, Inc. de optar pelo uso de não transgênicos pode ser, mesmo que não proposital, uma decisão de aceitar a responsabilidade conjunta em eventos de poluição por detritos de aves. A Tyson deve considerar cuidadosamente qual seria o maior risco: reagir a temores de consumidores contra rações transgênicas, ou sua responsabilidade direta pela desobediência ambiental, como operador co-autorizado, ao proibir o uso de milho e soja geneticamente aprimorados.

Provavelmente, o EPA já está pensando nestas mesmas linhas, conforme acima indicado. O EPA certamente entende que a decisão de uma empresa, como a Tyson Foods, Inc., de optar por produto não transgênico, enfraquece e possivelmente cancela a alegação de que a empresa não tem controle suficiente sobre as operações dos avicultores, com respeito ao evento específico de poluição resultante de detritos de aves. 25

Além disso, o EPA provavelmente veria benefícios políticos na decisão de uma empresa como a Tyson Foods, Inc. de optar pelo não transgênico, causando assim maior poluição com detritos de aves. No decorrer destes anos, o EPA tem relutado em aplicar leis ambientais contra avicultores, pois estes têm poderosos aliados políticos no Congresso, e uma grande simpatia do público norte-americano no que se refere aos custos suportados por fazendeiros e sua perda de independência, caso o EPA tente promover uma agricultura de absoluta obediência ambiental.26 Se o EPA puder mostrar ao Congresso e ao público norte-americano que os custos podem ser facilmente transferidos, de forma justa, às grandes empresas que forçaram os avicultores a se engajar em procedimentos poluentes, o EPA terá resolvido grande parte de seus problemas políticos no que se refere à poluição na agricultura.

Finalmente, o EPA muito provavelmente entende que se uma empresa força o avicultor a usar ração não transgênica, que aumenta a poluição por detritos de aves, o EPA passa a ter um meio de se colocar entre o avicultor e a empresa. Atualmente, os avicultores querem ter o resíduo como um recurso econômico. Mas se o agricultor é forçado a criar um encargo econômico (i.e., detritos de aves com excesso de fósforo), quando tem a opção de criar um recurso econômico muito mais valioso que o atual (ou seja, detritos de aves com redução de fósforo, que melhor atendem as necessidades em fertilizantes de outros fazendeiros), os avicultores tornam-se mais antagonistas à empresa. Os avicultores podem juntar-se ao EPA para exigir que processadores sem co-responsáveis na obediência às regulamentações de proteção ambiental.

O exemplo da J. R. Simplot

À vista da análise sobre a Tyson Foods e da responsabilidade conjunta, a J.R. Simplot e outros processadores de batatas que impõem exigências de variedades não transgênicas aos plantadores de batatas, também estão se colocando em risco substancial de responsabilidade pela obediência ambiental de seus fornecedores. Este risco legal de obediência ambiental junta-se ao risco legal de responsabilidade pelo produto, já descrito neste estudo, em termos contratuais.

Plantadores de batatas atualmente enfrentam crescentes exigências de proteção ao meio ambiente contra poluentes. O EPA recentemente reforçou a especificação de Máximo de Carga Diária Total ("TMDL" no original, ou "Total Maximum Daily Load"), para a qualidade da água, na Seção 303(d) da Lei da Água Limpa.27 Se o EPA tiver sucesso na aplicação do método TMDL para controle das fontes de poluição (e.g., poluição na agricultura), os agricultores que desejem respeitar suas obrigações em TMDL com a cultura de batatas que exija menor aplicação de pesticidas, isto certamente levará o EPA a exigir que todos os contratantes respeitem as exigências de TMDL. Os agricultores vão alegar ao EPA que seus processadores de batatas os forçaram por contrato a usar mais pesticidas do que o necessário, ao exigir variedades não transgênicas de batatas.

Note-se que, no risco de desobediência ambiental, o autor não está alegando que a McDonald's, Burger King ou Wendy's, como exemplos de cadeias Fast-Food, sejam responsáveis pela obediência dos agricultores às exigências de TMDL. McDonald's, Burger King ou Wendy's não contratam diretamente plantadores de batatas e, portanto, têm muito menos condições de exercer controle operacional suficiente sobre o plantador. A chave para o risco, na obediência ambiental, é o substancial controle operacional fundado em relacionamento contratual, ao contrário da responsabilidade implícita que possa ser alegada onde exista uma ligação causal entre o dano e o ato que é supostamente a causa do dano. Em outras palavras, a responsabilidade implícita percorre a cadeia, desde o dano até a fonte do dano, muito mais do que a obediência ambiental. Da mesma forma, a Tyson Foods, Inc. não seria responsável pela obediência ambiental dos plantadores de milho e soja, a menos que a Tyson contrate estes agricultores como fontes seguras de cereais não transgênicos para ração animal.

O RISCO DA IGNORÂNCIA CIENTÍFICA

Com isto o autor quer dizer: A recusa em prestar atenção ao enorme consenso científico em torno de fatos comprovados. Existe o absoluto consenso científico, por exemplo, de que a Terra é redonda. Portanto, se uma empresa de correio se recusa a enviar um pacote à Ásia, temendo que o avião "caia ao chegar no fim do mundo", essa empresa terá adotado a ignorância científica como base para uma decisão comercial.

Sete academias de ciências emitiram um relatório recentemente, expressando esse absoluto consenso, pelo qual, a fim de podermos alimentar a população mundial, descobertas científicas e novas tecnologias devem ser usadas. 29 Especificamente, essas sete academias declararam que:

"Alimentos podem ser produzidos com o uso da tecnologia de transgênicos, que são mais nutritivos, mais estáveis na armazenagem e, em princípio, promovem saúde, trazendo assim benefícios a consumidores das nações industrializadas e em desenvolvimento."

Em um relatório publicado no ano de 2000 pelo governo da Irlanda, o comitê encarregado do relatório indicou as conclusões sobre o consenso referente à moderna biotecnologia. 31 Dois parágrafos das conclusões são particularmente adequados para a compreensão deste consenso em torno da biotecnologia agrícola:

"Algumas interpretações por princípios de segurança aparecem para sugerir que, onde há qualquer risco ou qualquer dano à saúde ou ao meio ambiente, um novo produto ou processo não deve ser aprovado. Em nossa opinião esta não é uma posição sensata. Deveria haver, com base em avaliação científica de riscos, razões para acreditar em risco real ou dano significativo. A precaução não deve ser comparada à prevenção, embora a aplicação de princípios de segurança seja especialmente relevante ao gerenciamento de riscos. Existem poucas atividades isentas de riscos. Como já vimos, a agricultura convencional e métodos de produção de alimentos -- incluindo, como alguns podem alegar, a agricultura orgânica -- também apresentam riscos à segurança dos alimentos e do meio ambiente. A menos que se prefira um mundo marcado pela estagnação, inovações e novas técnicas devem ser criadas, desenvolvidas e testadas."

 

 


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