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SP investe na recomposição de matas ciliares

Goldemberg quer obter recursos do mercado de carbono; déficit supera 1 milhão de hectares
LIANA JOHN

SUMARÉ - No Estado de São Paulo restam cerca de 3,3 milhões de hectares cobertos por vegetação nativa - 13,4% do território estadual. Muitos ecossistemas encontram-se extremamente fragmentados e degradados.

Entre eles, uma das situações mais precárias é a das matas ciliares, cujo déficit estimado supera 1 milhão de hectares. Recompor essa área total significa plantar mais de 2 bilhões de mudas. É uma imensa dívida com a qualidade dos recursos hídricos e com a riqueza de fauna e flora.

Matas ciliares ou ripárias - as que crescem nas margens dos cursos d'água - são essenciais para conter a erosão e manter as águas livres de sedimentos.

Também garantem alguma estabilidade da temperatura, pelo sombreamento, barram pragas e doenças agrícolas, além de fornecerem abrigo, alimento e, claro, água, para diversas espécies. Matas ciliares são ainda corredores fundamentais para a conexão de remanescentes de vegetação nativa, facilitando o trânsito de animais e a troca de material genético, sem a qual não se garante a renovação natural e a diversidade genética da flora ou fauna.

"As matas ciliares são desejáveis por diversos pontos de vista, mas a questão é como financiar o reflorestamento ativo", pondera o secretário de Meio Ambiente de São Paulo, José Goldemberg. Os rios, e mesmo cursos d'água menores, atravessam diversas propriedades agrícolas cujos donos, individualmente, não têm como investir no plantio de árvores nativas. A iniciativa teria de ser conjugada. Por isso, Goldemberg uniu esforços com a Secretaria de Agricultura e Abastecimento, que já tem um programa de microbacias funcionando bem, com previsão de recomposição de matas ciliares.

O programa é conduzido pela Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati), com financiamento da ordem de US$ 100 milhões do Banco Mundial.

O secretário ainda montou um projeto piloto - na microbacia do Córrego Taquara Branca, em Sumaré - para permitir a certificação coletiva e alcançar a escala necessária para, posteriormente, obter recursos do mercado de carbono, através dos chamados Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (MDLs).

"As matas de Reservas Legais (RL) ou Áreas de Preservação Permanente (APPs) não podem entrar em projetos de seqüestro de carbono porque são obrigatórias, conforme leis em vigor, e portanto, não atendem ao critério de adicionalidade, um dos quesitos exigidos", explica Goldemberg. "Porém, o caso das matas ciliares é diferente, segundo análise da Assessoria Jurídica da secretaria: elas são objeto apenas de uma resolução do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), que não é lei nem é efetivamente observada."

Compensação - Em outras palavras, paradoxalmente, a desobediência generalizada de uma recomendação ambiental - a de preservar ou replantar a vegetação nativa nas margens de rios - pode tornar viável o programa paulista de reflorestamento de matas ciliares.

Como o mercado de carbono implica uma longa negociação, a primeira fase do projeto piloto vem sendo financiada com parte dos recursos de compensação ambiental da concessionária Autoban, relativos ao prolongamento da Rodovia dos Bandeirantes, que passa ao lado. Dos R$ 2,4 milhões de compensação, R$ 85 mil serão dedicados ao plantio e manutenção das mudas, nos primeiros 15 hectares reflorestados, à beira de um reservatório de abastecimento de água, a Represa do Horto, no assentamento 1 de Sumaré. A microbacia tem 2.300 hectares, que serão gradualmente reflorestados, já com a contribuição de mudas produzidas em viveiros dos assentados, alguns dos quais trabalham no plantio inicial, previsto para terminar no fim deste mês.

"Contamos com a participação do município, da associação dos assentados, da Polícia Ambiental, do Consórcio Intermunicipal das Bacias do Piracicaba, Capivari e Jundiaí e de diversos órgãos das secretarias estaduais, pois, sem uma parceria efetiva entre a comunidade, o produtor rural e o poder público, em todas as instâncias, a recuperação da mata ciliar não é possível", diz Helena Carrascosa, coordenadora do projeto pela Secretaria do Meio Ambiente.

"A partir deste piloto, queremos difundir a experiência e conquistar a adesões em outras microbacias e assim enfrentar o déficit de matas ciliares em todo o Estado."

Diversidade - A compra e a distribuição das mudas no campo obedecem a modelos mais eficientes que os usuais, desenvolvidos pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP). O grande diferencial é a diversidade. Enquanto a maioria dos reflorestamentos de mata nativa no País se apóia em cerca de 30 espécies, em Sumaré estão sendo plantadas 89, 13 delas
ameaçadas de extinção. Foram privilegiadas, na escolha, as espécies dispersadas por animais, que devem atrair a fauna. E ainda há planos de enriquecimento futuro, que podem fazer o total chegar a cem espécies, número bem mais próximo do das matas originais

Publicação divulga diversos casos bem-sucedidos de reflorestamento

Antes começar o projeto piloto de plantio de matas ciliares de Sumaré, a Secretaria Estadual de Meio Ambiente realizou um workshop, reunindo experiências de sucesso com reflorestamento. O resultado foi uma publicação, editada em outubro, na qual esses casos são relatados. Eis alguns deles:

Projeto Jaguarão, da Fundação Florestal, no município de Cunha - Seis unidades demonstrativas foram implantadas em uma área de 5,7 hectares. Os resultados motivaram 201 produtores rurais a adquirir mudas para suas propriedades, recuperando 140 hectares de matas ciliares.

Projeto Floresta da USP, em Ribeirão Preto - Sessenta hectares foram recuperados no campus da universidade, metade deles voltados para a conservação genética. Foram catalogadas 3.450 matrizes e produzidas 150 mil mudas de 84 espécies diferentes, 110 das quais destinadas à restauração da mata ciliar da bacia do Rio Pardo.

Área de extração de areia de Caçapava - Um plantio de apenas meio hectare, nas margens do Rio Paraíba do Sul, serve de modelo para a recuperação de cavas de areia. Apesar de pequena, a área é extremamente importante por demonstrar a possibilidade de recuperação de um solo pobre e muito alterado, numa das bacias mais degradadas do Estado.

Usinas de cana-de-açúcar - A assistência técnica do Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal da Esalq a usinas de cana obrigadas a reflorestar, a partir de Termos de Ajustamento de Conduta (TACs) celebrados com o Ministério Público, tem permitido o planejamento de longo prazo do plantio, com custos reduzidos para o usineiro e recuperação das matas ciliares. Já foram plantados 1.100 hectares e estão
comprometidos 600 hectares por ano, ao longo dos próximos dez anos

Sobram viveiros de mudas, mas faltam sementes de plantas nativas

Botânico está fazendo levantamento de 14 mil matrizes de 600 espécies em todo o Estado

PIRACICABA - A capacidade de produzir mudas de árvores nativas já não é, hoje, o principal fator limitante do reflorestamento de matas ciliares. Existem muitos viveiros no Estado com capacidade ociosa, produzindo um número menor de espécies do que teriam condições. O que falta são sementes.

É um desafio obter sementes de 100 a 120 espécies arbóreas diferentes, que frutificam em épocas variadas e têm exigências de manipulação diversas. Além disso as matrizes, normalmente, ficam nos poucos remanescentes florestais não-degradados, que são ou propriedades particulares ou parques e reservas, de onde é proibido tirar recursos naturais.

O desafio é ainda maior quando se verifica que, além da diversidade de espécies, os modelos produtivos de plantio de nativas exigem alta diversidade genética. Ou seja, as sementes de uma mesma espécie, destinadas a uma mesma área, não podem ser coletadas de uma única matriz. As árvores irmãs não podem ser plantadas juntas. É preciso obter sementes de 10 ou 12 matrizes diferentes para cada espécie.

Dessa dificuldade nasceu o programa Trilhas de Matrizes, coordenado pelo botânico Ricardo Ribeiro Rodrigues, do Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal (Lerf) da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz. Com a ajuda dos estudantes de graduação e pós-graduação, ele vem fazendo o levantamento das matrizes de espécies de floresta existentes nas seis regiões ecológicas do Estado, que se
dividem entre o planalto ocidental, o planalto paulista e o litoral.

"São duas trilhas de matrizes para cada região, num total de 14 mil matrizes de 600 espécies diferentes", diz o pesquisador. "A lista está crescendo e deve chegar a 800 espécies, em todo o Estado." Todas estão ou serão marcadas com uma placa de identificação e suas características - botânicas, ecológicas, época de floração, frutificação, produção, dormência, forma de coleta das sementes - constam de um banco de dados, que ainda neste semestre estará disponível para qualquer pessoa, via internet. (L.J.)

 

 

 

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