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Há
vidas que valem US$ 1 bilhao para o tráfico de animais
Com o
comércio ilegal de animais silvestres, País perde
dinheiro e tem a biodiversidade ameaçada
Itamar
Miranda/AE - 4/10/1999
A harpia
está entre as aves mais buscadas e valorizadas nos mercados
americano e canadense
JOSÉ
MARIA TOMAZELA
Um grama de
veneno da coral verdadeira está cotado no mercado
internacional a US$ 33.300, cerca de R$ 110 mil. O alto valor explica
por que o réptil, que atinge 1,5 metro de comprimento, de
coloraçao exuberante, em tons de vermelho e preto, é
hoje um dos espécimes brasileiros mais caçados por
traficantes de animais silvestres. O veneno é usado na
produçao de medicamentos, um dos principais objetivos da
biopirataria internacional da qual o Brasil é o maior alvo.
Segundo estimativa da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de
Animais Silvestres (Renctas), o País perde anualmente US$ 1
bilhao com esse comércio ilegal, o terceiro maior do mundo,
atrás apenas do tráfico de armas e de drogas.
Além de
ter sua biodiversidade ameaçada, o País deixa escapar
uma parcela significativa de recursos genéticos. A Renctas
estima que o tráfico seja responsável pela retirada
anual de 38 milhoes de espécimes da nossa fauna.
De cada 10
animais traficados, apenas um chega ao destino. Os outros morrem na
captura ou durante o transporte. Todos eles sofrem agressoes e
traumas no esquema montado pelos traficantes, que inclui desde a
aplicaçao de anestesia para que pareçam dóceis e
mansos, até furar os olhos das aves para que nao vejam a luz
do sol e, assim, nao cantem, evitando chamar a atençao da
fiscalizaçao.
Segundo dados
do relatório final da CPI do Tráfico de Animais
Silvestres, apresentado em fevereiro último, o negócio
ilegal movimenta cerca de US$ 10 bilhoes por ano no mundo. Só
o mercado mundial de hipertensivos gira em torno de US$ 500 milhoes e
o princípio ativo desses medicamentos é retirado de
algumas serpentes brasileiras, como a jararaca. Na cotaçao
internacional dos venenos ofídicos, um grama de veneno de
jararaca vale US$ 433,70 e o da cascavel, US$ 301,40. O da surucucu
pico de jaca está cotado em US$ 3.200.
"É
muito mais que o valor do ouro", afirma Dener Giovanini,
coordenador geral da Renctas e um dos colaboradores da CPI. Depois da
coral verdadeira, o mais caro espécime brasileiro no mercado
mundial é a aranha marrom, cujo grama de veneno vale US$
24.570. O do escorpiao chega a US$ 14.890,00.
Sapos -
Recentemente foi descoberta em sapos da Amazônia uma
substância 27 vezes mais potente que a morfina, capaz de
alterar as formas conhecidas de tratamento com anestésicos.
"E o Brasil ganhará com isso apenas mais um nome em sua
lista de espécies em extinçao", comenta Giovanini.
Os principais
colecionadores da fauna brasileira estao na Europa, em países
como Holanda, Bélgica, Áustria, Suíça,
França, Alemanha, Itália, Reino Unido e Espanha. Na
Ásia, podem ser encontrados em Cingapura, Hong Kong, Japao e
Filipinas. Estados Unidos e Canadá também recebem
nossos animais. Entre as espécies mais procuradas estao as
araras azul, azul de lear, canindé, o papagaio da cara roxa, o
flamingo e a harpia.
Animais como o
uacari branco e a jaguatirica (US$ 10 mil) também sao visados.
"Uma arara azul de lear chega a valer US$ 60 mil na Europa e um
ovo dessa ave custa US$ 10 mil." O tráfico que mais
cresce é o de animais destinados r pesquisa científica
e de espécies que fornecem base química para produzir
remédios. É alimentado pela intensa incursao de
pesquisadores ilegais no território brasileiro em busca de
novas espécies. O controle é difícil, pois
muitas sao de pequeno porte.
Os sapos
amazônicos da espécie Dendrobates e várias
espécies de aranhas, besouros e vespas sao levados para o
exterior - certos besouros brasileiros sao cotados a US$ 8 mil. A CPI
apurou, que só no Amazonas, entraram no ano passado 466
pesquisadores estrangeiros de 35 instituiçoes em missoes
autorizadas pelo governo. O controle sobre essas atividades é
quase nulo. O ecoturismo também pode servir r
bioprospecçao ilegal. Em Manaus, foram detidos 7 turistas
suíços levando uma coleçao de 326 borboletas.
A captura para
pet shops incentiva o tráfico, segundo Giovanini. "Devido
r grande procura, a maioria das espécies da fauna brasileira
está incluída nessa categoria." Entre as
preferidas estao a jibóia, o cágado, aves como a arara
vermelha, o melro e a saíra. Peixes ornamentais e primatas
completam a lista. Segundo o relatório da CPI, quase todo
peixe ornamental exportado pela Colômbia sai do Brasil. Em
2002, aquele país faturou US$ 4 milhoes com esse
comércio, enquanto o Brasil vendeu apenas US$ 300 mil
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