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Clube
da Árvore |
As crises
do petróleo
Desde o
século XVI, o principal motivo das expansões
marítimas e das atividades econômicas européias,
como é sabido, foi á busca do ouro. Reis, navegantes,
soldados e mercadores de Portugal, da Espanha, da Holanda e da
Inglaterra, cada um por si, lançaram-se na
localização e exploração do precioso
mineral em qualquer parte do mundo. Entretanto, a partir do
século XIX, um outro tipo de ouro vai atiçar a
cobiça humana.
Visitando a
Pensilvânia em 1859, George Bissel encontrou um lençol
de petróleo dando então a largada. Na grande corrida
universal atrás do valioso ouro negro, combustível que
se tornou á fonte energética da modernidade.
A
revolução dos transportes.
Tanto nos
começos como em boa parte do século XIX extraia-se dele
apenas o querosene para a iluminação, porém, com
o advento da indústria automobilística (Ford fabricou o
seu primeiro modelo em 1896), da aeronáutica (os irmãos
Wright voaram em 1903), somadas à expansão naval, o
petróleo tornou-se o principal produto estratégico do
mundo moderno, fazendo com que as maiores 100 empresas do nosso
século estejam ligadas direta ou indiretamente a ele.
Nomes de John
Rockeffeler (fundou a Standar Oil em 1870), Paul Getty, Leopold
Hammer, Alfred Nobel, Nubar Gulbenkian e Henry Ford tornaram-se
mundialmente conhecidos por estarem associados ao petróleo ou
ao automóvel.
Ao
contrário da época da Revolução
Industrial dos séculos XVIII e XIX, ocasião em que a
maioria dos países, hoje desenvolvidos, deram começo
às suas plantas fabris baseadas essencialmente na
presença do carvão, mineral que todos possuíam
em abundância nos seus respectivos países, a
Revolução dos Transportes do século XX deu-se
num outro cenário de estratégico.
De um lado do
mundo, nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, situaram-se as
principais fábricas de veículos, enquanto que a
extração do combustível que lhes dá
sustento, o petróleo, ficou fundamentalmente circunscrito ao
quadrilátero árabe e ao Golfo Pérsico, distantes
a milhares de quilômetros dos centros mais importantes de
consumo.
Dai haver
repercussão mundial a cada momento em que esta
relação entre os campos petrolíferos do Oriente
Médio e os mercados dos países do Primeiro Mundo se
desestabiliza, ameaçada por guerras, golpes ou
revoluções.
A
crônica das crises do petróleo.
As principais
crises do petróleo - todas elas depois da 2ª Guerra
Mundial - que abalaram de algum modo a economia mundial por terem
interrompido o fluxo do seu fornecimento, mostraram um cruzamento de conflitos.
Podemos
dividir essas crises em dois tipos:
1) A primeira
delas ocorreu entre os estados-nacionais em formação no
mundo árabe e as grandes empresas multinacionais euro-americanas
visando diretamente o controle do processo produtivo e distributivo.
Tratou-se de uma luta em torno do dinheiro e do poder.
2) As crises
de segundo tipo deram-se numa etapa posterior, envolvendo os
países produtores e os países consumidores.
A
exploração dos recursos petrolíferos no Terceiro
Mundo começou em 1908 com a descoberta de lençóis
petrolíferos no Irã. A partir do que toda a
região ao redor do Golfo Pérsico começou a ser
explorada.
Iniciou-se
naquela época uma política de concessões de
extração do petróleo feitas pelo Xá do
Irã e pelos xeques das tribos árabes às grandes
companhias estrangeiras, particularmente inglesas (Anglo-iranian) e
americanas (Texaco, Mobil Oil, Esso, Standar Oil).
Dois fatores
desde então fizeram com que o petróleo passasse a ser
estratégico no nosso século:
1) Em 1896
Henry Ford começou a produzir o primeiro veículo
automotor em série, inaugurando a era da moderna
indústria veículos de transporte.O aumento do consumo
de gasolina e óleo daí decorrente impulsiona a
prospeção e a busca de mais poços de
petróleo, tanto nos Estados Unidos como no exterior.
2) O outro
fator que levou o petróleo a tornar-se o negócio do
século, de importância estratégica fundamental,
deu-se com a decisão tomada por Winston Churchill, entre
1911-14, quando Ministro da Marinha inglesa - a maior do mundo -, de
substituir o carvão pelo óleo como energia para os
navios da Royal Navy.
Petróleo:
o poder das empresas.
De 1908 a
1950, as grandes companhias petrolíferas, as ditas as Sete
Grandes, formaram verdadeiros impérios abraçando todas
as zonas produtoras de petróleo espalhadas pelo mundo.
Foi a
época de ouro delas. Atuando como verdadeiros estados dentro
do estado, elas possuíam sua própria política
externa, suas linhas de aviação e
comunicação completamente independentes do país
onde estava as suas sedes ou onde elas realizavam a
prospecção e extração do petróleo.
Geralmente seus administradores e gerentes eram os homens mais
importantes do país que lhes dava hospedagem, quando não
eram os seus verdadeiros governantes.
Os estados
nacionais onde elas atuavam eram neocoloniais, totalmente
dependentes, sem poder ou força para disputar-lhes o controle
da riqueza nacional.
A
eclosão do nacionalismo.
Essa
situação começou a inverter-se a partir da
2ª Guerra Mundial. As antigas potências colonialistas
(Inglaterra, França e Holanda) perderam suas energias na
guerra. Um forte movimento nacionalista teve início
então no Terceiro Mundo.
No Irã,
a partir de 1951, deu-se a mais grave crise até então
vista devido á política de estatização do
Primeiro Ministro Mossadegh que nacionalizou os poços da
British Petroleum.
A CIA atuando
em conjunto com MI-6, o serviço secreto inglês, numa
operação conjunta desencadeada em 1953, conseguiu
reverter á situação. O nacionalista Mossadegh
foi deposto e preso pelos que apoiavam o Xá Reza Pahlevi. Com
o sucesso do golpe dos anglo-saxãos o Xá
colaboracionista foi novamente entronado (*). Mesmo tendo fracassado
naquela ocasião, a posição nacionalista de
Mossadegh serviu de exemplo. Ela foi o ponto de partida para uma
série de enfrentamentos que se seguiram entre os
estados-nacionais do Oriente Médio, que começavam a se
fortalecer contra o poder das Sete Irmãs.
Gradativamente,
no transcorrer da década dos 50 e 60, as empresas foram vendo
diminuir suas regalias, sendo obrigadas a aceitar o Pacto dos
Cinqüenta mais Cinqüenta, que tornava os estados-nacionais
árabes e iranianos sócios iguais delas.
A segunda
crise do petróleo deu-se por motivos não ligados
diretamente ao petróleo. Aconteceu em 1956, ano em que o
presidente do Egito, Gamal Nasser, nacionalizou o Canal de Suez, de
enorme importância estratégica para o negócio
petroleiro, passagem que até então estava em mãos
de uma companhia anglo-francesa formada nos tempos colonialistas.
Devido á
intervenção militar de tropas inglesas e francesas,
apoiadas ainda por uma ofensiva israelense sobre o Sinai, ocorreu em
represália um boicote do fornecimento do petroleo por parte do
mundo árabe. Situação que rapidamente foi
contornada pelos Estados Unidos e pela URSS que, não aceitando
aquela última aventura do colonialismo, exigiram que a
ocupação do Suez cessasse imediatamente.
(*) A terceira
crise internacional do petróleo decorreu da Guerra dos Seis
Dias, no ano de 1967, quando Israel travou uma guerra fulminante e
vitoriosa contra os seus vizinhos. Mas a mais grave, a quarta, deu-se
por ocasião da Guerra do Yon-Kippur, quando os países
árabes produtores de petróleo, então organizados
no cartel da OPEP (**), decidiram aumentar o preço do barril
de petróleo (de U$ 2,90 para U$ 11,65). Essa última
crise assinalou uma mudança substancial do conflito, pois
não se tratava mais do um enfrentamento entre
estados-nacionais e as multinacionais do petróleo, mas entre
os principais produtores e os seus maiores consumidores. A Quinta das
grandes crises resultou da espetacular deposição do
Xá Reza Pahlevi , em 1979 , obra da Revolução
Xiíta que desorganizou todo o setor produtivo do Irã.
Crise que se estendeu até 1981, fazendo com que o preço
do barril saltasse de U$ 13 para U$ 34. Ou seja, em
relação ao preço de 1973.
(*) A
posição dos Estados Unidos, tendo então o
general Eisenhower na presidência, era naquela ocasião
francamente anti-colonialista. Consta inclusive que ele conseguiu que
o primeiro-ministro britânico Harold MacMillan evacuasse seus
soldados do Egito depois de um enérgico telefonema dado de
Washington.
(**) Fundada
em Bagdá em 1960, a OPEP (Organização dos
Produtores de Petróleo), conhecida como o cartel do
petróleo, somente conseguiu marcar presença a partir da
guerra árabe-israelense de 1973, ocasião em que o
boicote seguido de um substantivo aumento de preços provocou
inflação e retrocesso econômico nos países
ocidentais dependentes de petróleo.
A Guerra do Golfo
Logo
após ter-se envolvido numa desgastante guerra de fronteiras
com o Irã, que se estendeu de 1980 a 1988, o ditador iraquiano
Saddam Hussein, pleiteando pelas armas o controle total do canal Chat
al-Arab, resolveu ocupar o Kuwait, seu vizinho.
Considerado um
dos maiores produtores de petróleo do mundo, Saddam
transformou o emirado, antiga reivindicação de
Bagdá, na 19º província da Republica do Iraque.
Iniciou-se então a sexta crise do petróleo do
após - Guerra.
O Kuwait,
secionado da Mesopotâmia Otomana desde 1756, e protetorado dos
britânicos desde 1899, é um pequeno pedaço de
terra de 18 mil km² estendido sobre um subsolo que abriga um
verdadeiro mar de petróleo, que até hoje é um
dos fornecedores estratégicos dos Estados Unidos.
A
ocupação dele pelos iraquianos fez com que os
norte-americanos temessem que Saddam Hussein, caso viesse a
expandir-se depois para a Arábia Saudita, pudesse querer
açambarcar o controle de mais da metade do fornecimento do
petróleo da região.
Conseguiram
então fazer com que a ONU autorizasse uma
operação militar visando a imediata
desocupação iraquiana do Kuwait. Em 1991, liderando uma
força multinacional (composta por ingleses, franceses,
italianos e árabes, num total de 28 países), as tropas
dos Estados Unidos reconquistaram o emirado, expulsando com
facilidade as tropas iraquianas de volta para suas fronteiras.
Ao bater em
retirada os iraquianos incendiaram 232 poços de
extração do Kuwait provocando uma das maiores
catástrofes ecológicas do mundo, fazendo com que parte
considerável da vida animal do Golfo Pérsico fosse
destruída. As feridas abertas pela guerra iraquiana-iraniana
de 1980-88, seguida da Primeira Guerra do Golfo de 1991, estão
longe ainda de cicatrizarem. Na verdade, trava-se entre Saddam
Hussein e os Estados Unidos um conflito pela hegemonia completa sobre
aquela região. Luta que tem seus desdobramentos com a
invasão do Iraque iniciada em 19 de março de 2003 pelas
duas potências anglo-saxãs que ambicionam o controle
definitivo das reservas petrolíferas do Oriente Médio.
Dados sobre
o Petróleo.
Calcula-se que
existam l trilhão de barris (1 barril = 159 litros) de
petróleo nos subsolos do mundo. Até 1990 já
haviam sido extraído 43,4% deles. A produção
mundial anual atinge a 24 bilhões de barris.
Deste total
consome-se 23 bilhões e l bilhão vai para os
depósitos (os EUA produzem 13%, a Europa Ocidental 6%, o Golfo
Pérsico 27% , os outros 19%).
As reservas
existentes no mundo inteiro são calculadas em 137
bilhões de tons.(67% delas encontram-se no Oriente
Médio) Principais consumidores de petróleo: os EUA
consomem 33 barris/per capita/ano; a Europa 22, a Coréia do
Sul 16; o Brasil 4; e a Índia e a China mesmo de um barril/per
capita/ano.
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