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Rede
Internacional de Comunicação CTA-JMA
Environment
Justice x Finance |
"(..)
Desenvolveu-se, então, um segmento de mídias
ambientais, de caráter não-institucional, que
recentemente se reuniram na EcoMídias -
Associação Brasileira das Mìdias Ambientais,
cujas tiragens somadas atingem cerca de 1,5 milhões de
exemplares mensais, e que incluem jornais como o Jornal do Meio
Ambiente, Folha do Meio Ambiente, Estado Ecológico de Minas,
JB Ecológico, Terramérica, revistas como Eco.21,
Ecologia & Desenvolvimento, Meio Ambiente Industrial, Saneamento
Ambiental, Gerenciamento Ambiental, entre outros veículos.
É um esforço hérculeo de ums poucos editores
abnegados que tentam sobreviver com dificuldades para manter
veículos para tratar de um assunto que ainda é inovador
numa sociedade acostumada a usar o planeta como se fosse um
armazém de recursos infinitos por um lado e uma lixeira
infinita por outro. (..)"
Os
desafios das Mídias Ambientais
Aline
Garcia entrevista Vilmar Berna* -
Por
Aline Garcia
Vilmar
Berna, Editor do Jornal do Meio Ambiente e Prêmio Global 500
da ONU Para o Meio Ambiente
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Quais
os principais desafios que o meio ambiente deve enfrentar hoje em dia? |
VB:
São muitos, mas aproveitando o foco de sua entrevista,
certamente a democratização da informação
ambiental é um deles. As pessoas se mobilizam para exercer a
sua cidadania, ou procuram estudar e se qualificar melhor, ou
procuram mudar de comportamento a partir da informação.
Se esta chega deturpada, em número insuficiente, ou
desqualificada, a percepção do público
também estará prejudicada. E, sem
informação, como pode haver diálogo entre
diferentes, como se estabelecerão parcerias em
direção a um novo modelo de desenvolvimento mais
sustentável, como será possível implementar uma
Agenda 21?
Outro
aspecto que desafia os jornalistas ambientais é: como
informar adequadamente sobre o meio ambiente, se as
aspirações em nossa sociedade são baseadas mais
em valores de consumo materiais que em valores espirituais, culturais
ou artísticos, por exemplo? Frei Beto, em seu artigo Viagens
Interiores (O Globo, 13/07/98) nos chama a atenção para
o que andamos vendo nas propagandas, novelas, filmes, etc. Bastam
alguns minutos à frente da televisão para percebermos
que defeitos como inveja, orgulho, cobiça, avareza,
luxúria, gula, preguiça - bases do consumismo
desenfreado que gera esgotamento dos recursos naturais e
poluição do planeta, por um lado, e injustiça
social e concentração de renda, por outro - foram
transformados em valores a serem perseguidos, como se o planeta
tivesse recursos naturais em abundância para atender ao sonho
de consumo de todos. O preço que pagamos pode ser visto por
todo o lado. Não só no esgotamento e na
poluição do planeta, mas também na
miséria.
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Como
reverter essa situação? |
VB:
A primeira grande barreira a ser vencida é o verdadeiro
bloqueio econômico de agências de publicidade,
Secretarias de comunicação de governos e departamento
de comunicação de grandes empresas, que simplesmente
fingem desconhecer o segmento das mídias ambientais, apesar de
sua importância como agentes de disseminação de
informação ambiental. Apesar do reconhecimento
público da importância das mídias ambientais,
não é só a ampliação da tiragem,
do número de páginas e da periodicidade que está
ameaçada, mas a própria continuidade dos atuais
veículos. Os recursos para publicidade, quando existem,
são desviados primeiro para a mídia de massa das
capitais, depois para as mídias de massa do interior e
só por último e eventualmente, para as mídias
especializadas, como a do segmento ambiental. O que parece uma
simples questão econômica, na verdade tem sido uma forma
de impedir o crescimento e até a manutenção de
veículos de meio ambiente, que são estratégicos
para a democratização da informação
ambiental no Brasil.
É
preciso perceber, também, que por trás de nossos
problemas ambientais, não estão apenas a
ação de poluidores, o desmantelamento dos
órgãos públicos de controle ambiental, ou a
falta de consciência ambiental, mas também um tipo de
atitude e valores, que julga natural explorar ao meio ambiente e aos
nossos semelhantes para atingir um modelo de desenvolvimento que, por
si só, gera agressões ambientais e problemas sociais.
Logo, não basta exigir mudança de comportamento de
empresas e governos.
Precisamos
ser capazes de enfrentar a nós próprios, pois
não haverá planeta suficiente capaz de suprir as
necessidades de quem acha que a felicidade e o sucesso estão
na posse de cada vez mais bens materiais.
Se
queremos um planeta preservado, de verdade, não basta apenas
lutar contra poluidores e depredadores. É preciso também
nos esforçarmos para mudar nossos valores consumistas,
hábitos e comportamentos que provocam
poluição, atitudes predatórias com os animais,
as plantas e o meio ambiente. Mas só isso não basta,
pois não há coerência em quem ama os animais e as
plantas mas explora, humilha, discrimina, odeia seus semelhantes. Por
isso, precisamos, além de nos preocupar com o meio ambiente,
nos esforçarmos para sermos mais fraternos,
democráticos, justos e pacíficos com os nossos semelhantes.
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Na
sua opinião a mídia tem feito uma boa cobertura do
meio ambiente? Você acha que a cobertura ambiental limita-se a
acidentes, como vazamentos de substâncias tóxicas ou
eventos preparados por grupo ambientalista? Como os meios de
comunicação vêm tratando a questão
ambiental? O espaço que a mídia oferece para a
temática ambiental é suficiente? |
VB:
Contraditoriamente à necessidade de mais
informação ambiental, após a ECO 92 este
espaço restringiu-se na chamada grande mídia
limitando-se hoje a ocorrências ocasionais, diante de acidentes
ambientais e um ou outro tema que interesse ao público mais
geral. Como resposta a este quadro, surgiram veículos
alternativos de informação ambiental, basicamente
divididos em institucionais e comerciais. Os veículos
institucionais são editados por diversas entidades como
estratégia para manter seus filiados e público-alvo
informados das atividades e posições políticas
da instituição. Mas têm tiragem restrita e
não chegam a atingir a comunidade ambiental, mas podem ser uma
oportunidade de trabalho para jornalistas ambientais. Desenvolveu-se,
então, um segmento de mídias ambientais, de
caráter não-institucional, que recentemente se reuniram
na EcoMídias - Associação Brasileira das
Mìdias Ambientais, cujas tiragens somadas atingem cerca de 1,5
milhões de exemplares mensais, e que incluem jornais como o
Jornal do Meio Ambiente, Folha do Meio Ambiente, Estado
Ecológico de Minas, JB Ecológico, Terramérica,
revistas como Eco.21, Ecologia & Desenvolvimento, Meio Ambiente
Industrial, Saneamento Ambiental, Gerenciamento Ambiental, entre
outros veículos. É um esforço hérculeo de
ums poucos editores abnegados que tentam sobreviver com dificuldades
para manter veículos para tratar de um assunto que ainda
é inovador numa sociedade acostumada a usar o planeta como se
fosse um armazém de recursos infinitos por um lado e uma
lixeira infinita por outro. E, sem veículos fortes
econômicamente, também não há muita
esperança de emprego para jornalistas ambientais, e tanto os
proprietários dos veículos ambientais, quanto os
jornalistas especializados em meio ambiente, acabam dedicando-se
à democratização da informação
ambiental em nosso pais muito mais por amor, por ideologia, que por
interesse comercial. Claro que isso precisa mudar. E os instrumentos
estão aí. Os países membros da ONU aprovaram
durante a ECO 92 a Agenda 21, como um roteiro a ser seguido em
direção ao desenvolvimento sustentável. Em seu
capítulo 40, sobre Informação Para a Tomada de
Decisões, os signatários recomendam que "sempre
que existam impedimentos econômicos ou de outro tipo que
dificultem a oferta de informação e o acesso a ela,
particularmente nos países em desenvolvimento, deve-se
considerar a criação de esquemas inovadores para
subsidiar o acesso a essa informação ou para eliminar
os impedimentos não econômicos." Os representantes
dos países signatários justificam essa medida ao
reconhecer que "em muitos países, a
informação não é gerenciada adequadamente
devido à falta de recursos financeiros e pessoal treinado,
desconhecimento de seu valor e de sua disponibilidade e a outros
problemas imediatos ou prementes, especialmente nos países em
desenvolvimento. Mesmo em lugares em que a informação
está disponível, ela pode não ser de fácil
acesso devido à falta de tecnologia para um acesso eficaz ou
aos custos associados, sobretudo no caso da informação
que se encontra fora do país e que está
disponível comercialmente."
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A
questão ambiental tem ganhado mais força na sociedade?
Com esta o interesse dos leitores pelo meio ambiente? |
VB:
Penso que sim. Em pouco menos de duas décadas a
opinião pública mudou radicalmente de uma
posição que justificava o progresso a qualquer
preço, para uma opinião de que o desejável
é uma espécie de progresso que leve em conta a
preservação do meio ambiente. Influíram nessa
mudança diversos fatores, entre os quais: a) a pressão
exercida pelas ONGs (organizações
não-governamentais), principalmente as ambientalistas, com o
reforço de artistas e cientistas sensíveis à
causa ambiental; b) a imensa capacidade de comunicação
da imprensa, e a popularização de meios como a
televisão. As empresas, por sua vez, são obrigadas a
ver a questão ambiental com seriedade, menos pela
pressão dos ambientalistas ou exigências legais e mais
por outros fatores como, por exemplo: a) precisam alcançar uma
certa excelência ambiental para obter selos verdes, do tipo ISO
14.000, a fim de evitar barreiras comerciais a seus produtos no
exterior; b) se dependem de recursos financeiros via BNDES, por
exemplo, devem adequar-se às exigências do Protocolo
Verde. Empresas poluidoras ou que não cumprem acordos
ambientais, têm poucas chances de obter ou manter
empréstimos; c) se são multinacionais cujas matrizes
estão em países como Europa e Estados Unidos, onde a
opinião pública está mais sensível
às questões ambientais, precisam dar
satisfações aos acionistas a fim de garantir cargos e
recursos nas filiais.
As
ONGs já perceberam que a imagem é um dos 'pontos
fracos'dos poluidores. Por isso, quando os canais de diálogo
com as empresas são interrompidos, inexistentes ou
insuficientes, os ambientalistas procuram sensibilizar a
opinião pública. Além da imprensa, as ONGs
estão tendo acesso à Internet, denunciando as empresas
poluidoras à opinião pública de seus
países de origem, onde têm as matrizes, e junto a fontes
de financiamento ou certificação internacional, como
Banco Mundial e ISO. Um exemplo disso é a campanha da Lista
Suja, da ONG Associação Mineira de Defesa do Ambiente
(AMDA), de Minas Gerais.
A
intenção dos ambientalistas, aparentemente, não
é 'perseguir' os poluidores, mas sim estimulá-los a
priorizar recursos e ações no sentido de controlar a
poluição e recuperar o passivo ambiental. Tem empresas
que fazem 'pouco caso', agem como se não fosse com ela,
qualificam a ação dos ambientalistas como 'oba-oba'. Em
outros casos, a empresa tem investido em meio ambiente, e às
vezes até já superou seus principais problemas
ambientais, mas esqueceu de investir no resgate de sua imagem junto
à opinião pública, que continua lembrando da
empresa como poluidora. Em outros casos, ainda, a empresa
desperdiça recursos ao entregar a tarefa de resgate de sua
imagem a agências de publicidade que não disponhem de
conhecimento sobre as questões e linguagens ambientais, muito
menos sobre que veículos atingem o público
multiplicador de opinião ambientalista.
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Qual
é a importância do jornalismo ambiental para a sociedade? |
VB:
A imprensa são gera necessariamente opinião
pública, mas ao expor a informação, gera
perplexidade na opinião pública, tornando-a
sensível à mensagem de grupos de pressão como os
ambientalistas, artistas, cientistas, políticos, por exemplo,
e mais interessada em buscar informação ambiental mais
qualificada em veículos especializados, cursos profissionais,
etc.
As
informações sobre os grandes acidentes ambientais
ocorridos no mundo foram determinantes para a formação
de uma opinião pública sensível à
questão ambiental. Segundo o Major Hazard Incident Data
Service, da Grã-Bretanha, até 1.986 ocorreram 2.500
acidentes industriais no mundo, sendo que mais da metade (1.419) em
apenas cinco anos, entre 1981 e 1986. Já os grandes acidentes
ambientais, que envolveram maior número de mortes e
milhões de dólares de indenização, num
total de 233 acidentes, ocorreram no curto período entre 1970
e 1989. A divulgação em escala mundial destes fatos
não só contribuiu para sensibilizar a opinião
pública, mas também para fortalecer os movimentos
ambientalistas, que se multiplicaram nesse período, além
de gerar um conjunto de leis ambientais e de órgãos de
controle que não existiam antes de 1970.
Os
acidentes ambientais com óleo derramado na Baía de
Guanabara e no Paraná, em 1999, por exemplo, reacederam a
indignação da sociedade com o descaso ambiental. A
questão ambiental tornou-se um nervo exposto para empresas e
governos. A opinião pública quer respostas, quer
soluções. Engana-se quem pensa que a
preocupação ambiental é um modismo passageiro.
Diziam isso também na década de 70, quando tudo
começou. Agora se percebe que ou as empresas e políticos
levam o meio ambiente a sério, ou perderão
negócios e votos.
O
Jornalismo ambiental também contribui e muito como motivador
para o processo de uma nova consciência ambiental. Mas é
preciso não confundir informação com
formação, pois apenas transmitir conhecimentos
não basta. Os meios de comunicação não
possuem o caráter pedagógico requerido para o ensino do
meio ambiente, mas são aliados estratégicos e
fundamentais no ensino para o meio ambiente. Os educadores ambientais
podem aproveitarem as informações e conceitos
veiculados como ferramenta pedagógica para ajudar os alunos na
reflexão sobre os fatos, relacionando-os com suas realidades
mais próximos. Nesse processo, os alunos ao mesmo tempo que
adquirem os instrumentos intelectuais necessários para a
compreensão do mundo em que vivem, motivam-se a transformá-lo,
buscando solução real para os problemas apresentados,
atacando suas causas. Neste sentido, se adequadamente utilizada, os
meios de comunicação podem ser aliados, não
adversários do professor.
Através das notícias ambientais é possível
aproximar o aluno de seu meio ambiente próximo, propiciar a
troca de experiência e idéias, em grupo ou
individualmente, sobre o que seja meio ambiente, seus problemas
concretos e possibilidades de solução. Os alunos
estarão partindo do local para o global, da realidade que
conhecem e dominam para a que não conhecem e desejam dominar.
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Qual
o futuro do jornalismo ambiental? |
VB:
Penso que não é se criando setores ambientais nas
redações, departamentos, secretarias, ministérios
para o meio ambiente que se ajudará a uma melhor cobertura da
questão ambiental, mas é principalmente estimulando a
'ecologização' dos temas tradicionais como Saúde,
Educação, Moraria, Transporte, Emprego etc. É
preciso romper com a própria tendência dos jornalistas
ambientais e dos ecologistas à acomodação em
seus guetos e compartimentos onde o 'ecologês' é
compreendidos sem questionamentos.
Existe
uma tendência cartesiana pela separação dos
assuntos uns dos outros, sob pretexto de poder estudá-los
melhor. Esse é um método de análise que, se por
um lado produz profundos conhecimentos sobre particularidades da
realidade, por outro perde a visão do conjunto. Não
só as redações das grandes mídias, mas
também as administrações públicas e as
organizações não-governamentais acabam tentando
transpor para a organização social essa mesma
fórmula, criando departamentos e compartimentos estanques - e
por vezes incomunicáveis - para tratar dos diversos temas da
sociedade humana. Um dos resultados disso é a
neutralização dos esforços dos jornalistas
ambientais e dos ecologistas sempre que tentam penetrar em outras
áreas que não a ambiental, como se fossem intrometidos
em busca de ampliação de espaços de
atuação política. Quando um jornalista ambiental
trata de temas como fauna e flora, é imediatamente
compreendido, mas quando discute os aspectos antiecológicos da
Saúde, Educação, Moradia etc. é por vezes
criticado ou incompreendido, como se estes assuntos não
estivessem interligados. Logo não é apenas a
população que percebe mal as questões
ecológicas. As redações, as
organizações governamentais e não-governamentais,
incluindo-se ai os partidos políticos, também.
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O
que você acha da cobertura da grande mídia e da
mídia especializada? |
VB:
Creio que exercem papéis complementares. Na chamada
grande mídia a questão permanece com destaque na pauta
geralmente enquanto o problema ambiental for visível. Já
para a mídia especializada o problema continua na pauta mesmo
depois da emergência, mostrando a parte invisível que
leva aos acidentes, como a falta de controle ambiental nos processos
industriais, as manobras dos políticos para afrouxar a
legislação ambiental, as ações ou
omissões de autoridades que levam à
deterioração ambiental generalizada, etc. Para mim,
grande mídia e mídia especializadas não
são concorrentes, mas complementares entre si. Muitas vezes as
críticas que se faz à grande imprensa de que só
trata do problema ambiental enquanto o problema é
visível, na verdade é uma crítica que pretende
atribuir à grande mídia um papel que não é
seu, já que tem de manter um olhar amplo sobre os diversos
assuntos que mobilizam a sociedade e seus leitores, e isso inclui
muitos mais temas que só o ambiental. Este papel cabe à
mídia especializada. Só que, no Brasil, a mídia
ambiental não consegue exercer adequadamente este papel
não por culpa das baixas tiragens ou da incompetência de
seus editores, que fazem das tripas coração para
manterem seus veículos, mas por que sofrem um verdadeiro
bloqueio comercial por parte de empresas e agências de
publicidade. Este bloqueio, a meu ver, não tem um fim
político de estrangular as mídias ambientais para que
não façam a crítica do modelo predatório
e poluidor, mas creio que é mais por
desqualificação, falta de formação e
incompetência mesmo dos profissionais de publicidade e de
comunicação nas empresas em compreenderem adequadamente
o papel das diferentes mídias. Este problema também
atinge os clientes dessas agências, que às vezes
preferem investir suas verbas de publicidade em veículos da
grande mídia em vez de também incluírem as
mídias especializadas em seus planos de
divulgação. As empresas acabam gastando às vezes
verdadeiras fortunas para adotar procedimentos ambientais adequados e
controlar ou eliminar sua poluição, mas divulgam isso,
quando divulgam, para um público que não se importa
tanto com a informação ambiental colocada na linguagem
errada no veículo errado.
Durante
o período autoritário que vivemos no Brasil, muitas
empresas adotaram o silêncio, o 'nada a declarar', como
estratégia para se proteger de problemas, o que deu certo
em muitos casos. Hoje, com a abertura democrática e
instrumentos de participação da sociedade como as
audiências públicas, as empresas estão
descobrindo que a ausência de investimentos em programas de
comunicação ou, o que é pior, a não
circulação da informação correta, na
linguagem adequada a cada público-alvo, é a maneira
mais rápida de favorecer e até estimular boatos ou
notícias erradas contra o empreendimento, por maiores que
sejam seus méritos ou vantagens para a comunidade. As empresas
estão descobrindo que uma política de
comunicação institucional é tão
importante para uma empresa quanto construir prédios ou
instalar equipamentos, pois se a opinião pública
estiver contra a empresa, as dificuldades para licenciamento de novas
operações ou para a ampliação de
instalações existentes será cada vez maior.
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O
que você sugere para melhorar a atuação da
imprensa em relação às questões
ambientais? O que é necessário para um jornalista
conseguir um bom desempenho na área ambiental? É
necessário fazer um curso de especialização? |
VB:
Como disse numa resposta anterior, é fundamental para os
jornalistas ambientais falarem uma linguagem que seja percebida por
todos, especialmente pelas lideranças dos movimentos
comunitários, sindicais, profissionais, enfim aqueles que
possuem poder de multiplicar e de produzir informações
e de contribuir para o processo de transformacão social. Os
jornalistas ambientais, assim como os ecologistas, podem ter a clara
percepção do que precisa ser mudado, a fim de
conseguirmos uma relação mais harmônica da
espécie humana com as outras espécies e o próprio
planeta, entretanto, para conseguir mudar efetivamente as coisas
é preciso a participação da
população, cuja maioria elege políticos e
enriquece empresários comprando seus produtos nos
supermercados. Caso os jornalistas ambientais insistam em usar
linguagem técnicas ou conceitos ecológicos ainda
não assimilados pela população, além de
não conquistarem para as teses ecológicas a
adesão das forças vivas da sociedade, capazes de
produzir mudanças. Se os jornalistas ambientais e os
ecologistas querem a compreensão e a mobilização
da sociedade para os temas ecológicos, devem antes procurar
adaptar o ecologês às carências da nossa
sociedade, partindo dos temas que já dominam e conhecem para
os que precisam conhecer a fim de construírem uma melhor
relação, mais harmônica, menos poluidora com seu
meio ambiente e os outros seres vivos do planeta. A mensagem mais
importante que podem passar é que nada existe isolado no
planeta, mas tudo está inter-relacionado entre si.. O que
acontece num lugar afeta um outro. Para pior ou para melhor.
E
tem mais um elemento importante que os jornalistas ambientais devem
levar em consideração antes de falarem dos outros seres
vivos do planeta, como as plantas e os animais. O ser humano é
a única espécie em condições de alterar
profundamente seu meio ambiente. Entretanto, antes de se propor uma
relação mais harmônica e menos predatória
de nossa espécie com as outras, que consideramos inferiores,
é preciso engajar a ecologia nas lutas contra a
exposição de um indivíduo contra o outro em
nossa própria espécie. Ou continuaremos contribuindo
para romantizar as relações ser humano-planeta Terra, e
tornar as questões ecológicas cada vez mais
supérfluas, elitistas e secundárias, reservadas apenas
a um pequeno grupo de iniciados, que adoram discursar sobre os
próprios umbigos.
A
população tem uma visão muito romântica
da ecologia, associando-a mais em defesa do verde e, por
extensão, das árvores e animais e como se a
espécie humana não fizesse parte da natureza. Logo, por
mais que julguem as questões ecológicas importantes, a
maioria da população as considera secundárias.
É mais importante lutar por moradia, alimento, emprego,
escola, bons salários etc. Ecologia, na visão mais
popular, é assunto para as classes mais abastadas, que
já resolveram esses problemas básicos de
infra-estrutura e podem viver em bairros melhores, longe da
poluição, em locais arborizados.
Os
ecologistas pouco contribuíram para modificar essa imagem e -
na maioria dos casos - ajudaram até a reforçar essa
visão romântica e alienada. Dedicaram-se muito mais
à defesa de animais e plantas que aos problemas da
espécies humana. Com isso, embora sem má fé,
ajudaram a associar ecologia ao meio ambiente natural, onde vivem as
plantas e os animais, deixando de fora o meio ambiente urbano/rural,
onde vivem os seres humanos. Sabemos no entanto, que ambos os
ambientes vivem interrelacionados, logo, as lutas por melhores
condições de vida travadas por sindicatos,
associações de moradores e outras entidades da
sociedade civil, por exemplo, são também lutas pelo
ambiente, no caso, ambiente humano.
Outra
questão que os jornalistas ambientais precisam resolver para
realizarem boas matérias é definir os principais
responsáveis pela destruição do ambiente.
É comum acusar-se a falta de conhecimento ambiental, o
progresso ou a tecnologia, entre outros fatores, como os inimigos da
natureza. Isso seria verdadeiro se pessoas como conhecimento
ambiental não destruíssem a natureza. Infelizmente,
não é o que se vê. Os caçadores, por
exemplo, possuem muito mais conhecimentos sobre ecologia, natureza e
a vida silvestre que muitos ecologistas, mas usam esses conhecimentos
para destruir e matar.
Com
relação ao progresso é a mesma coisa. Na
década de 70, governos internacionais preocupados com a
rápida destruição dos recursos naturais e a
poluição do plante, defenderam a tese do crescimento
zero, ou seja, congelar os níveis de progresso à
época. Ora, por diversas vezes durante nossa história
econômica, o Brasil teve crescimento abaixo de zero, portanto
negativo, e nem por isso viu diminuindo seus problemas ambientais,
muito pelo contrário. Devido à crise econômica,
as empresas investiram menos em controle de poluição.
A
questão tecnológica também tem sido apontada
como uma das responsáveis pela destruição
ambiental, uma vez que polui, degrada o meio ambiente e
desperdiça recursos naturais. Ora, a tecnologia e a
ciência não são neutras. Elas se submetem aos
interesses dos detentores do poder naquele momento. Por outro lado, a
adoção de tecnologia mais brandas e menos poluentes
não asseguram uma relação menos predatória
nas relações humanas, pelo menos. Um exemplo disso
são quartéis de soldados norte-americanos movidos a
energia solar ou biodigestores em países colonizados.
Enfim,
o que podemos perceber é que a destruição da
natureza não resulta da forma como nossa espécie se
relaciona com ela, mas da maneira como se relaciona consigo mesma. Ao
desmatar, queimar, poluir, utilizar ou desperdiçar recursos
naturais ou energéticos, cada ser humano está
reproduzindo o que aprendeu ao longo da história e cultura de
seu povo, portanto, este não é um ato isolado de um ou
outro indivíduo, mas reflete as relações sociais
e tecnológicas de sua sociedade. Portanto, é
impossível pretender que seres humanos explorados,
injustiçados e desprovidos de seus direitos de cidadãos
consigam compreender que não devam explorar outros seres
vivos, como animais e plantas, considerados inferiores pelos humanos.
A atual relação de nossa espécie com a natureza
é apenas um reflexo do atual estágio de desenvolvimento
das relações humanas entre nós próprios.
Vivemos sendo explorados, aprendemos a explorar.
O
Jornalismo ambiental, portanto, constitui-se num desafio, inclusive
para separar informação de formação.
Não é pelo maior ou menor volume de
informações vinculado pelos meios de
comunicação que a população aprende a
pensar criticamente e atuar em seu mundo para transformá-lo.
Muito pelo contrário. Sem uma base que permita a
compreensão do que está sendo transmitido, o receptor
acaba tornando-se insensível diante da poluição
da informação, as palavras perdem o significado e
importância, tanto faz derrubarem uma árvore ou uma
floresta, tanto faz assassinarem um indivíduo ou uma
multidão inteira numa republiqueta qualquer. A
educação, por sua vez, não se dá ao
vácuo, mas inserida em seu tempo e no contexto. Deve,
portanto, associar-se aos meios de comunicação para, a
partir das informações veiculadas, desenvolver um
processo educativo, crítico e participativo, adequado à
realidade dos alunos.
Não
há cidadania ambiental sem participação
política. Logo, não é de estranhar que os
governos até hoje não tenham conseguido estabelecer
diretrizes e investir realmente em educação ambiental
ou manter uma política de comunicação que leve
em conta as mídias ambientais especializadas, pois é
impossível estimular a participação mas
não garantir os instrumentos, direitos e acesso à
participação e interferência nos centros de
decisões. O Jornalismo Ambiental deve contribuir
principalmente para o exercício da cidadania, estimulando a
ação transformadora, além de buscar aprofundar
os conhecimentos sobre as questões ambientais, as melhores
tecnologias, estimular mudança de comportamento e a
construção de novos valores éticos menos
antropocêntricos. Não basta se tornar mais consciente
dos problemas ambientais, sem se tornar também mais ativo,
crítico e participativo. Em outras palavras, o comportamento
dos cidadãos - e dos jornalistas - em relação ao
seu meio ambiente, é indissociável do exercício
da cidadania.
Linha
direta com o Vilmar:
Correio
eletrônico: vilmarberna@jornaldomeioambiente.com.br
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(casa da Ponta da Ilha), bairro Jurujuba, Niterói, RJ CEP
24370-290
Aline
Garcia* [aline_garcia@hotmail.com]
*
entrevista inédita para tese de monografia de Aline Garcia,
publicada na íntegra pela Rede Internacional de
Comunicação CTA-JMA
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