Entrevista

Rede Internacional de Comunicação CTA-JMA
Environment Justice x Finance


"(..) Desenvolveu-se, então, um segmento de mídias ambientais, de caráter não-institucional, que recentemente se reuniram na EcoMídias - Associação Brasileira das Mìdias Ambientais, cujas tiragens somadas atingem cerca de 1,5 milhões de exemplares mensais, e que incluem jornais como o Jornal do Meio Ambiente, Folha do Meio Ambiente, Estado Ecológico de Minas, JB Ecológico, Terramérica, revistas como Eco.21, Ecologia & Desenvolvimento, Meio Ambiente Industrial, Saneamento Ambiental, Gerenciamento Ambiental, entre outros veículos. É um esforço hérculeo de ums poucos editores abnegados que tentam sobreviver com dificuldades para manter veículos para tratar de um assunto que ainda é inovador numa sociedade acostumada a usar o planeta como se fosse um armazém de recursos infinitos por um lado e uma lixeira infinita por outro. (..)"

Os desafios das Mídias Ambientais

Aline Garcia entrevista Vilmar Berna* -

Por Aline Garcia

Vilmar Berna, Editor do Jornal do Meio Ambiente e Prêmio Global 500 da ONU Para o Meio Ambiente


Quais os principais desafios que o meio ambiente deve enfrentar hoje em dia?


VB: São muitos, mas aproveitando o foco de sua entrevista, certamente a democratização da informação ambiental é um deles. As pessoas se mobilizam para exercer a sua cidadania, ou procuram estudar e se qualificar melhor, ou procuram mudar de comportamento a partir da informação. Se esta chega deturpada, em número insuficiente, ou desqualificada, a percepção do público também estará prejudicada. E, sem informação, como pode haver diálogo entre diferentes, como se estabelecerão parcerias em direção a um novo modelo de desenvolvimento mais sustentável, como será possível implementar uma Agenda 21?

Outro aspecto que desafia os jornalistas ambientais é: como informar adequadamente sobre o meio ambiente, se as aspirações em nossa sociedade são baseadas mais em valores de consumo materiais que em valores espirituais, culturais ou artísticos, por exemplo? Frei Beto, em seu artigo Viagens Interiores (O Globo, 13/07/98) nos chama a atenção para o que andamos vendo nas propagandas, novelas, filmes, etc. Bastam alguns minutos à frente da televisão para percebermos que defeitos como inveja, orgulho, cobiça, avareza, luxúria, gula, preguiça - bases do consumismo desenfreado que gera esgotamento dos recursos naturais e poluição do planeta, por um lado, e injustiça social e concentração de renda, por outro - foram transformados em valores a serem perseguidos, como se o planeta tivesse recursos naturais em abundância para atender ao sonho de consumo de todos. O preço que pagamos pode ser visto por todo o lado. Não só no esgotamento e na poluição do planeta, mas também na miséria.

Como reverter essa situação?


VB: A primeira grande barreira a ser vencida é o verdadeiro bloqueio econômico de agências de publicidade, Secretarias de comunicação de governos e departamento de comunicação de grandes empresas, que simplesmente fingem desconhecer o segmento das mídias ambientais, apesar de sua importância como agentes de disseminação de informação ambiental. Apesar do reconhecimento público da importância das mídias ambientais, não é só a ampliação da tiragem, do número de páginas e da periodicidade que está ameaçada, mas a própria continuidade dos atuais veículos. Os recursos para publicidade, quando existem, são desviados primeiro para a mídia de massa das capitais, depois para as mídias de massa do interior e só por último e eventualmente, para as mídias especializadas, como a do segmento ambiental. O que parece uma simples questão econômica, na verdade tem sido uma forma de impedir o crescimento e até a manutenção de veículos de meio ambiente, que são estratégicos para a democratização da informação ambiental no Brasil.

É preciso perceber, também, que por trás de nossos problemas ambientais, não estão apenas a ação de poluidores, o desmantelamento dos órgãos públicos de controle ambiental, ou a falta de consciência ambiental, mas também um tipo de atitude e valores, que julga natural explorar ao meio ambiente e aos nossos semelhantes para atingir um modelo de desenvolvimento que, por si só, gera agressões ambientais e problemas sociais. Logo, não basta exigir mudança de comportamento de empresas e governos.

Precisamos ser capazes de enfrentar a nós próprios, pois não haverá planeta suficiente capaz de suprir as necessidades de quem acha que a felicidade e o sucesso estão na posse de cada vez mais bens materiais.

Se queremos um planeta preservado, de verdade, não basta apenas lutar contra poluidores e depredadores. É preciso também nos esforçarmos para mudar nossos valores consumistas, hábitos e com­portamentos que provocam poluição, atitudes predatórias com os animais, as plantas e o meio ambiente. Mas só isso não basta, pois não há coerência em quem ama os animais e as plantas mas explora, humilha, discrimina, odeia seus semelhantes. Por isso, precisamos, além de nos preocupar com o meio ambiente, nos esforçarmos para sermos mais fraternos, democráticos, justos e pacíficos com os nossos semelhantes.

Na sua opinião a mídia tem feito uma boa cobertura do meio ambiente? Você acha que a cobertura ambiental limita-se a acidentes, como vazamentos de substâncias tóxicas ou eventos preparados por grupo ambientalista? Como os meios de comunicação vêm tratando a questão ambiental? O espaço que a mídia oferece para a temática ambiental é suficiente?


VB: Contraditoriamente à necessidade de mais informação ambiental, após a ECO 92 este espaço restringiu-se na chamada grande mídia limitando-se hoje a ocorrências ocasionais, diante de acidentes ambientais e um ou outro tema que interesse ao público mais geral. Como resposta a este quadro, surgiram veículos alternativos de informação ambiental, basicamente divididos em institucionais e comerciais. Os veículos institucionais são editados por diversas entidades como estratégia para manter seus filiados e público-alvo informados das atividades e posições políticas da instituição. Mas têm tiragem restrita e não chegam a atingir a comunidade ambiental, mas podem ser uma oportunidade de trabalho para jornalistas ambientais. Desenvolveu-se, então, um segmento de mídias ambientais, de caráter não-institucional, que recentemente se reuniram na EcoMídias - Associação Brasileira das Mìdias Ambientais, cujas tiragens somadas atingem cerca de 1,5 milhões de exemplares mensais, e que incluem jornais como o Jornal do Meio Ambiente, Folha do Meio Ambiente, Estado Ecológico de Minas, JB Ecológico, Terramérica, revistas como Eco.21, Ecologia & Desenvolvimento, Meio Ambiente Industrial, Saneamento Ambiental, Gerenciamento Ambiental, entre outros veículos. É um esforço hérculeo de ums poucos editores abnegados que tentam sobreviver com dificuldades para manter veículos para tratar de um assunto que ainda é inovador numa sociedade acostumada a usar o planeta como se fosse um armazém de recursos infinitos por um lado e uma lixeira infinita por outro. E, sem veículos fortes econômicamente, também não há muita esperança de emprego para jornalistas ambientais, e tanto os proprietários dos veículos ambientais, quanto os jornalistas especializados em meio ambiente, acabam dedicando-se à democratização da informação ambiental em nosso pais muito mais por amor, por ideologia, que por interesse comercial. Claro que isso precisa mudar. E os instrumentos estão aí. Os países membros da ONU aprovaram durante a ECO 92 a Agenda 21, como um roteiro a ser seguido em direção ao desenvolvimento sustentável. Em seu capítulo 40, sobre Informação Para a Tomada de Decisões, os signatários recomendam que "sempre que existam impedimentos econômicos ou de outro tipo que dificultem a oferta de informação e o acesso a ela, particularmente nos países em desenvolvimento, deve-se considerar a criação de esquemas inovadores para subsidiar o acesso a essa informação ou para eliminar os impedimentos não econômicos." Os representantes dos países signatários justificam essa medida ao reconhecer que "em muitos países, a informação não é gerenciada adequadamente devido à falta de recursos financeiros e pessoal treinado, desconhecimento de seu valor e de sua disponibilidade e a outros problemas imediatos ou prementes, especialmente nos países em desenvolvimento. Mesmo em lugares em que a informação está disponível, ela pode não ser de fácil acesso devido à falta de tecnologia para um acesso eficaz ou aos custos associados, sobretudo no caso da informação que se encontra fora do país e que está disponível comercialmente."

A questão ambiental tem ganhado mais força na sociedade? Com esta o interesse dos leitores pelo meio ambiente?


VB: Penso que sim. Em pouco menos de duas décadas a opinião pública mudou radicalmente de uma posição que justificava o progresso a qualquer preço, para uma opinião de que o desejável é uma espécie de progresso que leve em conta a preservação do meio ambiente. Influíram nessa mudança diversos fatores, entre os quais: a) a pressão exercida pelas ONGs (organizações não-governamentais), principalmente as ambientalistas, com o reforço de artistas e cientistas sensíveis à causa ambiental; b) a imensa capacidade de comunicação da imprensa, e a popularização de meios como a televisão. As empresas, por sua vez, são obrigadas a ver a questão ambiental com seriedade, menos pela pressão dos ambientalistas ou exigências legais e mais por outros fatores como, por exemplo: a) precisam alcançar uma certa excelência ambiental para obter selos verdes, do tipo ISO 14.000, a fim de evitar barreiras comerciais a seus produtos no exterior; b) se dependem de recursos financeiros via BNDES, por exemplo, devem adequar-se às exigências do Protocolo Verde. Empresas poluidoras ou que não cumprem acordos ambientais, têm poucas chances de obter ou manter empréstimos; c) se são multinacionais cujas matrizes estão em países como Europa e Estados Unidos, onde a opinião pública está mais sensível às questões ambientais, precisam dar satisfações aos acionistas a fim de garantir cargos e recursos nas filiais.

As ONGs já perceberam que a imagem é um dos 'pontos fracos'dos poluidores. Por isso, quando os canais de diálogo com as empresas são interrompidos, inexistentes ou insuficientes, os ambientalistas procuram sensibilizar a opinião pública. Além da imprensa, as ONGs estão tendo acesso à Internet, denunciando as empresas poluidoras à opinião pública de seus países de origem, onde têm as matrizes, e junto a fontes de financiamento ou certificação internacional, como Banco Mundial e ISO. Um exemplo disso é a campanha da Lista Suja, da ONG Associação Mineira de Defesa do Ambiente (AMDA), de Minas Gerais.

A intenção dos ambientalistas, aparentemente, não é 'perseguir' os poluidores, mas sim estimulá-los a priorizar recursos e ações no sentido de controlar a poluição e recuperar o passivo ambiental. Tem empresas que fazem 'pouco caso', agem como se não fosse com ela, qualificam a ação dos ambientalistas como 'oba-oba'. Em outros casos, a empresa tem investido em meio ambiente, e às vezes até já superou seus principais problemas ambientais, mas esqueceu de investir no resgate de sua imagem junto à opinião pública, que continua lembrando da empresa como poluidora. Em outros casos, ainda, a empresa desperdiça recursos ao entregar a tarefa de resgate de sua imagem a agências de publicidade que não disponhem de conhecimento sobre as questões e linguagens ambientais, muito menos sobre que veículos atingem o público multiplicador de opinião ambientalista.

Qual é a importância do jornalismo ambiental para a sociedade?


VB: A imprensa são gera necessariamente opinião pública, mas ao expor a informação, gera perplexidade na opinião pública, tornando-a sensível à mensagem de grupos de pressão como os ambientalistas, artistas, cientistas, políticos, por exemplo, e mais interessada em buscar informação ambiental mais qualificada em veículos especializados, cursos profissionais, etc.

As informações sobre os grandes acidentes ambientais ocorridos no mundo foram determinantes para a formação de uma opinião pública sensível à questão ambiental. Segundo o Major Hazard Incident Data Service, da Grã-Bretanha, até 1.986 ocorreram 2.500 acidentes industriais no mundo, sendo que mais da metade (1.419) em apenas cinco anos, entre 1981 e 1986. Já os grandes acidentes ambientais, que envolveram maior número de mortes e milhões de dólares de indenização, num total de 233 acidentes, ocorreram no curto período entre 1970 e 1989. A divulgação em escala mundial destes fatos não só contribuiu para sensibilizar a opinião pública, mas também para fortalecer os movimentos ambientalistas, que se multiplicaram nesse período, além de gerar um conjunto de leis ambientais e de órgãos de controle que não existiam antes de 1970.

Os acidentes ambientais com óleo derramado na Baía de Guanabara e no Paraná, em 1999, por exemplo, reacederam a indignação da sociedade com o descaso ambiental. A questão ambiental tornou-se um nervo exposto para empresas e governos. A opinião pública quer respostas, quer soluções. Engana-se quem pensa que a preocupação ambiental é um modismo passageiro. Diziam isso também na década de 70, quando tudo começou. Agora se percebe que ou as empresas e políticos levam o meio ambiente a sério, ou perderão negócios e votos.

O Jornalismo ambiental também contribui e muito como motivador para o processo de uma nova consciência ambiental. Mas é preciso não confundir informação com formação, pois apenas transmitir conhecimentos não basta. Os meios de comunicação não possuem o caráter pedagógico requerido para o ensino do meio ambiente, mas são aliados estratégicos e fundamentais no ensino para o meio ambiente. Os educadores ambientais podem aproveitarem as informações e conceitos veiculados como ferramenta pedagógica para ajudar os alunos na reflexão sobre os fatos, relacionando-os com suas realidades mais próximos. Nesse processo, os alunos ao mesmo tempo que adquirem os instrumentos intelectuais necessários para a compreensão do mundo em que vivem, motivam-se a transformá-lo, buscando solução real para os problemas apresentados, atacando suas causas. Neste sentido, se adequadamente utilizada, os meios de comunicação podem ser aliados, não adversários do professor.

  Através das notícias ambientais é possível aproximar o aluno de seu meio ambiente próximo, propiciar a troca de experiência e idéias, em grupo ou individualmente, sobre o que seja meio ambiente, seus problemas concretos e possibilidades de solução. Os alunos estarão partindo do local para o global, da realidade que conhecem e dominam para a que não conhecem e desejam dominar.

Qual o futuro do jornalismo ambiental?


VB: Penso que não é se criando setores ambientais nas redações, departamentos, secretarias, ministérios para o meio ambiente que se ajudará a uma melhor cobertura da questão ambiental, mas é principalmente estimulando a 'ecologização' dos temas tradicionais como Saúde, Educação, Moraria, Transporte, Emprego etc. É preciso romper com a própria tendência dos jornalistas ambientais e dos ecologistas à acomodação em seus guetos e compartimentos onde o 'ecologês' é compreendidos sem questionamentos.

Existe uma tendência cartesiana pela separação dos assuntos uns dos outros, sob pretexto de poder estudá-los melhor. Esse é um método de análise que, se por um lado produz profundos conhecimentos sobre particularidades da realidade, por outro perde a visão do conjunto. Não só as redações das grandes mídias, mas também as administrações públicas e as organizações não-governamentais acabam tentando transpor para a organização social essa mesma fórmula, criando departamentos e compartimentos estanques - e por vezes incomunicáveis - para tratar dos diversos temas da sociedade humana. Um dos resultados disso é a neutralização dos esforços dos jornalistas ambientais e dos ecologistas sempre que tentam penetrar em outras áreas que não a ambiental, como se fossem intrometidos em busca de ampliação de espaços de atuação política. Quando um jornalista ambiental trata de temas como fauna e flora, é imediatamente compreendido, mas quando discute os aspectos antiecológicos da Saúde, Educação, Moradia etc. é por vezes criticado ou incompreendido, como se estes assuntos não estivessem interligados. Logo não é apenas a população que percebe mal as questões ecológicas. As redações, as organizações governamentais e não-governamentais, incluindo-se ai os partidos políticos, também.

O que você acha da cobertura da grande mídia e da mídia especializada?


VB: Creio que exercem papéis complementares. Na chamada grande mídia a questão permanece com destaque na pauta geralmente enquanto o problema ambiental for visível. Já para a mídia especializada o problema continua na pauta mesmo depois da emergência, mostrando a parte invisível que leva aos acidentes, como a falta de controle ambiental nos processos industriais, as manobras dos políticos para afrouxar a legislação ambiental, as ações ou omissões de autoridades que levam à deterioração ambiental generalizada, etc. Para mim, grande mídia e mídia especializadas não são concorrentes, mas complementares entre si. Muitas vezes as críticas que se faz à grande imprensa de que só trata do problema ambiental enquanto o problema é visível, na verdade é uma crítica que pretende atribuir à grande mídia um papel que não é seu, já que tem de manter um olhar amplo sobre os diversos assuntos que mobilizam a sociedade e seus leitores, e isso inclui muitos mais temas que só o ambiental. Este papel cabe à mídia especializada. Só que, no Brasil, a mídia ambiental não consegue exercer adequadamente este papel não por culpa das baixas tiragens ou da incompetência de seus editores, que fazem das tripas coração para manterem seus veículos, mas por que sofrem um verdadeiro bloqueio comercial por parte de empresas e agências de publicidade. Este bloqueio, a meu ver, não tem um fim político de estrangular as mídias ambientais para que não façam a crítica do modelo predatório e poluidor, mas creio que é mais por desqualificação, falta de formação e incompetência mesmo dos profissionais de publicidade e de comunicação nas empresas em compreenderem adequadamente o papel das diferentes mídias. Este problema também atinge os clientes dessas agências, que às vezes preferem investir suas verbas de publicidade em veículos da grande mídia em vez de também incluírem as mídias especializadas em seus planos de divulgação. As empresas acabam gastando às vezes verdadeiras fortunas para adotar procedimentos ambientais adequados e controlar ou eliminar sua poluição, mas divulgam isso, quando divulgam, para um público que não se importa tanto com a informação ambiental colocada na linguagem errada no veículo errado.

Durante o período autoritário que vivemos no Brasil, muitas empresas adotaram o silêncio, o 'nada a declarar', como es­tratégia para se proteger de problemas, o que deu certo em muitos casos. Hoje, com a abertura democrática e instrumentos de participação da sociedade como as audiências públicas, as empresas estão descobrindo que a ausência de investimentos em programas de comunicação ou, o que é pior, a não circulação da informação correta, na linguagem adequada a cada público-alvo, é a maneira mais rápida de favorecer e até estimular boatos ou notícias erradas contra o empreendimento, por maiores que sejam seus méritos ou vantagens para a comunidade. As empresas estão descobrindo que uma política de comunicação institucional é tão importante para uma empresa quanto construir prédios ou instalar equipamentos, pois se a opinião pública estiver contra a empresa, as dificuldades para licenciamento de novas operações ou para a ampliação de instalações existentes será cada vez maior.

O que você sugere para melhorar a atuação da imprensa em relação às questões ambientais? O que é necessário para um jornalista conseguir um bom desempenho na área ambiental? É necessário fazer um curso de especialização?


VB: Como disse numa resposta anterior, é fundamental para os jornalistas ambientais falarem uma linguagem que seja percebida por todos, especialmente pelas lideranças dos movimentos comunitários, sindicais, profissionais, enfim aqueles que possuem poder de multiplicar e de produzir informações e de contribuir para o processo de transformacão social. Os jornalistas ambientais, assim como os ecologistas, podem ter a clara percepção do que precisa ser mudado, a fim de conseguirmos uma relação mais harmônica da espécie humana com as outras espécies e o próprio planeta, entretanto, para conseguir mudar efetivamente as coisas é preciso a participação da população, cuja maioria elege políticos e enriquece empresários comprando seus produtos nos supermercados. Caso os jornalistas ambientais insistam em usar linguagem técnicas ou conceitos ecológicos ainda não assimilados pela população, além de não conquistarem para as teses ecológicas a adesão das forças vivas da sociedade, capazes de produzir mudanças. Se os jornalistas ambientais e os ecologistas querem a compreensão e a mobilização da sociedade para os temas ecológicos, devem antes procurar adaptar o ecologês às carências da nossa sociedade, partindo dos temas que já dominam e conhecem para os que precisam conhecer a fim de construírem uma melhor relação, mais harmônica, menos poluidora com seu meio ambiente e os outros seres vivos do planeta. A mensagem mais importante que podem passar é que nada existe isolado no planeta, mas tudo está inter-relacionado entre si.. O que acontece num lugar afeta um outro. Para pior ou para melhor.

E tem mais um elemento importante que os jornalistas ambientais devem levar em consideração antes de falarem dos outros seres vivos do planeta, como as plantas e os animais. O ser humano é a única espécie em condições de alterar profundamente seu meio ambiente. Entretanto, antes de se propor uma relação mais harmônica e menos predatória de nossa espécie com as outras, que consideramos inferiores, é preciso engajar a ecologia nas lutas contra a exposição de um indivíduo contra o outro em nossa própria espécie. Ou continuaremos contribuindo para romantizar as relações ser humano-planeta Terra, e tornar as questões ecológicas cada vez mais supérfluas, elitistas e secundárias, reservadas apenas a um pequeno grupo de iniciados, que adoram discursar sobre os próprios umbigos.

A população tem uma visão muito romântica da ecologia, associando-a mais em defesa do verde e, por extensão, das árvores e animais e como se a espécie humana não fizesse parte da natureza. Logo, por mais que julguem as questões ecológicas importantes, a maioria da população as considera secundárias. É mais importante lutar por moradia, alimento, emprego, escola, bons salários etc. Ecologia, na visão mais popular, é assunto para as classes mais abastadas, que já resolveram esses problemas básicos de infra-estrutura e podem viver em bairros melhores, longe da poluição, em locais arborizados.

Os ecologistas pouco contribuíram para modificar essa imagem e - na maioria dos casos - ajudaram até a reforçar essa visão romântica e alienada. Dedicaram-se muito mais à defesa de animais e plantas que aos problemas da espécies humana. Com isso, embora sem má fé, ajudaram a associar ecologia ao meio ambiente natural, onde vivem as plantas e os animais, deixando de fora o meio ambiente urbano/rural, onde vivem os seres humanos. Sabemos no entanto, que ambos os ambientes vivem interrelacionados, logo, as lutas por melhores condições de vida travadas por sindicatos, associações de moradores e outras entidades da sociedade civil, por exemplo, são também lutas pelo ambiente, no caso, ambiente humano.

Outra questão que os jornalistas ambientais precisam resolver para realizarem boas matérias é definir os principais responsáveis pela destruição do ambiente. É comum acusar-se a falta de conhecimento ambiental, o progresso ou a tecnologia, entre outros fatores, como os inimigos da natureza. Isso seria verdadeiro se pessoas como conhecimento ambiental não destruíssem a natureza. Infelizmente, não é o que se vê. Os caçadores, por exemplo, possuem muito mais conhecimentos sobre ecologia, natureza e a vida silvestre que muitos ecologistas, mas usam esses conhecimentos para destruir e matar.

Com relação ao progresso é a mesma coisa. Na década de 70, governos internacionais preocupados com a rápida destruição dos recursos naturais e a poluição do plante, defenderam a tese do crescimento zero, ou seja, congelar os níveis de progresso à época. Ora, por diversas vezes durante nossa história econômica, o Brasil teve crescimento abaixo de zero, portanto negativo, e nem por isso viu diminuindo seus problemas ambientais, muito pelo contrário. Devido à crise econômica, as empresas investiram menos em controle de poluição.

A questão tecnológica também tem sido apontada como uma das responsáveis pela destruição ambiental, uma vez que polui, degrada o meio ambiente e desperdiça recursos naturais. Ora, a tecnologia e a ciência não são neutras. Elas se submetem aos interesses dos detentores do poder naquele momento. Por outro lado, a adoção de tecnologia mais brandas e menos poluentes não asseguram uma relação menos predatória nas relações humanas, pelo menos. Um exemplo disso são quartéis de soldados norte-americanos movidos a energia solar ou biodigestores em países colonizados.

Enfim, o que podemos perceber é que a destruição da natureza não resulta da forma como nossa espécie se relaciona com ela, mas da maneira como se relaciona consigo mesma. Ao desmatar, queimar, poluir, utilizar ou desperdiçar recursos naturais ou energéticos, cada ser humano está reproduzindo o que aprendeu ao longo da história e cultura de seu povo, portanto, este não é um ato isolado de um ou outro indivíduo, mas reflete as relações sociais e tecnológicas de sua sociedade. Portanto, é impossível pretender que seres humanos explorados, injustiçados e desprovidos de seus direitos de cidadãos consigam compreender que não devam explorar outros seres vivos, como animais e plantas, considerados inferiores pelos humanos. A atual relação de nossa espécie com a natureza é apenas um reflexo do atual estágio de desenvolvimento das relações humanas entre nós próprios. Vivemos sendo explorados, aprendemos a explorar.

O Jornalismo ambiental, portanto, constitui-se num desafio, inclusive para separar informação de formação. Não é pelo maior ou menor volume de informações vinculado pelos meios de comunicação que a população aprende a pensar criticamente e atuar em seu mundo para transformá-lo. Muito pelo contrário. Sem uma base que permita a compreensão do que está sendo transmitido, o receptor acaba tornando-se insensível diante da poluição da informação, as palavras perdem o significado e importância, tanto faz derrubarem uma árvore ou uma floresta, tanto faz assassinarem um indivíduo ou uma multidão inteira numa republiqueta qualquer. A educação, por sua vez, não se dá ao vácuo, mas inserida em seu tempo e no contexto. Deve, portanto, associar-se aos meios de comunicação para, a partir das informações veiculadas, desenvolver um processo educativo, crítico e participativo, adequado à realidade dos alunos.

Não há cidadania ambiental sem participação política. Logo, não é de estranhar que os governos até hoje não tenham conseguido estabelecer diretrizes e investir realmente em educação ambiental ou manter uma política de comunicação que leve em conta as mídias ambientais especializadas, pois é impossível estimular a participação mas não garantir os instrumentos, direitos e acesso à participação e interferência nos centros de decisões. O Jornalismo Ambiental deve contribuir principalmente para o exercício da cidadania, estimulando a ação transformadora, além de buscar aprofundar os conhecimentos sobre as questões ambientais, as melhores tecnologias, estimular mudança de comportamento e a construção de novos valores éticos menos antropocêntricos. Não basta se tornar mais consciente dos problemas ambientais, sem se tornar também mais ativo, crítico e participativo. Em outras palavras, o comportamento dos cidadãos - e dos jornalistas - em relação ao seu meio ambiente, é indissociável do exercício da cidadania.

Linha direta com o Vilmar:
Correio eletrônico: vilmarberna@jornaldomeioambiente.com.br

Home page: http://www.jornaldomeioambiente.com.br

Tel/fax: (21) 2610-2272/7365 Celular: (21) 9994-7634

Endereço para correspondência: Travessa Gonçalo Ferreira, 777 (casa da Ponta da Ilha), bairro Jurujuba, Niterói, RJ CEP 24370-290
Aline Garcia* [aline_garcia@hotmail.com]

* entrevista inédita para tese de monografia de Aline Garcia, publicada na íntegra pela Rede Internacional de Comunicação CTA-JMA

 

 

:: Biodiversidade

:: Artigos

:: Entrevistas

:: Eventos

:: Informativos

:: Notícias

:: Links

:: Contato


©2001 ANBio - Associação Nacional de Biossegurança.
All rights reserved.