Entrevista

Ministro do Meio Ambiente condena 'desperdício'

Mariana Timóteo da Costa

O ministro do Meio Ambiente brasileiro, José Carlos Carvalho, está de malas prontas para divulgar os avanços e desafios ambientais brasileiros durante a Cúpula Mundial para o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+10, que começa no próximo dia 26 na África do Sul.

Em entrevista à BBC Brasil, o ministro diz que o Brasil progrediu mais do que regrediu em sua preservação ambiental, critica a posição dos Estados Unidos em relação ao meio ambiente - chamando-a de reacionária - e afirma que não adianta governos trabalharem pela salvação do planeta caso não haja uma colaboração da sociedade.

No que define como "cultura do desperdício", Carvalho acredita que os padrões de consumo das sociedades precisa mudar para que os recursos naturais não sejam esgotados.

Ele explica que, hoje, uma das maiores prioridades do Brasil é a preservação da Amazônia, que deve se tornar uma região desenvolvida e geradora de riquezas.

BBC Brasil - O Brasil lançou há pouco tempo a Agenda 21 Brasileira, com os objetivos para o desenvolvimento sustentável do país. A agenda será divulgada internacionalmente durante a Rio+10. Quais são os principais pontos dessa agenda e como o Brasil pretende implementá-la?


José Carlos Carvalho - A Agenda 21 é o desdobramento da Agenda 21 global, criada durante a Rio 92, mas de acordo com a realidade e as peculiaridades do Brasil. Mais de 40 mil pessoas trabalharam nela. Pessoas desde os mais ricos empresários até a população rural definiram os temas para o desenvolvimento sustentável do Brasil. A Agenda 21 brasileira serve de complemento à Agenda 21, que já foi implementada por nós em alguns aspectos. Ela não é um plano de governo brasileiro, e sim um documento de diretrizes da sociedade brasileira para a inclusão da sustentabilidade no processo de desenvolvimento do país.

BBC Brasil - Ou seja, a agenda serve como uma espécie de guia para o comportamento da sociedade brasileira em relação, por exemplo, à preservação ambiental?


Carvalho - A Agenda 21 Brasileira é um documento para o governo, para os empresários e para a sociedade civil, porque muitos dos problemas ambientais não serão resolvidos apenas com políticas governamentais, investimentos públicos ou mesmo investimentos privados. Você tem toda uma cultura que precisa ser atualizada, que é a cultura do desperdício. No caso brasileiro, ela está muito associada à dimensão do Brasil, que tem abundância de recursos naturais. Isso acabou gerando uma cultura de desperdício e por isso é fundamental também trabalhar com a sociedade para que haja mudança de comportamento e de mentalidade entre os cidadãos.

BBC Brasil - O problema do desperdício é bastante salientado pelas organizações não governamentais (ONGs) que trabalham com preservação ambiental. As ONGs dizem que, se os padrões de consumo não mudarem, principalmente em países como os Estados Unidos, será difícil qualquer projeto de desenvolvimento sustentável ir para a frente...


Carvalho - Certamente. Se todo o mundo começar a adotar os padrões de consumo dos americanos, nós teremos uma catástrofe ambiental. Hoje já estamos em um ritmo de exploração da natureza superior à sua capacidade de regeneração. O mundo consome 1,2 planeta Terra.

BBC Brasil - E como governos e ONGs podem trabalhar juntos para mudar essa cultura do desperdício?


Carvalho - A mudança de comportamento depende de um trabalho de educação ambiental, de engajamento da sociedade. E as ONGs têm um papel fundamental neste quadro porque até mais do que o governo elas podem mobilizar a sociedade nessa mudança de mentalidade.

BBC Brasil - Mas as ONGs não conseguem fazer isso sozinhas. Precisam, por exemplo, de algum tipo de financiamento...


Carvalho - Sim. No caso brasileiro temos o Fundo Nacional do Meio Ambiente, que tem uma linha de financiamento para as ONGs. O terceiro setor recebe do governo uma média de R$ 40 milhões por ano.

BBC Brasil - Falando em padrões de consumo, o que o sr. espera dos Estados Unidos nessa conferência? O país não ratificou o Protocolo de Kyoto, não assinou a Convenção de Biodiversidade, é o maior poluidor ambiental do mundo e seu presidente, George W. Bush, ameaça não ir à Rio+10. Os Estados Unidos podem levar a conferência ao fracasso?


Carvalho - Nós não podemos ignorar que os Estados Unidos têm uma posição de liderança sem a qual é difícil você obter qualquer grande mudança no plano internacional. Temos uma expectativa de que os Estados Unidos participem ativamente da Rio+10. Lamentavelmente, o país não ratificou Kyoto, nem a Convenção de Biodiversidade. O país tem tido uma posição bastante reacionária em relação às grandes decisões que estão sendo tomadas no plano internacional.

Mas nossa expectativa é de que, com a adesão recente da Polônia a Kyoto e a cada vez mais provável adesão da Rússia, o protocolo entre em vigor porque aí já teríamos 55% dos países reduzindo suas emissões de gases de efeito estufa. Isso faria de Kyoto um sucesso. Eu tenho a esperança que, uma vez em vigor, o protocolo aumente o isolamento dos Estados Unidos, fazendo com que a sociedade e a opinião pública americana se mobilizem pressionando o governo para se movimentar mais favoralmente às decisões internacionais. Isso romperia a inércia que estamos vendo na administração Bush.

BBC Brasil - Países como os Estados Unidos e os da Europa Ocidental já se desenvolveram, muitas vezes desgastando o meio ambiente. O Brasil não terá as mesmas chances nem causará tanta destruição ao planeta ao se desenvolver. Como os países desenvolvidos podem ajudar países mais pobres a adotar políticas compatíveis ao desenvolvimento sustentável?


Carvalho - Esta é uma questão fundamental, como armar um esquema para financiar o desenvolvimento sustentável, principalmente nos países menos ricos. Nós podemos investir em várias áreas: transferência de tecnologia, combate à pobreza, mudança nos padrões de produção e consumo. Por isso, sabemos que a ênfase que a Rio+10 pretende dar à pobreza é muito importante. Mas também é fundamental entender que, para combater eficazmente a pobreza, é preciso mudar a ordem mundial, principalmente a econômica.

Como nós sabemos, a principal economia dos países em desenvolvimento é a agrícola, que não tem acesso aos mercados de consumo das economias dos países desenvolvidos em razão dos subsídios à agricultura que os desenvolvidos pagam em seus respectivos países. Isso soma hoje entre Estados Unidos e Europa em algo em torno de US$ 400 bilhões por ano. Isso deforma o mercado, faz os preços dos produtos agrícolas do países pobres ficarem ridículos e não permite que países em desnvolvimento obtenham trocas comerciais justas para que eles possam se desenvolver fora do padrão clássico de pobreza, que sempre foi definido pelos países desenvolvidos. Essa definição está muito mais ligada à filantropia internacional do que a esforços reais para combater a miséria em caráter permanente e sistemático.

BBC Brasil - E o sr. acha que a crise enfrentada hoje pelos países da América Latina, a desaceleração da economia mundial, inclusive nos Estados Unidos - que enfrentam, por exemplo, escândalos nas corporações - pode prejudicar o desenvolvimento sustentável?


Carvalho - Sim. Eu acho que o cenário atual não é favorável ao desenvolvimento sustentável, principalmente da América Latina. Nós vivemos um período de ajustes fiscais severos, com restrições ao crédito, com várias dificuldades. Esses problemas estão sendo agravados pela prórpria crise do capitalismo americano. A crise deixou a periferia e foi para o coração do sistema. Nós precisamos trabalhar nisso.

BBC Brasil - O que o sr. acha que mudou, para melhor e pior, no Brasil nos últimos dez anos?


Carvalho - A maior parte das mudanças no Brasil foram para melhor. A Rio 92 deu um novo fôlego à política ambiental brasileira. Avançamos muito nos planos político e institucional. Hoje, articulamos mais com setor privado e sociedade civil, que são mais integrados. No plano institucional, criamos a Lei de Crimes Ambientais. O Brasil passou a ser uma das poucas nações do mundo a criminalizar o dano ambiental.

No contexto dessa lei, passamos de multas de R$ 4,9 mil para R$ 50 milhões. Tivemos também a Lei de Gerenciamento de Recursos Hídricos, que prevê uma maior responsabilidade sobre a água explorada em nosso território. Consolidamos no Brasil a política de criar áreas de conservação ambiental, criamos a Agência Nacional de Águas, reestruturamos o Ibama, reorganizamos o Jardim Botânico do Rio de Janeiro como centro de referência e conservação de milhares de espécies de plantas tropicais. Mas ainda temos desafios. Eu costumo dizer que os problemas ambientais brasileiros têm exatamente o tamanho do Brasil.

BBC Brasil - E quais seriam os maiores desafios, hoje, do governo brasileiro?


Carvalho - Nossas taxas de desmatamento na Amazônia, embora tenham reduzido no último ano, ainda são altas. O desenvolvimento sustentável da Amazônia deve ser encarado como prioridade. É preciso estabelecer a ocupação territorial da floresta em bases sustentáveis. Isso não se resolve apenas com políticas de comando e controle, mas também elaborando planos econômicos para que a região se desenvolva. Já começamos isso com a extinção da Sudam (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia) e com a criação da Agência de Desenvolvimento da Amazônia.

O objetivo é criar um novo modelo para financiar o desnvolvimento sustentável, que não seja com base na política de incentivos fiscais do sistema anterior. O grande desafio do Brasil é esse. Esgotamos um ciclo na política ambiental brasileira, que é o de comando e controle. Agora é fundamental revisar, atualizar os instrumentos econômicos aplicados ao desenvolvimento levando em conta as demandas da nova economia. Precisamos, por exemplo, dar chance à população da Amazônia de se desenvolver sem explorar os recursos da floresta. Precisamos gerar renda e empregos na região com a ajuda da floresta, e não com sua destruição. Esse é o desafio.
 
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