Entrevista

Entrevista: José Augusto Pádua
O desconhecido pensamento ambiental brasileiro

Revista Ecologia e Desenvolvimento
ANO 10 - Nº 98 - 2001 - ISSN 0104-9186

Pesquisador resgata o legado de autores que pensavam a ecologia do Brasil antes mesmo que a palavra fosse inventada
Elias Fajardo

A crítica à degradação ambiental é vista como produto da civilização urbana e industrial. Mas não é bem assim. Um capítulo foi esquecido na história do pensamento brasileiro: a reflexão sobre a destruição da natureza feita por autores que atuaram no país entre 1786 e 1888.

A tese é do professor José Augusto Pádua, do Curso de Pós-Graduação em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Em seu livro Um sopro de destruição: pensamento político e crítica ambiental no Brasil escravista, lançado no início de 2002 pela Editora Jorge Zahar, ele examinou 150 textos de mais de 50 autores do período e descobriu críticas à monocultura, ao latifúndio, à exploração irracional da terra e ao trabalho escravo. Joaquim Nabuco, José Bonifácio de Andrada e Silva e outros esboçaram propostas progressistas para a relação homem e natureza.

O pensamento deles ajuda a compreender o que somos e a refletir sobre que aspectos de vida brasileira precisamos transformar para termos uma sociedade mais justa e sustentável.

Como se descobriu que a consciência da devastação ambiental não é coisa nova?


J. A. Pádua - A origem desse debate vem retrocedendo no tempo. Imaginávamos que havia surgido depois da Segunda Guerra Mundial e retrocedemos aos séculos XVIII e XVII. Achávamos que a crítica ambiental surgiu com a expansão do mundo urbano industrial, mas observamos que está ligada à criação da economia moderna, a partir das navegações européias e do sistema colonial.

Com a expansão européia no século XVI, começou a se criar uma abordagem universal da ciência e a estudar vegetais de diferentes partes do planeta. Desenvolveu-se também uma economia voltada para um mercado de maior alcance, que gerou grande impacto na natureza.

Alfred Crosby, no livro O imperialismo ecológico, afirma que os europeus dominaram o mundo graças a suas plantas e animais domesticados e a germes e bactérias aos quais eram imunes e que destruíam outros povos. O que acha disso?

JAP - Tem muito a ver. Essa é a perspectiva que tentamos recuperar na história ambiental. A história convencional estuda política e economia, mas não presta atenção ao fato de que a dominação colonial é um processo ecológico.

Nunca tinha havido antes uma perturbação tão grande dos biomas. Antes dos europeus, nas Américas não havia cavalos, bois, porcos, que, como aqui, não tinham predadores, se desenvolveram extraordinariamente. O mesmo aconteceu com plantas, árvores e ervas daninhas que os colonizadores trouxeram. Criou-se assim um ambiente apropriado à economia de mercado que vinha se desenvolvendo.

O mercado passou a organizar a produção, o consumo, a colocação do trabalho humano e da natureza. E, à medida que se expandiu, esse modelo de capitalismo provocou uma revolução ecológica que começou a ser percebida, nos seus efeitos negativos, nas colônias tropicais. Desde o século XVIII, começou-se a notar que, no Caribe, no Pacífico, na Índia, na África, na América Latina, o modelo de produção era predatório.

O Brasil é um caso de grande significação. No final do século XVIII, com a expansão das monoculturas, houve desflorestamento e destruição de ecossistemas nativos e surgiram a mineração e a caça em grande escala.

A idéia de que a ação humana pode deteriorar o clima é uma grande discussão hoje, mas já nos séculos XVII e XVIII foi desenvolvida a Teoria do Dessecamento, afirmando que destruir a vegetação nativa reduzia a umidade e as chuvas, diminuindo a água. E que, portanto, tendia a criar desertos.

Na Europa, a natureza vinha sendo alterada com lentidão; nas colônias as transformações foram rápidas e cruéis. E precisava haver uma confluência entre a destruição e uma percepção que permitisse ao observador da época ter elementos para criticar.

Quem são os autores que você estudou?

JAP - No Brasil colônia, os críticos eram brasileiros da elite, o país era um oceano de analfabetos com uma gota de letrados, que faziam curso superior em Portugal. Esses autores pregavam independência, queriam que o país se desenvolvesse a partir de seus próprios potenciais e interesses. Todos estudaram em Coimbra ou na França e tomaram contato com o nascimento da visão ecológica.

A palavra ecologia surgiu em meados do século XIX, mas a perspectiva ecológica já se desenhava desde o século XVIII. Era uma visão integradora: como os elementos naturais são interdependentes, ao destruir parte do sistema, danifica-se o resto. Esta visão do século XVIII ficou conhecida como Economia da Natureza.

Após ter contato com tais fontes teóricas, esses brasileiros voltaram ao país e começaram a dizer que nosso sistema produtivo destruía os recursos naturais. Criticavam a agricultura por combinar ineficácia com predação: não conseguia produzir muito nem conservava a natureza.

Cite alguns dos autores mais expressivos.

JAP - Além dos abolicionistas Joaquim Nabuco (1849-1910), José Bonifácio (1763-1838) e André Rebouças (1838-1898), podemos citar historiadores e geógrafos como Januário da Cunha Barboza (1750-1846), Raymundo da Cunha Mattos (1776-1839), Ignácio Accioli de Cerqueira e Silva (1808-1865) e Domingos Ferreira Penna (1818-1888); médicos como Francisco Freire Alemão (1797-1874) e Emílio Joaquim da Silva Maia (1808-1859); naturalistas como Guilherme Schuch (1824-1908), José Saldanha da Gama (1839-1905) e João Silva Coutinho (1830-1889); artistas como Manoel Araújo Porto-Alegre (1806-1879); especialistas em agricultura como Carlos Taunay (1791-1867), Frederico Burlamaque (1803-1866), Nicolau Joaquim Moreira (1824-1894) e Miguel Antonio da Silva (1832-1879); fazendeiros como Francisco de Lacerda Werneck (1795-1861) e políticos como Miguel Calmon du Pin e Almeida (1796-1865), Luís Pedreira do Couto Ferraz (1818-1886) e Tomás Pompeu Brasil (1818-1877).

Como chegou a eles?

JAP - Através da obra de José Bonifácio, que, em 1823, previa que "o Brasil ia se transformar nos desertos da Líbia em dois séculos".

Comecei a ver quem eram os parceiros do Bonifácio e como ele conseguiu uma percepção crítica ambiental tão forte. Cheguei ao mestre dele, o italiano Domingos Vandelli, professor em Coimbra, e comecei a chegar aos colegas, membros da Academia de Ciência de Lisboa. Bonifácio ficou mais de 30 anos fora do Brasil, voltou nas vésperas da Independência, cujo processo liderou e também reuniu as críticas ambientais que vinham sendo feitas e transformou tudo num projeto nacional.

Esses autores não se preocupavam só com a natureza. A crítica ambiental entra junto com a crítica da tecnologia e da própria sociedade. O meio ambiente para eles é uma questão central e acho que essa abordagem a gente deve adotar hoje.

O que eles colocavam tem a ver com o pensamento ambientalista atual?

JAP - Sim. A discussão sobre destruição ambiental não é recente nem importada; pelo contrário, tem raízes profundas na cultura brasileira, é um dado político teórico importante.

Além disso, a crítica ambiental não é tão ligada ao Romantismo como se pensava. Esses autores eram influenciados pelo Iluminismo e pelo Racionalismo, não pregavam a volta a uma pureza original. Propunham "juntar o avanço racional da tecnologia com o cuidado ambiental". Afirmavam que "a destruição é o preço do atraso, uma herança do passado colonial, da tecnologia rudimentar".

O Romantismo brasileiro tinha uma visão superficial da natureza. Esses autores, mais racionalistas e cientificistas, tinham talvez menos sensibilidade para o mundo natural que os poetas da época, mas constatavam que o berço esplêndido estava sendo efetivamente destruído.

Conseguiram uma visão crítica relevante para o presente, mas um pouco inocente, achavam que o progresso ia trazer mais cuidado com o meio ambiente.

Que outras lições podemos tirar do pensamento deles?

JAP - O enfrentamento da questão ambiental a partir de uma perspectiva política. Esta talvez seja a lição mais importante, pois não vamos resolver a predação de modo fragmentário. Não adianta relação harmoniosa com o meio ambiente se mantemos relações econômicas e sociais perversas e predatórias.

Outra lição é que a ecologia não é retrógrada. Esses autores diziam que "o progresso era uma coisa necessária". Mas que progresso? A monocultura do café e da cana com trabalho escravo e tecnologias rudimentares não é progresso, é destruição. Não se cria uma sociedade digna desse nome com tais métodos.

A elite da época achava que qualquer atividade que ocupasse território era progresso. Eles criticavam esta visão, mas não abriam mão da idéia de progredir. Existe neles certo otimismo tecnológico questionável: o avanço tecnológico é necessário, mas é preciso ter visão crítica sobre ele.

Certas atividades parecem avançadas, mas têm debilidades ecológicas: uma usina nuclear, por produzir lixo radioativo, é atrasada. Precisamos de um conhecimento científico esclarecido pela visão ecológica, uma visão gentil da compreensão do nosso lugar no planeta. Isso os antigos autores não tinham, mas tinham uma visão política progressista da perspectiva ambiental.

Quais as duas grandes vertentes do pensamento desses autores?

JAP - No final do século XVIII e começo do XIX eles perceberam que a sociedade estava destruindo o mundo natural e apontaram a escravidão como o eixo do que estava errado.

José Bonifácio foi o primeiro a estabelecer uma relação causal entre escravatura e destruição. Ele disse: "Só com a superação do escravismo vamos mudar nossas relações com as florestas, a terra, o território." Segundo ele, escravismo gerava preguiça na elite e falta de inteligência no uso do território.

Depois da morte de Bonifácio, a crítica se desdobrou em duas vertentes. Uma continuou a criticar tecnologia e o descaso com as florestas e o solo e aparece principalmente em associações que começaram a surgir: Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Imperial Academia de Medicina e Imperial Instituto Fluminense de Agricultura. Só que eram associações muito ligadas ao poder imperial.

Os agrônomos diziam que a agricultura desmatava muito e não restituía os elementos necessários à saúde do solo. Os médicos afirmavam: "A destruição de florestas prejudica a saúde pública, aumenta as doenças tropicais." Historiadores e geógrafos diziam: "É preciso conservar o patrimônio das florestas brasileiras."

Mesmo assim, os intelectuais não botavam o dedo na ferida do escravismo. Elogiavam Bonifácio, mas se esqueciam da herança crítica do Patriarca da Independência, que condenava a concentração da terra, pregava a reforma agrária e o ensino democrático para criar uma sociedade com renda mais distribuída.

Um autor típico foi Guilherme Capanema, que escreveu: "Se não mudarmos nosso sistema de produção, as ferrovias, ao invés de instrumento de progresso, vão ser instrumento de devastação."

Nas entrelinhas você sente que eles sabem que o escravismo é arcaico, mas condená-lo era criticar a estrutura imperial. Por mais que o imperador se dissesse abolicionista, a aristocracia do Império repousava na escravatura.

E qual era o segundo grupo?

JAP - A outra vertente é a dos abolicionistas. A partir de 1870/1880, retomam a mensagem de Bonifácio e adotam um reformismo radical. Segundo Joaquim Nabuco, "depois que acabarmos com a escravidão, temos que acabar com a obra da escravidão", ou seja, a sociedade que a escravidão criou.

O título do meu livro (Um sopro de destruição) vem de uma citação de Joaquim Nabuco: "A cada passo encontramos e sentimos os vestígios desse sistema, que reduz um belo país tropical ao aspecto das regiões onde esgotou a força criadora da terra. Onde quer que se a estude, a escravidão passou sobre o território e os povos que acolheram como um sopro de destruição."

Se eram tão importantes, por que seu pensamento não foi hegemônico e José Bonifácio foi esquecido?

JAP - Eles apontavam a escravidão como eixo da degradação, mas após a abolição de 1888 a destruição não só continuou como aumentou.

Na virada do século XIX para o XX, com tecnologia industrial e abertura de novas fronteiras, a devastação e a urbanização aumentaram. E o fim da escravidão de modo nenhum representou o fim da obra da escravidão.

Houve uma canetada, mas deveria ter sido acompanhada de reformas, que, na visão abolicionista, transformariam a nação. Mas o latifúndio continuou dominante e a monocultura de exportação permaneceu central na economia – basta ver o café na República Antiga e hoje em dia a soja. São processos que continuaram, apesar do país ter se transformado.

De certa forma, eles erraram, não era a escravidão o problema maior, mas acertaram em perceber que não se pode entender destruição ambiental sem analisar a estrutura social. Os descendentes dos escravos foram marginalizados e hoje compõem o setor mais pobre da sociedade. Nesse ponto, não houve avanço nenhum.

Por que a ação desses homens não repercutiu, já que eram importantes, tiveram cargos nos governos?

JAP - Na vida brasileira, o debate e a expressão jurídica que muitas vezes chegam à letra da lei são mais avançados que a estrutura de poder que mantém a sociedade presa a interesses autoritários.

O debate intelectual sempre foi mais avançado que as relações de produção e há dificuldade para as idéias resultarem em transformação. O historiador contemporâneo José Honório Rodrigues chama isso de "anti-reformismo estrutural": uma certa inércia, a permanência de relações injustas.

O presidente Fernando Henrique diz que é prioritário enfrentar a miséria, mas a concentração de renda não muda. Falamos e debatemos, mas temos menos capacidade – sobretudo entre acadêmicos e intelectuais – para influenciar a transformação da sociedade.

A sociedade precisa debater, mas precisa também romper com o elitismo que impede que nos democratizemos. Creio ainda – por isso sou ligado a um projeto coletivo chamado Brasil Sustentável e Democrático – que a distribuição da renda, o acesso a recursos naturais e os direitos humanos são importantes para construir a sustentabilidade.

O descaso ambiental está ligado à apropriação de dinheiro e espaços públicos por uma elite que, desde a colônia, transforma terra e ser humano em objetos de manipulação, lucro e destruição.

Aponto somente dois momentos em que algo de prático se fez pelo meio ambiente. Um deles aconteceu no fim do século XVIII, um esforço de conservar florestas na Bahia, mas muito voltado para madeiras úteis à construção naval. O outro momento é o reflorestamento da Tijuca a partir de 1862 no Rio de Janeiro, fruto da discussão crítica sobre a destruição da natureza. Inclusive, alguns dos intelectuais que analiso em meu livro estiveram envolvidos diretamente no processo de replantio da serra da Tijuca.

Nesses momentos, os precursores do ambientalismo conseguiram algo, mas na maior parte do tempo pregaram no deserto e foram perseguidos.

Depois de liderar a Independência, José Bonifácio tornou público seu programa. Sua reforma agrária era mais radical que a que se faz hoje, propunha: "Quem ganhou uma sesmaria e produziu alguma coisa, vai ganhar o que produziu e mais uma parte disso. Quem não produziu nada, vai ficar com uma pequena terra e o resto vai retornar ao estado." Isto é, não tinha compra nem indenização: a terra não cultivada voltava para o Estado e seria distribuída a índios, escravos, imigrantes ou vendida. Ele afirmava: "Vamos transformar os escravos em cidadãos ativos e instruídos, nossos irmãos e nossos compatriotas." Já pensou, em 1823 alguém considerar os negros irmãos e compatriotas? Ele foi preso e exilado depois da Independência: a elite latifundiária não suportou suas propostas.

Outros abolicionistas foram pressionados, mas o mais grave é a pressão silenciosa da inércia, da permanência dos privilégios. Todo mundo é contra a pobreza, mas a elite continua a defender seus privilégios e a promover o uso predatório dos recursos naturais. Por isso, é importante conhecer a história da crítica ambiental no Brasil. Ela revela que nos últimos séculos muitos buscaram construir outro projeto de país. Uma busca que permanece com ainda maior urgência diante das complexidades do mundo contemporâneo.

 

 

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