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Como
se descobriu que a consciência da devastação
ambiental não é coisa nova? |
J.
A. Pádua - A origem desse debate vem retrocedendo no
tempo. Imaginávamos que havia surgido depois da Segunda Guerra
Mundial e retrocedemos aos séculos XVIII e XVII.
Achávamos que a crítica ambiental surgiu com a
expansão do mundo urbano industrial, mas observamos que
está ligada à criação da economia
moderna, a partir das navegações européias e do
sistema colonial.
Com
a expansão européia no século XVI,
começou a se criar uma abordagem universal da ciência e
a estudar vegetais de diferentes partes do planeta. Desenvolveu-se
também uma economia voltada para um mercado de maior alcance,
que gerou grande impacto na natureza.
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Alfred
Crosby, no livro O imperialismo ecológico, afirma que os
europeus dominaram o mundo graças a suas plantas e animais
domesticados e a germes e bactérias aos quais eram imunes e
que destruíam outros povos. O que acha disso? |
JAP
- Tem muito a ver. Essa é a perspectiva que tentamos
recuperar na história ambiental. A história
convencional estuda política e economia, mas não presta
atenção ao fato de que a dominação
colonial é um processo ecológico.
Nunca
tinha havido antes uma perturbação tão grande
dos biomas. Antes dos europeus, nas Américas não havia
cavalos, bois, porcos, que, como aqui, não tinham predadores,
se desenvolveram extraordinariamente. O mesmo aconteceu com plantas,
árvores e ervas daninhas que os colonizadores trouxeram.
Criou-se assim um ambiente apropriado à economia de mercado
que vinha se desenvolvendo.
O
mercado passou a organizar a produção, o consumo, a
colocação do trabalho humano e da natureza. E, à
medida que se expandiu, esse modelo de capitalismo provocou uma
revolução ecológica que começou a ser
percebida, nos seus efeitos negativos, nas colônias tropicais.
Desde o século XVIII, começou-se a notar que, no
Caribe, no Pacífico, na Índia, na África, na
América Latina, o modelo de produção era predatório.
O
Brasil é um caso de grande significação. No
final do século XVIII, com a expansão das monoculturas,
houve desflorestamento e destruição de ecossistemas
nativos e surgiram a mineração e a caça em
grande escala.
A
idéia de que a ação humana pode deteriorar o
clima é uma grande discussão hoje, mas já nos
séculos XVII e XVIII foi desenvolvida a Teoria do
Dessecamento, afirmando que destruir a vegetação nativa
reduzia a umidade e as chuvas, diminuindo a água. E que,
portanto, tendia a criar desertos.
Na
Europa, a natureza vinha sendo alterada com lentidão; nas
colônias as transformações foram rápidas e
cruéis. E precisava haver uma confluência entre a
destruição e uma percepção que permitisse
ao observador da época ter elementos para criticar.
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Quem
são os autores que você estudou? |
JAP
- No Brasil colônia, os críticos eram brasileiros da
elite, o país era um oceano de analfabetos com uma gota de
letrados, que faziam curso superior em Portugal. Esses autores
pregavam independência, queriam que o país se
desenvolvesse a partir de seus próprios potenciais e
interesses. Todos estudaram em Coimbra ou na França e tomaram
contato com o nascimento da visão ecológica.
A
palavra ecologia surgiu em meados do século XIX, mas a
perspectiva ecológica já se desenhava desde o
século XVIII. Era uma visão integradora: como os
elementos naturais são interdependentes, ao destruir parte do
sistema, danifica-se o resto. Esta visão do século
XVIII ficou conhecida como Economia da Natureza.
Após
ter contato com tais fontes teóricas, esses brasileiros
voltaram ao país e começaram a dizer que nosso sistema
produtivo destruía os recursos naturais. Criticavam a
agricultura por combinar ineficácia com predação:
não conseguia produzir muito nem conservava a natureza.
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Cite
alguns dos autores mais expressivos. |
JAP
- Além dos abolicionistas Joaquim Nabuco (1849-1910),
José Bonifácio (1763-1838) e André
Rebouças (1838-1898), podemos citar historiadores e
geógrafos como Januário da Cunha Barboza (1750-1846),
Raymundo da Cunha Mattos (1776-1839), Ignácio Accioli de
Cerqueira e Silva (1808-1865) e Domingos Ferreira Penna (1818-1888);
médicos como Francisco Freire Alemão (1797-1874) e
Emílio Joaquim da Silva Maia (1808-1859); naturalistas como
Guilherme Schuch (1824-1908), José Saldanha da Gama
(1839-1905) e João Silva Coutinho (1830-1889); artistas como
Manoel Araújo Porto-Alegre (1806-1879); especialistas em
agricultura como Carlos Taunay (1791-1867), Frederico Burlamaque
(1803-1866), Nicolau Joaquim Moreira (1824-1894) e Miguel Antonio da
Silva (1832-1879); fazendeiros como Francisco de Lacerda Werneck
(1795-1861) e políticos como Miguel Calmon du Pin e Almeida
(1796-1865), Luís Pedreira do Couto Ferraz (1818-1886) e
Tomás Pompeu Brasil (1818-1877).
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Como
chegou a eles? |
JAP
- Através da obra de José Bonifácio, que,
em 1823, previa que "o Brasil ia se transformar nos desertos da
Líbia em dois séculos".
Comecei
a ver quem eram os parceiros do Bonifácio e como ele
conseguiu uma percepção crítica ambiental
tão forte. Cheguei ao mestre dele, o italiano Domingos
Vandelli, professor em Coimbra, e comecei a chegar aos colegas,
membros da Academia de Ciência de Lisboa. Bonifácio
ficou mais de 30 anos fora do Brasil, voltou nas vésperas da
Independência, cujo processo liderou e também reuniu as
críticas ambientais que vinham sendo feitas e transformou tudo
num projeto nacional.
Esses
autores não se preocupavam só com a natureza. A
crítica ambiental entra junto com a crítica da
tecnologia e da própria sociedade. O meio ambiente para eles
é uma questão central e acho que essa abordagem a gente
deve adotar hoje.
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O
que eles colocavam tem a ver com o pensamento ambientalista atual? |
JAP
- Sim. A discussão sobre destruição ambiental
não é recente nem importada; pelo contrário, tem
raízes profundas na cultura brasileira, é um dado
político teórico importante.
Além
disso, a crítica ambiental não é tão
ligada ao Romantismo como se pensava. Esses autores eram
influenciados pelo Iluminismo e pelo Racionalismo, não
pregavam a volta a uma pureza original. Propunham "juntar o
avanço racional da tecnologia com o cuidado ambiental".
Afirmavam que "a destruição é o preço
do atraso, uma herança do passado colonial, da tecnologia rudimentar".
O
Romantismo brasileiro tinha uma visão superficial da
natureza. Esses autores, mais racionalistas e cientificistas, tinham
talvez menos sensibilidade para o mundo natural que os poetas da
época, mas constatavam que o berço esplêndido
estava sendo efetivamente destruído.
Conseguiram
uma visão crítica relevante para o presente, mas um
pouco inocente, achavam que o progresso ia trazer mais cuidado com o
meio ambiente.
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Que
outras lições podemos tirar do pensamento deles? |
JAP
- O enfrentamento da questão ambiental a partir de uma
perspectiva política. Esta talvez seja a lição
mais importante, pois não vamos resolver a
predação de modo fragmentário. Não
adianta relação harmoniosa com o meio ambiente se
mantemos relações econômicas e sociais perversas
e predatórias.
Outra
lição é que a ecologia não é
retrógrada. Esses autores diziam que "o progresso era uma
coisa necessária". Mas que progresso? A monocultura do
café e da cana com trabalho escravo e tecnologias rudimentares
não é progresso, é destruição.
Não se cria uma sociedade digna desse nome com tais métodos.
A
elite da época achava que qualquer atividade que ocupasse
território era progresso. Eles criticavam esta visão,
mas não abriam mão da idéia de progredir. Existe
neles certo otimismo tecnológico questionável: o
avanço tecnológico é necessário, mas
é preciso ter visão crítica sobre ele.
Certas
atividades parecem avançadas, mas têm debilidades
ecológicas: uma usina nuclear, por produzir lixo radioativo,
é atrasada. Precisamos de um conhecimento científico
esclarecido pela visão ecológica, uma visão
gentil da compreensão do nosso lugar no planeta. Isso os
antigos autores não tinham, mas tinham uma visão
política progressista da perspectiva ambiental.
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Quais
as duas grandes vertentes do pensamento desses autores? |
JAP
- No final do século XVIII e começo do XIX eles
perceberam que a sociedade estava destruindo o mundo natural e
apontaram a escravidão como o eixo do que estava errado.
José
Bonifácio foi o primeiro a estabelecer uma
relação causal entre escravatura e
destruição. Ele disse: "Só com a
superação do escravismo vamos mudar nossas
relações com as florestas, a terra, o
território." Segundo ele, escravismo gerava
preguiça na elite e falta de inteligência no uso do território.
Depois
da morte de Bonifácio, a crítica se desdobrou em duas
vertentes. Uma continuou a criticar tecnologia e o descaso com as
florestas e o solo e aparece principalmente em
associações que começaram a surgir: Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro, Imperial Academia de
Medicina e Imperial Instituto Fluminense de Agricultura. Só
que eram associações muito ligadas ao poder imperial.
Os
agrônomos diziam que a agricultura desmatava muito e não
restituía os elementos necessários à
saúde do solo. Os médicos afirmavam: "A
destruição de florestas prejudica a saúde
pública, aumenta as doenças tropicais."
Historiadores e geógrafos diziam: "É preciso
conservar o patrimônio das florestas brasileiras."
Mesmo
assim, os intelectuais não botavam o dedo na ferida do
escravismo. Elogiavam Bonifácio, mas se esqueciam da
herança crítica do Patriarca da Independência,
que condenava a concentração da terra, pregava a
reforma agrária e o ensino democrático para criar uma
sociedade com renda mais distribuída.
Um
autor típico foi Guilherme Capanema, que escreveu: "Se
não mudarmos nosso sistema de produção, as
ferrovias, ao invés de instrumento de progresso, vão
ser instrumento de devastação."
Nas
entrelinhas você sente que eles sabem que o escravismo é
arcaico, mas condená-lo era criticar a estrutura imperial.
Por mais que o imperador se dissesse abolicionista, a aristocracia do
Império repousava na escravatura.
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E
qual era o segundo grupo? |
JAP
- A outra vertente é a dos abolicionistas. A partir de
1870/1880, retomam a mensagem de Bonifácio e adotam um
reformismo radical. Segundo Joaquim Nabuco, "depois que
acabarmos com a escravidão, temos que acabar com a obra da
escravidão", ou seja, a sociedade que a escravidão criou.
O
título do meu livro (Um sopro de destruição)
vem de uma citação de Joaquim Nabuco: "A cada
passo encontramos e sentimos os vestígios desse sistema, que
reduz um belo país tropical ao aspecto das regiões onde
esgotou a força criadora da terra. Onde quer que se a estude,
a escravidão passou sobre o território e os povos que
acolheram como um sopro de destruição."
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Se
eram tão importantes, por que seu pensamento não foi
hegemônico e José Bonifácio foi esquecido? |
JAP
- Eles apontavam a escravidão como eixo da
degradação, mas após a abolição de
1888 a destruição não só continuou como aumentou.
Na
virada do século XIX para o XX, com tecnologia industrial e
abertura de novas fronteiras, a devastação e a
urbanização aumentaram. E o fim da escravidão de
modo nenhum representou o fim da obra da escravidão.
Houve
uma canetada, mas deveria ter sido acompanhada de reformas, que, na
visão abolicionista, transformariam a nação. Mas
o latifúndio continuou dominante e a monocultura de
exportação permaneceu central na economia basta
ver o café na República Antiga e hoje em dia a soja.
São processos que continuaram, apesar do país ter se transformado.
De
certa forma, eles erraram, não era a escravidão o
problema maior, mas acertaram em perceber que não se pode
entender destruição ambiental sem analisar a estrutura
social. Os descendentes dos escravos foram marginalizados e hoje
compõem o setor mais pobre da sociedade. Nesse ponto,
não houve avanço nenhum.
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Por
que a ação desses homens não repercutiu,
já que eram importantes, tiveram cargos nos governos? |
JAP
- Na vida brasileira, o debate e a expressão jurídica
que muitas vezes chegam à letra da lei são mais
avançados que a estrutura de poder que mantém a
sociedade presa a interesses autoritários.
O
debate intelectual sempre foi mais avançado que as
relações de produção e há
dificuldade para as idéias resultarem em
transformação. O historiador contemporâneo
José Honório Rodrigues chama isso de "anti-reformismo
estrutural": uma certa inércia, a permanência de
relações injustas.
O
presidente Fernando Henrique diz que é prioritário
enfrentar a miséria, mas a concentração de renda
não muda. Falamos e debatemos, mas temos menos capacidade
sobretudo entre acadêmicos e intelectuais para
influenciar a transformação da sociedade.
A
sociedade precisa debater, mas precisa também romper com o
elitismo que impede que nos democratizemos. Creio ainda por
isso sou ligado a um projeto coletivo chamado Brasil
Sustentável e Democrático que a
distribuição da renda, o acesso a recursos naturais e
os direitos humanos são importantes para construir a sustentabilidade.
O
descaso ambiental está ligado à
apropriação de dinheiro e espaços públicos
por uma elite que, desde a colônia, transforma terra e ser
humano em objetos de manipulação, lucro e destruição.
Aponto
somente dois momentos em que algo de prático se fez pelo meio
ambiente. Um deles aconteceu no fim do século XVIII, um
esforço de conservar florestas na Bahia, mas muito voltado
para madeiras úteis à construção naval. O
outro momento é o reflorestamento da Tijuca a partir de 1862
no Rio de Janeiro, fruto da discussão crítica sobre a
destruição da natureza. Inclusive, alguns dos
intelectuais que analiso em meu livro estiveram envolvidos
diretamente no processo de replantio da serra da Tijuca.
Nesses
momentos, os precursores do ambientalismo conseguiram algo, mas na
maior parte do tempo pregaram no deserto e foram perseguidos.
Depois
de liderar a Independência, José Bonifácio
tornou público seu programa. Sua reforma agrária era
mais radical que a que se faz hoje, propunha: "Quem ganhou uma
sesmaria e produziu alguma coisa, vai ganhar o que produziu e mais
uma parte disso. Quem não produziu nada, vai ficar com uma
pequena terra e o resto vai retornar ao estado." Isto é,
não tinha compra nem indenização: a terra
não cultivada voltava para o Estado e seria distribuída
a índios, escravos, imigrantes ou vendida. Ele afirmava:
"Vamos transformar os escravos em cidadãos ativos e
instruídos, nossos irmãos e nossos compatriotas."
Já pensou, em 1823 alguém considerar os negros
irmãos e compatriotas? Ele foi preso e exilado depois da
Independência: a elite latifundiária não suportou
suas propostas.
Outros
abolicionistas foram pressionados, mas o mais grave é a
pressão silenciosa da inércia, da permanência dos
privilégios. Todo mundo é contra a pobreza, mas a elite
continua a defender seus privilégios e a promover o uso
predatório dos recursos naturais. Por isso, é
importante conhecer a história da crítica ambiental no
Brasil. Ela revela que nos últimos séculos muitos
buscaram construir outro projeto de país. Uma busca que
permanece com ainda maior urgência diante das complexidades do
mundo contemporâneo.
