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"(..)
É bem verdade, que o setor precisa evoluir muito para
conquistar os selos verdes, o reconhecimento dos ambientalistas e
passar de produtor de commodities tradicionais incorporar em suas
matrizes produtivas as commodities ambientais(1). (..)"
Revista Feira
- Edição Especial Fenasucro
Setembro/2002
-Edição nº 6
Cúpula
Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável e o Setor Sucroalcooleiro
Por Afonso
Reis Duarte (*)
O setor
sucroalcooleiro perdeu uma grande oportunidade ao não se fazer
representar na Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento
Sustentável (Rio + 10), ocorrido em Johannesburg, na
África do Sul, entre os dias 26 de agosto e 04 de setembro de
2002, com a presença chefes de estados, representantes de
governos, entidades ambientalistas e do setor produtivo de 190
países, ocasião em que teria para mostrar para o mundo
inteiro, o quanto o setor pode contribuir para o desenvolvimento
sustentável, a preservação do meio ambiente e as
enormes possibilidades da cadeia produtiva, que vão muito
além do açúcar, do álcool, da energia
elétrica co-gerada, do seqüestro de gases do efeito
estufa e da alcoolquímica.
É bem
verdade, que o setor precisa evoluir muito para conquistar os selos
verdes, o reconhecimento dos ambientalistas e passar de produtor de
commodities tradicionais incorporar em suas matrizes produtivas as
commodities ambientais(1).
Há
exemplos louváveis, como é o caso da Usina São
Francisco, de Sertãozinho, SP, onde se pratica agricultura
orgânica e a preservação ambiental, constituem
exceções que precisam se tornar regras. Até por
que, o consumidor da economia globalizada, exige cada vez mais
produtos certificados em qualidade, responsabilidade social,
preservação ambiental, dentre outros conceitos
envolvendo ética, cidadania e valores culturais.
Ocupar
espaço e adquirir respeito por intermédio de parcerias
permanentes com toda a cadeia produtiva, com os governos, com os
sindicalistas, com os ambientalistas, com a universidade, sobretudo
com a sociedade e principalmente com as comunidades próximas
das agroindústrias canavieiras, será o grande desafio
do setor, que lentamente parece neutralizar as próprias
resistências internas, passando do estágio
individualista para o coletivo, reconhecendo que os custos e
benefícios devem ser abrangentes, jamais isolacionistas.
Não basta uma empresa dominar tecnologias inovadoras e somente
ela produzir plásticos biodegradáveis, o mais
importante é que todo setor participe de pesquisas e
desenvolvimento, resultados isolados não são
suficientes, é imprescindível que todos estejam bem e unidos.
Parece ser
este o ponto fraco do setor a desunião - em que pese
todo o esforço da Unica e de outras entidades patronais para
somar esforços e neutralizar vaidades pessoais ou regionais,
pouco se tem avançado nas relações
institucionais e potenciais de valorização do setor,
fora das áreas de interesses corporativos. Quando se conhece o
potencial de produtos e sub-produtos da agroindústria
canavieira, muitos com escala comercial comprovada e outros em fase
de estudos e desenvolvimento, cuja quantidade e possibilidades
economicamente viáveis, ultrapassam a várias dezenas,
envolvendo atividades simples: garapa (suco in natura de
cana), fertirrigação, açúcar,
álcool, energia, celulose, aglomerados, até as mais
complexas: sugarquímica (glicose, frutose,
vitamina C, etc) e álcoolquímica (etileno, acetaldeido,
defensivos, etc).
Quando se fala
nas vantagens comparativas do setor, não se pode esquecer que
ele é estratégico para o país e que a
política, além de setorial, precisa contar com o apoio
da sociedade e a decisão dos governos. Daí a
importância da qualidade da informação
institucional, para mudar conceitos e preconceitos sobre o velho e
desacreditado usineiro que já não combina
com os avanços destacados. Ainda mais, que interesses da
indústria do petróleo, da indústria
automobilística, do setor de energia não
renovável, cujo lobby e forma de atuação, bem
conhecemos, são diretamente afetados por este setor que se
enquadra perfeitamente nos mecanismos de desenvolvimento limpo e que
poderá se abranger todo conceito de desenvolvimento sustentável.
O que hoje
é um problema nas regiões produtoras de cana, a
queimada e os seus efeitos, que incomodam a dona de casa, aumentam o
consumo doméstico de água, agravam a saúde de
quem tem problemas respiratórios, trazem problemas ao meio
ambiente, aumentam os investimentos em mecanização do
corte de cana crua, por consequência desemprega, pode se
constituir na união de todos os atores sociais em torno de uma
causa maior, que é fazer do setor um agente de desenvolvimento
social e econômico, aproveitando-se toda a sua potencialidade.
Eu tenho a plena convicção de que se todos se
dispuserem a apresentarem propostas para solucionar, no curto prazo,
os problemas das queimadas, a melhor solução
aparecerá. Quando todos os envolvidos deixarem as suas
picuinhas de lado, em prol do bem-estar coletivo,
não há problema que resista e nem desafio que não
se possa vencer.
Marcar
presença na Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento
Sustentável (Rio + 10), não dá mais. Entretanto,
como vimos, muito há por se fazer, ainda há tempo para
resgatar parte da dívida social que o setor tem para com os
brasileiros, que vem desde muito antes do Proálcool. Ajudar na
implantação da Agenda 21 Local, pode ser um bom
começo, exige poucos recursos financeiros, porém alta
mobilização social. Outros projetos de
interação e integração
sócio-econômico, usando os conhecimentos técnicos,
administrativos e da área social adquiridos pelo setor ao
longo dos anos, que podem ser executados, inclusive, por
funcionários voluntários, constituir-se-á num
importante instrumento de mobilização social e resgate
de valores fundamentais.
(1) sobre
commodities ambientais visitar a página CTA www.sindecon-esp.org.br
Afonso
Reis Duarte* é economista, técnico em
agropecuária, diretor da Central Técnica de
Planejamento e da ADPP-Agência de Desenvolvimento de
Políticas Públicas, presidente do Instituto do Setor
Público & Cidadania ISP&C, diretor regional em
Rib. Preto do Sindicato dos Economistas no Estado de São Paulo
e Conselheiro do Corecon/SP. afonsoreis@convex.com.br
Revista Feira,
MAC Editora, Setembro/2002, Edição nº 6,
Edição Especial sobre a Fenasucro, tiragem de 5.000
exemplares, Caixa Postal 490, CEP 14.001-970 Ribeirão
Preto/SP, fone 16 630-7666, macprom@bol.com.br, distribuída
durante a X FENASUCRO - Feira Internacional do Setor Sucoalcooleiro,
realizada de 17 a 20 de Setembro de 2002, em Sertãozinho/SP,
com público superior a 30.000 visitantes.
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