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"(..) É preciso cuidado no mercado de carbono. As certificações ainda não são oficiais e os negócios ainda são a futuro. Mas já tem gente tirando proveito dos incautos (..) "

"(..) A respeito da emissão de certificados ergue-se outro castelo de cartas. Os fundamentos para a certificação são já conhecidos, contudo, o "executive board" da Convenção Quadro das Nações Unidas Sobre Mudanças Climáticas até o momento não credenciou nenhuma entidade certificadora (..) "

Agência Estado

http://www.estadao.com.br/ciencia/colunas/aspas/2002/set/20/95.htm

Os embusteiros do carbono

Por Antonio Lombardi*

É preciso cuidado no mercado de carbono. As certificações ainda não são oficiais e os negócios ainda são a futuro. Mas já tem gente tirando proveito dos incautos.

O emergente mercado de créditos de carbono é, sem dúvidas, um excelente negócio. Entretanto, há que se esclarecer alguns pontos acerca desta excelente oportunidade, especialmente no que toca aos embusteiros de plantão, prontos a fazer crer aos mais desavisados que há ouro escondido dentro de árvores. Veremos, a seguir, como o óbvio muitas vezes escapa à sensatez.

As oportunidades desse mercado decorrem de tudo o que se estabeleceu a partir do Protocolo de Kyoto (PK), mais especialmente. A este respeito é necessário antes de mais nada ter a consciência de que este é o primeiro concerto mundial a respeito de um tema comum. Nunca na breve história da raça humana fomos capazes de estabelecer regras desse porte e com alcance realmente mundial. Assim, há que se compreender que um acordo de tais dimensões, por certo, é dotado de normas firmes, claras e objetivas.

Entretanto, há sempre gente disposta a crer - e fazer crer - que alhures como aqui algumas regras podem ser compreendidas diversamente, ou ainda interpretadas de modo conveniente. Mas, no que toca a acordos internacionais como esse, não há que se falar em tal sorte de distorções. Contudo, há aqueles dispostos a tirar proveito daqueles que, iludidos por equivocados entendimentos, imaginam a possibilidade de enriquecimento às custas de projetos desenhados na penumbra dos melhores entendimentos sobre o assunto. Necessário e fundamental compreender-se que os projetos em MDL (Mecanismo de Desenvolvimento Limpo) não são oportunidade de negócios e ganhos em si, mas oportunidades encartadas em um negócio maior, viável por si mesmo. Bem delineadas as bases de um projeto, é possível melhorar a performance do negócio ao qual está atrelado, reduzindo seus custos.

A respeito da emissão de certificados ergue-se outro castelo de cartas. Os fundamentos para a certificação são já conhecidos, contudo, o "executive board" da Convenção Quadro das Nações Unidas Sobre Mudanças Climáticas até o momento não credenciou nenhuma entidade certificadora. E mais, mesmo que houvessem credenciados, a validade dos CERs (Certificado de Redução de Emissões) está condicionada a ratificação deste mesmo "executive board". Logo, não se pode fazer promessa de expedição, venda ou entrega de tais certificados, visto que os mesmos não existem, ainda.

O regramento para elaboração de projetos e conseqüente certificação também tem causado polêmicas desagradáveis. As fases necessárias a cada projeto estão claramente descritas em vários instrumentos oficiais a este respeito, como o "web site" da própria ONU. Não há como ter dúvidas e tudo o que for diferente do que já se estabeleceu será mentiroso. Evidente que o leitor pode gastar dinheiro a toa, mas não reclame pelo insucesso de seu projeto.

Todavia, se pretende o leitor desenvolver atividade séria nesse sentido, bom mesmo é que busque profissionais igualmente sérios. O tripé fundamental de qualquer atividade neste setor é o seguinte: sustentabilidade financeira, sustentabilidade social e sustentabilidade ambiental. Isso está lá no PK! Ou seja, o negócio, seja lá qual for, precisa ter sustentabilidade financeira antes de qualquer coisa, precisa ser viável em si como negócio. Deste modo pretendeu-se garantir que ninguém vá viver às custas do meio ambiente, mas preservá-lo para a sustentabilidade de nosso contínuo desenvolvimento. Garantido este quesito, verificam-se os próximos.

Assim, o negócio em análise deverá garantir à comunidade em que se insere alguma sorte de benefícios, permitindo que as populações locais de certo modo possam vir a beneficiar-se deste negócio. A seguir, tudo isso deve estar correto do ponto de vista ambiental, o que extrapola, muitas vezes, as legislações locais sobre meio ambiente. Importa dizer que o projeto não poderá, de forma alguma, ser agressivo ao ambiente em torno do qual se constrói. Observadas simultaneamente essas três condições é possível que a validação e a certificação sejam concluídas.

Existe, sim, um mercado que já se interessa pelos certificados de carbono. Há instituições no mundo todo que já estão negociando esses créditos. Entretanto, é oportuno esclarecer que nenhum desses certificados foi ainda emitido e ratificado. Como disse, nenhuma certificadora está pelo "executive board" autorizada a emitir esses papéis. Os negócios têm sido feitos a futuro. Com isso têm sido negociadas expectativas de certificação, de modo que os projetos já negociados devem ter mitigados ao máximo seus riscos. Nesse ponto podemos incluir a necessidade de seguros de performance, seguros sobre o negócio etc.

Pondere o leitor, antes de investir inutilmente no trabalho de pessoas que não poderão entregar o que prometem. E, sobretudo, confie no negócio do carbono, mas faça dele seu aliado não seu inimigo.

Antonio Lombardi* é advogado especializado em direito internacional e gerente da Divisão de Projetos e Novos Negócios da De Rosa, Siqueira, Almeida, Mello, Barros Barreto e Advogados Associados - cleinaldosimoes@cleinaldosimoes.com.br

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