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"(..) Além disso, a ética não poderia ser ensinada por meio de lições de moral. Deve formar-se nas mentes com base na consciência de que o ser humano é, ao mesmo tempo, indivíduo, parte da sociedade e parte da espécie. Todo o desenvolvimento verdadeiramente humano deve compreender o desenvolvimento conjunto das autonomias individuais, das participações comunitárias e da consciência de pertencer à espécie humana. (..)"

Repensando a Educação para a Ecologia política

Por Sérgio Luís Boeira *

A ecologia política é uma nova área do conhecimento, um campo transdisciplinar de pesquisa, além de uma expressão que aponta para a atividade de movimentos de cidadãos interessados nas questões socioambientais. Entre os diversos autores que são atualmente tomados como referência nos estudos em ecologia política, o nome de Edgar Morin aparece com destaque. Por isso, o que segue é um pequeno artigo de divulgação para suscitar o debate e especialmente a leitura detalhada de uma obra cuja versão inicial foi submetida a críticas de personalidades universitárias de todo o mundo. Trata-se em parte de uma obra coletiva, portanto, com apoio institucional da UNESCO.

Os sete saberes necessários à educação do futuro, de acordo com Edgar Morin (2000), são os que tratam dos seguintes tópicos:

As cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão
Os princípios do conhecimento pertinente
Ensinar a condição humana
Ensinar a identidade terrena
Enfrentar as incertezas
Ensinar a compreensão
A ética do gênero humano

Quanto ao primeiro, trata-se de “armar cada mente no combate vital rumo à lucidez” (Op.cit, p. 14), ou seja: é necessário introduzir e desenvolver na educação o estudo das características cerebrais, mentais, culturais dos conhecimentos humanos, de seus processos e modalidades, das disposições tanto psíquicas quanto culturais que o conduzem ao erro ou à ilusão;

Quanto ao segundo tópico, trata-se de desenvolver a aptidão natural do espírito humano para situar todas as informações em um contexto e um conjunto. É preciso ensinar os métodos que permitam estabelecer as relações mútuas e as influências recíprocas entre as partes e o todo em um mundo complexo (Op.cit., p.14);

Quanto ao terceiro, trata-se de reconhecer que o ser humano é simultaneamente físico, biológico, psíquico, cultural, social, histórico, e que esta unidade complexa da natureza humana é totalmente desintegrada na educação contemporânea por meio das disciplinas. Cabe, portanto, mostrar como é possível, com base nas disciplinas atuais, reconhecer a unidade e a complexidade humanas;

Quanto ao quarto tópico, trata-se de ensinar a história da era planetária, que se inicia com o estabelecimento da comunicação entre todos os continentes no século XVI, e mostrar como todas as partes do mundo se tornaram solidárias, sem, contudo, ocultar as opressões e a dominação. Será preciso indicar a complexidade da crise planetária, mostrando que todos os seres humanos, confrontados com problemas comuns de vida e de morte, partilham um destino comum (Op.cit., p.16);

Quanto ao quinto, trata-se de ensinar os princípios de estratégia que permitiriam enfrentar os imprevistos, o inesperado e a incerteza, e modificar seu desenvolvimento, em virtude das informações adquiridas ao longo do tempo. “É preciso aprender a navegar em um oceano de incertezas em meio a arquipélagos de certeza” (Op.cit., p. 16).

Quanto ao penúltimo tópico, trata-se de reconhecer que, embora a compreensão seja meio e fim da comunicação humana, a educação para a compreensão está ausente do ensino convencional. Precisamos reconhecer a necessidade da compreensão mútua, em todos os níveis educativos e em todas as idades, para sairmos do estado bárbaro de incompreensão nas relações humanas. Disto decorre a necessidade de estudar a incompreensão a partir de suas raízes, suas modalidades e efeitos, enfocando não os sintomas, mas as causas do racismo, da xenofobia, do desprezo. Isto seria uma das bases mais seguras da educação para a paz (Op.cit., p.17).

Quanto ao último dos tópicos acima, trata-se de levar em consideração o caráter ternário da condição humana, que é ser simultaneamente indivíduo/sociedade/espécie. Nesse sentido, escreve Morin, a ética indivíduo/espécie necessita do controle mútuo da sociedade pelo indivíduo e do indivíduo pela sociedade, ou seja, a democracia; a ética indivíduo/espécie convoca, ao século XXI, a cidadania terrestre. Além disso, a ética não poderia ser ensinada por meio de lições de moral. Deve formar-se nas mentes com base na consciência de que o ser humano é, ao mesmo tempo, indivíduo, parte da sociedade e parte da espécie. Todo o desenvolvimento verdadeiramente humano deve compreender o desenvolvimento conjunto das autonomias individuais, das participações comunitárias e da consciência de pertencer à espécie humana. Por isso esboçam-se duas grandes finalidades ético-políticas do novo milênio: estabelecer uma relação de controle mútuo entre a sociedade e os indivíduos pela democracia e conceber a Humanidade como comunidade planetária. “A educação deve contribuir não somente para a tomada de consciência de nossa Terra-Pátria, mas também permitir que esta consciência se traduza em vontade de realizar a cidadania terrena (Op.cit., p.18).

Sintetizando, a ecologia política (expressão não utilizada por Morin, que prefere antropolítica) implica numa compreensão complexa da condição humana, das interações entre os seus diversos aspectos (cerebral, cultural, físico, histórico, biológico, social e psíquico), de sua inserção em diversos âmbitos (indivíduo, sociedade e espécie) e do enfrentamento de diversos obstáculos, como a fragmentação do conhecimento sem capacidade de percepção das interações entre o todo e as partes, o barbarismo da incompreensão nas relações humanas (especialmente no âmbito planetário), a dificuldade de lidar com as incertezas e os imprevistos, além da complexa relação entre ética e política. Sem uma reforma do pensamento humano e uma mudança de paradigma nas ciências e nas políticas públicas, a abordagem dos desafios socioambientais manter-se-á muito limitada e incapaz de viabilizar um redirecionamento salutar e durável nas relações entre as organizações/sociedades humanas e seus ecossistemas. Esta limitação é perceptível no tratamento dos efeitos e problemas decorrentes das formas dominantes de organização, bem como no fraco interesse institucional e na incapacidade de prevenção e formulação de políticas voltadas para o ecodesenvolvimento.

A ecologia política requer simultaneamente uma geração de mais democracia e uma regeneração da democracia existente, além da invenção de uma democracia planetária, com a realização da Humanidade a partir da antropoética (ou ética da espécie humana). A geração da democracia é necessária como resistência diante dos totalitarismos e das arbitrariedades, a partir das brechas do poder nas organizações públicas e privadas; a regeneração da democracia existente faz-se necessária como forma de elevação da qualidade da espécie, da sociedade e dos indivíduos em suas relações humanas, nas suas capacidades de conhecer, de compreender e de realizar a Humanidade em si, como legado para as futuras gerações; por fim, a invenção de uma democracia planetária requer a percepção do destino humano comum entre as várias nações e continentes, a disposição para forjar instituições globais voltadas para a educação e cidadania terrenas, com o concomitante desenvolvimento de uma cultura política planetária, complementar às culturas políticas comunitárias e societárias.

Sérgio Luís Boeira* é doutor em ciências humanas (UFSC) e professor da UNIVALI (Universidade do Vale do Itajaí). E-mail: slboeira@matrix.com.br

Fonte bibliográfica

MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez; Brasília: UNESCO, 2000 (118 páginas).

 

 

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