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"(..) Organizações não-governamentais e governos discordam sobre os resultados da cúpula de Johannesburgo. A proposta brasileira sobre energia foi derrotada e o mundo perdeu uma importante oportunidade de passar da conversa à ação. (..) "

"(..) O esgotamento dos recursos naturais é a causa da seca e da fome que agora ameaçam 150 mil famílias hondurenhas.(..)"

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Agência Envolverde

A cúpula da discórdia

Por Thalif Deen

Organizações não-governamentais e governos discordam sobre os resultados da cúpula de Johannesburgo. A proposta brasileira sobre energia foi derrotada e o mundo perdeu uma importante oportunidade de passar da conversa à ação.

O plano de ação acordado por 190 países na Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, encerrada no dia 4 de setembro, em Johannesburgo, deixou satisfeitos governos e organismos multilaterais e decepcionou as grandes organizações não-governamentais, para as quais faltou a fixação de metas e prazos.

"Algumas pessoas vieram com a esperança de resolver todos os problemas mundiais. Esta Cúpula, contudo, é apenas o começo, e um importante começo", disse o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Kofi Annan. "Devemos ser práticos e realistas, e avançar. O importante não é o que aconteceu na Cúpula, mas o que acontecerá quando todos os representantes de governos voltarem para casa", acrescentou Annan, ao manifestar a sua satisfação pela aprovação, por unanimidade, do plano de ação.

Apesar do otimismo de Annan, esse plano de ação, de 71 páginas, recebeu cabal condenação de todas as grandes organizações não-governamentais participantes da Cúpula, incluídas o Greenpeace Internacional, a Oxfam Internacional, a Eurodad, o Instituto Worldwatch e a Amigos da Terra Internacional.

As críticas foram endereçadas fundamentalmente aos países que acompanharam as posições de Austrália, Canadá e Estados Unidos, descritos pelos ativistas como "o bando do mal ambiental", uma paráfrase do "bando do mal" no qual Washington incorpora os seus inimigos Coréia do Norte, Irã e Iraque. Segundo as organizações ambientalistas, esses três países impediram o estabelecimento de metas e prazos para eliminar a contaminação, melhorar os serviços de água potável e aumentar a produção de energia limpa e barata. Os doadores ocidentais, em particular os Estados Unidos, também receberam críticas pela falta de compromisso em oferecer assistência financeira à implementação do plano de ação.

Entre os 104 chefes de Estado e de governo presentes em Johannesburgo não figurou o presidente norte-americano, George W. Bush. Em seu lugar, discursou, sob vaias, o secretário de Estado, Colin Powell. Ambientalistas norte-americanos interromperam o seu discurso várias vezes e acabaram sendo retirados à força do local. Powell reiterou o anúncio formulado por Bush em março, segundo o qual os Estados Unidos aumentarão em US$ 5 bilhões anuais a sua ajuda a países com bom desempenho e que adiram à democracia multipartidária, ao império da lei, ao respeito aos direitos humanos e ao livre mercado.

O presidente do não-governamental Instituto de Recursos Mundiais, Johathan Lash, disse: "Acima de tudo, devemos nos perguntar: os pobres do mundo estarão melhor dentro de dez anos? O nosso mundo estará mais a salvo das ameaças ambientais? Desgraçadamente, há muitos vazios e muito pouco músculo neste plano de ação". Lash expressou, também, o seu desalento pelo fato de a Cúpula não ter estabelecido metas e prazos para o aumento da produção de energia gerada por fontes renováveis, como a eólica e a solar, e renunciado a alentar a ratificação universal do Protocolo de Kyoto para reduzir o aquecimento planetário.

As únicas metas com prazos estabelecidos em tal plano são a redução à metade da população sem acesso a saneamento até 2015, a restauração dos bancos de pesca esgotados até 2015 e a redução significativa do ritmo de extinção das espécies de flora e fauna até 2010. O secretário-geral da Cúpula, Nitin Desai, aplaudiu o acordo sobre saneamento como um grande avanço. "O mundo concedeu, pela primeira vez, alta prioridade às questões da água e do saneamento. Precisávamos desse compromisso e agora são necessárias medidas e associações para assegurar o seu cumprimento", ressaltou.

Os Estados Unidos continuaram renitentes em apoiar qualquer ação concreta para combater as mudanças climáticas, apesar de produzirem a quarta parte dos gases estufa, responsabilizados pela ciência pelo aumento da temperatura do planeta no último século. O principal desses gases é o dióxido de carbono, liberado para a atmosfera principalmente pela queima de combustíveis fósseis derivados do petróleo, do gás, do carvão e da lenha. Por outro lado, ativistas questionaram os danos à população civil e aos ecossistemas causados pelas grandes centrais hidrelétricas, bem como os prejuízos à saúde e ao ambiente originados pela geração nuclear de eletricidade.

"O acordo é débil em metas e prazos, e será difícil impor a implementação do plano de ação, pois carece de sanções para os que não o cumprirem", sustentou a ativista do Instituto Worldwatch, Susan Finkelpearl. Simon Retallack, da revista Ecologist, de Londres, concordou com Susan: "O plano de ação representa um retrocesso para a sustentabilidade ambiental por sua falta de metas e prazos, assim como de normas de caráter obrigatório e de mecanismos de sanção similares aos que regem o comércio internacional. Perdeu-se uma oportunidade vital para estabelecer a agenda dos próximos dez anos.".

O ativista Antonio Hill, da organização humanitária britânica Oxfam Internacional, por sua vez, afirmou que o chamado plano de ação é desalentador por sua insustentabilidade. "Como 104 chefes de Estado e de governo podem nos olhar e disparar seus chavões enquanto seus governos se retiram de muitos dos compromissos assumidos na Cúpula do Rio de Janeiro?". Hill se referia ao plano de ação da Conferência Mundial sobre Meio Ambiente, a Cúpula da Terra, celebrada no Rio de Janeiro em 1992, que incluía o compromisso do mundo industrializado de aportar 0,7% de seu produto interno bruto à assistência oficial ao desenvolvimento. "Apenas cinco países (Dinamarca, Holanda, Luxemburgo, Suécia e Noruega) alcançaram a meta internacional de assistência oficial ao desenvolvimento, enquanto os Estados Unidos, o país mais rico do mundo, destinam apenas 0,1% de seu PIB a esse tipo de ajuda" acrescentou o ativista.

* O autor é correspondente da IPS.

 

 

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