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(..) Um coro de governos latino-americanos e organizações ambientalistas aplaude em Johannesburgo a iniciativa brasileira sobre energia limpa. Mas, o entusiasmo não é suficiente: a proposta tem poucas probabilidades de gerar consenso.(..)

(..) A voz indígena não deve ser ouvida apenas como bela poesia, pois contém verdades que podem ajudar no equilíbrio entre modernidade e tradição, economia e ecologia.(..)

Terramérica/IPS/Envolverde

Agência Envolverde

O Brasil sob os refletores

Por Marwaan Macan-Markar

Um coro de governos latino-americanos e organizações ambientalistas aplaude em Johannesburgo a iniciativa brasileira sobre energia limpa. Mas, o entusiasmo não é suficiente: a proposta tem poucas probabilidades de gerar consenso.

JOHANNESBURGO.- O Brasil atraiu as atenções durante a primeira semana da Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, também chamada de Rio+10, onde lidera o debate sobre energia limpa, tema que gera intensos atritos no mundo industrializado. Em nome da América Latina e do Caribe, o Brasil propõe que, até 2010, 10% da energia consumida no planeta tenham origem em fontes limpas, um dos assuntos mais espinhosos, incluído no parágrafo 19 do rascunho do Plano de Ação, o principal documento da Cúpula, que acontece em Johannesburgo, África do Sul.

Em um coro entusiasta, as delegações latino-americanas e organizações ambientalistas aplaudem a iniciativa que promove as energias solar, eólica, geotérmica e marinha, mas que, ao contrário de uma proposta semelhante da União Européia, exclui os grandes projetos hidrelétricos e a biomassa (lenha e resíduos), de maior uso tradicional no mundo em desenvolvimento. Durante a Cúpula da Terra do Rio de Janeiro, em 1992, os governos acordaram mudar os critérios insustentáveis de consumo de energia. Mas, desde então, "o consumo mundial de carvão, petróleo e gás natural aumentou", indica, em seu relatório Sinais Vitais 2002, a organização Worldwatch Institute, com sede em Washington. O consumo de combustíveis fósseis foi multiplicado por quatro desde 1950, alerta o documento.

"O Brasil tem uma liderança indiscutível porque vê o planeta com uma ótica de desenvolvimento econômico combinado com a conservação e o bom uso dos recursos, o desenvolvimento social e a melhoria da qualidade de vida", disse ao Terramérica Yolanda Kakabadse, presidente da União Mundial da Natureza (IUCN). Porém, a proposta tem poucas possibilidades de gerar consenso. A energia é o mais polêmico dos cinco temas centrais (junto com água, saúde pública, biodiversidade e agricultura) propostos para a Cúpula pelo secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan.

Os Estados Unidos, que rejeitam a ratificação do Protocolo de Kyoto, de 1997, para estabilizar a emissão dos gases que causam o efeito estufa, origem da alteração do clima, são contrários a qualquer tentativa de estabelecer metas quantificáveis em matéria de energia. Postura apoiada por Japão, Canadá e Austrália, e pelos integrantes da Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP). O que deixa do lado brasileiro países como Suécia, Alemanha e Nova Zelândia e as pequenas nações insulares. "Temos muitos inimigos, mas também amigos. A iniciativa brasileira é um excelente marco para esta Cúpula, e com sua implementação global poderíamos reduzir o preço das energias renováveis a ponto de serem competitivas", disse ao Terramérica Marcelo Furtado, do Greenpeace no Brasil.

Embora governos e o setor privado na América Latina e Caribe tenham promovido projetos para fomentar o uso de fontes renováveis, a energia limpa não representa nem mesmo 1% do consumo na região. O consumo mundial de fontes limpas chega a apenas 2,2%... Nas negociações de terça-feira, Estados Unidos e União Européia (que estabeleceu a meta de 2015 para aumentar o consumo de energia de fontes renováveis) chocaram-se na hora de abordar a diversificação do fornecimento de energia e a redução dos subsídios às fontes convencionais.

"Não queremos acrescentar novas mudanças ao que foi acertado. Não estamos a favor dos cronogramas", disse Najin Al-Rawas, delegado de Omã, país exportador de petróleo. No entanto, as negociações em Johannesburgo continuarão até o último minuto, com o objetivo de conseguir aprontar uma declaração e um plano de ação para a chegada dos chefes de Estado, a partir desta segunda-feira. Até agora, só existe consenso quanto à questão da água.


* O autor é correspondente da IPS. Colaboraram neste artigo María Laura Mazza e Néfer Muñoz.

 

 

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