Rio+10:
A dimensão de uma ecocidade
Por
Farah Khan
Johannesburgo,
4/9/2002 - Um comunidade sul-africana de cerca de 200 mil habitantes
começa a impor-se a meta de abandonar a pobreza sem prejudicar
o ambiente. E se localiza bem próxima de Johannesburgo, sede
da Conferência Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável.
Ivory
Park (Parque de Marfim), na aparência, não é
muito diferente de qualquer cidade da África subsaariana. A
pobreza é uma constante em todos os lugares. Uma linha de
fumaça se estende pelo horizonte, que tem origem nos 120 mil
ubhawulas, cilindros metálicos utilizados para cozinhar e que
são a fonte de energia que predomina na África do Sul.
Em conseqüência, as enfermidades respiratórias
afetam 60% dos habitantes, segundo estatísticas oficiais. As
crianças correm por ruas cobertas de água
empoçada. Quarenta por cento dos habitantes têm moradias
precárias e o restante pequenas casas de adobe. O desemprego
ascende a 40% da força de trabalho, a água, em geral,
é contaminada, e a fome, embora não aguda, existe.
Mas,
ao contrário da opinião comum, os problemas ambientais
são uma preocupação nessa cidade tão
próxima (25 quilômetros) da moderna e rica
Johannesburgo. Cada um dos desafios enfrentados pelos participantes
da Cúpula tem correspondência em Ivory Park: a
erradicação da pobreza, o acesso à água
potável e à energia, a estabilidade do acesso aos
alimentos, o manejo integrado dos resíduos, a
degradação do solo e a saúde ambiental.
Surgida
há quatro anos, no âmbito das lutas comunitárias
contra um depósito de lixo, a iniciativa Ecocity juntou a
comunidade, os ativistas e vários níveis
governamentais. "Nos demos conta de que devíamos nos
concentrar não só no desenvolvimento econômico
local, mas também na proteção do ambiente",
conta a gerente da Ecocity, Annie Sugrue. O projeto foi desenvolvido
inicialmente com US$ 11 milhões doados pela Dinamarca. Desde
então, surgiu uma ampla gama de doadores, entre os quais o
Fundo Mundial para a Natureza, o Programa das Nações
Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e organizações do
Canadá, Suécia e Suíça.
A
Ecocity reúne vários projetos inovadores que têm
em comum o objetivo de longo prazo de criar uma comunidade auto-suficiente
e que respeite o ambiente. No curto prazo, todos os projetos
são regidos pelo princípio de aliviar a pobreza
através da criação de empregos. A
segurança alimentar é o desafio supremo. Uma das
primeiras iniciativas foi a fundação de seis
cooperativas de produção de verduras orgânicas.
Depois, veio o planejamento de projetos de infra-estrutura, como a
instalação de um sistema de extração e
distribuição de água que não prejudica o
ambiente. Um dos êxitos a serem contabilizados é o
projeto Shova Lula (Pedale Fácil), que incentiva o uso de
bicicletas por meio da instalação de oficinas de
produção e reparos. A cooperativa de reciclagem de
resíduos, por sua vez, contribuiu para criar 18 empregos de
tempo integral.
Todos
esses projetos adotam a filosofia da Ecocity, segundo a qual o
desenvolvimento sustentável só será
possível com a melhoria da qualidade de vida da
população. Em termos materiais, os avanços
não foram grandes, mas a mudança de mentalidade é
uma realidade em Ivory City. (IPS)
Artigo
produzido para o Terramérica, projeto de
comunicação dos Programas das Nações
Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud),
realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela
Agência Envolverde.
Johannesburgo
é na Agência Envolverde.
Todos
os textos poderão ser reproduzidos gratuitamente. Solicitamos
apenas a gentileza de citação da fonte: Terramérica/IPS/Envolverde.
