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Cúpula da Terra: o Norte ordena marcha-à-ré

Por Vandana Shiva (*)

Nova Délhi, agosto/2002 - A Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, que acontece este mês em Johannesburgo, será uma disputa entre os que querem possuir e subjugar o planeta e aqueles que querem viver de acordo com as leis do planeta, e proteger sua riqueza para que seja compartilhada por todos agora e salva para as futuras gerações. Este é o verdadeiro choque de civilizações que precisa ser enfrentado. E assim será.

Johannesburgo foi concebida como uma cúpula Rio+10, ou seja, o ponto alto do trabalho iniciado na Cúpula da Terra, em 1992. Mas foi a Conferência de Estocolmo, de 1972, o primeiro sinal de reconhecimento, por parte dos governos, dos problemas ambientais causados por modelos de industrialização e de crescimento econômico não sustentáveis. Nos anos 90, foi claro que enquanto as fontes de problemas ambientais podem estar dentro dos limites nacionais, o impacto vai muito mais além das fronteiras.

A cúpula do Rio de Janeiro, por conseguinte, forneceu um conjunto de leis e políticas ambientais que estabeleceram obrigações internacionais combinadas com deveres nacionais. A Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) e o Tratado sobre Alteração Climática (TCC) foram dois instrumentos legais que constituíram o legado do Rio de Janeiro. Entretanto, a Agenda Rio foi arruinada pela agenda da Organização Mundial do Comércio (OMC). O Protocolo sobre Biodiversidade, incluído na CDB, e o Protocolo de Kyoto, que é parte do TCC, foram ambos subvertidos pelo maior poluidor genético e de CO2 do mundo.

Enquanto os Estados Unidos forçaram, por meio da OMC, a Índia a suprimir restrições às importações, a própria OMC é ineficaz para evitar que os Estados Unidos aumentem seus subsídios à produção agrícola nacional em US$ 20 bilhões anuais. A obrigatória Revisão do Trip (o acordo sobre propriedade intelectual) está sendo bloqueada pelos Estados Unidos, apesar dos apelos de países do Terceiro Mundo no sentido de impedir que sejam patenteadas formas de vida e para que a biopirataria seja punida. Além disso, tenta-se usar a Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável para promover a agenda da OMC que não pode ser levada adiante pela própria organização e que representa um gigantesco passo atrás em termos de direitos dos cidadãos, da responsabilidade dos governos e das empresas.

Desenvolvimento é uma bela palavra que sugere uma evolução de dentro para fora. Até meados do século XX, era sinônimo de revolução organizada internamente. Mas a transformação do desenvolvimento em uma ideologia trouxe a globalização das prioridades, pautas e prejuízos do Ocidente. Em lugar de vir de dentro, essa globalização é guiada externamente. Em lugar de contribuir para a manutenção da biodiversidade, esse tipo de desenvolvimento cria homogeneidade e uniformidade. O modelo de desenvolvimento baseado na universalização do desenvolvimento do mercado é ecologicamente impossível e insustentável.

Fundamentalmente, significa o direito à destruição, já que o mercado do Norte se caracteriza por um consumo per capita e uma utilização dos recursos naturais de cinco a 20 vezes maior do que nos países em desenvolvimento. Em contraste, um direito ao desenvolvimento centrado nas pessoas e na natureza se baseia tanto na ecologia quanto na igualdade. Tal "desenvolvimento sustentável" pode e deve ser aplicado tanto no Norte como no Sul do mundo. Enquanto um desenvolvimento centrado no mercado precisa de um "apartheid" entre Norte e Sul e entre ricos e pobres, com um desenvolvimento voltado às pessoas é possível uma convergência entre meio ambiente e desenvolvimento por um lado, e entre o Norte e o Sul por outro.

Esta é a inacabada agenda do Rio, que ainda precisa ser acolhida pela comunidade mundial para a sobrevivência do planeta e de todos seus habitantes. Infelizmente, está a caminho uma desesperada tentativa de apagar da memória os compromissos assumidos no encontro do Rio. A primeira distorção que está sendo introduzida é que "meio ambiente" e "desenvolvimento" são dois assunto opostos. Esta costumava ser a tese dominante antes da reunião de Estocolmo, mas essa suposta polaridade foi superada e se reconheceu que os sistemas que são bons para o meio ambiente são bons para o desenvolvimento das pessoas e que os sistemas que destróem e contaminam o meio ambiente também destróem os recursos naturais e a saúde humana. A destruição e redução de recursos são as maiores causas da pobreza, enquanto garantir os direitos à terra, à água e à biodiversidade é o melhor mecanismo para acabar com a pobreza no Terceiro Mundo. Entretanto, os recursos naturais e o meio ambiente estão sendo deliberadamente deixados fora da equação da pobreza na agenda de Johannesburgo.

Em lugar das correções surgidas no Rio para as regras da OMC, esta organização está sendo usada para anular o que foi aprovado no Rio de Janeiro. A perversa equação que está sendo criada é: eliminação da pobreza = globalização da economia = regras da OMC = controles empresariais sobre os recursos. A agenda oculta de Johannesburgo contém a privatização dos recursos naturais e a apropriação dos bens comuns com a desculpa de "acabar com a pobreza".

Porém, roubar recursos dos pobres, ou seja, roubar sua terra através do domínio da agricultura por parte das corporações, sua água por meio das privatizações, suas sementes e biodiversidade através das patentes e dos direitos de propriedade intelectual, os converte em desamparados, deslocados e despossuídos. É uma "eliminação dos pobres" do lugar na sociedade e na economia a que têm legítimo direito.

Os que têm o poder mostram seu brilhantismo para prejudicar o planeta e para matar pessoas inocentes por meio da guerra e da fome. Seremos nós, como espécie, capazes de gerar suficiente compaixão e sabedoria para proteger nosso planeta e seus habitantes? (IPS)

(*) Vandana Shiva é escritora e promotora de campanhas internacionais a favor da mulher e do meio ambiente. Em 1993 recebeu o Right Livelihood Award, prêmio alternativo ao Nobel.

 

 

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