Artigos

Escuridão No Fim Do Túnel

Rubens Harry Born*

A quarta e última sessão do Comitê Preparatório (PrepCom) da Cúpula Mundial de Desenvolvimento Sustentável (Rio +10 ou Cúpula de Joanesburgo) - ocorrida em Bali entre 24 de junho e 7 de julho - terminou sem consenso entre as delegações governamentais. Não ficou claro o conteúdo dos dois documentos que a próxima Conferência da ONU deverá produzir (um plano de como implementar os acordos consignados na Rio-92, em especial a Agenda 21, e uma declaração de cunho político, sinalizando diretrizes e compromissos renovados em torno de idéias, valores e ações para a sustentabilidade do desenvolvimento em todas as dimensões (ambiental, social, cultural, econômica etc).

O impasse revelado nas negociações é resultado da falta de vontade política para o cumprimento dos acordos da Rio-92 e dos obstáculos criados por atores hegemônicos nos sistemas político e econômico vigentes. Esses atores gozam de privilégios e benefícios de um mundo injusto e assimétrico, no qual o comércio global, os ajustes fiscais e estruturais e a mobilidade de capitais financeiros são motores da degradação ambiental e espoliação social.

A forma como são operadas as negociações multilaterais na ONU fazem retardar as decisões e ações necessárias para a promoção da saúde ambiental planetária e para a erradicação da pobreza e da violência. Nessas negociações diplomáticas, prevalecem os interesses nacionais (sobretudo de grupos econômicos e elites políticas que detêm a hegemonia doméstica ou transnacional de nossas sociedades) ou corporativos (por exemplo, de países exportadores de petróleo). Juntando os interesses nacionais e corporativos com os de blocos tradicionais (Juscanz - Japão, Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia; G77+China - grupo dos 133 países em desenvolvimento; UE - União Européia; Aosis - bloco de países insulares), as negociações ficam monótonas, contra producentes e, por vezes, extremamente hipócritas.

Nos discursos repetem-se as palavras que indicariam uma pretensa vontade política de se lograr o prometido há dez anos na Cúpula das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio-92) e nas Conferências da ONU realizadas depois. Na dinâmica da negociação, entretanto, percebem-se os procedimentos usuais de se bloquear avanços. São propostas vírgulas e sinônimos que tornam mais ambígüa as intenções declaradas e que permitem evidenciar a tentativa de se transferir a terceiros a responsabilidade pela implementação de deveres - via mecanismos de mercado, parcerias ou instrumentos de compensação e de condicionalidades. São evidentes os princípios que regem as delegações governamentais: "nada disso no meu país, de preferência que os outros façam primeiro", e "caso algo deva ser feito, então não no meu mandato, que o próximo governo o faça".

Um sentimento de frustração paira no ar do caminho que nos leva à Rio+10. Se, nos dois meses que ainda faltam para a Cúpula de Joanesburgo não ocorrerem fatos políticos contundentes, provavelmente não veremos um plano de implementação, no qual estariam definidas metas quantificáveis e ações objetivas. Muito menos a definição de políticas e ações de responsabilidade dos Estados Nacionais. Os governos propõem o incremento de parcerias entre diversos segmentos da sociedade como processo consistente - com o esvaziamento do papel dos Estados na onda liberal soprada pela globalização comercial e financeira - para a transformação das sociedades e suas economias em direção aos pressupostos da sustentabilidade.

Analogamente ao que ocorreu em junho, na Conferência que avaliou os poucos e quase nulos resultados dos cinco anos da Cúpula Mundial sobre Segurança Alimentar, suspeita-se que muitos chefes de governo e de Estado não compareçam à Rio+10. A presença de tais autoridades serve para simbolizar o mais alto compromisso global em torno das ações acordadas. Entretanto, a ausência deles significa a falta de prioridade e compromisso, tanto no plano internacional como no doméstico, para regimes globais, que via mecanismos de cooperação poderiam equacionar desafios relacionados à crescente interdependência de nossas sociedades. Seja em razão de fenômenos como o aquecimento do planeta e mudanças climáticas, seja em casos de migração, segurança alimentar ou erradicação da pobreza.

Seminário Rio+10

Participantes do evento - organizado pelo governo brasileiro no Rio de Janeiro de 23 a 25 de junho, reunindo o presidente Fernando Henrique Cardoso, o presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, e o primeiro-ministro da Suécia, entre outras autoridades, além de representantes de órgãos governamentais, inter-governamentais, ONGs, centrais sindicais, jovens, indígenas etc - expressaram a expectativa de que algo seja feito. Especialmente sob a liderança do Brasil - país-sede da Rio-92 - e da África do Sul - país- sede da Cúpula de Joanesburgo.

Nesse encontro, um conjunto amplo de organizações da sociedade civil - incluindo o Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais pelo Meio Ambiente e Desenvolvimento, diversas redes e coletivos brasileiros (como a Central Única dos Trabalhadores (CUT), o Grupo de Trabalho Amazônico (GTA) e a Secretaria de Entidades Ambientalistas do Nordeste (Sean), além de redes internacionais como Greenpeace, WWF, Amigos da Terra e Consumers International) entregaram carta aos chefes de governo presentes, apresentando propostas bem específicas para ações relacionadas à energia, águas e saneamento, biodiversidade e comércio.

Essas organizações demandam que metas claras sejam estabelecidas, indicando-se ações e meios pelos quais os governos poderão incumbir-se da necessária transformação do modelo e qualidade do desenvolvimento humano. Os presidentes do Brasil e da África do Sul anunciaram que esse último será portador de mensagem especial dirigida aos chefes de governo do G-8, os oito países economicamente mais fortes do mundo (EUA, Japão, Alemanha, Inglaterra, Canadá, Itália, França e Rússia), que se reúnem em junho. O objetivo é mobilizar tais nações - especialmente EUA e Canadá - para o cumprimento dos acordos multilaterais ambientais, ferramentas do desenvolvimento sustentável.

Nesse sentido, a presença em Joanesburgo do presidente do Brasil será muito importante como forma emblemática de indicar o compromisso permanente do país com o legado da Rio-92, posto que se diz líder e que tem enorme responsabilidade mundial e doméstica com seus atributos naturais, culturais e sociais. A cerimônia de passagem da tocha - solenidade realizada em 25 de junho no Rio de Janeiro - pode ser interpretada como a transferência da responsabilidade - diferenciada - do Brasil para a África do Sul.

Na verdade, o Brasil, sem abdicar de sua responsabilidade histórica, deveria, em conjunto com a Suécia - país que abrigou a primeira conferência da ONU sobre o Ambiente Humano (1972) - dar as boas-vindas à África do Sul para um seleto grupo de nações que podem e devem zelar pela sustentabilidade, cidadania e paz planetária. A ausência de FHC e líderes de países industrializados na Cúpula de Joanesburgo será interpretada como sinal de falta de consenso e de vontade política no fortalecimento dos acordos e sistemas multilaterais para a sustentabilidade. Será a vitória do unilateralismo dos EUA, dos atores que, por trás da Organização Mundial do Comércio, do Fundo Monetário Internacional, dos ministérios de Fazenda e Planejamento, continuam a tomar as decisões que aprofundam as mazelas sociais e a degradação do planeta.

Ainda há tempo suficiente para reverter o pessimismo conseqüente dos impasses observados nos PrepComs. Esperamos que chefes de Estado e governo - especialmente os que estiveram presentes no seminário do Rio de Janeiro - imbuídos de um dos princípios consagrados na Rio-92, o de responsabilidades comuns mas diferenciadas, possam empreender ações e diretrizes políticas para atrair a adesão de outros atores. Assim, a Rio+10 poderá fazer avançar a implementação de alguns pontos estratégicos para a sustentabilidade.

A sociedade civil também tem muita responsabilidade com relação aos rumos das negociações. Devemos pressionar nossos governos, atuais e futuros, com relação à implementação da sustentabilidade. Devemos, como organizações da sociedade civil, manifestar nossas opiniões nas salas de conferência e nas ruas, para que tenhamos futuro. Como um alerta e chamado à ação, estamos propondo que no dia 26 de agosto, data de abertura da Cúpula Mundial de Desenvolvimento Sustentável, as organizações e movimentos da sociedade civil realizem, em todas as vilas, povoados e cidades do planeta, demonstrações públicas, fazendo soar sinos, apitos e panelas, clamando por cidadania, paz, sustentabilidade e, sobretudo, ação solidária.

O Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais estará finalizando sua Plataforma para a Rio+10 em encontro nacional a ocorrer no final de julho, provavelmente no Rio de Janeiro. Entre as propostas do Fórum está a realização de uma reflexão profunda em reunião especial paralela à Rio+10, em Joanesburgo, fortalecendo articulações globais de atores que acreditam que um mundo sustentável é possível.

* Coordenador-executivo do Vitae Civilis – Instituto para o Desenvolvimento, Meio Ambiente e Paz

Fonte: http://www.ibase.br

 

 

:: Biodiversidade

:: Artigos

:: Entrevista

:: Eventos

:: Informativos

:: Notícias

:: Links

:: Contato


©2001 ANBio - Associação Nacional de Biossegurança.
All rights reserved.