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"(..) Sim há complementaridade na medida em que as Commodities Ambientais permitem fechar de forma durável o tripê da sustentabilidade. E, através da disseminação do conceito de Commodities Ambientais e da instalação dos fóruns BECE está se implantando, de forma simples e ágil, os meios de discurtir a AG21.(...) "

Agenda 21 versus Commodities Ambientais

Por Lucas Matheron*

Decididamente, o século XXI aparece como o século das mudanças de paradigmas.

Já se tem claro que ciência e tecnologia não são a panacéia para alavancarmos a felicidade da humanidade; que a homogeneização da cultura não é o caminho da harmonia entre os povos; que a unicidade do modelo desenvolvimentista é uma ilusão e que o ser humano não pode se excluir do seu ambiente natural e não pode manter sua ação predatória sobre os recursos finitos do planeta... e chegamos a triste constatação de que a mãe Terra estava doente pela ação dos próprios filhos, que somos nós...

Conseqüentemente prejudicando a nós mesmos, conseguimos gerar exclusão social, degradação ambiental, insegurança alimentar, desigualdade entre os povos, que, por sua vez, provocam violência social, catástrofes naturais e mudanças climáticas, guerras, fome, miséria...

Esta é a terrível constatação que evidenciaram, de Stockholm a Johannesburg, 30 anos de pesquisas e de reflexões, marcadas pontualmente pelos relatórios Bruntland, Cuéllar e os trabalhos do IPCCC, entre outros trabalhos não menos valiosos da próprio ONU, da FAO, da UNESCO, da OMS, WWF, Greenpeace, UICN, etc...

Foi assim que surgiram, na ocasião da Rio-92, documentos que contam dentre os maisimportantes do século XX, consagrando a necessidade de alcançarmos um mundo sustentável, dentre eles: a Agenda 21.

O que trouxe para o planeta a Agenda 21?

Naquele momento, para mim que estava presente no Fórum Global das ONG no Rio de Janeiro em Junho de 92, diria esperança. Esperança de que os homens, e quando digo os homens digo os governantes, os tomadores de decisões, teriam sido conscientizados dos males que estavam afetando o planeta e a humanidade.

Infelizmente, dez anos depois, havemos de constatar que muito pouco se fez no sentido de implantar as recomendações da Agenda, apesar das calorosas declarações e discursos vulgarizando, e até desgastando, o conceito de desenvolvimento sustentável.

Porquê?

Creio que dentre os muitos porquês que poderíamos citar, apenas um sintetiza a situação : a Agenda 21 é um instrumento altamente burocrático, que coloca entre as mãos dos governos a execução de programas para os quais eles não têm domínio, e quiçá competência. Salienta o Relatório Cuéllar¹ : "O desenvolvimento sustentável não é uma empreitada tecnocrática que pode ser dirigida por governos centrais, pois exige a participação de toda a sociedade."

De fato, apesar de propor diretrizes corretas para alavancar o desenvolvimento sustentável, a AG21 carrega em si uma dimensão que engessa todo o processo, incumbindo à classe política, com todo o respeito, a sua implementação; tarefa para a qual esta não tinha sido preparada e nem tinha meios claramente definidos para isso.

Por outro lado, a AG21 atacando de frente, e com razão, os problemas reais e prementes afetando o planeta e a humanidade, sempre foi (e até hoje) considerada por muitos como uma Agenda socio-ambiental, a tal ponto que foi deixado a cargo dos Ministérios do Meio Ambiente a sua implementação.

O que resultou disso?

Simplesmente que ao colocar o acento apenas sobre as dimensões sociais e ambientais, e impondo uma metodologia altamente burocratizada e intervencionista, a AG21 se cortou de uma parte fundamental do próprio conceito de sustentabilidade : o setor econômico e produtivo.

Ora, se considerarmos que o tripê da sustentabilidade se compõe dos setores social, ambiental e econômico, os três devem estar presentes e solidários para alavancar o desenvolvimento sustentável! Porém o que constatamos é conflito, e ao deixar o Mercado fora do processo, ou pelo menos não estreitamente ligado a, acabou-se de vez com a sustentabilidade.

Fazemos aqui a diferença entre o comprometido mercado financeiro e o Mercado em si que se caracteriza pela livre circulação das mercadorias, a concorrência leal, a padronização dos produtos negociados e a transparência da informação, respeitando os papéis de ambos, sendo o do mercado financeiro de financiar o Mercado, e não se alimentar dele.

E quanto às Commodities Ambientais?

O conceito de Commodities Ambientais vem quebrar mais um paradigma, aliando o desenvolvimento econômico, imprescindível para o bem estar e a autonomia do cidadão (e de todos os cidadãos) com a gestão correta dos recursos naturais e o resgate da dignidade humana, abrindo espaço para os excluídos do sistema, e proporcionando recursos financeiros para os setores social e ambiental, configurando um sistema realmente sustentável.

AG21 X Commodities Ambientais : oposição ou complementaridade?

Por um lado, podemos dizer que há oposição ou até conflito entre Commodities Ambientais e AG21, esta propondo um aparato burocrático que tende a engessar o processo e favorecer um Estado intervencionista, e aquela a autonomia do Mercado, conjunto de ações e reações da sociedade.

Gostaria de deixar claro que não estou defendendo alguma visão ultra liberal que prega uma total liberdade de ação do Mercado, apoiando-se na teoria da auto-regulação, e que deixo ao Estado seu papel de legislador e árbitro, mas o governo, num Estado democrático de direito é a própria sociedade através dos seus dignos representantes, os políticos... Citando mais uma vez o Relatório Cuéllar : "A longo prazo, o sucesso do desenvolvimento sustentável depende da democracia".

Por outra parte sabemos que, conceitualmente, a AG21 apresenta um conjunto de propostas que assentam o chamado desenvolvimento sustentável que é, por sua vez, "uma condição desejada e idealizada de equilíbrio biosociais"². Se analisarmos com mais atenção, o conceito de Commodities ambientais aparece como um meio para implementar a AG21. Isto é, a produção e a comercialização de mercadorias (commodities) ambientais através da Bolsa Brasileira de Mercadorias Ambientais - BECE significa produzir riquezas suficientes para atingir o equilíbrio biosocial, financiando ações e programas de cunho socio-ambiental.

Complementaridade então?

Sim há complementaridade na medida em que as Commodities Ambientais permitem fechar de forma durável o tripê da sustentabilidade. E, através da disseminação do conceito de Commodities Ambientais e da instalação dos fóruns BECE está se implantando, de forma simples e ágil, os meios de discurtir a AG21.

Em todo caso, o fato de não ter havido, até hoje, uma implementação expressiva da AG21 demonstra, ao meu ver, a fragilidade (ou as lacunas) da mesma, o que aponta o próprio Pérez de Cuéllar no seu Relatório. A escassez de recursos para as agendas sociais e ambientais é também prova disso, como bem sabem as ONG´s que se disputam os recursos demasiadamente raros.

O conceito de Commodities Ambientais, e a proposta BECE que nasceu de forma participativa dos encontros promovidos pelo projeto CTA³ em torno da formação de um novo mercado financeiro sob a impulsão de economistas competentes é certamente a proposta mais ambiciosa que exista nesse sentido. Creio que a sociedade brasileira como um todo deve participar desse amplo debate democrático aproveitando a oportunidade que lhe é oferecida através do projeto CTA e a Rede Internacional de Comunicação CTA-JMA para construir propostas viáveis e projetos concretos rumo a um mundo sustentável.

"Um Outro Mundo é Possível" e não podemos perder mais tempo para tratarmos de nossa mãe Terra e dos seus filhos deserdados.

Notas :

¹ Relatório Cuéllar - UNESCO 1995

² Renate Brigitte Viertler, antropóloga, professora da USP, in "Cultura e Desenvolvimento", Ed. Universitária UFPE, 1999

³ Projeto CTA do Sindicato dos Economistas do Estado de São Paulo

Lucas Matheron* é educador ambientalista e social, coordenador de comunicação da Flora Brasil France e âncora da Rede de Comunicação CTA-JMA na França. E-mail : l_matheron@yahoo.fr

 

 

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