A
questão da saúde nos alimentos geneticamente modificados
Revista
ConsCieência - Revista Eletronica de Jornalismo
Científico - no.32
Maio/02
A
propósito da segurança para a saúde dos
alimentos geneticamente modificados
Franco
Lajolo
Durante
milhares de anos o homem foi intuitivamente selecionando, para uso
alimentar, plantas que apresentassem maior rendimento, maior
resistência a pragas e melhor qualidade . Com o tempo, a
ciência veio auxiliá-lo nesta tarefa.
Manifestação mais contemporânea desta
aliança é o desenvolvimento, nas últimas
décadas , de variedades de trigo, arroz, milho e soja com alto
rendimento agrícola, capazes de alimentar uma
população mundial crescente e urbanizada.
Podemos
assim, dizer, que do velho Mendel aos contemporâneos Watson e
Creek o melhoramento de plantas segue de perto o desenvolvimento
científico Há já muito tempo novas variedades
vêm sendo produzidas a partir de técnicas tradicionais
de cruzamento e melhoramento envolvendo transferência de genes
através da reprodução normal, ou através
de metodologias que alteram cromossomos, como a mutagênese
química e a irradiação. Nos últimos 10 ou
15 anos , no entanto, introduziu-se uma nova tecnologia : a
modificação genética para a
produção de alimentos, chamada de "tecnologia do
DNA recombinante".
E
o que vem a ser isso ?
A
tecnologia de DNA consiste num avanço nos processos naturais
de melhoramento de plantas.
Nos
cruzamentos convencionais misturam-se ou transferem-se para uma
planta, ao acaso e ao mesmo tempo, grupo de genes, sendo o resultado
a produção de uma variedade com múltiplas
características, nem todas desejáveis. Como esse
processo convencional é impreciso, separar as
características desejáveis das indesejáveis
é bastante demorado.
Com
a tecnologia do DNA recombinante pode-se, de forma rápida,
alterar a operação de um gene pré-existente ou
incorporar numa nova planta um único gene exógeno,
correspondente a uma determinada característica que se deseja
desenvolver . A transferência de genes pode ocorrer entre
espécies, famílias e mesmo reinos diferentes, de forma
que, por exemplo, uma qualidade presente numa leguminosa pode ser
transferida para um cereal, transferência impraticável
sem essa tecnologia.
A
tecnologia do DNA recombinante é, assim, uma tecnologia
moderna com importante potencial para aumentar a produtividade
agrícola, reduzir o impacto ambiental da agricultura
minimizando o uso de herbicidas e pesticidas e melhorar a qualidade
nutricional e tecnológica dos alimentos.
E
os alimentos que ela produz não são, necessariamente,
menos seguros para a saúde. Como toda tecnologia, porém,
ela deve ser avaliada e acompanhada e isso tem ocupado
instituições de pesquisa, organismos governamentais
nacionais e internacionais e organizações de defesa do comsumidor.
A
história mostra que mudanças na forma de
produção e conservação dos alimentos
sempre causaram preocupação e, quando recentes, geraram
medo. Foi o caso do enlatamento , da pasteurização, da
comercialização da margarina, do milho híbrido,
do uso da irradiação e de microondas. É, pois,
respeitando
este cenário ancestral de desconfiança face ao novo,
que se inserem as questões relativas à segurança
dos alimentos geneticamente modificados, uma tecnologia distante e
desconhecida da maioria dos consumidores.
O
assunto tem gerado polêmica, e para que a polêmica tenha
resultados positivos é preciso que dela participem
vários segmentos sociais e não apenas tecnólogos
e cientistas . Se é óbvio que a questão
não se limita à ciência, é também
óbvio que sem a ciência ela não será
resolvida e sequer bem encaminhada.
Mas
onde se origina a polêmica relativa à segurança
desses alimentos?
Da
aparente incontrolabilidade de certos resultados.
A
tecnologia do DNA recombinante permite a transferência
específica de novos genes (fragmentos de DNA) para uma planta,
alterando, portanto, a sua
composição.
Esta alteração acarreta efeitos intencionais,
correspondendo à característica do gene introduzido
(por exemplo, resistência a herbicidas) mas também pode
gerar efeitos não intencionais (por exemplo,
alteração do teor de um composto químico). Os
riscos potenciais estão, portanto, associados ao novo DNA
introduzido, ou ao produto de expressão desse DNA
(proteína) ou a efeitos não intencionais, decorrentes
da introdução no genoma e da expressão desse
novo gene.
Mas
a simples ingestão de DNA adicional não é
necessariamente perigosa:
DNA/RNA
vêm sendo ingeridos normalmente através de dietas,
desde quando esta se limitava aos frutos coletados ou aos animais
abatidos pelo homem das cavernas . Os produtos de expressão,
porém, que são proteínas(enzimas), podem,
potencialmente, ter ação anti-nutricional, podem
produzir alergias ou causar algumas mudanças no valor
nutricional do alimento.
Podem,
ainda , ocorrer efeitos não intencionais. Mudanças
morfológicas são facilmente detectáveis, mas uma
alteração no genoma não é visível
e pode
levar
a mudanças na expressão enzimática , alterando
os fluxos de vias metabólicas por mecanismos ainda não
totalmente conhecidos. Além disso, a inserção de
um DNA nos cromossomos pode alterar a expressão de outros
genes, reativando, por exemplo, genes silenciados por processos
evolutivos ou tecnológicos que, ativados, poderiam passar a
produzir substâncias indesejáveis.
É
importante, no entanto, mencionar que todas essas mudanças
não intencionais são possibilidades teóricas e
podem acontecer também nos processos convencionais de
melhoramento . Nestes, inclusive , as mudanças podem atingir
maiores proporções , devido à sua
inespecificidade o que faz com que em ambos os processos -
melhoramento convencional ou tecnologia do DNA recombinante - os
produtos resultantes precisem ser objeto de avaliações
de segurança, como acontece, aliás, com qualquer alimento.
Isso
tudo pode ser avaliado?
Muitos
genes já foram transferidos de um organismo a outro com o
objetivo de desenvolver características desejáveis ,
como melhoria do valor nutricional, da conservação ou
da resistência a pragas. A segurança desses alimentos,
obtidos por modernas técnicas da biotecnologia como é a
engenharia genética, é avaliada através da
análise de risco que se baseia em princípios
básicos que medem sua segurança em relação
à segurança dos alimentos que lhe deram origem.
Em
geral, a avaliação necessária para a
aprovação da comercialização desses
produtos inclui a análise dos vetores de
transformação, estrutura molecular do novo gene
inserido, efeitos intencionais e não intencionais associados
à sua expressão, composição química
em macro e micro nutrientes bem como em compostos tóxicos e
produtos secundários do metabolismo. A isso seguem-se ensaios
biológicos (nutricionais e toxicológicos), com
particular ênfase no potencial alergênico, avaliado a
partir de análises químicas, com o uso da
bioinformática e de ensaios bioquímicos e
biológicos Técnicas novas de genômica funcional
para análise de proteínas e de metabolômica para
compostos secundários vêm aumentando a segurança
dos métodos de análise.
Completa-se
a avaliação de laboratório da
identificação do eventual risco, com medidas de
gerenciamento e comunicação dos resultados por parte
dos órgãos e setores responsáveis pelo
estabelecimento de políticas relativas aos alimentos
geneticamente modificados.
No
Brasil, esses novos alimentos estarão submetidos ao
Ministérios da Saúde, da Agricultura e da Ciência
e Tecnologia, sujeitos a legislação específica
relativa a normas de segurança e rotulagem, e avaliados
através de várias comissões
técnico-científicas, responsáveis pela
aprovação de sua comercialização. Por
isso, quanto mais qualificada for a discussão em torno dos
alimentos contendo organismos geneticamente modificados, maior
será a informação de que disporão seus
eventuais consumidores e mais exigentes e mais adequadas serão
as políticas reguladoras de sua produção,
divulgação e distribuição.
Franco
Lajolo é professor na Faculdade de Ciências
Farmacêuticas da USP
Atualizado
em 10/05/2002
http://www.comciencia.br
contato@comciencia.br
©
2002
SBPC/Labjor
Brasil
http://www.comciencia.br/reportagem/transgenicos/frames/trans14.htm
