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Controle do Efeito Estufa ou CO2lonização?
O paradoxo de Quioto
Jornal do Meio Ambiente

Por Eloy Fassi Casagrande Junior*

De que a Terra esteja aquecendo já não restam dúvidas. De como reverter este processo e tornar intenções em medidas tangíveis, é o que cerca de 2.500 delegados representando 167 países discutiram durante duas semanas até o dia 11 de novembro, em Marrakesh, na 7° conferência das partes (COP-7) da ONU. O resultado é que a ratificação do Protocolo de Quioto (1997) que visa a redução 5.2% entre 2008 e 2012, dos gases que comprometem o clima do Planeta, novamente foi adiada para a próxima reunião.

Para além da retirada do governo dos EUA do Protocolo --- rendendo-se ao lobby das indústrias mais poluidoras daquele país ---, o Protocolo também apresenta problemas de objetividade ao lançar propostas como o MDL – Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, que é contraditório do ponto de vista ético científico e duramente criticado por grande parte do movimento ambientalista mundial. Visando que cotas de emissões carbono possam ser trocadas por áreas verdes de absorção (sumidouros ou poços de carbono), o MDL é acusado de retardar a implementação de tecnologias limpas e investimentos em energias renováveis por parte das empresas.

Tornando o ar limpo numa commodity que pode ser negociado em bolsas de valores como qualquer outra mercadoria, através dos chamados "créditos de carbono", as empresas continuariam a contribuir para o efeito estufa e a deteriorar a qualidade do ar local e global e de vida em seus locais de emissões.

Estas novas oportunidades do mercado globalizado também envolvem algumas organizações não governamentais (ONGs) brasileiras e estrangeiras que estão servindo como "laranjas" destas indústrias na compra de áreas em florestas tropicais tendo como justificativa a implantação de "projetos ambientais". A contradição entre o discurso e a prática destas ONGs esta na associação com indústrias da área de energia e de petróleo que abertamente apóiam os EUA na sua decisão face a Quioto e não aceitam as evidências científicas do aquecimento global. As compras de áreas, inclusive dentro de Áreas de Proteção Ambiental (APAs) Estaduais, a serem "recuperadas" nestes projetos, são registradas no nome das ONGs, porém a quantidade de carbono que eventualmente forem absorvidas pertencerão as empresas.

Alguns exemplos têm sido divulgados na mídia sem uma abordagem mais profunda da ética destas compras e a eficácia de uma redução significante do efeito estufa ao aplicar estes mecanismos. Somente na Mata Atlântica do Paraná, na APA de Guaraqueçaba, já foram negociados cerca de 20 mil hectares envolvendo uma única ONG paranaense, a Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem – SPVS e uma norte americana, The Nature Conservacy – TNC, com empresas como a American Electric Power, a indústria automobilística General Motors e a petroleira Texaco. No Mato Grosso, a Citroen Peugeot iniciou o projeto chamado de "Poço de Carbono na Floresta Amazônica" com a compra de 12 mil hectares através da Pró-Natura, uma representação tupiniquim de uma ONG norte americana. Já no estado de Tocantins, a companhia de energia inglesa AES Barry, em parceria com a Natural Resources International, investiu na Ilha do Bananal pretendendo seqüestrar 7 milhões de toneladas de carbono em 25 anos.

A privatização de APAs e outras áreas de patrimônio da humanidade --- que inclusive não poderão ser usadas pelo Brasil para contabilizar seus próprios créditos de carbono, caso seja legalizado o MDL --- através deste tipo de "negociata", deve ser amplamente discutida com a sociedade brasileira, não somente por uma questão de soberania nacional, evitando um novo tipo de colonização – a "colonização do carbono" ou CO2lonização, mas também para podermos diferenciar na sociedade civil organizada, quais são os grupos que atuam em benefício próprio e os que atuam em benefício comum.

Dados complementares ao texto:

Para poder ser legalizado, o Protoco de Quioto deve ser ratificado por 55 países responsáveis por 55% das emissões de 1990;

Somente 122 empresas são responsáveis por 80% de toda emissão de CO2 a nível mundial, enquanto que 4 multinacionais do petróleo são responsáveis por 10%;

Os EUA, com 4% da população mundial, é responsável por 25% das emissões de gases que causam o efeito estufa;

O MDL apresenta também a troca de créditos de carbono em troca de investimentos em energia renovável (solar, eólica, biomassa, de marés e outras) até agora pouco utilizadas pelas empresas;

A absorção de carbono através de reflorestamento representa um alto risco uma vez que estas áreas estão sujeitas a incêndio, podendo assim potencializar o problema de emissões;

Há incertezas e limites na utilização dos "sumidouros de carbono", uma vez que algumas argumentações científicas apontam para o problema da decomposição da madeira, onde o carbono novamente seria liberado à atmosfera ou ainda salientam sobre a difícil contabilização do carbono absorvido;

Contabilizar créditos de carbono a partir de projetos de reflorestamento, também poderá incentivar ainda mais monoculturas de espécies exóticas como eucaliptus e pinus, acusadas de grandes impactos ambientais -- perda de biodiversidade, degradação do solo e alto consumo de águas subterrâneas;

Devido a privatização de florestas e de projetos de monocultura, populações que tradicionalmente ocupam estas áreas e se utilizam de seus recursos naturais (inclusive nas APAs) estão ameaçadas de serem expulsas de seu meio, causando sérios problemas sociais;

No Brasil, segundo o Centro de Pesquisas de Energia Elétrica da Eletrobrás – CEPEL, calcula-se que há uma capacidade de 143 mil Megawatts de produção de energia eólica. Somente os ventos da Região Sudeste têm potencial para gerar 29.700 MW --- mais do que duas hidrelétricas de Itaipu (12.600 MW). Atualmente, o país conta somente com 6 usinas eólicas com capacidade de 18 MW.

Segundo os projetos que foram divulgados pela mídia, empresas internacionais estarão investindo cerca de US$50 milhões em projetos de sumidouros de carbono nos próximos anos, o que daria para financiar 50 megawatts gerados a partir de energia eólica no Brasil;

O documento Clean Energy Blueprint, da Union of Concerned Scientists , mostra como um programa de aumento de uso de energias renováveis nos EUA atingindo os 10% em 2010 (atualmente as empresas investem 2%), livraria o país da dependência do de gás natural em 31% e do carvão em quase de 60%.

Prof. Eloy Fassi Casagrande Junior*, PhD em Meio Ambiente - Programa de Pós-Graduação em Tecnologia - PPGTE – CEFET/PR - Curitiba - Tel: (041) 310-4719 – Email: fassi@ppgte.cefetpr.br

A versão acadêmica do artigo foi apresentado em forma de painel na IV Jornada Científica sobre Meio Ambiente (AUGM - Associação das Univerdidades de Montevídeo), em Campinas, em outubro de 2001. Foi aceito para apresentação oral no Rio 02 World Climate & Energy Event, no Rio, em janeiro de 2002 e para o 1st World Wind Energy Conference, em Berlim, junho de 2002.

Artigo gentilmente enviado para a Rede por Vilmar Berna
Editor do Jornal do Meio Ambiente/Prêmio Global 500 da ONU para o Meio Ambiente
Presidente da ONG INPDA - Instituto Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Ambiental
Tel/fax: (21) 2610-2272 e 2610-7365
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