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Jornal do Brasil
30/12/2001

Melhor opção é o aterro sanitário

Aterro sanitário

Se as usinas de reciclagem estão longe de ser a solução ideal para o lixo urbano, o aterro sanitário apresenta-se como ''a saída plausível para as necessidades brasileiras'', segundo a opinião de especialistas como o subsecretário estadual de Saneamento e Recursos Hídricos, Luiz Edmundo Costa Leite. O engenheiro pós-graduado em Oxford Paulo Braga, ex-superintendente do Ibama no Rio de Janeiro e atual diretor-executivo da Ecosecurities (empresa multinacional especializada em analisar a viabilidade econômica de projetos na área de meio ambiente e energia), concorda com o subsecretário. Mas ele destaca ainda que essa alternativa pode se transformar em fonte de receita, ajudando a resolver parte dos problemas financeiros das prefeituras.

''Aterros sanitários como o de Gramacho, em Duque de Caxias, que recebe cerca de 8,5 toneladas de lixo do município do Rio de Janeiro, diariamente, apresentam a formação de gás metano, um dos componentes do chamado Efeito Estufa. A utilização deste gás para a geração de energia ou para a queima, pura e simplesmente, poderia gerar créditos superiores a US$ 5 milhões por ano para o município'', contabiliza Braga.

Em mais dois anos, segundo estudo da Comlurb, que gerencia o aterro sanitário de Gramacho, não haverá mais espaço para o vazamento de lixo. ''Ainda assim, devido a um problema de mecânica de solo, haverá a formação de bolsões de metano durante cerca de 12 anos. Isso significa que durante um prazo de 12 anos haverá risco de explosões periódicas no local. Esta é mais uma razão para o gerenciamento racional daquele empreendimento'', completa Braga, que realiza estudo sobre aterros sanitários para a cidade de São Paulo.

Rio abadona dez usinas de lixo

Todas as estações de reciclagem foram sucateadas. A de Belford Roxo, de R$ 12 milhões, teve até janelas roubadas.

O lixo que entope bueiros, inunda as ruas e desce pelas encostas dos morros, em todo o Estado do Rio, também contamina as contas públicas e já transformou em dejetos mais de R$ 250 milhões. Estes recursos, parte deles em forma de empréstimo internacional - que pesa na dívida externa brasileira -, foram investidos em usinas construídas para reciclar e tratar o lixo nosso de cada dia. Além de não funcionar, a maioria foi depredada, teve seus equipamentos roubados e, do sonho de se transformar rejeitos em dinheiro, restaram apenas esqueletos de construções abandonadas.

Nas contas do subsecretário estadual de Saneamento e Recursos Hídricos, Luiz Edmundo Costa Leite, ''10 usinas foram construídas desde o governo de Carlos Frederico Werneck de Lacerda até hoje, mas nenhuma delas funciona''. Um exemplo do desperdício está no município de Belfort Roxo, na Baixada Fluminense. ''Lá foram investidos mais de R$ 12 milhões, há oito anos, e hoje todo esse investimento está, aos poucos, transformando-se em mais um lixão'', aponta o promotor público Carlos Frederico Saturnino, do Ministério Público estadual.

Saturnino investiga a aplicação de recursos públicos no tratamento do lixo urbano. Ele integra um grupo coordenado pelo promotor público Cláudio Henrique da Cruz Viana, que passou a acompanhar a questão em âmbito estadual. ''Em quase todos os municípios fluminenses há um problema semelhante na questão do manuseio do lixo'', denuncia Viana.

Desperdício - A usina de tratamento e reciclagem de lixo, em Belfort Roxo, segundo levantamento da Secretaria Estadual de Saneamento e Recursos Hídricos, foi construída com recursos do Estado e do Banco Mundial (Bird), mas não chegou a entrar em operação no governo Marcello Alencar. A usina foi repassada para o município, no início do governo Garotinho. ''Foi descartada a possibilidade de colocá-la em funcionamento, devido a um erro de construção e ao alto custo operacional. São mais de R$ 300 mil por mês para manter aquele empreendimento funcionando'', rebate o secretário de Meio Ambiente de Belfort Roxo, João Santana.

Mas teve quem se aproveitasse da falta de decisão sobre o que fazer com uma usina que consumiu recursos da ordem de R$ 6 milhões. ''Não sobrou uma porta, uma janela sequer.O escritório estava completo, com equipamento e tudo. Tinha até aparelhos eletrodomésticos, que foram furtados. Até a caixa dágua, que pesava toneladas, foi cortada a maçarico e transportada de carreta. Foi serviço de profissionais. Não sobrou nada para contar a história'', denuncia Marcos Boechat, vizinho da usina. Ele alerta ainda para o vazamento de lixo ''dentro do rio e de nascentes de água pura, hoje poluídas com o chorume (resíduo tóxico próprio de aterros sanitários)''.

A questão está longe de uma desfecho, conforme constata o secretário de Meio Ambiente de Belfort Roxo. ''Entramos com um processo na Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (Feema), para conseguir uma licença e construir um aterro sanitário naquele terreno. Fizemos estudos técnicos com base em outras experiências bem-sucedidas no país, como a do aterro sanitário de Belo Horizonte, que é modelo. Mas ainda não conseguimos a permissão. Como temos que vazar o lixo da população, somos forçados a fazê-lo da forma como acontece hoje, dentro do rio, próximo às nascentes, enfim, tudo errado. Não tem jeito'', explica Santana.

A Feema, no entanto, diz que está atenta ao problema de Belfort Roxo ou de qualquer outro município fluminense que se interesse por uma solução racional para a questão do lixo. Segundo Paulo Pizão, vice-presidente da fundação, ''o projeto de Belfort Roxo tem alguns detalhes técnicos fora da especificação, mas esperamos que eles já os tenham acertado e, em janeiro, voltaremos a analisar o assunto''. Búzios, Cabo Frio e Arraial do Cabo - cidade onde há outra destas usinas desativadas - assinaram um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com o governo estadual e iniciarão em fevereiro, a construção de um aterro sanitário que receberá o lixo produzido nos três municípios. ''Aqui trabalhamos na base do morde um pouquinho e depois assopra, pois a questão do lixo é muito complexa'', reconhece Pizão.

Pessoas e urubus disputam restos

Em Belfort Roxo, onde deveria existir a rodovia estadual RJ-040, urubus e gente disputam os detritos espalhados por um trator, sobre as margens de um riacho e de um mangue à beira da estrada. O mau cheiro é uma constante e a miséria é compreendida no pedido de Sebastião Mangueira, o Tião, que sobrevive dos restos produzidos, aos borbotões, pela sociedade de consumo. ''Queria provar um pedaço de panetone. Nesta época do ano vejo um monte dessas caixas, mas nenhuma delas traz um pedacinho que seja. Deve ser muito bom'', sonha o trabalhador, de 63 anos, que há 20 chegou de Governador Valadares, fugindo do polígono das secas, em Minas Gerais, onde trabalhava na roça.

Tião não dispensa, porém, a leitura. Descobriu, em meio à montanha de lixo um livro de poesias da mineira Adélia Prado - ''O Coração Disparado'', que por engano ou estranheza parou nas mãos do conterrâneo. ''Ela escreve bem demais. Se eu soubesse metade do que ela sabe, não estaria aqui, catando sucata nessa sujeira toda'', lamenta.

A realidade das mais de 100 pessoas que diariamente buscam a sobrevivência - em meio a mosquitos, ratos e o risco de doenças causadas pelos detritos lançados no vazadouro de Belfort Roxo - resume-se nas expressões cansadas de Tião e José Carlos Silva, que acompanhou o amigo na viagem de Governador Valadares para o Rio de Janeiro. Eles ganham até R$ 100 por semana recolhendo plástico, garrafas, papelão, cobre e chumbo no lixão. ''As coisas estão muito difíceis e não vejo solução. A gente não tem mais jeito de arranjar emprego. O Tião é velho demais e eu não tenho mais nenhum dente são na boca. Nem para varrer a rua a prefeitura quer contratar a gente'', resigna-se José Carlos, de 45 anos.

  

 

 

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