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Limites e perspectivas

O desenvolvimento sustentável ainda não é expresso por indicador ou números confiáveis, refletidos na qualidade do ambiente urbano e natural.

O uso do termo desenvolvimento sustentável tem como marco o relatório da Sra. Gro Brundtland, que em 1988 o definia como a satisfação das necessidades da atual geração, sem comprometer a satisfação das necessidades das futuras gerações. Simplista e ambígua definição, o termo na verdade compõe um mosaico de interpretações sintetizadas em três componentes por Carlos Klink, na coletânea de artigos elaborada por Marcel Bursztyn, ambos da Universidade de Brasília.

A primeira, econômica, procura a eficiência na substituição do modelo energético na direção do uso de energias renováveis, buscando minimizar os efeitos e rejeitos da atividade econômica. A segunda, ecológica, coloca em destaque a biodiversidade e sua magnitude, maior por característica em alguns ecossistemas, menor em outros, mas não menos importante, juntamente com a capacidade de suporte, a qual sinaliza o grau da dinâmica dos processos ecossistêmicos ou os impactos da ação antrópica. Por fim, mas não por último, a terceira componente, social, buscando a equidade na distribuição do excedente econômico.

A atual realidade brasileira chama a atenção para a enorme concentração do excedente gerado pela atividade econômica nas mãos de poucos, em detrimento das amplas camadas da população. Pressionadas pela pobreza e a necessidade instintiva de sobrevivência, essas atuam de forma predatória sobre o meio ambiente, ocasionando desmatamentos de ecossistemas para moradia, alimentação, ou mesmo produção de energia. Exemplares da fauna silvestre tornam-se fonte de fornecimento de proteína, para a dieta dos excluídos.

J. A. Drummond, em um de seus artigos sobre o assunto, já chamava a atenção para a falha de mercado, que destaca a característica dos bens públicos que são de todos, e ao mesmo tempo de ninguém, sujeitos a ineficaz custódia do Estado e ao descaso do público proprietário.

Para alguns bens não existe mercado, ou ele funciona de forma ainda não perceptível, falha, especialmente quanto aos bens ambientais. Eles em geral têm muitos "proprietários" ou "consumidores", que podem consumi-los sem diminuir o seu valor para outros usuários. Dito de uma outra forma por J.A. Drummond: "Só o mais extremado liberal negaria as falhas de mercado". Por causa dessas falhas, há bens que o mercado não consegue suprir de forma previsível ou racional, como o silêncio noturno num bairro residencial, o ar que respiramos, o patrimônio genético, ou a proteção da camada de ozônio.

Peter May explica as falhas de mercado como o resultado de duas categorias conceituais, resumidamente: as externalidades como danos ou benefícios causados a terceiros; e as condições de não-divisibilidade e não-rivalidade dos bens públicos. A pesca amadora pode ser de domínio público por causa do livre acesso ao mar, mas a sua prática afeta o valor dos produtos do mar por causa da redução dos estoques e dos índices de captura. Se nenhuma taxa ou emolumento é cobrado aos pescadores, qualquer pessoa pode usufruir a pescaria o quanto quiser e, não havendo indicação do que as pessoas desejam fazer como opção à pescaria, fica-se sem saber como valorar a atividade da pesca amadora em relação a outros usos do estoque pesqueiro. As implicações para a alocação eficiente e a administração dos bens de domínio público (ou de livre acesso) são oriundas da dificuldade de sua valoração.

Estimular o alcance de melhores índices ou indicadores de qualidade ambiental é a meta, que se apresenta nesse início de milênio, mesmo que essa não esteja ainda incorporada pelo principal indicador mundial de qualidade de vida, criado no âmbito do PNUD - Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento: o Índice de Desenvolvimento Humano. O IDH é composto de três dimensões da vida social:

  • a longevidade, medida pela expectativa de vida ao nascer;

  • os níveis educacionais, medidos pela combinação da taxa de analfabetismo da população de 15 anos e mais, com peso 2/3, e do número médio de anos completos de estudo da população de 25 anos e mais, com peso 1/3;
  • a renda medida pela RFPC - renda familiar per capita média ajustada - expressa em salários mínimos de setembro de 1991.

Não inclui assim quaisquer variáveis ambientais, certamente relevantes para o desenvolvimento humano e das demais espécies, uma vez que longevidade, nível educacional e de rendimento, certamente não serão expressos por indicador ou números confiáveis, sem que sejam refletidos na qualidade do ambiente urbano e natural, não servindo, assim, aos propósitos de medição da amplitude, que se oferece.

Limites já foram sinalizados desde Malthus ao Clube de Roma, e sua tradução por Meadows et al, com visões pessimistas que não se confirmaram, mas continuam mostrando seus sinais. Perspectivas sombrias com a perda da utopia da comunidade mundial, e a hegemonia do imperialismo do norte. Perspectivas alvissareiras com a vitória da esperança sobre o medo.

Este o cenário delineado brevemente compondo o mosaico da sustentabilidade do desenvolvimento, na direção de uma melhor convivência entre nós da espécie Homo sapiens e o meio ambiente que nos cerca.

Sérgio de Mattos Fonseca (aprec@aprec.org.br) é economista, mestre em Ciência Ambiental pela Universidade Federal Fluminense e diretor da Associação de Preservação dos Ecossistemas Costeiros (Aprec) (http://www.aprec.org.br) e professor convidado da Universidade Cândido Mendes e da IBMEC Business School.

 

 

 

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