|

Nós
e o mundo
A
Amazônia não conquistará sua
autodeterminação com barreiras, retórica ou
satélites, mas com o melhor conhecimento sobre si mesma.
Belém -
Numa visão simplista, a culpa pelo fim do período de
maior enriquecimento da Amazônia, entre 1840 e 1910, tem nome,
sobrenome e nacionalidade certas: o inglês Henry Wickham. Bem
na metade do ciclo de expansão da economia gomífera, o
aventureiro britânico teria se infiltrado em terras brasileiras
para contrabandear ("biopiratear", na linguagem de hoje)
sementes da Hevea Brasiliensis, espécie nativa amazônica,
única fonte de borracha para uso industrial até
então. Levadas para o Ceilão, as sementes floresceram
com tal exuberância que, menos de uma década depois de
terem chegado ao mercado mundial, acabariam com o boom da borracha
extraída nos seringais amazônicos, abrindo um rastro de
decadência na região.
Elevado
à condição de lorde do império
britânico pelo rei George V, Sir Wickham é tratado
até hoje pela maioria dos intelectuais da região (e
mesmo do país) como um reles traidor, o bandido
responsável pela débâcle da Amazônia, que
roubou as sementes da seringueira e clandestinamente as fez plantar
nos redutos asiáticos de sua majestade, acabando com o fausto
de Belém e Manaus, cidades que transitaram do século
XIX para o XX equiparáveis às mais afluentes capitais
do mundo.
Não
importa, que há duas décadas esteja acessível
para consulta o livro no qual o americano Warren Dean documenta
história completamente distinta da versão corrente no
Brasil. Com base em documentos oficiais, Dean provou que Wickham
obteve autorização oficial para a remessa das sementes
para a Inglaterra, devidamente declaradas na alfândega e ao
abrigo das normas legais em vigor, não só com o aceite,
mas até mesmo com o estímulo das autoridades. Se
quisesse, o Brasil podia até ter participado das
experiências que, iniciadas no Kew Garden de Londres, se
estenderiam ao Ceilão e à Malásia.
Deitados
eternamente em berço esplêndido, conforme referenda o
hino nacional, talvez julgássemos, que um monopólio
conferido pela natureza, tornando a seringueira endêmica apenas
na Amazônia, não poderia ser quebrado pelo homem. Com o
conhecimento (e a necessidade) à nossa frente, os ingleses
não partilhavam essa convicção. Apostaram na
hipótese contrária. O que se convencionou chamar de
pirataria foi, na verdade, um bem sucedido empreendimento
científico e comercial que, até se consumar, exigiu
quase meio século de engenho, arte e dinheiro. Foi o tempo que
decorreu desde a formação do plantio de Wickham no vale
do rio Tapajós, no Pará, até a Ásia
inundar um explosivo mercado consumidor com quantidade
compatível de borracha natural, a um preço e com uma
qualidade adequadas à escala industrial, naquele momento.
Se fosse
preciso roubar, contrabandear ou piratear as sementes, sem
dúvida a nação líder do nascente mundo
industrial, carente de matéria prima em maior quantidade, mais
barata e de qualidade confiável (condições
não supridas pelo fornecedor monopolista), não
hesitaria em agir dessa forma. Agiu assim em vários outros
países e situações. Mas não foi nem
necessário: os brasileiros, e particularmente os
amazônicos, seduzidos e iludidos pelos jorros constantes de
dinheiro, que recebiam pela venda da borracha, achavam que o boom
seria eterno, ou pelo menos duradouro.
No seu
excelente livro, Dean diz que a natureza, de regra benfazeja com a
Amazônia, foi madrasta perversa no caso da borracha. O excesso
de água e de umidade, e a inexistência de um
período seco mais bem definido, desenvolvem pragas fatais
à seringueira quando sua concentração é
aumentada para que o seringal alcance um tamanho competitivo. Na
Ásia (e em áreas não-amazônicas do
Brasil), esse problema não existe ou não tem a mesma
gravidade. Por mais que as autoridades brasileiras tivessem sido
previdentes, antecipando os movimentos da história e sendo
aplicadas nas medidas de proteção ao cultivo, ainda
assim a Amazônia teria sido derrotada na luta pela borracha.
Para os que,
desprezando fatos e argumentos, optarem pela origem estrangeira (e
ainda por cima, americana) do autor para desqualificar sua obra,
convém lembrar que o Brasil deve a esse magnífico
schollar, além do livro sobre a borracha (já
reconhecido como o trabalho inaugural de uma história
ecológica já dotada de autonomia), o mais profundo e
belo estudo sobre sua mata atlântica. Aliás, é
bom não esquecer, a mata atlântica foi a nossa primeira
Amazônia, tanto pelo seu potencial de realizações
como pelo seu resultado de destruições.
O
"caso" da borracha, o capítulo mais polêmico
da história (real ou presumida) de apropriação
de bens do patrimônio natural da Amazônia, vem a
propósito do mais recente episódio, que chegou à
grande imprensa na semana passada, depois de ter transitado bem antes
pelos circuitos especializados: o patenteamento de plantas e frutas
da Amazônia no estrangeiro por empresas internacionais.
Causou
escândalo a notícia de que, a partir de agora (na
verdade, desde 2001), quem quiser usar comercialmente o título
cupuaçu - e alguns dos seus derivados - na Europa, nos Estados
Unidos ou no Japão vai ter que pagar royalties ou se expor a
ser multado por uma firma japonesa, a Asahi Foods, estabelecida em
Kyoto (cidade que se tornou ainda mais célebre por ter
recentemente abrigado conferência ecológica, que teve
como um dos seus propósitos justamente estabelecer regras de
respeito ao patrimônio genético da humanidade,
especificamente definido conforme sua dispersão
geográfica).
Da forma como
foi anunciado, o fato desabou como uma bomba com megatons semelhantes
aos da pirataria de Wickham, de quase um século e meio
atrás. O problema tem sua gravidade, embora provavelmente
não na dimensão de uma catástrofe
irremediável. Se servir de alerta e retirar do sono
letárgico alguns setores da estrutura governamental,
terá cumprido o seu papel de catarse. Contra o roubo dos
direitos sobre o patrimônio genético ou o conhecimento
nativo é duvidosa (ou completamente inócua) a
eficácia de ferramentas convencionais, como o Sivam (Sistema
de Vigilância da Amazônia) ou todo o aparato
geopolítico e policial. Eles não são
dispensáveis, mas não são suficientes, sequer
são as armas mais importantes.
A principal
é o saber, o domínio dos processos do conhecimento, o
saber fazer (e como) e a informação exata e pronta.
Não é através do isolamento e da pretensa
auto-suficiência que se conquistam tais posições:
é colocando-se no mundo, diante dele (e, quando o caso, contra
ele). Mas não na posição de um encrenqueiro ou
de um presunçoso, mas de alguém confiante na sua
própria força, por sabê-la consistente e
convincente. O saber resulta de processos educativos,
científicos e civilizatórios. Processos que não
podem ser traduzidos por índices quantitativos nem por
bravatas retóricas. Resulta de 99% de
transpiração e 1% de inspiração, como
receitava Picasso para uma área da criação
humana, a artística, onde mais peso costuma ter o dom natural
dos indivíduos, ou sua "vocação", do
que sua transpiração.
Mesmo que
possua satélites, radares, aviões, militares e soldados
rondando seus limites e patrulhando seu interior, a Amazônia
continuará exposta aos interesses e disposições
alheias, se continuar dependendo dos minguados recursos materiais
colocados à disposição dos seus estudantes,
tecnólogos, pesquisadores e cientistas. E se esses minguados
recursos, desprezíveis até pelos anêmicos
parâmetros nacionais, permanecerem subordinados a diretrizes
obtusas, vesgas, exóticas, coloniais.
Não
será com uma nova muralha da China que a região
conquistará sua autodeterminação, a capacidade
de determinar seu destino na interlocução com o mundo,
mas com o melhor conhecimento sobre si mesma. Num momento em que se
tratam de questões amazônicas nas principais
praças mundiais, como um tema de ciência e de
comércio, a sede territorial não pode ter uma
relevância meramente retórica. Ou se condenará a
sustos e sobressaltos como os de Wickham e o do cupuaçu
japonês.
O mais recente
episódio fez o escritor e jornalista Aníbal Beça
lembrar um caso que aconteceu bem do início da Zona Franca de
Manaus: "os nossos caboclos inventivos resolveram contrabandear
relógios dentro das cascas de cupuaçu. Serravam a casca
e retiravam a polpa, e em seu lugar colocavam relógios, de
preferência da marca Seiko. Depois colavam, sem deixar nenhuma
marca. O crime perfeito". Um nosso repórter policial do
jornal onde Beça trabalhava cunhou uma palavra para esse tipo
de crime: o "seikoaçu". Dizia-se então que
muita gente, enriqueceu exportando Seikoaçu, até
descobrirem o golpe. O crime - atesta o escritor - só foi
descoberto por acaso: "um desses contrabandistas deixou cair o
cupuaçu. Aí caiu relógio pra tudo que foi
lado".
Com base nessa
experiência, Beça sugere às entidades e empresas
nacionais, quando forem vender nos mercados europeus, americanos ou
japoneses, "registrarem o nome dos produtos da fruta como
Seikoaçu". A solução seria engenhosa, ainda
que também significasse uma capitulação à
esperteza dos nossos concorrentes estrangeiros. O novo produto teria
ainda que sofrer uma adaptação aos novos tempos: ao
invés de relógios made by Zona Franca dentro de
caroços de cupuaçu, mais atraente do ponto de vista
comercial seria colocar sementes de cobiçadas plantas
amazônicas dentro dos Seikos de hoje.
Lúcio
Flávio Pinto
Fonte: http://www.estadao.com.br/ciencia/colunas/amazonia/htm/2003/jan/14/17.htm
 |
|