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Transversalidade indigesta

Ministra do Meio Ambiente terá muito trabalho com seus colegas, a considerar pelos primeiros planos e posturas revelados.

Campinas - O novo ministro da Ciência e Tecnologia, Roberto Amaral, desenterrou os mal enterrados projetos de bomba atômica, inspirado, ao que parece, no tom desafiador da Coréia do Norte às regras da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). E alheio, também ao que parece, às dificuldades que temos, de encontrar um depósito definitivo para o lixo nuclear produzido no país, seja pelo uso pacífico - em saúde, pesquisa e energia - de mais de 30 elementos radioativos diferentes, seja resultante do acidente radiológico de Goiânia - quem se lembra dele? - que, em 1987, nos rendeu 6 mil tambores e caixas de material contaminado, alguns até considerados fonte, dado o alto nível de radiação.

Vale lembrar, que o urânio enriquecido para a fabricação de bombas produz um lixo muito pior do que o dos usos pacíficos de elementos radioativos, além da pesquisa bélica exigir testes, com alto impacto ambiental onde quer que sejam realizados.

E o ressuscitar da bomba acontece justo num verão de desabamentos em Angra dos Reis, localidade que abriga um depósito de rejeitos das usinas nucleares em meio a uma encosta escarpada. Os deslizamentos de terra não atingiram os depósitos, por sorte, nem as usinas, "só" a população de baixa renda. Mas deveria haver uma perícia capaz de apontar por quanto de mero acaso as tais encostas continuam firmes.

Outro novo ministro, o da Agricultura, Roberto Rodrigues, considera o cultivo de transgênicos "um componente estratégico para o futuro da agricultura brasileira" e defendeu a importação - já - de milho transgênico para resolver a iminente falta de grãos para ração animal. Para ele, os transgênicos são apenas mais um tipo de cultura, não importa se vem contaminando cultivos não transgênicos ou se revelando uma decepção econômica nos Estados Unidos. Também não faz diferença o fato de serem recusados em quase toda a Europa ou diversos outros mercados importadores, para os quais o Brasil ainda pode se voltar, justamente por estar livre dos geneticamente modificados.

Não faz diferença, igualmente, o fato dos transgênicos terem sido rejeitados por países africanos, mesmo como doação nos programas de ajuda humanitária. O ministro parece esquecer, que o problema da fome, no mundo como no Brasil, não é falta de alimento, mas dificuldade de distribuição/acesso aos alimentos já produzidos e dificuldade de redução do famigerado desperdício.

Como se não bastasse, entre seus planos prioritários de governo, o Presidente Lula anunciou a regularização das favelas, com a louvável intenção de distribuir documentos de posse, colocar na legalidade e dar cidadania à imensa população de baixa renda, que se amontoa nos morros e várzeas, das mega à médias cidades. O problema é que a maior parte das favelas está localizada sobre Áreas de Preservação Permanente, as chamadas APPs, que incluem encostas íngremes, nascentes e margens de cursos d´água. Não é coincidência. As APPs são ocupadas porque consideradas terra de ninguém, porque não tem donos que as reivindicam ou por elas cobram, porque são as únicas áreas "livres" em centros urbanos.

Ocorre que elas não existem porque são capricho de ambientalistas, mas porque são áreas de risco - de desabamento ou inundação - ou porque protegem mananciais. Devem ser preservadas livres de ocupação para o bem público. Ao regularizar a precariedade, o Presidente evita conflitos e ganha os corações dos favelados, mas fixa uma população à mercê de desastres naturais e estimula mais ocupações, que multiplicarão os atingidos pelos flagelos das enchentes, deslizamentos e falta d´água.

Só estes três exemplos da primeira semana de novo governo mostram o tamanho do desafio que a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, tem diante de si. Poucos brasileiros são tão credenciados como ela para falar de parcerias em nome do desenvolvimento sustentável e da necessária e urgente transversalidade dos temas ambientais (que quer dizer estender as preocupações ambientais a todos os ministérios e níveis de governo e não concentrar apenas em sua pasta).

Mas que a tarefa promete ser das mais indigestas, ah, isso promete!

Que a ministra tenha estômago para enfrentá-la e não lhe faltem argumentos para converter os colegas de governo!!

Liana John
Fonte: http://www.estadao.com.br/ciencia/colunas/ecos/2003/jan/09/60.htm

 

 

 

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