Desafios do
trabalho em rede
Por
Vivianne Amaral*
1 INTRODUÇÃO
A Rede
Brasileira de Educação Ambiental é hoje uma rede
de redes de educadores. Faz a articulação nacional das
redes estaduais e locais. Todos seus facilitadores participam de
redes locais ou de núcleos de formação de novas
redes. A configuração atual é uma
evolução natural no processo de
organização de redes na comunidade de educadores
ambientais. Trabalha com difusão de informação
para educadores ambientais, por meio de site e lista de
discussão e na sustentação da malha de contatos
entre rede e educadores ambientais do Brasil inteiro. Tem como
objetivos centrais a difusão da cultura organizacional em
padrão de rede e o apoio ao desenvolvimento da
Educação Ambiental. Nasceu da necessidade de
compartilhar conhecimentos e informações e de
articular, ao nível nacional, as pessoas e
instituições que atuam na área de
Educação Ambiental.
Os dez anos de
história da REBEA são dez anos de teste da força
mobilizadora de uma idéia: a de que é possível
vivenciar outras formas de organização e de
relações de poder que não contradigam, em sua
natureza e prática, as propostas democráticas,
emancipadoras da Educação Ambiental. Muito da energia
ainda tem sido empregada para vencer a cultura tradicional a que
estamos acostumados e que vivemos nas nossas
instituições. Nesse sentido, a experiência de
implementar a cultura organizacional de rede revela-se uma
experiência política transformadora. É claro que
a rede simbiótica, ideal, na qual todos colaboram de foram
permanente, não existe, é ilusória. O que
há é um esforço individual e coletivo para
superação da cultura autoritária, um aprendizado
permanente querendo construir novas relações humanas.
Trabalhar em
rede traz grandes desafios pessoais e profissionais, pois a
evolução no domínio das técnicas de
comunicação, o uso habilidoso e criativo das
ferramentas tecnológicas, a revolução cultural,
a internalização dos fundamentos, não podem ser
processos apenas individuais, têm que ser coletivos, pois
não se faz uma rede sozinho. Se há um espaço em
que não se cresce sozinho é o das redes. E compartilhar
é a estratégia do crescimento conjunto.
A necessidade
de compartilhar está na gênese da formação
das redes, tanto na natureza quanto na sociedade. Gyorgy Doczi
(1990), em O poder dos Limites: harmonia e proporções
na natureza, arte e arquitetura, demonstra que o compartilhar,
"como um processo básico da formação de
padrões, molda relações harmoniosas na vida
humana e animal, da mesma forma que o faz na anatomia, na
música e nas outras artes. ... Realmente existe um mana do
compartilhar na Natureza. Isso não é mágica:
é o mana do compartilhar que é a própria
natureza da Natureza".Existe uma anatomia propícia ao
compartilhar: é a estrutura em rede.
De uma forma
bem direta e simples, Castells define rede como "um conjunto de
nós interconectados. Nó é o ponto no qual uma
curva se entrecorta." A arquitetura das relações
em redes e sua emergência na sociedade contemporânea
configuram o fazer das vanguardas atuais, no campo da economia, da
pesquisa e do conhecimento, dos movimentos sociais e da
política. Presente na natureza em todos os tamanhos e com
configurações variadas, a morfologia da rede só
se tornou visível, óbvia como padrão
organizacional, com a evolução social e intelectual
rumo à percepção da complexidade e com
desenvolvimento das tecnologias da informação.
Configurando estruturas abertas, não-circulares, com
expansão ilimitada, as redes representam hoje importantes
instrumentos de organização, articulação
e mobilização social.
Os maiores
desafios são apresentados no campo político das
relações internas. A estrutura horizontal em rede rompe
com as relações tradicionais, piramidais, de poder e de
representação, possibilitando vivenciar nas
relações sociais e políticas as idéias e
princípios emancipatórios, de empoderamento de pessoas
e organizações. Organizar-se em rede resgata a
radicalidade de propostas libertárias e a fé no ser
humano como um ser de fraternidade e liberdade. Na rede, o poder que
tradicionalmente é vivido como poder sobre os outros ou sobre
as estruturas surge como potência para realizar coletivamente.
No movimento
ecológico observamos a evolução em
direção à complexidade quando acompanhamos sua
articulação, num primeiro momento, em assembléias
estaduais permanentes de entidades ecologistas (apenas ecologistas
não governamentais participavam), depois os fóruns,
reunindo ecologistas e movimentos sociais diversos e, atualmente, as
redes, possibilitando a convivência de pessoas físicas e
jurídicas, entidades governamentais e
não-governamentais, universidades, movimentos sociais, grupos
organizados. As duas primeiras instâncias são estruturas
piramidais com base estendida, ainda marcadas pelas
relações tradicionais de poder e pela
competição1, enquanto que nas redes ensaia-se uma nova
experiência de convívio político, gerada pela
horizontalidade, pela descentralização, pela
desconcentração do poder e pelo aspecto não
representativo. O que não implica em não haver
conflitos e disputas, mas a forma de resolução destes
investe na desconcentração e na horizontalidade.
A
proliferação de redes caracteriza a
movimentação atual das organizações no
espaço público. Percebe-se a evolução em
direção à complexidade nas abordagens e
propostas com opção de estruturas organizacionais que
permitam a diversidade, o compartilhamento de objetivos comuns,
mantendo-se as diferenças de identidade. A
organização em rede permite esta liberdade.
Ao mesmo tempo
e até por isso, a redes questionam frontalmente as
relações interpessoais e interinstitucionais de poder.
Participar verdadeiramente de uma rede implica em aceitar o desafio
de rever as formas autoritárias de comportamento as quais
estamos acostumados e que reproduzimos (como dominadores e como
subordinados) apesar dos discursos e intenções
democratizantes. Numa rede tem poder quem tem iniciativa. Assim, a
localização do poder muda constantemente e não
se concentra num só lugar. Esse fenômeno causa um certo
atordoamento, já que estamos acostumados a obedecer ou mandar,
a partir de funções fixas, determinadas
hierarquicamente.
Não
estamos acostumados a decidir e compartilhar. Não temos o
hábito de conviver com diversos focos de poder atuando
simultaneamente e de forma independente, compartilhando objetivos
comuns, numa só estrutura. Sempre queremos ter o conforto de
uma instância central que tome as iniciativas, decida e assuma
as responsabilidades. Nas redes, temos que ir além da
prática da consulta democrática e precisamos de
vários focos de iniciativas, de multi-lideranças.
Autonomia e insubordinação são conceitos chaves.
Nesse sentido, participar de uma rede, com radicalidade, assumindo
seus fundamentos, representa uma revolução
política individual, uma nova forma de organizar e vivenciar
espaços de poder.
A
matéria prima das redes é a vontade das pessoas, sua
disponibilidade em vivenciar essas novas situações. Um
imaginário convocante, sedutor, que inclua os sonhos,
objetivos e necessidades é fundamental, pois é ele que
dá a direção comum. O alimento da malha da rede
é a circulação da informação que
apóie a realização dos objetivos compartilhados.
Mas apenas as
boas intenções não bastam para movimentar e dar
sustentabilidade às redes. Nem para sairmos da estrutura
piramidal com base estendida.É necessário que pessoas
sejam preparadas, formadas para as tarefas de
sustentação, para manter a malha íntegra, o
fluxo contínuo. Sejam chamados de facilitadores, animadores,
cabeças de rede ou re-editores, essas pessoas necessitam do
desenvolvimento de competências, do domínio de
instrumentos e técnicas de comunicação e
mobilização, da internalização dos
fundamentos da nova cultura organizacional.
Procurando um
perfil para identificar o que seria um facilitador (quais as
características dessa pessoa? Quais as habilidades, quais as
competências para essa nova liderança?) encontrei em
Bernardo Toro, filósofo e educador colombiano, o conceito que
considero o mais aproximado da função do facilitador.
Segundo Toro essa pessoa, tem, "por seu papel social,
ocupação ou trabalho, a capacidade de re-adequar as
mensagens, segundo circunstâncias e propósitos, com
credibilidade e legitimidade, é uma pessoa que tem
público próprio, que é reconhecido socialmente,
que tem a capacidade de negar, transformar, introduzir e criar
sentidos frente a seu público, contribuindo para modificar
suas formas de pensar, sentir e atuar." Toro considera que o re-editor
é diferente dos chamados multiplicadores, pois ele não
reproduz os conteúdos que recebe, mas os interpreta e amplia,
adequando-os ao seu público. Considera-o também
diferente do militante tradicional porque enquanto o campo de
atuação deste é o mundo, o campo do re-editor
é o cotidiano. Segundo ele, o re-editor acredita no
convencimento de cada um, o militante na conversão, na adesão.
A
formação de facilitadores, capazes de
constituírem nós das redes, dando sustentabilidade ao
tecido que constitui a sua totalidade orgânica, é um
desafio urgente. Só assim poderemos realizar a
desconcentração do poder, a
insubordinação, a multi-liderança, a
conectividade e o fluxo permanente de informação, a
participação e a cooperação, aspectos
fundamentais das estruturas em rede.
As redes
não substituem as organizações piramidais e
não são alternativas viáveis para todos os tipos
de organizações e objetivos. É impensável
um igreja ou um exército com a organização
horizontal. No entanto, as redes são estruturas adequadas a
todos os objetivos de empoderamento e emancipação da
sociedade, o que explica o interesse que têm para os educadores
ambientais, comprometidos com a consolidação de
cidadania local e planetária.
Bibliografia:
CASTELLS,
Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 2000, p 498.
DOCZI, Gyorgy.
O poder dos limites: harmonias e proporções na
natureza, arte e arquitetura. São Paulo: Mercuryo.1990, p77.
FACHINELLI
,Ana Cristina, MARCON Christian e MOINET, Nicolas. A prática
da gestão de redes: uma necessidade estratégica da
Sociedade da Informação. Rede Brasil de
Comunicação Cidadã [on-line] Disponível
na Internet - http://www.rbc.org.br
MARTINHO,
Cássio. Redes e desenvolvimento local. Rede Brasil de
Comunicação Cidadã [on-line] Disponível
na Internet http://www.rbc.org.br
TORO, Jose
Bernardo e Duarte, Nísia Maria. Mobilização
Social: um modo de construir a democracia e a
participação. (xerox)
1
Com um controle central de onde emanam as ordens, com poder de
representação externa. As disputas internas são
freqüentes e a forma de resolução dos conflitos na
disputa pelo poder central é de exclusão dos diferentes.
Vivianne
Amaral é, facilitadora e secretaria executiva da Rede
Brasileira de Educação Ambiental (REBEA), gerente do
projeto Tecendo Cidadania/FNMA (rebea@uol.com.br)
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