Notícias


Família de clones desestruturaria sociedade, diz cientista

A clonagem reprodutiva será uma realidade dentro de poucos anos e a sociedade deve estar preparada para as novas relações familiares e morais que surgirão a reboque da disseminação da técnica. A tese é do cientista inglês Robin Baker, PhD em evolução do comportamento humano e professor da Universidade de Manchester, autor de “Sexo no futuro” (Ed. Record), que acaba de ser lançado no Brasil.

Numa família clonada do futuro, uma criança poderá ter até quatro mães e dois pais, sustenta Baker, e o incesto poderá deixar de ser tabu. Embora muitos países estejam apressando a votação de leis para proibir a clonagem de pessoas e a comunidade científica condene o uso da técnica com fins reprodutivos, alguns cientistas já admitem estar tentando pôr em prática a tecnologia. No mês passado, o médico italiano Severino Antinori anunciou que uma de suas pacientes estaria grávida de um clone e disse ainda ter conhecimento de outras três gestações de clones. O andrologista cipriota Panos Zavos, ex-parceiro de Antinori, prometeu o nascimento de um bebê clonado para o fim deste ano. Especialistas dizem que não se está levando em conta o impacto social desses nascimentos.

“Tenho certeza de que outras empresas de biotecnologia estão tentando clonar um ser humano”, afirmou Baker, em entrevista ao jornal O Globo.

Para ilustrar as conseqüências da clonagem em um futuro próximo, ele cita como exemplo um casal que decide ter dois filhos: um menino, clone do pai, e uma menina, clone da mãe. Na verdade, os pais biológicos dessas crianças são seus avós. A equação pode se complicar ainda mais se a mãe legal não puder engravidar. Haverá então três mães: a biológica, a legal e a que empresta o útero para a gravidez. Poderiam ser até quatro, se a mãe legal não ovular e recorrer a uma doadora. Os clones poderiam também ter até dois pais: o biológico e o legal.

Por outro lado, também poderíamos considerar que a menina é irmã gêmea de sua mãe legal e o menino, de seu pai. E como seria a árvore genealógica de supostos filhos clonados desses clones? Em pouco mais de três gerações de clones, já seria muito difícil estabelecer os parentescos. Computadores poderiam ser necessários para organizar as mais simples árvores genealógicas.

“Freud deve estar se remexendo em seu túmulo”, afirmou o presidente da Sociedade Brasileira de Bioética, Volnei Garrafa. “Se com apenas um pai e uma mãe ele já tinha ilustrado tantas de suas teorias, imagine com seis.”

Brincadeiras a parte, Garrafa acredita que o ser humano ainda não está preparado para os novos parentescos. Para ele, a relação familiar terá que ser reconstruída, a partir de discussões morais.

“Essas situações não estão ainda nem suficientemente discutidas, nem assimiladas moralmente pelas sociedades, por mais avançadas e abertas que sejam”, analisou o bioeticista, que é contra a clonagem reprodutiva no atual estágio de desenvolvimento da técnica. “Mas a moralidade avança; o que era inaceitável há 50 anos hoje é aceito. Com a clonagem acontecerá o mesmo. A moralidade da clonagem reprodutiva terá que ser construída lentamente daqui para o futuro. É bom lembrar que a moralidade tem seus limites e que as leis existem para evitar abusos.”

O cientista britânico também acha que ajustes psicológicos serão necessários, mas não vê grandes problemas na aceitação dos parentescos. “Talvez, quando celebrarem seus aniversários, as crianças clonadas do futuro, longe de lamentarem seu destino, sentirão pena de suas contrapartes do século XX que recebiam presentes de apenas dois pais enquanto elas terão seis”, compara.

“A sociedade nunca está preparada para algo novo, mas rapidamente se adapta quando as coisas acontecem. As pessoas vão cooperar”, defendeu Baker. “A situação das diversas mães é nova, mas as crianças freqüentemente são criadas por um consórcio de mães, que inclui a mãe biológica, avós, tias e, se for cristã, uma ou duas madrinhas.”

Roberta Jansen, do jornal O Globo

 

 

:: Biodireito e Bioética

:: Artigos

:: Notícias

:: Entrevistas

:: Links

:: Fale Conosco


©2001 ANBio - Associação Nacional de Biossegurança.
All rights reserved.