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Proposta de utilização de texto sobre a clonagem em sala de aula

Esse texto foi divulgado no Jornal da Ciência e-mail. Vale a pena aproveitá-lo na íntegra ou selecionar trechos para trabalhar em sala de aula. Você pode desenvolver debates sobre a clonagem, utilizando também notícias sobre a morte recente da Dolly (fevereiro de 2003). Repare que Elói Garcia confronta os dois tipos de clonagem, o que torna o tema ainda mais polêmico. Sugerimos que evite dinâmicas do tipo "advogado do diabo", pois estas podem se tornar artificiais. Deixe que os alunos se coloquem e exponham livremente suas opiniões. Naturalmente, vai haver pessoas contra e a favor, assim como existirão aqueles que mudarão de idéia durante as exposições.

A partir da sétima série, você pode propor a leitura do livro "Admirável mundo novo" de Aldous Huxley, publicado em 2001 pela Editora Globo em edição de bolso. É uma leitura interessante e muito atual, apesar de o livro ter sido escrito na década de 40. Quem sabe dá para fazer uma parceria com o professor de língua portuguesa e/ou inglesa?

JC e-mail 2024, de 02 de Maio de 2002.
Vem aí o clone humano, artigo de Eloi S. Garcia

A comunidade científica internacional está sendo informada, com reserva e ceticismo, de que Severino Antinori, médico italiano especialista em fertilidade, pode ter clonado um ser humano, que estaria sendo gerado por oito semanas no útero de uma mulher. O que significa essa notícia?

Eloi S. Garcia é ex-presidente da Fundação Oswaldo Cruz. Artigo publicado em 'O Globo':

O clone humano é a produção de seres humanos geneticamente idênticos. A clonagem, geralmente envolvendo a transferência nuclear, é conceitualmente um processo simples. O material nuclear é removido de um óvulo, e o núcleo de uma célula somática (que possui DNA de dupla fita) é inserido no óvulo anucleado através de uma microinjeção ou eletrofusão. O ovo reconstituído pode se dividir em blastócitos - células obtidas após 5 a 7 dias do desenvolvimento do embrião, ou seja, após 50/200 divisões iniciais; implantado em útero humano, poderá desenvolver-se em um embrião geneticamente idêntico à pessoa doadora do núcleo celular. Se não for implantado, poderá ser uma excelente fonte de células-tronco.

Têm sido considerados dois tipos de clonagem humana: a reprodutiva e a terapêutica. A clonagem reprodutiva produz um ser geneticamente idêntico ao um indivíduo. Esse tipo de clonagem tem sido sugerido como recurso para casais inférteis que são incapazes de conceber uma criança por um outro método de reprodução assistida.

A clonagem terapêutica visa à obtenção de células-tronco embrionárias que são geneticamente idênticas ao paciente. Essas células poderão ser diferenciadas em células que sejam necessárias no tratamento de várias doenças degenerativas - cardíaca, nervosa, óssea, diabetes, Parkinson, Alzheimer, lesão medular ou queimadura grave que o paciente possua.

A clonagem reprodutiva, realizada com sucesso em ovelhas, carneiros, bovinos, camundongos, suínos, macacos e coelhos, poderá ser usada em outros mamíferos, incluindo o ser humano. A maioria dos cientistas é contrária a isso, alegando os problemas observados no desenvolvimento, morfologia e fisiologia dos animais clonados.

A principal dificuldade é a baixa eficiência com que o ovo reconstituído se desenvolve completamente em um embrião normal. Um animal clonado nascido com sucesso é equivalente a mais de 100 óvulos anucleados reconstituídos, i.e., o processo possui aproximadamente 0,5% de eficiência. Se a clonagem humana tiver essa mesma eficiência, um grande número de óvulos seria necessário para a geração de uma criança. Uma outra dificuldade será a doação de óvulos pelas mulheres para serem clonados.

O outro argumento contrário à clonagem reprodutiva é a alta freqüência de anomalias e sérios defeitos que têm sido observados no desenvolvimento dos pouquíssimos animais clonados nascidos com vida. Cerca de 1/3 dos mamíferos clonados apresentaram um tamanho exagerado ao nascer, tiveram órgãos internos desproporcionais, problemas respiratórios e circulatórios, além de envelhecimento precoce, como descrito na ovelha Dolly, o primeiro animal clonado. Outro terço dos animais nascidos tem somente alguns dias de vida.

Os blastócitos clonados podem ser cultivados e imortalizados no laboratório como células-tronco. Por serem as células geneticamente idênticas, elas não desenvolvem resposta de rejeição imune - como o tecido transplantado normalmente faz - se utilizadas pelo indivíduo doador do núcleo. A objeção a esse tipo de pesquisa vem do fato de que um embrião humano de seis dias será destruído para obtenção de células-tronco. Os oponentes a esta linha de investigação sugerem o uso de outras alternativas para obtenção de células-tronco, como as obtidas de embriões descartados nas clínicas de reprodução assistida e células extraídas de pessoas adultas, por exemplo.

No primeiro caso, as células-tronco não seriam geneticamente idênticas às do paciente, e seria necessário o uso de drogas imunossupressoras para evitar a rejeição. Esses medicamentos são caros, inconvenientes e provocam vários efeitos colaterais. No segundo caso, as células-tronco obtidas de tecidos adultos do paciente são de difícil isolamento, possuem um potencial de proliferação restrito e a transformação em outros tecidos é limitada. As células-tronco obtidas de indivíduos adultos têm ação infinitamente menor se comparadas às células embrionárias.

A comunidade científica está alarmada. O debate relacionado à clonagem reprodutiva humana se refere ao direito da criança clonada de não ser exposta a um risco excessivamente alto de anormalidades físicas. Mesmo se diminuísse esse risco, na sociedade continuaria a oposição de religiosos e éticos a esse tipo de tecnologia.

A discussão sobre a clonagem terapêutica envolve a relação entre os benefícios ao paciente e o custo ético de destruir um embrião. Muitos consideram que um embrião de seis dias, mesmo sem ter um sistema nervoso rudimentar, é um indivíduo que deve ter seus direitos humanos fundamentais respeitados, sendo sua destruição equivalente a um assassinato. A rejeição à clonagem humana vem de princípios morais e religiosos enraizados em nosso sistema social. Serão necessárias pesquisas que estabeleçam maior segurança para as mães e as crianças clonadas, bem como esclarecimentos à sociedade das vantagens da clonagem.

Mas uma pergunta fica no ar: qual o valor relativo da vida de uma pessoa adulta, ou mesmo de uma criança, que necessita de células-tronco para tratar de uma doença ou lesão, e o de um embrião de seis dias, que é um pouco mais do que uma massa de células, que pode salvar ou dar uma melhor qualidade de vida a um ser humano já formado?

 

 

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