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Clonagem terapêutica Cientistas enfrentam desafio de criar células – para curar doenças ou gerar bebês
Martha San Juan França

Quando se fala em clonagem, imediatamente vem à mente a criação de bebezinhos exatamente iguais ao modelo adulto de uma pessoa. Quer dizer, essa é a imagem lembrada pela população que não está particularmente ligada na experiência e só tomou conhecimento do assunto por meio das notícias de jornais ou pela novela da TV. Mas os especialistas em biologia molecular associam clonagem a algo bem diferente: à cura de doenças. Não parecem muito interessados em fabricar bebês em série, e muitos dizem categoricamente que não aprovam essa idéia de "brincar de Deus".

O objetivo desses cientistas é fabricar células-tronco, ou células-curinga, reorientadas para produzir um conjunto de células especializadas ou de tecido. Imagine-se, por exemplo, uma pessoa com leucemia que necessita de um transplante de medula. Ela seria doadora de si mesma, sem incorrer no risco de uma rejeição. Só precisaria de células retiradas de seu clone de embrião, com o qual compartilharia a constituição genética. Pensa-se até em fabricar órgãos para transplante. E já se fala em bancos de células-tronco para serem usadas quando necessário.

Clonagem terapêutica

Cristopher Reeve quer ser beneficiado pelas pesquisas com a manipulação de células

Do outro lado dessa linha de pesquisa, encontram-se médicos como o italiano Severino Antinori, de 55 anos, famoso por ter possibilitado a existência das chamadas mães-avós (mulheres que conseguiram ter filhos depois da menopausa por meio da fertilização in vitro). Com seu sócio, o grego radicado nos Estados Unidos, Panos Zavos, Antinori promete clonar bebês. E anuncia, com intenção evidente de fazer marketing de si mesmo, que o primeiro bebê clonado nascerá "provavelmente" em novembro. Apesar de haver muitas dúvidas sobre se Antinori teria a capacidade de fazer o que promete, suas afirmações servem pelo menos para acirrar a discussão sobre a ética da clonagem – principalmente da clonagem reprodutiva. A tentativa de fabricar bebês implica, nessa fase, sacrificar embriões humanos. No caso da ovelha Dolly, por exemplo, foram feitas 277 tentativas, antes de se conseguir um animal saudável. Além disso, como Antinori planeja implantar os embriões em mulheres, estas também correm riscos em potencial, associados a várias complicações. Não seria tudo isso um crime?No cerne de toda essa discussão sobre a clonagem, lembra o presidente da Sociedade Brasileira de Bioética, Volnei Garrafa, está uma questão delicada. Embrião é pessoa? Se é, como acreditam os cristãos, principalmente os católicos, quem dá aos cientistas o direito de "assassiná-lo"? E se não for pessoa, é permitido manipular a vida dessa forma?

As questões são pertinentes e não podem ser deixadas para segundo plano. Mas também é preciso levar em consideração, no caso da clonagem terapêutica, que seria imperdoável proibir os avanços que ela promete. Não é sem motivo que aqueles que mais defendem a técnica sejam justamente os doentes esperançosos de um dia usufruir de seus benefícios. É o caso do ator Cristopher Reeve, sempre lembrado por sua atuação como Super-homem. Tetraplégico desde que sofreu uma queda de cavalo há sete anos, Reeve empenha esforços para obter fundos e aprovação para a realização desse tipo de pesquisa.

"As células-tronco têm o potencial para curar de mal de Parkinson e esclerose múltipla, a diabetes e doenças cardíacas, passando pelo Alzheimer, e fraturas na medula espinhal, como as que eu tenho", afirmou Reeve, que não perde a oportunidade de falar a favor das pesquisas, em artigo publicado na revista Time. Recentemente, a empresa norte-americana Advanced Cell Technology provocou polêmica em todo o mundo ao anunciar, um tanto precipitadamente, que havia conseguido obter embriões humanos por meio de clonagem – o primeiro passo para a obtenção das tais células-tronco. Voltar a andar

A experiência da Advanced Cell, que aponta para os novos rumos da pesquisa, só foi possível porque contou com o DNA do médico Judson Somerville, de 40 anos, paraplégico desde 1991. Somerville sonha em voltar a andar com os tecidos que seriam produzidos a partir das células-tronco obtidas dos embriões clonados. Defende a empresa, acusada de transformar uma experiência de sucesso relativo em evento de marketing. Certamente, a desconfiança sobre as intenções dos cientistas não ajuda as pesquisas.

Não é possível colocar as experiências da empresa norte-americana, conhecida internacionalmente por seus estudos de clonagem, no mesmo patamar das tentativas de Antinori e de outros que almejam algo semelhante. Mesmo que o presidente George W. Bush tenha condenado qualquer tipo de experimento de clonagem, sem estabelecer diferenças. Em entrevista recente, o geneticista brasileiro Sérgio Danilo Pena, pioneiro no estudo do genoma humano no país, afirma que não vê muita utilidade na clonagem de bebês. Em todo caso, ele diz que não vê nenhuma objeção à técnica, desde que seja segura e não tenha uma indicação leviana. O que, por enquanto, não parece estar acontecendo.

A maioria dos cientistas, entre eles, o próprio Sérgio Pena, acredita que o aglomerado de células resultante da clonagem para fins terapêuticos não é uma forma de vida. Cientistas que fazem experimentações com células-tronco embrionárias costumam utilizar embriões descartados pelas clínicas de fertilização in vitro. E comparam esse procedimento à retirada de órgãos de pessoas mortas para salvar vidas em transplantes.

Fonte: Revista Galileu, 05.Mar.2002

 

 

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