Biotecnologia: O mundo, o Brasil e o Governo do Paraná.

O Governador do Estado do Paraná espalhou pelos municípios paranaenses vários outdoors com o seguinte slogan: “Se Paranaguá tivesse exportado soja transgenica, o Brasil teria pago US$ 60.000.000 em royalties (taxa de tecnologia) para a Monsanto em 2003” - “Mais lucro para o agricultor”.

A açao do Governado do Estado, quando analisada de forma simplista, pode até parecer interessante, pois simplesmente afirma que o que deixou de ser pago em taxa de tecnologia foi revertido em lucro para o agricultor. Todavia, quando o tema é estudado com maior atençao e conhecimento, verifica-se que o Governo do Estado gastou muito para informar mal os cidadaos.

Matéria publicada pela Folha de Londrina e reproduzida no site http://www.aviculturaindustrial.com.br no dia 12/03/2004, informou que pela primeira vez em muitos anos a soja brasileira exportada pelo Porto de Paranaguá perdeu liquidez. Segundo a matéria, a soja exportada por Paranaguá no dia 11/03/2004 estava cotada a US$ 305 a tonelada, enquanto a soja norte-americana escoada pelo golfo do México estava cotada a US$ 356 a tonelada, uma diferença de US$ 51 por tonelada que os produtores que utilizavam Paranaguá para escoamento da safra estavam perdendo. De acordo com Flávio França Júnior, analista da Safras e Mercados, esse diferencial deveria ser de US$ 15 a US$ 20 por tonelada. Conforme foi noticiado, vários fatores influenciaram o comportamento do mercado internacional, entre eles a polemica sobre o impedimento da exportaçao da soja geneticamente modificada, que contribuiu para o encarecimento do custo geral dos embarques, fator que é decisivo para a perda de liquidez do produto.

Outro documento que mostra a falta de conhecimento do Governo do Paraná, é o Estudo Técnico da Assessoria do Partido dos Trabalhadores – de 06 de novembro de 2003. Esse estudo foi elaborado durante uma viagem técnica de caráter exploratório, para verificar a situaçao da soja geneticamente modificada no Rio Grande do Sul. Essa viagem técnica, da qual participei acompanhando o Deputado Darcísio Perondi (PMDB/RS), foi coordenada pelo deputado Paulo Pimenta (PT/RS). O relatório da viagem foi produzido pela assessora para área de política agrícola e agrária da Bancada do Partido dos Trabalhadores na Câmara dos Deputados, DrS Maria Thereza Pedroso. Nessa viagem, cujo objetivo era estabelecer o diálogo com os agricultores e compreender as motivaçoes que os levaram a adotar a soja transgenica, várias reunioes foram realizadas.

Consta do relatório, que os produtores estao, cada vez mais, optando por essa soja transgenica, principalmente por razoes econômicas. Pois seu custo de produçao é inferior ao da soja convencional. Por utilizarem apenas um herbicida, há uma grande reduçao do gasto com este agrotóxico e, conseqüentemente, no custo da produçao (os agricultores alegam obter uma economia de aproximadamente R$ 200,00/hectare – a Fundacep-RS afirma que a economia seria de R$ 202,00). Também relatam, os agricultores, importantes aspectos positivos em termos econômicos, ambientais e sociais, que estao devidamente relacionados no Estudo Técnico.

Considerando a perda de liquidez da soja no porto de Paranaguá e a reduçao de R$ 200,00 por hectare no custo de produçao da soja geneticamente modificada. Verifica-se que o impedimento para a exportaçao de soja transgenica pelo Porto de Paranaguá teve um custo, e esse custo o Governo do Paraná nao apresentou r populaçao. Só para ilustrar o texto e estimular o exercício matemático do leitor, cabe informar que a área de soja plantada no Paraná na safra 2003/2004, segundo o IBGE, foi de 3.931.010 ha, o preço da taxa de tecnologia é de R$25,50 por ha e a reduçao no custo é de R$ 200,00 por ha.

Contrariando a história, o Governador do Paraná aposta que ao deixar de fazer uso da biotecnologia oriunda da engenharia genética, os agricultores do Paraná e do Brasil, pelo simples fato de nao pagar a taxa de tecnologia, terao mais lucro.

Posiçao totalmente diferente é aquela adotada pela Organizaçao Mundial para a Agricultura e Alimentaçao – FAO, que vem desenvolvendo, baseado no potencial das ciencias da vida e das biotecnologias, o conceito de uma nova Revoluçao Verde, onde os princípios de respeito ao meio ambiente, de eqüidade e de democracia sao efetivamente observados e cumpridos. Como observa o professor Michel Petit, antigo diretor do Banco Mundial - em matéria publicada na Revista de la Investigación Europea ns 37, ediçao de maio de 2003 -, esse novo conceito está mais adaptado rs necessidades da maioria da populaçao do Hemisfério Sul, busca melhores tecnologias, melhor agronomia e melhores sementes. Para isso, as biotecnologias, que nao se resumem r questao dos vegetais geneticamente modificados, oferecem oportunidades formidáveis. Segundo Petit, “privar os países em desenvolvimento da biotecnologia seria infringir-lhes uma injustiça flagrante”.

Diferente também é o entendimento do senador Alvaro Dias, ex-governador do Estado do Paraná, que em pronunciamento feito no Senado Federal no dia 12/04/2004 alertou para a importância da biotecnologia como elemento de competitividade do agronegócio (agricultura, pecuária e agroindústria). Evidente, portanto, a divergencia da visao administrativa das lideranças políticas do Estado do Paraná.

Reginaldo Minaré
Advogado e Consultor
Minaré Braúna Advogados Associados – Brasília/DF
rminare@uol.com.br

 


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